AUTOMÓVEIS
BANCOS
CELEBRIDADES
CHAT
COLUNISTAS
COMUNIDADES
CRIANÇAS
CULINÁRIA
ENTRETENIMENTO
EDUCAÇÃO
ESPORTES
ECONOMIA
HORÓSCOPO
GAMES
INTERNET
MÚSICA
MULHERES
NOTÍCIAS
POSTAIS
SAÚDE
SERVIÇOS
SEXUALIDADE
SHOPPING
TEENS
TEMPO
TRÂNSITO
VIAGEM
  BUSCA
digite a palavra
 

  MAIL
nome:

senha

   

Sermão da Quinta Dominga da Quaresma3
Padre António Vieira

 


§ VI

A consolação e a desafronta da mentira. Bem-aventurados vós, quando os homens disserem todo o mal
de vós, mentindo. A razão por que Cristo, quando o diabo o nomeou por Filho de Deus, lhe mandou
que calasse. O engano e a falsa suposição em que estão os que não tem prática interior da terra. A
confissão dos falsos testemunhos.

Tenho acabado de provar a matéria que propus. Mas parece-me que estais dizendo - como disse no
princípio - que tenho dito muitas afrontas à vossa terra. Porém eu digo - como também prometi - que
antes a tenho desafrontado. E senão, pergunto: Qual vos está melhor: que seja verdade o que se diz, ou
que sejam mentiras? Não há dúvida que vos está melhor que sejam mentiras. Pois isto é o que eu tenho
dito. Se fora verdade o que se diz, era grande afronta vossa; mas, como tenho mostrado que tudo são
mentiras, ficais todos muito honrados.Hoje vos restituí vossa honra, porque provei que mentem todos os
que dizem mal de vós. Vós bem sabeis melhor que eu que tudo são mentiras; mas eu tomei por minha
conta este manifesto por amor dos forasteiros que me ouvem, que não são práticos nos costumes da
terra. Dos apóstolos de Cristo se diziam e se haviam de dizer muitos males, porque é uso do mundo dizer
mal dos bons. E o Senhor, para os desafrontar e animar disse-lhes esta divina sentença: Beati eritis cum
maledixerint vobis homines, et dixerint omne malum adversum vos mentientes (Mt 5, 11):
Bem-aventurados vós, quando os homens disserem todo o mal de vós mentientes: mentindo. Nesta
palavra está a consolação e a desafronta. Se os homens dizem mal, falando verdade, é grande desgraça;
mas se eles dizem mal mentientes: mentindo, não importa nada. Por isso disse, e quero que saibam todos,
que o que nesta terra se diz são mentiras. O mentiroso conhecido há de se entender às avessas; e
entendido às avessas, nem afronta, nem mente, porque diz verdade. E assim haveis de entender tudo o
que ouvis. Guarde-vos Deus de que o mentiroso diga bem de vós, porque é sinal que sois o contrário do
que ele diz. Essa foi a razão porque Cristo, quando o diabo o nomeou por Filho de Deus, lhe mandou que
calasse, porque, como o diabo é pai da mentira, em dizer que era Filho de Deus dizia que o não era. E
esse foi também o modo geral com que o mesmo Senhor hoje se desafrontou de todas as injúrias que os
escribas e fariseus lhe tinham dito, qualificando-os por mentirosos: Ero similis vobis, mendax. ( 28 )

É verdade que os forasteiros a quem eu prego esta doutrina fazem um terrível argumento contra a nossa
terra. Chegam a este porto, põem os pés em terra, e, ouvindo dizer mal de todos e de tudo, fazem este
discurso: Ou estes homens mentem, ou falam a verdade; se falam verdade, esta é a mais má terra de todo
o mundo, pois, nela se cometem tantas maldades; e se mentem também a terra é muito má, pois os
homens tem tão pouca consciência, que levantam tantos falsos testemunhos. - Este é o argumento que
parece não tem fácil solução. Mas eu respondo a uma e outra parte dele. Quanto à primeira, digo que as
maldades que se dizem são falsas, e que, como falsas, não se devem crer. São falsas? - insta a outra parte
- logo onde os homens levantam tantos falsos testemunhos, não pode ser senão a pior terra do mundo.
Eis aí o engano e a falsa suposição em que estão os que não têm prática interior da terra. No Maranhão é
verdade que há muitas mentiras, mas mentirosos, isso não; muito falso testemunho, sim, mas quem
levante falso testemunho, por nenhum caso. Pois, como pode isto ser? Como pode ser que haja falsos
testemunhos, sem haver quem os levante? Eu vo-lo direi. Nas outras terras os homens levantam os falsos
testemunhos; nesta terra os falsos testemunhos levantam-se a si mesmos. Se vos parece dificultosa a
proposição, vamos à prova. Confessa-se um homem, e, chegando ao quinto mandamento, diz: Padre,
acuso-me que eu desejei a morte a um homem, e o busquei para o matar, e propus de lhe fazer todo o
mal que pudesse. - E por quê? - Porque me tirou a minha honra com um falso testemunho de que eu
estava tão inocente como S. Francisco. - Irmão, perdoai-lhe, para que Deus vos perdoe. - Passamos
adiante, chegamos ao oitavo mandamento: - Levantastes algum falso testemunho? - Não, Padre, pecado é
de que nunca me acusei, seja Deus louvado. - Vem uma mulher, chega ao quinto: Digo a Deus minha
culpa, que eu há tantos meses que tenho ódio a uma mulher, e roguei-lhe muitas pragas, que a fala e a
confissão lhe faltasse na hora da morte, e que nem nesta vida nem na outra lhe perdoava; que seus filhos
visse ela mortos diante de si a estocadas frias. - Por quê? - Porque me levantou um aleive a mim e a uma
filha minha, com que nos infamou em toda esta terra, e não me atrevo a lhe perdoar. - Ora, senhora,
estamos em Quaresma; alguma coisa havemos de fazer por amor de um Deus que padeceu tantas
afrontas e se pôs em uma cruz por amor de nós. - Enfim, compungiu-se, prometeu de perdoar. Chega o
confessor ao oitavo mandamento. - E vossa mercê levantou algum falso testemunho? - Senhor padre,
melhor estréia me dê Deus: muito grande pecadora sou, mas nunca Deus permita que eu diga das pessoas
o que nelas não há; se ouço alguma coisa, ajudo também, mas levantar falso testemunho, nunca em
minha vida o fiz. - Isto que aqui vos pus em dois, acontece infinitas vezes. De maneira que no quinto
todos se queixam que lhes levantam falsos testemunhos; no oitavo ninguém se acusa de levantar falso
testemunho. Logo, bem dizia eu que nesta terra os falsos testemunhos se levantam a si mesmos. Em
suma, que temos aqui os pecados, mas não temos os pecadores: temos os falsos testemunhos, mas não
temos as falsas testemunhas. Isto é o que posso cuidar. Mas, se acaso é o contrário, miseráveis daqueles
que assim vivem! Grande miséria é que os falsos testemunhos se levantem; mas maior miséria é, que,
depois de levantados, se faça deles tão pouco caso e tão pouco escrúpulo. Ou deixais de confessar o falso
testemunho, conhecendo que o levantastes ou não o conhecendo: se o deixastes de confessar
conhecendo-o, mentis a Deus; se o deixais de confessar pelo não conhecer, mentis-vos a vós. E uma e
outra cegueira, é bem merecido castigo: que minta a Deus e que se minta a si mesmo, quem mentiu tão
gravemente contra seu próximo, e que de um ou de outro modo se vá ao inferno!

§ VII

Aborrecer a mentira não só por consciência mas por conveniência. Quantas mentiras se dirão cada
dia no Maranhão? Quantas cabem a cada casa? O pecado que mais facilmente se comete e com mais
dificuldade se restitui. Exortação.

Senhores meus, se algum sermão não tinha necessidade de exortação era este. Só vos digo, como a
homens e como a cristãos, que não só por consciência, mas por conveniência se deve aborrecer a mentira
e amar a verdade. Por conveniência, porque viveis em uma terra muito pequena. Em toda a parte fazem
muito mal as mentiras, mas nas terras grandes têm saca e têm muito por onde se espalhar; nas terras
pequenas, todas ali ficam. Em Lisboa muita mentira se diz, mas repartem-se as mentiras por todo o reino
e por todo o mundo. Chegou navio de Levante, fala-se nas guerras do turco, nas do veneziano, nas do
tártaro, nas do polaco; fala-se no Papa, nos cardeais, nos outros príncipes e potentados de Itália: dizem-se
muitas mentiras, mas repartem-se; umas caem em Constantinopla, outras em Veneza, outras em Roma,
outras na Toscana, Sabóia, etc. Vem navio do Norte, fala-se em el-rei de França, no imperador, no
sueco, no parlamento de Inglaterra, nos Estados de Holanda e Flandres: dizem-se muitas mentiras, mas
repartem-se, por Paris, por Londres, por Viena de Áustria, por Amsterdam, por Estocolmo, etc. Partem
também os nossos correios todos os sábados, e levam grande cópia das mentiras por todo o reino e o
mesmo é das frotas do Brasil e da Índia; porém as mentiras do Maranhão não têm nem outra parte donde
vir nem outra parte para onde ir: aqui nascem e aqui ficam; e quando as mentiras todas ficam na terra, e
todas vos caem em casa, ainda por conveniência e razão de estado as haveis de lançar fora. E se não,
fazei-me por curiosidade duas contas, as quais eu agora não posso fazer. Uma é: quantas mentiras se
dirão cada dia no Maranhão? A outra: quantas casas há nesta cidade, e logo reparti as mentiras, e vereis
quantas cabem a cada casa! E que será em uma semana, que será em um mês, que será em um ano?

Pois, se tudo isto vos fica em casa, e é força que assim seja, não é muito pouca razão de estado, e muito
grande sem-razão, que vos andeis levantando falsos testemunhos, que vos andeis infamando e afrontando
uns aos outros? Não fora muito melhor serdes todos muito amigos, muito conformes, amardes-vos todos,
honrardes-vos todos, autorizardes-vos todos, e poupardes todos desgostos? Há outros pecados que
parece que os pode desculpar o gosto ou o interesse; mas o mentir e o levantar falso testemunho? Que
dão a um homem por mentir? Que gosto se pode ter em levantar um falso testemunho? Se é por me
vingar de meu inimigo, muito maior mal me faço a mim que a ele, porque a ele, quando muito, tiro-lhe a
honra: a mim condeno-me a alma. Ora, cristãos, por reverência daquele Senhor - que sendo Deus se
preza de se chamar Verdade - que façamos hoje uma muito firme e muito verdadeira resolução de não
haver paixão nenhuma, nem respeito, nem interesse que vos faça torcer nem faltar um ponto à verdade;
quanto ao passado, que examinemos muito devagar e muito escrupulosamente se temos faltado à verdade
em alguma coisa, principalmente em matéria da honra de nossos próximos. Olhai, senhores, que este, este
é o pecado que mais facilmente se comete, e com mais dificuldade se restitui. Olhai, cristãos, que as
balanças em que se pesam as consciências na outra vida são muito delicadas, e que será grande desgraça
ir ao inferno para sempre por um falso testemunho. O remédio está em uma consciência muito bem
examinada, em uma confissão muito bem feita, e em uma satisfação muito verdadeira, advertindo-vos e
protestando-vos da parte de Deus, que sem estas três condições, nem nesta vida podeis alcançar a graça,
nem na outra merecer a glória.

Notas

(1)Se disser que o não conheço serei como vós, mentiroso (Jo 8,55)

(2) Se eu vos digo a verdade (Jo 8, 46).

(3) Serei como vós, mentiroso (Jo 8, 55).

(4) Por ocasião do teu grande poder se convencerão de mentira os teus inimigos (Sl 65, 3).

(5) Se eu vos digo a verdade, por que me não credes (Jo 8; 46)?

(6) Tu és um samaritano, e tens o demônio (Jo 8, 48).

(7) Não dizemos nós bem (Jo 8, 48)?

(8) Eu dou honra a meu Pai, e vós a mim desonrastes-me (Jo 8, 49).

(9) Se disser que o não conheço, serei como vós, mentiroso (Jo 8, 55).

(10) A moeda corrente nesta terra são novelos de fio de algodão.

(*) Roma.

(11) E a nossa terra produzirá o seu fruto (Sl 84, 13).

(12) A verdade nasceu da terra, e a justiça olhou desde o céu (Sl 84, 12).

( 13) Os de Creta sempre são mentirosos, ventres preguiçosos (Tit 1, 12).

( 14) Não dizemos nós bem que tu és um samaritano e que tens demônio (Jo 8, 48)?

(15) A Vulgata (Jo 8, 52) traz apenas: Nunc cognovimus quia daemonium habes.

(16) Por que vos mandou Deus (Gên 3, 1)?

(17) Bem podeis estar seguros que não morrereis de morte: sereis como uns deuses (Gên 3, 4 s).

(18) A Vulgata traz injustitiam e não iniquitatem (Sl 51, 4).

(19) Cogitaram e falaram iniqüidade (Sl 72, 8).

(20) Palavras de precipitação (Sl 51, 6).

(21) Cogitaram, e falaram (Sl 72, 8).

( 22 ) Fiz concêrto com os meus olhos de certamente não cogitar nem ainda em uma virgem (Jó 31, 1).

(23) Coros de música no campo dos exércitos (Cânt 7, 1)

(24) Vós sois filhos do diabo (Jo 8, 44).

(25) Desfazei este templo, e eu o levantarei em três dias (Jo 2, 19).

(26) Chegaram duas testemunhas falsas (Mt 26, 60).

(27) Água tenebrosa nas nuvens do ar (Sl 17, 12).

(28) Serei semelhante a vós, mentiroso (Jo 8, 55).

Sermão da Quinta Dominga da Quaresma, de Padre António Vieira

Fonte:
VIEIRA, Antonio. Sermões Escolhidos. São Paulo: Edameris, v. 1, 1965.

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística <http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/literatura/literat.html>
Universidade Federal de Santa Catarina

Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>.

Estamos em busca de patrocinadores e voluntários para nos ajudar a manter este projeto. Se você quer ajudar de alguma forma, mande um e-mail para <bibvirt@futuro.usp.br> e saiba como isso é possível.

Parágrafo I à Parágrafo III
Parágrafo IV e Parágrafo V
Parágrafo VI e Parágrafo VII