SENHORA
José de Alencar
Capítulo IV
Aurélia
estava ocupada em reunir os diversos casais e enviá-los ao
meio da sala; desembargadores de todo o tope e calibre, conselheiros
carunchosos, viscondes mofados, marqueses carranças: tudo
tratava de executar-se da melhor vontade, que era o meio de tomar
mais leve a penitência.
Nisto chegou-se a Lísia Soares ao braço de Fernando.
A travessa trazia nos lábios um sorriso maligno; o olhar
beliscava como um alfinete.
- Está muito entretida com os outros e não se lembra
de si, disse ela.
- Como? perguntou Aurélia voltando-se.
- Não disfarce. A justiça começa por casa;
aqui está seu marido. Dê o exemplo.
Aurélia compreendeu a vingança da amiga, despeitada
por não valsar com o Alfredo Moreira.
Desde a primeira vez que apareceu na sociedade, depois do luto de
sua mãe, Aurélia que apesar da palavra afouta e viva,
tinha o casto recato de sua pessoa, resolveu não valsar para
não arriscar-se a encontrar um desses pares que põem
ao vivo a comparação poética da trepadeira
enroscada ao tronco musgoso.
Declarou, portanto, que não sabia valsar, e que nunca poderia
aprender porque o giro rápido causava-lhe vertigem. Havia
nesta segunda parte um fundo de verdade. Quando valsava no colégio
com as amigas, sentia tão vivo prazer nessa dança
impetuosa, que deixava-se arrebatar e desprezando o compasso da
música volvia uma velocidade prodigiosa até que o
atordoamento a obrigava a sentar.
Convencida de que ela não sabia realmente valsar, Lísia
lembrou-se de tomar uma desforra obrigando-a a fazer triste figura
na sala, ou então a retratar-se de sua esquisitice e acabar
com a tal valsa dos casados. O que mais estimulara a moça,
fora a suspeita de que Aurélia fizera aquilo por maldade,
e só para privá-la de dançar com o Moreira.
Nisto era injusta. A razão que movera Aurélia, não
sei; mas que ela nesse momento não se lembrava da existência
da Lísia e do Moreira, disso posso dar certeza.
- Não seja má, Lísia! disse Aurélia
com um modo queixoso, que não ocultava de todo o fino motejo
do olhar.
- Nada, minha cara; você não dispensa ninguém,
tenha paciência.
- Eu não sei valsar!
- Aí é que está a graça. Meu pai também
não sabia.
- Ela sabe, era meu par no colégio, observou uma se-nhora.
- Há de dançar.
- Pena de talião, dizia um velho advogado gotoso que voltava
da valsa tão estafado como nunca o deixara a mais complicada
defesa do júri.
- Caso de justa represália! acudiu um velho diplomata que
fizera sua carreira em eterna disponibilidade, sem trocadilhos.
- A coroa cede ante a opinião! orava um ministro para quem
coroa e opinião no Brasil eram a chapa e o cunho da mesma
moeda em que se recebia o salário.
As senhoras insistiam para se despicarem da entrega que lhes fizera
a dona da casa; as moças por pirraça; e os rapazes
pelo desejo de quebrar o encanto a Aurélia, e terem-na daí
em diante como par certo de valsa.
- Não é preciso essa revolução. Eu me
submeto, disse Aurélia, curvando gentilmente a cabeça.
Dirigindo-se ao marido que estava defronte e a quem a Lísia
não consentira que se retirasse, tomou-lhe resolutamente
o braço e deixou-se conduzir ao meio da sala.
- Por que se constrange? Não quer valsar; eu tomo sobre mim
a recusa, segredou Seixas.
- É questão de vaidade. Compreende a força
que tem para nós mulheres, este nosso ponto de honra? tornou
Aurélia também a meia voz.
- Neste momento, não; não compreendo.
- Veja a Lísia como está saboreando o meu vexame de
não saber valsar, e o fiasco que me espera? Demais...
Sua voz teve uma nota vibrante.
- Demais, o senhor pode pensar que tenho medo.
Aurélia pousara a mão no ombro do marido, e imprimindo
ao talhe um movimento gracioso e ondulado, como o arfar da borboleta
que palpita no seio do cacto, colocou-se diante de seu cavalheiro
e entregou-lhe a cintura mimosa.
Era a primeira vez, e já tinham mais de seis meses de casados;
era a primeira vez que o braço de Seixas enlaçava
a cintura de Aurélia. Explica-se pois o estremecimento que
ambos sofreram ao mútuo contacto, quando essa cadeia viva
os surpre-endeu.
Balançava-se o airoso par à cadência da música
arrebatadora; e todos o admiravam, menos Lísia Soares que
ralava-se de despeito ao ver a silfidez e graça com que Aurélia
valsava, triunfando, quando ela esperava humilhá-la.
Aurélia tinha nessa noite um vestido de tule cor de ouro,
que a vestia como uma gaze de luz. Com o voltear da valsa, as ondas
vaporosas da saia e a manga roçagante do braço que
erguera para apoiar-se em seu par, flutuavam como nuvens diáfanas
embebidas de sol, e envolviam a ela e ao cavalheiro como um brilhante
arrebol.
Parecia que voavam ambos arrebatados ao céu por uma assunção
radiosa.
A cabeça de Aurélia afrontara-se, atirada para o ombro
com um gesto sobranceiro e uma expressão provocadora, que
por certo havia de desairar outro semblante, mas tinha no seu uma
sedução irresistível e uma beleza fatal e deslumbrante.
Nunca se fixou na tela, nem se lavrou no mármore, tão
sublime imagem da tentação, como aí estava
encarnada na altivez fascinante da formosa mulher.
Aos primeiros compassos principiou este rápido diálogo,
cortado pelas evoluções da dança:
- Não sei valsar devagar.
- Pois apressemos o passo.
- Não lhe tonteia?
- Não; a cabeça é forte.
- E o coração?
- Este já calejou.
- Pois eu sou o contrário.
- O coração?
- Nunca vacilou.
A moça continuara soltando frases intermitentes.
- A cabeça é que é fraca. - Mas que singularidade!
- Em tudo sou esquisita! - Devagar é que tonteio. - A casa
roda em torno de mim. - Depressa não. - Quando tudo desaparece...
- Quando não vejo mais nada... - Então sim! - Então
gosto de valsar! - E posso valsar muito tempo!
Passavam perto da música. Seixas disse ao regente da orquestra:
- Apresse o compasso!
O arco do regente deu o sinal.
- Mais! disse Aurélia.
Amiudaram-se as pancadas do arco.
- Ainda mais! ordenou a moça.
O arco sibilou. Os instrumentos estrepitaram; as notas despenhavam-se
não já em escalas, mas em borbotões. Não
era mais valsa de Strauss; era um turbilhão musical, um pampeiro
como saía das mãos inspiradas de Liszt.
O lindo par arrojou-se, deixando a trotar classicamente os outros
que não podiam acompanhar aquela torrente impetuosa. Obscurecia-se
a vista que buscava acompanhá-lo; ele passava nublado por
aquela espécie de atmosfera oscilante, que a velocidade da
rotação estabelecia em torno de si.
Aurélia cerrara a meio as pálpebras; seus longos cílios
franjados, que roçavam o cetim das faces, sombrearam o fogo
intenso do olhar, que escapava-se agora em chispas sutis, e fe-riam
o semblante de Seixas como os rutilos de uma estrela.
A valsa é filha das brumas da Alemanha, e irmã das
louras valquírias do norte. Talvez sobre essas regiões
do gelo, com os doces esplendores da neve, o céu derrame
alguma da serenidade e inocência que fruem os bem-aventurados;
talvez que os povos da fecunda Germânia, quando vão
ao baile, mudem o temperamento com que marcham à guerra,
e façam correr nas veias cerveja em vez de sangue.
A ser assim, pode a valsa ter naqueles países as honras de
uma dança de sala. Em outra latitude, deve ser desterrada
para os bailes públicos, onde os homens gastos vão
buscar as sensações fortes, que o ébrio pede
ao álcool.
Há nessa dança impetuosa alguma cousa que lembra os
mistérios consagrados a Vênus pela Grécia pagã,
ou o delírio das bacantes quando agitavam o tirso. "É,
na frase do grande poeta, a valsa impura e lasciva, desfolhando
as mulheres e as flores."
Nunca a linguagem, que esse rei da palavra, chamado Victor Hugo,
subjuga e maneja como um brioso corcel, prestou-se à mais
eloqüente expressão do pensamento. É realmente
a desfolha da mulher, a despolpa de sua beleza e de sua pessoa,
o que a valsa impudica faz no meio da sala, em plena luz, aos olhos
da turba ávida e curiosa.
As senhoras não gostam da valsa, senão pelo prazer
de senti-rem-se arrebatadas no turbilhão. Há uma delícia,
uma volup-tuosidade pura e inocente, nessa embriaguez da velocidade.
Aos volteios rápidos, a mulher sente nascer-lhe as asas,
e pensa que voa; rompe-se o casulo de seda, desfralda-se a bor-boleta.
Mas é justamente aí que está o perigo. Esse
enlevo inocente da dança, entrega a mulher palpitante, inebriada,
às tentações do cavalheiro, delicado embora,
mas homem, que ela sem querer está provocando com o casto
requebro de seu talhe e traspassando com as tépidas emanações
de seu corpo.
O que é a valsa, mostrava-o aquele formoso par que girava
na sala; e ao qual entretanto defendia dos olhos maliciosos a casta
e santa auréola da graça conjugal, com que Deus os
abençoara.
Fernando arrependia-se de ter cedido ao desejo da mulher e começava,
ele um dos impertérritos valsistas da Corte, a recear a vertigem.
Seu olhar alucinado pelas fascinações de que se coroava
naquele instante a beleza de Aurélia, tentou desviar-se e
vagou pela sala. Voltou porém atraído por força
poderosa e embebeu-se no êxtase da adoração.
Quando a mão de Aurélia calcava-lhe no ombro, transmi-tindo-lhe
com a branda e macia pressão o seu doce calor, era como se
todo seu organismo estivesse ali, naquele ponto em que um fluido
magnético o punha em comunicação com a moça.
Depois essa estranha sensação tornou-se ainda mais
intensa. Já não tinha consciência de si para
perceber distintamente a pressão dos dedos em seu ombro.
O que se passava nele era uma verdadeira intuscepção
da forma peregrina dessa mulher, que ele via em face, mas sentia
dentro em si.
Aurélia não consente, como outras, que seu cavalheiro
a conchegue ao peito. Entre os bustos de ambos mantém-se
a distância necessária para que não se unam
com o volver da dança; e tanto que deixam passagem à
claridade do gás.
Entretanto a sensação viva que Fernando experimenta
neste momento é a do contato estreito, íntimo, do
talhe palpitante da moça, como se o tivesse fechado em seus
braços; sua calma, semelhante ao molde que concebe a cera
branda, vazava em si formosa estátua e recebia o seu toque
mavioso.
Se o colo de Aurélia pulsava rápido no ofego da valsa,
embora os rofos do decote nem de leve roçassem o colete,
ele, fechando os olhos e recolhendo-se, palpava em seu peito o rijo
galbo do seio voluptuoso.
Se um retraimento lascivo, peculiar à raça felina,
imprimia ao dorso de Aurélia uma flexão ondulosa,
que dilatando-se no abalo nervoso, brandia o corpo esbelto, essa
vibração elétrica repercutia em todo o organismo
de Seixas.
Era uma verdadeira transfusão operada pelo toque da mão
da moça no ombro do marido, e da mão deste na cintura
dela; mas sobretudo pelos olhos que se imergiam, e pelas respirações
que se trocavam.
Não há flor de aroma delicado, como a boca pura e
fresca de uma moça.
Outros perfumes conheço mais vivos, alguns fortes e excitantes:
nenhum tem a maga suavidade de um hálito de rosas, fragrância
de sua alma, que Aurélia infundia nos lábios do cavalheiro.
Neste deleite em que se engolfava, teve Seixas um momento de recobro,
e pressentiu o perigo. Quis então parar e pôr termo
a essa prova terrível a que a mulher o submetera, certamente
no propósito de o render a seu império, como já
uma vez o fizera, naquela noite do divã, noite cruel de que
ainda conservava a pungente recordação.
Para preparar a parada, conteve a velocidade do passo. Percebeu
Aurélia o leve movimento, se não teve a repercussão
do pensamento do marido, antes que este o realizasse. Os lábios
murmuraram uma palavra súplice:
- Não!
As pálpebras ergueram-se; os grandes olhos, cheios de luz
e de amor, inundaram o semblante de Seixas, e cerraram-se logo levando-lhe
toda a vontade e consciência, como uma onda que depois de
espraiar-se, reflui, trazendo no seio quanto encontrou em sua passagem.
Seixas abdicou de si, e arrojou-se novamente no turbilhão.
Tudo isto se passara em breves momentos, durante o espaço
que o par valsante levara para descrever pelo vasto salão
duas ou três elipses.
Nos quatro cantos da casa, havia para ornato altas jardineiras de
bronze verdadeiro e de trabalho artístico, lembrança
de Aurélia que as encomendara da Europa.
Eram grupos agrestes, onde se tinham disposto os lugares dos vasos;
mas estes em vez de flores, recebiam plantas vivas, que formavam
assim um bosque a cada ângulo da sala, concorrendo para dar-lhe
o aspecto campestre, que tanto se aprecia agora e com razão.
Há nada mais encantador do que trazer o campo para dentro
da cidade e até a casa; do que entrelaçar com as magnificências
do luxo as galas inimitáveis da natureza?
No enlace da valsa, o lindo par, ansioso de espaço, e sentindo-se
apertado na sala, alongara a elipse até a extremidade, voltando
por detrás de uma das jardineiras, onde não estava
ninguém naquela ocasião.
Houve um ápice, rápido como o pensamento, em que o
par achou-se oculto pelas longas palmas de uma musácea, que
se arqueavam graciosamente em umbela. Nesse momento um relâmpago
cegou-os a ambos.
Duas rosas se embalam cada uma em sua haste à aragem da tarde;
inclinam de leve o cálix e frisam-se roçando às
pétalas. Assim tocaram-se as frontes de Aurélia e
Fernando, e os lábios de ambos afloraram-se no sutil perpasse.
Foi um relance. O elegante par sumira-se atrás da folhagem,
e já emergia da sombra e nadava na claridade deslumbrante
da sala que ia de novo atravessar na elipse fugaz.
Mas Fernando sentiu na face um sopro gelado. Olhou: Aurélia
estava desmaiada em seus braços. A gentil cabeça ao
desfalecer não vergara para o peito. Como se a prendesse
o ímã dos olhos que a enlevara, inclinou à
espádua do cavalheiro, com o rosto voltado para ele.
Os lábios descorados moviam-se brandamente, como se a sua
alma, que ali ficara, estivesse conversando com a outra alma que
ali passara.
Seixas ergueu a mulher nos braços e levou-a da sala.
Capítulo
V
No meio do alvoroço
causado pelo incidente, enquanto acudiam médicos, vinham
os sais e corriam as amigas, umas inquie-tas, e outras curiosas,
choviam os comentos.
- Que imprudência!
- Aquele desespero!... Eu logo vi!
- E ela que não tem costume de valsar.
- Quis fazer-se de forte!
- Não é, senhora; aquilo foi o vestido. Não
vê como acocha a cintura.
- Ora! Romantismos!... dizia Lísia com um muxoxo, e acrescentou
para Adelaide: Acredita no desmaio?
- Pensa que foi fingimento?
- Requebros com o marido. Queria que ele a carregasse no meio da
sala e à vista de todos. Gosta de mostrar que Seixas a adora
e derrete-se por ela! Pudera não! Uma boneca de mil contos!...
Nesse tema continuou a menina, que tinha a balda muito comum de
falar como um realejo, pensando que assim abismava os outros com
um espírito gasoso, quando ao contrário aguava o que
a natureza lhe dera.
Entretanto Seixas tinha conduzido a mulher ao toucador e deitara
o belo corpo desmaiado em um sofá. Estava inquieto, mas não
aflito. No transportar a moça havia sentido o calor de sua
epiderme e o pulsar do coração. Não passava
o acidente de ligeira síncope.
Com efeito, antes que a inundassem de éter ou álcali,
e que lhe desatassem a cintura, Aurélia abriu os olhos e
arredou com um gesto as pessoas que se apinhavam junto ao sofá.
- Não é nada: uma tonteira, já passou.
O médico que tomava-lhe o pulso confirmou, limitando-se a
recomendar além do repouso, o desafogo do vestido para respirar
melhor.
- Não é preciso; basta que me deixem espaço,
respondeu Aurélia.
Retiraram-se todas as senhoras e voltaram à sala. D. Firmina
demorou-se com intenção de não deixar a moça;
mas esta pediu-lhe que a subsituísse nas funções
de dona da casa.
- Fernando fica. Vá para a sala; e faça continuar
a dança. Estou boa; não tenho nada. Se constrangerem-se,
é que me incomodam; cismarei que estou doente!
D. Firmina riu-se, inclinou-se para beijar a moça na testa
e voltou à sala. Ao aproximar-se da porta viu alguns curiosos
que espiavam para dentro, e cerrou as duas bandas fechando-as com
a aldraba.
Aurélia ficara deitada no sofá, de costas, na posição
inclinada em que Seixas a colocara sobre as almofadas. Quando D.
Firmina afastou-se, ela cerrara outra vez as pálpebras, e
engolfou-se no sonho delicioso a que a tinham arrancado.
Sua mão tateou hesitando pela borda do sofá, e encontrou
a de Seixas que estava sentado junto dela, e contemplava a formosa
mulher, ainda mais bela nesse langue delíquio, do que em
suas deslumbrantes irradiações.
- Eu caí na sala?... murmurou Aurélia sem abrir os
olhos, e corando de leve.
- Não, respondeu Seixas.
- Quem segurou-me?
- Podia eu confiá-la a outro? disse Fernando.
Os dedos da moça responderam apertando a mão do ma-rido.
- Quando vi que tinha desmaiado, tomei-a nos braços e trouxe-a
para aqui.
- Para onde?
- Para seu toucador. Não conhece?
- Não me lembro.
Seixas calou-se. Aurélia permaneceu na mesma imobilidade,
com a mão do marido presa na sua, que às vezes recebendo
uma ligeira vibração contraía-se.
Nisto bateram discretamente à porta. Seixas fez movimento
de erguer-se para ver quem era; mas Aurélia ao fugir-lhe
a mão que tinha na sua, ergueu-se em pé de um jacto,
e lançando os dois braços ao colo do marido, curvou-o
sob esse jugo irresistível.
Seixas foi obrigado a sentar-se outra vez; e Aurélia deixando-se
cair também sentada sobre o sofá, o retinha fechado
na mimosa cadeia, enquanto dardejava à porta o olhar colérico,
erigindo o busto com a retração serpe que enrista-se
para o bote.
Que se passava nesse momento no espírito da moça exaltada
pelas comoções dessa noite?
Afigurava-se a Aurélia que achara enfim a encarnação
de seu ideal, o homem a quem adorava, e cuja sombra a tinha cruelmente
escarnecido até àquele instante, esvanecendo-se quando
ela julgava tê-lo diante dos olhos.
Agora que o achara, que ele aí estava perto dela, que tomara
posse de sua vida, parecia-lhe no desvario de sua alucinação
que o queriam disputar-lhe, arrancando-o de seus braços,
e deixando-a outra vez na viuvez em que se estava consumindo.
- Não!... Não quero!... exclamou com veemência.
Continuavam a bater.
- Podem abrir, Aurélia, e surpreender-nos!
Estas palavras do marido, ou antes o receio que as ditava, provocaram
em Aurélia um assomo ainda mais impetuoso.
- Que me importa a mim a opinião dessa gente?... Que me importa
esse mundo, que separou-nos! Eu o desprezo. Mas não consentirei
que me roube meu marido, não? Tu me pertences, Fernando;
és meu, meu só, comprei-te, oh! sim, comprei-te muito
caro...
Fernando erguera-se como impelido por violenta distensão
de uma mola e tão alheio de si que não ouviu o fim
da frase:
- Pois foi ao preço de minhas lágrimas e das ilusões
de minha vida, concluiu a moça, que ao movimento de Seixas
soerguera-se também suspensa pela cadeia com que lhe cingia
o pescoço.
Seixas dominara o ímpeto que o precipitava, e conseguiu afogá-lo
no escárnio, que é uma válvula para essas grandes
comoções da alma. Sentou-se de novo, e murmurou ao
ouvido da mulher, que o inundava com seu olhar:
- O lenço?
- O lenço?... repetiu a moça maquinalmente.
E apanhando seu lenço de rendas que jazia sobre o sofá,
olhou-o como se buscasse nele explicação daquela singular
pergunta do marido.
Súbito estremeceu com abalo tão forte que a levantou
em pé, soberba de ira e indignação.
Não se desmanchara um só anel de seus cabelos, que
se cacheavam em torno da cerviz com a mesma correção,
não se amarrotara nenhum dos folhos de seu trajo vaporoso
e todavia quem contemplasse Aurélia nesse momento, acreditaria
na desordem do lindo vestuário, tal era a exacerbação
que perspirava de toda sua pessoa.
A aurora serena dessa beleza, ainda há pouco dourada dos
níveos raios de luz coada pelo cristal fosco, transformara-se
de repente na tarde incendiada pelos sinistros clarões da
borrasca. A estrela fizera-se relâmpago; o anjo despira as
asas celestes, e vestira o fulgor lucífero. Aurélia
soltou uma gargalhada:
- Tem razão!... É o único amor que pode haver
entre nós!
A mão da moça que machucava convulsivamente o lenço,
ergueu-se para arremessá-lo a Seixas, com as palavras de
desprezo que acabava de proferir. Mas foi apenas um simulacro; a
meio do gesto a mão retraíra-se com energia.
- Se fosse possível que eu decaísse de minha virtude,
e até da minha altivez, havia um homem a quem não
me rebaixaria jamais! De todas as indignidades, a maior seria a
profanação do único amor de minha vida!
Com o sibilo da voz da moça ao soltar estas frases, misturou-se
o esgarço das rendas do lenço que ela acabava de despedaçar.
Aproximando então as tiras do gás que ardia em uma
arandela ao lado do espelho do toucador, comunicou-lhes a chama
e deixou-as consumirem-se sobre o mármore.
Haverá quem acuse Seixas, de ter, no momento em que a mulher
lhe fazia confissão de seu amor e lhe oferecia um perdão
espantâneo, proferido aquela palavra que envolvia um insulto
cruel.
Ele próprio, que pouco antes não achava uma expressão
bastante eloqüente para sua revolta, ali estava agora arrependido,
com os olhos compassivos fitos na mulher, que abria uma janela,
e encostava-se à sacada para banhar-se na brisa e na treva
da noite.
E não só arrependia-se. Pela primeira vez duvidava
disso a que ele chamava sua honra.
Na mesma noite, em que Aurélia lhe infligira a atroz humilhação
desse consórcio monstruoso do sarcasmo com a vergonha, Seixas
considerou-se impossível para semelhante mulher. Não
poderia amá-la nunca mais, e ainda menos aceitar seu amor.
Até o momento da revelação afrontosa, seu procedimento
podia ser repreensível ante uma moral severa; mas não
ia além de um casamento de conveniência, cousa banal
e freqüente, que tinha não somente a tolerância,
como a consagração da socie-dade.
Desde porém que esse casamento de conveniência fora
convertido em um mercado positivo, ele julgava uma infâmia
para si, envolver sua alma e afundá-la nessa transação
torpe.
Seu corpo sim estava vendido; ele não o podia subtrair ao
indigno mister, desde que havia recebido o salário. Mas a
alma nunca! Tivesse-o embora essa mulher na conta de um espe-culador
sem escrúpulos, ele sentia que a honra não o abandonara;
e que se outrora ia-se embotando, esse acidente lhe restituíra
o vigor.
Foi este pensamento, que Seixas sob a impressão das suspeitas
relativas ao Abreu, enunciou de um modo vago a Aurélia no
diálogo que travara com ela no princípio da noite.
Veio, porém, a valsa, e ele subjugado pela beleza da mulher,
e por sua prodigiosa fascinação, esqueceu todos os
protestos de dignidade; só viveu na adoração
do ídolo, a que não o conseguira arrancar sua apostasia.
O desmaio arrefeceu a exaltação do amante. Sentado
à cabeceira do sofá, onde Aurélia se conservava
deitada, com os olhos cerrados, apertando-lhe a mão por intermitentes
pulsações dos dedos, ele não se pôde
esquivar a uma reflexão, que o reclamava.
Aquela vertigem súbita na circunstância em que se dera,
e tão prontamente dissipada, seria uma afetação?
Não estaria a moça representando uma cena da comédia
matrimonial que a divertia?
Seixas, apesar da revolução que nele se havia operado
nos últimos seis meses, ainda não gastara de todo
seus hábitos de homem de sociedade para quem a vida é
uma série de etiquetas e cerimônias, regradas pelo
uso.
A rotina da sala não conhece os movimentos impetuosos e desordenados
das paixões. Ali tudo se faz com regra e medida. Uma menina
que desde os sete anos se habitua a entregar os lábios às
carícias dos amigos da casa, recebe o seu primeiro beijo
de amor com um pudor gracioso, mas sereno.
E o homem que sugara tantas bocas travessas, como se fossem os cálices
de cristal rosa onde libava goles de moscatel; esse homem que tivera
em seus braços, calmas e risonhas, tantas namoradas, podia
compreender que a ponta da asa de um ósculo, pois não
fora outra cousa, causasse um desmaio?
Aurélia tinha em suas relações com o marido,
especialmente nos instantes de animação, gestos e
atitudes de uma grande expressão dramática. Esses
movimentos naturais não eram senão acenos das paixões
e sentimentos de sua alma; pareciam artísticos porque revestiam-se
de uma suprema elegância.
Seixas, admirando-os como poeta, suspeitava-os de teatrais; por
isso entrou-o a desconfiança de que Aurélia preparava-lhe
com todos aqueles rendimentos uma nova humilhação,
igual, senão maior, do que a da noite do baile, naquele mesmo
tou-cador.
Foi nessa disposição de espírito que penetrou-o
como a lâmina de um estilete, a frase comprei-o bem caro,
que o lábio de Aurélia vibrava com viva entonação.
Não ouviu mais nada; fez-se em sua consciência um imenso
deserto que enchia a só idéia do mercado aviltante.
O pensamento que o dominara antes da valsa, e que um enlevo passageiro
havia sopitado, ressurgiu.
Ele refugiou-se no sarcasmo, que desde o casamento era um derivativo
às sublevações de sua cólera. Sem intenção
de injúria, somente como acerba ironia, soltou a palavra
de que se arrependera.
Entretanto Aurélia na janela derramava a vista pelo azul
da atmosfera onde se recortava o perfil das montanhas. Uma nebulosa
vislumbrava o seu vago lampejo.
A moça ficou olhando-a um instante; e cuidou ver o rasto
de sua alma que subia ao céu.
- O ar da noite deve fazer-lhe mal, sobretudo agitada como está,
disse Fernando timidamente.
Julgando que a moça não o ouvira, aproximou-se e repetiu
sua observação.
- Engana-se! Estou calma; perfeitamente calma! disse a moça,
e para exibir a prova de sua afirmação deixou a sacada,
e expôs-se à claridade do gás.
Tinha no semblante, e em todo o aspecto, a inalterável serenidade
de que sabia revestir-se, quando queria conter e domar os impulsos
da paixão.
Fernando deu um passo e ia talvez pedir-lhe perdão, quando
a porta abriu-se. A pessoa que batera antes, como não lhe
abrissem, insistiu; mas desta vez resolveu-se a levantar a aldraba.
Era D. Firmina, que vinha saber notícias da moça.
- Bravo! Já de pé?
- E pronta para dançar! respondeu Aurélia rindo-se.
Aproximou-se do psichê, compôs as ligeiras perturbações
de seu traje, anelou um cacho dos cabelos, consertou os fofos da
saia, e tomou o braço do marido para entrar na sala.
- Não faça imprudências, Aurélia! disse
D. Firmina.
- Não tenha susto! Agora estou preservada.
A viúva não entendeu. Aurélia, afastando-se,
atirou em voz rápida esta advertência ao marido, cuja
fisionomia conservava os traços das comoções
por que passara:
- Sejamos desgraçados, mas não ridículos. Tudo,
menos dar minha vida em espetáculo a este mundo escarninho.
Todos estes incidentes foram curtos e sucederam-se tão breves,
que um quarto de hora depois do desmaio, Aurélia entrava
no salão pelo braço do marido, tão fresca e
viçosa como no princípio do baile, e ainda mais deslumbrante
de beleza.
Seus convidados ao vê-la caminharam ao seu encontro, mas não
puderam apresentar-lhe suas felicitações, porque a
orquestra despejava o mesmo turbilhão da valsa de Strauss,
e Aurélia volteava na sala com o marido.
- Que loucura!
Foi a voz que se ouviu de todos os cantos, Seixas quisera demovê-la,
mas ela o emudecera com uma palavra:
- É a reparação que o senhor me deve.
Valsaram tanto tempo quanto da primeira vez, e o mínimo alvoroço
não agitou esses dois corações, que ainda há
pouco se confundiam na mesma pulsação, e agora batiam
isolados e cadentes, apenas agitados pelo movimento, como ponteiros
de relógio. Havia entre ambos um oceano de gelo.
Acabada a valsa, Aurélia recebeu risonha as felicitações
das amigas e convidados; Seixas, censuras e exprobrações
por ter consentido em dançar segunda vez com a mulher.
- Podia ser-lhe fatal!
- Era preciso curar-me da vertigem, acudiu Aurélia rindo.
Ele tinha obrigação.
- E agora está curada? perguntou o general.
- Oh! para sempre!
O baile continuou cada vez mais animado.