SENHORA
José de Alencar
Capítulo VIII
Aurélia
continuou com os olhos fitos nas alvas pétalas aveludadas
de um jasmim do Cabo:
- O recato é o mais puro véu de uma senhora. Feliz
aquela que vive à sombra do zelo materno, e só a deixa
pelo doce abrigo do amor santificado. Sua virtude tem como esta
flor a tez imaculada, e o perfume vivo. Essa ventura não
me tocou; achei-me só no mundo sem amparo, sem guia, sem
conselho, obrigada a abrir o caminho da vida, através de
um mundo desconhecido. Desde muito cedo vi-me exposta às
suspeitas, às insolências e às vis paixões;
habituei-me para lutar com essa sociedade, que me aterra, a envolver-me
na minha altivez, desde que não tinha para guardar-me o desvelo
de uma mãe ou de um esposo.
A expressão tocante e melancólica da moça ao
proferir estas palavras comoveu Seixas, que já não
se lembrava de seus ressentimentos.
- Quando eu era uma menina ingênua, que não deixava
a companhia de sua mãe, e nunca se achara só em presença
de outro homem a não ser aquele a quem amava e, unicamente,
amou neste mundo, esse homem abandonou-me por outra mulher, ou por
outra cousa; e foi entrelaçar o seu nome ao de uma moça
que era noiva de outrem. Mais tarde, encontrando-me só no
mundo, acompanhada por uma parenta velha, mãe de aparato
e amiga oficiosa, que ainda mais só me tornava, fazendo as
vezes de um reposteiro, esse homem desabusado casou-se comigo sem
a menor repugnância.
A moça fitou os olhos no marido:
- Confesse que os escrúpulos desse senhor e o seu pânico
de escândalo vêm tarde e fora de tempo.
- Esses escrúpulos nascem da posição atual.
- Outro engano seu. Essa posição é um encargo,
e não um direito. O senhor falou-me em sua honra. Penso eu
que a honra é um estímulo de coração.
Que resta dela a quem alienou o seu? Se o senhor tem uma honra,
e eu acredito, essa me pertence; e eu posso usar e abusar dela como
me aprouver.
- Assim, julga-se dispensada de guardar qualquer re-serva?
- Para o senhor e para o mundo julgo-me dispensada de tudo; nada
lhes devo; o que me dão, são apenas as homenagens
à riqueza, e ela as paga com o luxo e a dissipação.
Sou senhora de mim, e pretendo gozar da minha independência
sem outras restrições, além do meu capricho.
Foi o único bem que me ficou do naufrágio de minha
vida; este ao menos hei de defendê-lo contra o mundo.
- Agradeço-lhe ter me desiludido a tempo. Acreditava que
sacrificando a liberdade, não renunciava à minha honra
perante o mundo e não me sujeitava a ser apontado como um
indigno; a senhora entende o contrário; aplaudo esta colisão;
ela vem a propósito para romper uma situação
intolerável, e que já durou demais para a dignidade
de ambos.
- Sobretudo daquele que tendo alienado sua pessoa em um casamento
livre e refletido, conserva as prendas de outra noiva.
Seixas surpreso interrogou a mulher com os olhos.
- Nunca pensei ter feito a aquisição de seu amor nem
contei com a fidelidade que jurou; mas esperava do senhor ao menos
a lealdade do negociante, que depois de vendida a mercadoria, não
substitui por outra marca à do comprador.
Seixas não podia compreender esta alusão, cujo sentido
só atinou mais tarde, quando ao entrar no gabinete viu os
destroços da prenda de Adelaide. Quis pedir a explicação;
mas avistou um criado que dirigia-se para ali.
- Está aí o Sr. Eduardo Abreu que deseja falar à
senhora.
- Bem! disse Aurélia despedindo com um gesto o criado que
afastou-se.
Seixas custou a conter-se até esse momento:
- A senhora não pode receber esse homem!
- Era minha intenção. Tinha-o recebido esta manhã
pela última vez; mas à vista de sua desconfiança
mudei de resolução, respondeu Aurélia friamente.
- Pois saiba que hoje, depois que saiu de sua casa, encontrei-o
de face na rua, e recusei-lhe claramente o cumprimento, voltando-lhe
as costas.
- Razão demais para que o receba. É preciso convencê-lo
de que foi uma simples distração de sua parte, para
não supor ele que o senhor honrou-o com uma suspeita, que
ultraja-me.
Aurélia tomou o braço do marido e dirigiu-se à
saleta, onde acharam o Eduardo Abreu.
Os dois mancebos trocaram um cumprimento seco e cerimonioso; depois
do qual Seixas foi debruçar-se à janela ao lado de
D. Firmina, e deixou a mulher em liberdade com sua visita:
- Desculpe-me esta insistência; um dever de lealdade à
justiça. Hoje tive de repelir a um leviano certa insinuação
vil, e logo depois encontrando o Sr. Seixas, percebi diferença
notável em seu tratamento.
- Alguma preocupação.
- Afligiu-me a idéia de ser causa involuntária, ou
mesmo pretexto de qualquer desconfiança; e por isso vim desistir
da promessa que me fez do segredo sobre seus benefícios,
e confessar eu próprio a seu marido tudo quanto lhe devo
a fim de que ele ainda mais admire a nobreza de sua alma.
- Essa confissão o senhor não a fará; seria
uma ofensa grave à minha dignidade. Meu marido não
carece de seu testemunho para conservar-me na mesma elevada estima,
inacessível aos assaltos da maledicência. No dia em
que eu precisasse justificar-me, estaria divorciada, pois se teria
extinguido a confiança, que é o primeiro vínculo
do amor, e a verdadeira graça do casamento. Esteja tranqüilo
pois; seu segredo não lançou a menor sombra em minha
felicidade.
A moça disse essas palavras com uma emoção
que persuadiu a Abreu, e desvaneceu-lhe os receios.
De seu lado Seixas tinha refletido. Em véspera de uma resolução
definitiva que devia operar mudança profunda em seu destino,
pareceu-lhe fraqueza esse ridículo desabafo, semelhante aos
agastamentos do ciúme banal, que ele acreditava não
sentir. Fazendo portanto um esforço, aproximou-se do Abreu
com a maneira cortês, por que o costumava tratar, e confirmou
assim a explicação dada por Aurélia ao incidente
da manhã.
Essa noite era de partida.
A reunião não foi numerosa, mas correu animada. Fernando
esteve muito alegre; nunca se ocupou tão ostensivamente da
mulher como nessa noite; não a deixava; as mais delicadas
flores, as mais galantes finezas, que se disseram naquela escolhida
sociedade, foram dele a Aurélia.
Aurélia pelo contrário mostrou-se preocupada.
Essa amenidade do marido depois da cena do jardim a inquietava a
seu pesar. Por mais esforços que fizesse não podia
arredar seu espírito das palavras proferidas por Seixas naquela
tarde, acerca de um rompimento, que devia solver a suposta colisão.
Qual intenção era a sua? Nesse problema fatigou o
espírito durante a noite.
No dia seguinte Seixas almoçou às oito horas conforme
o ordinário e partiu para a repartição. A essa
hora Aurélia ainda estava recolhida; mas seu quarto de dormir,
que ficava no pavimento superior, deitava janelas para o jardim;
da última delas via-se perfeitamente a parte da sala de jantar
onde estava a mesa.
A moça tinha uma devoção de todas as manhãs;
quando ouvia o rumor dos passos de Seixas na escada, saltava da
cama, e envolta na sua colcha de damasco para não perder
tempo a vestir o roupão, corria à janela. Ali escondida
por entre as cortinas ficava um instante a olhar o marido algum
tempo; como para dar-lhe o bom-dia. Se estava muito fatigada da
véspera, se o sono lutava com ela, voltava ao ninho ainda
quente, e dormia novo sono.
Nessa manhã porém apesar de ter-se recolhido tarde
e sentir necessidade de repouso, demorou-se contemplando o semblante
de Seixas com um sentimento de tristeza, que não podia desterrar
de si. Um pressentimento vago advertia-lhe que não deixasse
partir seu marido sob a impressão dos sarcasmos implacáveis,
que lhe tinha lançado na véspera.
Mas triunfou a altivez de seu amor, ainda magoada pelas recordações
pungentes que havia acordado em sua alma a vista do mimo de Adelaide.
Seixas saiu, e ela, para disfarçar a impaciência, logo
depois do almoço meteu-se no carro com D. Firmina e foi gastar
o tempo na Rua do Ouvidor, por casa das modistas e das amigas. Procurava
nas novidades parisienses, nas tentações do luxo,
um atrativo que lhe cativasse o pensamento e o arrancasse a suas
inquietações.
Conseguiu atordoar-se até quatro horas em que chegou a casa.
Seixas não estava, o que era extraordinário. Não
havia exemplo de ter excedido dessa hora. Aurélia disfarçou
para não mostrar seu desassossego a D. Firmina e aos criados.
Recolheu-se a seus aposentos para mudar o vestuário; mas
encostou-se ao portal da janela, com os olhos no caminho.
Às cinco horas veio a mucama chamá-la:
- A senhora não vem jantar? Está na mesa.
- Quem mandou deitar?
- São cinco horas.
- E o senhor?
- Disse ao José para prevenir a senhora que talvez não
voltasse hoje, senão muito tarde.
- Quando falou o senhor com José?
- Esta manhã, na cidade.
- E não disse a razão por que se demorava?
- Não sei; eu vou chamá-lo.
O José interrogado nada adiantou, de modo que Aurélia
permaneceu na mesma inquietação; mas para não
dá-la a perceber a D. Firmina, atribuiu a ausência
do marido à conferência que ele devia ter com o ministro
acerca de trabalhos importantes da repartição.
Quando sentavam-se à mesa, abriu-se a porta e entrou Seixas.
A surpresa não deu tempo a Aurélia para dominar o
primeiro impulso de sua alegria que logo arrefeceu ante a fisionomia
de Seixas. Ele trazia na expressão rígida e grave
do rosto o cunho- de uma resolução inflexível.
Entretanto não apartou-se da natural polidez. Desculpou-se
delicadamente com a mulher pela demora:
- Precisava concluir um negócio urgente, que lhe comunicarei.
- E concluiu?
- Felizmente.
- Perguntei, para saber se devia esperá-lo amanhã.
- Agora creio que não há de esperar mais por mim,
tornou Seixas com um sorriso fugaz.
Aurélia viu o sorriso, e sentiu a modulação
especial da voz.
Terminado o jantar, quando seguiam ambos pelos meandros recortados
na grama, Seixas disse à mulher:
- Desejo falar-lhe em particular.
- Vamos sentar-nos então, disse Aurélia indicando
o sítio onde habitualmente passavam as tardes.
- Aqui no jardim, não; prefiro um lugar mais reservado, onde
não venham interromper-nos.
- No meu toucador?
- Serve.
- Ou no seu gabinete?
- No seu toucador; é melhor.
- Já? perguntou Aurélia simulando indiferença.
- Não; basta à noite; e se não lhe incomoda,
depois do chá, antes de recolher-se.
- Como quiser! disse Aurélia abrindo as folhas das violetas,
à cata de uma flor.
Seixas tomou o regador da moça, guardado com os outros utensílios
de jardinagem em um ninho rústico praticado no muro, e entreteve-se
a regar os tabuleiros de margaridas e os vasos de hortênsias.
Uma vez na volta do repuxo onde fora buscar água, ao passar
perto de Aurélia, a moça perguntou-lhe distraidamente,
como se não tivessem interrompido o diálogo:
- É sobre o negócio de que falou-me?
- Justamente.
Seixas ficou parado em frente de Aurélia, supondo que ela
ia fazer-lhe nova pergunta, enquanto a moça esperava uma
explicação, que não queria pedir diretamente.
Vendo que o marido calava-se, voltou de novo às violetas,
e ele continuou em sua ocupação.
Capítulo
IX
Eram dez horas
da noite.
Aurélia, que se havia retirado mais cedo da saleta, trocando
com o marido um olhar de inteligência, estava nesse momento
em seu toucador, sentada em frente à elegante escrivaninha
de araribá cor-de-rosa, com relevos de bronze dourado a fogo.
A moça trazia nessa ocasião um roupão de cetim
verde cerrado à cintura por um cordão de fios de ouro.
Era o mesmo da noite do casamento, e que desde então ela
nunca mais usara. Por uma espécie de superstição
lembrara-se de vesti-lo de novo, nessa hora na qual, a crer em seus
pressentimentos, iam decidir-se afinal o seu destino e a sua vida.
A moça reclinara a fronte sobre a mão direita, cujo
braço nu, apoiado na mesa, surgia de entre os rofos de cambraia
que frocavam a manga do roupão. Estava absorta em uma profunda
cisma, da qual a arrancou o tímpano da pêndula soando
as -horas.
Ergueu-se então, e tirou da gaveta uma chave; atravessou
a câmara nupcial, que estava às escuras, apenas esclarecida
pelo reflexo do toucador, e abriu afoutamente aquela porta que havia
fechado onze meses antes, num ímpeto de indignação
e horror.
Empurrando a porta com estrépito de modo a ser ouvida no
outro aposento, e prendendo o reposteiro para deixar franca a passagem,
voltou rapidamente, depois de proferir estas palavras:
- Quando quiser!
Fernando ao penetrar nessa câmara nupcial, cheia de sombras
e silêncio, esqueceu um momento a pungente recordação
que ela devia avivar, e que parecia ter-se apagado com a escuridão.
O que ele sentiu foi a fragrância que ali recendia, e que
o envolveu como a atmosfera de um céu, do qual ele era o
anjo de-caído.
Aurélia esperava o marido, outra vez sentada à escrivaninha.
Ela tinha afastado o braço da arandela de modo que a luz
do gás, interceptada por um refletor de jaspe representando
o carro da aurora, deixava-a imersa em uma penumbra diáfana,
que dava à sua beleza tons de maviosa suavidade.
Seixas sentou-se na cadeira que Auélia lhe indicara em frente
dela, e depois de recolher-se um instante, buscando o modo por que
devia começar, entregou-se à inspiração
do momento.
- É a segunda vez que a vejo com este roupão. A primeira
foi há cerca de onze meses, não justamente neste lugar,
mas perto daqui naquele aposento.
- Deseja que conversemos no mesmo lugar? perguntou a moça
singelamente.
- Não, senhora. Este lugar é mais próprio para
o assunto que vamos tratar. Lembrei aquela circunstância unicamente
pela coincidência de representá-la a meus olhos, tal
como a vi naquela noite, de modo que parece-me continuar uma entrevista
suspensa. Recorda-se?
- De tudo.
- Eu supunha haver feito uma cousa muito vulgar que o mundo tem
admitido com o nome de casamento de conveniência. A senhora
desenganou-me: definiu a minha posição com a maior
clareza; mostrou que realizara uma transação mercantil;
e exibiu o seu título de compra, que naturalmente ainda con-serva.
- É a minha maior riqueza, disse a moça com um tom
que não se podia distinguir se era de ironia ou de emoção.
Seixas agradeceu com uma inclinação de cabeça
e pros-seguiu:
- Se eu tivesse naquele momento os vinte contos de réis,
que havia recebido de seu tutor, por adiantamento de dote, a questão
resolvia-se de si mesma. Desfazia-se o equívoco; restituía-lhe
seu dinheiro; recuperava minha palavra; e separávamo-nos
como fazem dois contratantes de boa fé, que reconhecendo
seu engano, desobrigam-se mutuamente.
Seixas parou, como se aguardasse uma contradição,
que não apareceu. Aurélia, recostada na cadeira de
braço com as pálpebras a meio cerradas, ouvia brincando,
com um punhal de madrepérola que servia para cortar papel.
- Mas os vinte contos, eu já os não possuía
naquela ocasião, nem tinha onde havê-los. Em tais circunstâncias
restavam duas alternativas: trair a obrigação estipulada,
tornar-me um caloteiro; ou respeitar a fé do contrato e cumprir
minha palavra. Apesar do conceito que lhe mereço, faça-me
a justiça de acreditar que a primeira dessas alternativas,
eu não a formulei senão para a repelir. O homem que
se vende, pode depre-ciar-se; mas dispõe do que lhe pertence.
Aquele que depois de vendido subtrai-se ao dono, rouba o alheio.
Dessa infâmia isentei-me eu, aceitando o fato consumado que
já não podia conjurar, e submetendo-me lealmente,
com o maior escrúpulo, à vontade que eu reconhecera
como lei, e à qual me alienara. Invoco sua consciência;
por mais severa que se mostre a meu respeito, estou certo que não
me negará uma virtude: a fidelidade à minha palavra.
- Não, senhor; cumpriu-a como um cavalheiro.
- É o que desejei ouvir de sua boca antes de informá-la
do motivo desta conferência. A quantia que me faltava há
onze meses, na noite de seu casamento, eu a possuo finalmente. Tenho-a
comigo; trago-a aqui nesta carteira, e com ela venho negociar o
meu resgate.
Estas palavras romperam dos lábios de Seixas com uma impetuosidade,
que ele dificilmente pôde conter. Como se elas lhe desoprimissem
o peito de um peso grande, respirou vivamente, apertando com movimento
sôfrego a carteira que tirara do bolso.
Se não estivesse tão preocupado com a sua própria
comoção, notaria de certo a percussão íntima
que sofrera Aurélia, cujo talhe reclinado sobre o descanso
da cadeira brandiu como a lâmina de uma mola de aço.
No sobressalto que a agitou, levara à boca a folha de madrepérola,
na qual os lindos dentes rangeram.
Ao abrir a carteira, Seixas suspendeu o gesto:
- Antes de concluir a negociação, devo revelar-lhe
a origem deste dinheiro, para desvanecer qualquer suspeita de o
ter eu obtido por seu crédito e como seu marido. Não,
senhora,- adquiri-o por mim exclusivamente; e para maior tranqüilidade-
de minha consciência provém de data anterior ao nosso
casamento. Cerca de seis contos representam o produto de meus ordenados
e das jóias e trastes, que apurei logo depois do ca-ti-veiro,
pensando já na minha redenção. Ainda tinha
muito que esperar e talvez me faltaria resignação
para ir ao cabo, se Deus não abreviasse este martírio,
fazendo um mila-gre- em meu -fa-vor. Era sócio de um privilégio
concedido há quatro anos, e do qual já nem me lembrava.
Anteontem, à mes-ma- hora em que a -senhora me submetia à
mais dura de todas as provas, o céu me enviava um socorro
imprevisto para quebrar- enfim este jugo vergonhoso. Recebi a notícia
da venda do privilégio,- que me trouxe um lucro de mais de
quinze con-tos.- Aqui estão as -provas.
Aurélia recebeu da mão de Seixas vários papéis
e correu os olhos por eles. Constavam de uma declaração
do Barbosa relativa ao privilégio, e contas de vendas de
jóias e outros objetos.
- Agora nossa conta, continuou Seixas desdobrando uma folha de papel.
A senhora pagou-me cem contos de réis; oitenta em um cheque
do Banco do Brasil que lhe restituo intacto; e vinte em dinheiro,
recebido há 330 dias. Ao juro de 6% essa quantia lhe rendeu
1:084$710. Tenho pois de entregar-lhe Rs. 21:084$710, além
do cheque. Não é isto?
Aurélia examinou a conta corrente; tomou uma pena e fez com
facilidade o cálculo dos juros.
- Está exato.
Então Seixas abriu a carteira e tirou com o cheque vinte
e um maços de notas, de conto de réis cada um, além
dos quebrados que depositou em cima da mesa:
- Tenha a bondade de contar.
A moça com a fleuma de um negociante abriu os maços
um após outro e contou as células pausadamente. Quando
acabou essa operação, voltou-se para Seixas e perguntou-lhe
como se falasse ao procurador incumbido de receber o dividendo de
suas apólices.
- Está certo. Quer que eu lhe passe um recibo?
- Não há necessidade. Basta que me restitua o papel
de venda.
- É verdade. Não me lembrava.
Aurélia hesitou um instante. Parecia recordar-se do lugar
onde havia guardado o papel; mas o verdadeiro motivo era outro.
Consultava-se, receosa de revelar sua comoção, caso
se levantasse.
- Faça-me o favor de abrir aquela gavetinha, a segunda. Dentro
há de estar um maço de papéis atado com uma
fita azul... justamente!... Não conhece esta fita? Foi a
primeira cousa que recebi de sua mão, com um ramo de violetas.
Ah! perdão; estamos negociando. Aqui tem seu título.
A moça tirara do maço um papel e o deu a Seixas, que
fechou-o na carteira.
- Enfim partiu-se o vínculo que nos prendia. Reassumi a minha
liberdade, e a posse de mim mesmo. Não sou mais seu marido.
A senhora compreende a solenidade deste momento?
- É o da nossa separação, confirmou Aurélia.
- Talvez ainda nos encontremos neste mundo, mas como dous desconhecidos.
- Creio que nunca mais, disse Aurélia com o tom de uma profunda
convicção.
- Em todo o caso, como é esta a última vez que lhe
dirijo a palavra, quero dar-lhe agora uma explicação,
que não me era lícita há onze meses na noite
do nosso casamento. Então eu faria a figura de um coitado
que arma à compaixão, e a senhora que pisava aos pés
a minha probidade, não acreditaria uma palavra do que então
lhe dissesse.
- A explicação é supérflua.
- Ouça-me; desejo que em um dia remoto, quando refletir sobre
este acontecimento, me restitua uma parte da sua estima; nada mais.
A sociedade no seio da qual me eduquei, fez de mim um homem à
sua feição; o luxo dourava-me os vícios, e
eu não via através da fascinação o materialismo
a que eles me arrastavam. Habituei-me a considerar a riqueza como
a primeira força viva da existência, e os exemplos
ensinavam-me que o casamento era meio tão legítimo
de adquiri-la, como a herança e qualquer honesta especulação.
Entretanto ainda assim, a senhora me teria achado inacessível
à tentação, se logo depois que seu tutor procurou-me,
não surgisse uma situação que aterrou-me. Não
somente vi-me ameaçado da pobreza, e o que mais me afligia,
da pobreza endividada, como achei-me o causador, embora in-voluntário,
da infelicidade de minha irmã cujas economias eu havia consumido,
e que ia perder um casamento por falta de enxoval. Ao mesmo tempo
minha mãe, privada dos módicos recursos que meu pai
lhe deixara, e de que eu tinha disposto imprevidentemente, pensando
que os poderia refazer mais tarde!... Tudo isto abateu-me. Não
me defendo; eu devia resistir e lutar; nada justifica a abdicação
da dignidade. Hoje saberia afrontar a adversidade, e ser homem;
naquele tempo não era mais do que um ator de sala; sucumbi.
Mas a senhora regenerou-me e o instrumento foi esse dinheiro. Eu
lhe agradeço.
Aurélia ouviu imóvel. Seixas concluiu:
- Eis o que pretendia dizer-lhe antes de separarmo-nos para sempre.
- Também eu desejo que não leve de mim uma suspeita
injusta. Como sua mulher, não me defenderia; desde porém
que já não somos nada um para o outro, tenho direito
de reclamar o respeito devido a uma senhora.
Aurélia referiu sucintamente o que Eduardo Abreu fizera quando
falecera D. Emília, e a resolução que ela tomara
de salvá-lo do suicídio.
- Eis a razão por que chamei esse moço à minha
casa. Seu segredo não me pertencia; e entre mim e o senhor
não existia a comunidade que faz de duas almas uma.
Aurélia reuniu o cheque e os maços de dinheiro que
estavam sobre a mesa.
- Este dinheiro é abençoado. Diz o senhor que ele
o regenerou, e acaba de o restituir muito a propósito para
realizar um pensamento de caridade e servir a outra regeneração.
A moça abriu uma gaveta da escrivaninha e guardou nela os
valores; depois do que bateu o tímpano; a mucama apareceu:
- Permita-me, disse Aurélia e voltou-se para dar em voz baixa
uma ordem à escrava.
Esta acendeu o gás nas arandelas da câmara nupcial
e retirou-se, enquanto Aurélia dizia ao marido, mostrando
o aposento iluminado:
- Não quero que erre o caminho.
- Agora não há perigo.
- Agora? repetiu a moça com um olhar que perturbou Seixas.
Houve uma pausa.
- Talvez a senhora, para evitar a curiosidade pública, deseje
um pretexto?
- Para quê?
- A viagem à Europa seria o melhor. O paquete deve partir
nestes quinze dias. Uma prescrição médica tudo
explicará, a separação e a urgência.
Mais tarde quando venham a saber, já não causará
surpresa.
Aurélia deixou perceber ligeira comoção. Entretanto
foi com a voz firme que respondeu:
- Desde que uma cousa se tem de fazer, o melhor é que se
faça logo e sem evasivas.
Fernando ergueu-se de pronto:
- Neste caso receba as minhas despedidas.
Aurélia de seu lado erguera-se também para cortejar
o ma-rido.
- Adeus, senhora. Acredite...
- Sem cumprimentos! atalhou a moça. Que poderíamos
dizer um ao outro que já não fosse pensado por ambos?
- Tem razão.
Seixas recuou um passo até o meio do aposento, e fez uma
profunda cortesia, à qual Aurélia respondeu. Depois
atravessou lentamente a câmara nupcial agora iluminada. Quando
erguia o reposteiro ouviu a voz da mulher.
- Um instante! disse Aurélia.
- Chamou-me?
- O passado está extinto. Estes onze meses, não fomos
nós que os vivemos, mas aqueles que se acabam de separar,
e para sempre. Não sou mais sua mulher; o senhor já
não é meu marido. Somos dois estranhos. Não
é verdade?
Seixas confirmou com a cabeça.
- Pois bem, agora ajoelho-me eu a teus pés, Fernando, e suplico-te
que aceites meu amor, este amor que nunca deixou de ser teu, ainda
quando mais cruelmente ofendia-te.
A moça travara das mãos de Seixas e o levara arrebatadamente
ao mesmo lugar onde cerca de um ano antes ela infligira ao mancebo
ajoelhado a seus pés a cruel afronta.
- Aquela que te humilhou, aqui a tens abatida, no mesmo lugar onde
ultrajou-te, nas iras de sua paixão. Aqui a tens implorando
seu perdão e feliz porque te adora, como o senhor de sua
alma.
Seixas ergueu nos braços a formosa mulher, que ajoelhara
a seus pés; os lábios de ambos se uniam já
em férvido beijo, quando um pensamento funesto perpassou
no espírito do marido. Ele afastou de si com gesto grave
a linda cabeça de Aurélia, iluminada por uma aurora
de amor, e fitou nela o olhar repassado de profunda tristeza.
- Não, Aurélia! Tua riqueza separou-nos para sempre.
A moça desprendeu-se dos braços do marido, correu
ao toucador, e trouxe um papel lacrado que entregou a Seixas.
- O que é isto, Aurélia?
- Meu testamento.
Ela despedaçou o lacre e deu a ler a Seixas o papel. Era
efetivamente um testamento em que ela confessava o imenso amor que
tinha ao marido e o instituía seu universal herdeiro.
- Eu o escrevi logo depois do nosso casamento; pensei que morresse
naquela noite, disse Aurélia com um gesto sublime.
Seixas contemplava-a com os olhos rasos de lágrimas.
- Esta riqueza causa-te horror? Pois faz-me viver, meu Fernando.
É o meio de a repelires. Se não for bastante, eu a
dissiparei.
* * *
As cortinas
cerraram-se, e as auras da noite, acariciando o seio das flores,
cantavam o hino misterioso do santo amor conjugal.
*
* *
MINISTÉRIO
DA CULTURA
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro