SENHORA
José de Alencar
Capítulo VIII
Sucedem-se no
procedimento de Aurélia atos inexplicáveis e tão
contraditórios, que derrotam a perspicácia do mais
profundo fisiologista.
Convencido de que também o coração tem uma
lógica, embora diferente da que rege o espírito, bem
desejara o narrador deste episódio perscrutar a razão
dos singulares movimentos que se produzem n'alma de Aurélia.
Como porém não foi dotado com a lucidez precisa para
o estudo dos fenômenos psicológicos, limita-se a referir
o que sabe, deixando à sagacidade de cada um atinar com a
verdadeira causa de impulsos tão encontrados.
Remontemos pois o curso dessa nova existência de Aurélia
até à noite de seu casamento, quando a exaltação
que a animava durante a cena passada com Seixas, abatendo de repente,
a deixou prostrada no tapete da câmara nupcial.
Não foi propriamente um desmaio que a tomou, ou este não
passou de breve síncope. Mas o resto da noite, ela o passou
ali, sem forças nem resolução de erguer-se,
em um torpor intenso, que se não lhe apagava de todo os espíritos,
os sopitava em uma modorra pesada.
Tinha a consciência de sua dor; sofria acerbamente; porém
faltava-lhe naquele instante a lucidez para discriminar a causa
de seu desespero e avaliar da situação que ela própria
havia -criado.
Pela madrugada o sono, embora agitado, trouxe um breve repouso à
sua angústia. Dormiu cerca de uma hora, tendo por leito o
chão, e com a cabeça apoiada nesse mesmo estrado,
que devia servir de degrau à sua felicidade.
A claridade da manhã que filtrava pela cassa das cortinas,
despertou-a. Ergueu-se arrebatadamente e ao impulso de uma idéia
terrível, que atravessara como um raio de luz a sombra confusa
de suas reminiscências.
Correu à porta por onde saíra Seixas, e escutou presa
de viva inquietação. Por vezes levou a mão
à chave, e retirou-a assustada. Volveu a esmo os passos rápidos
pela casa; afinal aproximou-se da janela, sem intenção,
automaticamente.
Foi nessa ocasião que viu Seixas atravessar o jardim furtivamente
e entrar em casa. Ainda reinava o silêncio por toda essa parte
da habitação, de modo que ela pôde ouvir o leve
rumor dos passos do marido no próximo aposento.
Um riso de acre desprezo crispou-lhe os lábios.
- É um cobarde!
Depois do que se havia passado entre ambos, na noite de seu casamento,
pensava Aurélia, que só havia para Seixas dous meios
de quebrar o jugo humilhante a que o tinha submetido. Não
lhe restava senão matá-la a ela, ou matar-se a si.
Para uma dessas duas soluções se tinha a moça
preparado. É certo que às vezes seu coração
afagava uma esperança impossível. Se o homem a quem
amava, se ajoelhasse a seus pés e lhe suplicasse o perdão,
teria ela forças para resistir e salvar a dignidade de seu
amor?
Por este lance não teve ela de passar. Às suas primeiras
palavras, Seixas retraíra-se, para ostentar depois uma imprudência,
que ela jamais podia esperar, e que produziu em sua alma indizível
horror. O laço que a unia àquele homem tornou-se uma
abjeção, quase uma infâmia.
Entretanto, ao expeli-lo de sua presença, ainda esperava
que as palavras proferidas pelo marido fossem apenas uma ironia
amarga. Não concebia que tivesse amado um ente tão
depravado e vil. O cinismo que pouco antes a indignara, devia ter
uma reação.
Foi quando viu Seixas pela manhã que de todo acabou de convencer-se
da miséria do indivíduo. Então operou-se em
sua alma uma revolução, na qual soçobraram
todos os sentimentos bons e afetuosos, ficando à tona unicamente
os instintos agressivos e malignos que formam a lia do coração.
Quando Aurélia deliberara o casamento que veio a realizar,
não se inspirou em um cálculo de vingança.
Sua idéia, a que afagava e lhe sorria, era patentear a Seixas
a imensidade da paixão que ele não soubera compreender,
sacrificando sua liberdade e todas as esperanças para unir-se
a um homem a quem não amava e nem podia amar, desnudava a
seus olhos o ermo sáfaro em que lhe ficara a alma, depois
da perda desse amor, que era toda sua existência. Esse casamento
póstumo de um amor extinto não era senão esplêndido
funeral, em face do qual Seixas devia sentir-se mesquinho e ridículo,
como em face da essa o soberbo compenetra-se da miséria humana.
O sentimento que animava Aurélia podia chamar-se orgulho,
mas não vingança. Era antes pela exaltação
de seu amor que ela ansiava, do que pela humilhação
de Seixas, embora essa fosse indispensável ao efeito desejado.
Não sentia ódio pelo homem que a iludira; revoltava-se
contra a decepção, e queria vencê-la, subjugá-la,
obrigando esse coração frio que não lhe retribuía
o afeto, a admirá-la no esplendor de sua paixão.
Mas naquele instante, recordando as palavras que Seixas proferira
poucas horas antes; vendo-o tranqüilo e disposto a aceitar
como natural a terrível situação; pensando
no desbrio com que esse homem sujeitava-se a uma degradação
de todos os instantes, Aurélia tivera um verdadeiro ímpeto
de vingança.
Seixas queria afrontá-la com seu desgarro impudente. Pois
bem; ela aceitava o desafio; se esse infeliz não estava completamente
desamparado dos últimos resquícios do amor-próprio
e da vergonha, ela propunha-se a pungi-lo com o seu mais virulento
sarcasmo. A menos que a alma não estivesse morta, sentiria
o estigma do ferro em brasa.
Foi nestas disposições que Aurélia vestiu-se
para o almoço; e nessas disposições conservava-se
ainda na tarde em que saíra com o marido às visitas.
Todavia, quando no dia seguinte ao casamento, sentada na cadeira
de balanço, viu entrar Seixas na sala de jantar, sua resolução
vacilou. O aspecto nobre e distinto do mancebo, a elegância
natural de seu gesto, recobraram o prestígio que esses dotes
nunca deixam de exercer em espíritos elevados, e a que o
dela estava já afeito.
Não a abandonou o pensamento da vingança; mas o desabrimento
e a ira excitados pela indignação da véspera,
revestiram a forma cortês e o tom delicado, que raro e só
em um instante de violento abalo desamparam as pessoas de fina educação.
Nas alternativas desse desejo de vingança a miúdo
contra-riado pelos generosos impulsos de sua alma, se escoara o
primeiro mês depois do casamento.
Se abandonando-se à irritação íntima
que exacerbava-lhe o espírito, deleitava-se em flagelar com
o seu implacável sarcasmo a dignidade do marido; quando recolhia-se
depois de uma cena destas, era para desafogar o pranto e soluços
que intumesciam-lhe o seio. Então reconhecia que a vítima
de sua ira não fora o homem a quem detestava, mas seu próprio
coração, que havia adorado esse ente, indigno de tão
santo afeto.
Se fatigada desse constante orgasmo d'alma, sempre crispada pelo
escárnio, restituía-se insensivelmente à sua
índole meiga, as relações com o marido tomavam
uma expressão afetuosa;- de repente a invadia um gelo mortal,
e ela estremecia espavorida com a idéia de pertencer a semelhante
homem.
Assim chegou Aurélia àquela noite de luar, em que
Seixas falava de poesia, e ela escutava reclinada a seu braço
no enlevo de que a arrancara dolorosamente uma palavra do marido.
Quando a sós consigo pensou neste incidente, encheu-se de
terror. Houve um instante, rápido embora, no qual chegou
a lamentar que Seixas não tivesse conseguido enganá-la
nessa ocasião adormecendo ou antes cegando-lhe os brios.
Quando se dissipasse essa ilusão, seria tarde, e ela pertenceria
irrevo-ga-velmente ao marido.
Este sentimento, que apenas pronunciado ela repeliu com todas as
forças de sua alma, deixou-lhe contudo um desgosto profundo,
acompanhado do pânico de semelhantes alucinações.
Daí a irritabilidade que desde então a possuía,
e que tocara ao auge nessa tarde das visitas.
Entretanto em seu toucador, Aurélia tinha febre: febre da
paixão que a abrasara. Abriu todas as portas e janelas, atirou-se
vestida como estava sobre o divã, e ali ficou imóvel,
como a vira Seixas pela broca da fechadura.
Assustado com essa imobilidade, o marido ia bater, quando a mucama
atravessou por diante do quadro iluminado, o qual apagou-se de repente.
Fechara-se a porta do toucador, refletida pelo espelho.
No dia seguinte Aurélia deixou-se ficar em seu aposento toda
a manhã. Voltando da repartição, Seixas encontrou-a
pálida e abatida.
Ao jantar foi D. Firmina quem fez os gastos da conversação.
Na véspera a viúva passara a noite em uma casa da
vizinhança, onde havia reunião semanal. Acertou falar-se
no Abreu, que di-ziam ter caído na miséria. Por essa
ocasião recordaram-se todas as extravagâncias e prodigalidades,
com que o rapaz havia esbanjado em pouco mais de ano, a avultada
herança deixada pelo pai.
D. Firmina repetindo o que ouvira lamentava a sorte do Abreu que
sacrificara tão bonito futuro. Revestindo-se dessa moral
severa, que em geral se cultiva para uso alheio e não para
o próprio gasto, acusava o rapaz com excessivo rigor.
- A culpa não é dele, D. Firmina, observou Aurélia
voltando de sua distração.
- De quem mais pode ser? perguntou a viúva.
- De quem o fez rico, não o tendo educado para a riqueza.
O ouro desprende de si não sei que miasmas que produzem febre,
e causam vertigens e delírios. É necessário
ter um espírito muito forte, para resistir a essa infecção;
ou então possuir algum santo afeto, que o preserve do veneno,
sem o que sucumbe-se infalivelmente.
- Quer dizer que a riqueza é um mal, Aurélia?
- Não é um mal; muitas vezes torna-se um bem; mas
em todo o caso é um perigo. Aqueles que se exercitam em jogar
as armas, pensam que tudo se decide pela força. O mesmo acontece
com o dinheiro. Quem o possui em abundância, persuade-se que
tudo se compra.
Tinham acabado de jantar. Aurélia ergueu-se da mesa e entretinha-se
em dar aos canários as migalhas de pão, que esfarelava
na palma da mão.
Entretanto, Seixas acendera o charuto e seguia distraído
pela rua que serpeando entre os tabuleiros de margaridas e os tapetes
de relva, ia sumir-se em um bosque de palmeiras. O mancebo recordava-se
das cenas da véspera, cotejava-as com as palavras que pouco
antes haviam escapado a Aurélia, e buscava a explicação
do enigma.
Interrompeu-o a voz da moça que achava-se a seu lado.
- Este passeio todas as tardes já deve aborrecê-lo.
Por que não sai a cavalo? Deve distrair-se.
Aurélia falava brincando com as flores para evitar que seu
olhar encontrasse o de Seixas.
- Sua companhia não me pode aborrecer nunca.
- Sempre, torna-se monótona.
- Demais é o meu dever, tornou Seixas frisando a palavra.
Aurélia afastou-se; deu alguns passos, esteve reparando nas
flores escarlates de uma trepadeira a que chamam brincos-de-dama,
e tendo-se firmado na resolução que a preocupava,
tornou para o marido.
- Nossos destinos estão ligados para sempre. A sorte recusou-me
a felicidade que sonhei. Tive este capricho que nenhuma outra o
possuiria, enquanto eu viva. Mas não pretendo condená-lo
ao suplício desta existência, que vivemos há
mais de um mês. Não o retenho; é livre; disponha
de seu tempo como lhe aprouver, não tem que dar-me contas.
A moça calou-se esperando uma resposta.
- A senhora deseja ficar só? perguntou Seixas. Ordene, que
eu me retiro, agora como em qualquer outra ocasião.
- Não me compreendeu. Há um meio de aliviar-lhe o
peso dessa cadeia que nos prende fatalmente e de poupar-lhe as constantes
explosões de meu gênio excêntrico. É o
divórcio que lhe ofereço.
- O divórcio? exclamou Seixas com vivacidade.
- Pode tratar dele quando quiser, respondeu Aurélia com um
tom firme e afastou-se.
Capítulo
IX
Seixas surpreso
e agitado pela proposição da moça, refletiu
um momento.
O resultado dessa reflexão foi aproximar-se da mulher, ocupada
nesse momento a ver os peixinhos vermelhos do tanque fervilharem
à tona d'água para devorar os bocados de um jambo
com que ela os tentava.
- Estes peixes agora a divertem; disse Fernando. Se amanhã
a aborrecerem, mandará que os deitem fora, e que os deixem
morrer à fome?
A moça ergueu para o marido os olhos cheios de surpresa.
- Talvez nunca lhe acontecesse refletir sobre este problema social,
continuou Fernando. O senhor tem o direito de despedir o cativo,
quando lhe aprouver?
- Creio que ninguém porá isso em dúvida, respondeu
Aurélia.
- Então entende que depois de privar-se um homem de sua liberdade,
de o rebaixar ante a própria consciência, de o haver
transformado em um instrumento, é lícito, a pretexto
de alforria, abandonar essa criatura a quem seqüestraram da
sociedade? Eu penso o contrário.
- Mas que relação tem isso?...
- Toda. A senhora fez-me seu marido; não me resta outra missão
neste mundo; desde que impôs-me esse destino sacrificou meu
futuro, não tem o direito de negar-me o que paguei tão
caro, pois o paguei a preço de minha liberdade.
- Essa liberdade, eu a restituo.
- E pode restituir-me com ela o que perdi alienando-a?
- Receia talvez o escândalo que produzirá o divórcio.
Não há necessidade de publicarmos nossa resolução;
podemos viver inteiramente estranhos um ao outro na mesma cidade,
e até na mesma casa. Se for preciso, temos o pretexto das
viagens por moléstia, da mudança de clima, do passeio
à Europa.
- A senhora fará o que for de sua vontade. A minha obrigação
é obedecer-lhe, como seu servo, contanto que não lhe
falte com o marido que a senhora comprou.
Aurélia fitou no semblante de Seixas um olhar soberano:
- Acredita que eu possa mudar de sentimentos para com o senhor?
- Não tenha esse receio. Se eu não estivesse convencido
que o amor entre nós é impossível, não
estaria aqui neste momento.
Estranho sorriso iluminou a fronte de Aurélia, que vibrou
com um gesto de sublime altivez.
- Qual é então o motivo por que não aceita
o que lhe ofereço?
- O que a senhora me oferece custou-lhe cem contos de réis,
e receber esmolas desse valor é roubar ao pródigo
que as deita fora.
- Como quiser! disse Aurélia desdenhosamente. O senhor pensa
decerto que sua presença me incomoda, e por isso lhe sorri
a idéia de impô-la como uma contrariedade. Engana-se;
pode ficar; não era por mim, mas por si mesmo que oferecia-lhe
a separação. Rejeita-a? Melhor; não poderá
queixar-se pelo que venha a acontecer.
Apesar da recusa de Seixas, suas relações com Aurélia
tornaram-se desde aquela tarde mais esquivas. A moça já
não caprichava como nas primeiras semanas em passar a maior
parte do tempo na companhia do marido. Este de seu lado, receando
tornar-se importuno, conservava-se arredio enquanto a mulher não
manifestava o desejo de tê-lo perto de si.
Dias houve em que não se viram. Seixas saía muito
cedo para a repartição; Aurélia ia jantar com
alguma amiga; só no outro dia às 4 horas da tarde
se encontravam de novo.
Essas tardes em que Fernando ficava sozinho em casa, pois D. Firmina
acompanhava Aurélia, ele as aproveitava para ir ver a mãe,
que ainda habitava na mesma casa da Rua do Hospício.
Excitava reparo entre os conhecidos de D. Camila, que o filho a
deixasse na vida obscura e necessitada, em vez de chamá-la
para sua companhia, ou pelo menos de ajudá-la a passar com
outra decência e abastança.
D. Camila não se queixava; mas apesar de seus extremos por
aquele filho, e da abnegação de sua ternura, tinha
estranhado consigo, que Fernando depois de casado, não pensasse
em dar às irmãs uma lembrança qualquer.
Mui raras vezes aparecia Fernando em casa da mãe, e de passagem.
Nisso não reparava D. Camila; embora lamentasse que a posição
do filho e seus deveres sociais não lhe permitissem possuí-lo
por mais tempo.
Mariquinhas a princípio excitava a mãe para irem à
casa de Seixas nas Laranjeiras e até para lá passarem
um dia. A mãe desabituada à sociedade receava-se da
crítica de Aurélia. Todavia essa razão não
a demoveria se Fernando insistisse; porém ele ao contrário
fez-se desentendido e desconversou aos primeiros rodeios da irmã.
Não passou desapercebida a Aurélia essa esquivança
da família do marido. Uma tarde em que Seixas recebeu à
sua vista um bilhete de Nicota, ela o interpelou:
- Sua família depois da noite de nosso casamento nunca mais
voltou a esta casa? Será por meu respeito?
- Não; o culpado sou eu que nunca lhes falei nisso.
- E por quê?
- Julgam-me feliz. Não quero roubar-lhes essa doce -ilusão.
- Aqueles que nos visitam e que freqüentamos não andam
iludidos?
- São indiferentes. Olhos de mãe lêem n'alma
do filho como em livro aberto; aquilo o que não vêem,
adivinham.
- Quer fazer uma aposta?
- Sobre?
- Sou capaz de enganá-la como tenho enganado a todos.
- É possível; ela não é sua mãe.
O bilhete de Nicota comunicava a Fernando o dia que fora marcado
para seu casamento, o qual celebrou-se na seguinte semana, em um
sábado conforme o uso geral.
Seixas ocultou da mulher essa particularidade. Na tarde em que devia
ter lugar o casamento, saiu de casa a pretexto de fazer uma visita
a um ministro, e assistiu à cerimônia. Levara à
irmã uma jóia; mas de valor insignificante para sua
riqueza.
Essa mesquinheza junta à circunstância de apresentar-se
a pé, fizeram suspeitar às pessoas presentes que a
imprevista opulência abalara o caráter de Seixas a
ponto de transformá-lo de perdulário que era, em refinado
avarento.
Outro casamento efetuou-se por esse tempo! Foi o do Dr. Torquato
Ribeiro com Adelaide Amaral.
Dias antes, o noivo recebeu por intermédio de Lemos um recado
de Aurélia, que pedia-lhe o seu recibo de cinqüenta
mil-réis, pois chegara a ocasião de pagá-lo.
Foi Ribeiro às Laranjeiras, cogitando na surpresa que a moça
lhe preparava.
- Aqui tem o que lhe devo; as três cifras são o presente
de Adelaide.
Ribeiro abriu o papel; era uma letra ao portador de cinqüenta
contos passada pelo Banco do Brasil. Ele fez um gesto de recusa;
a moça atalhou-o.
- Não tem o direito de rejeitar. Foi o preço da minha
felicidade. Meu tio garantiu ao Amaral que o senhor possuía
este dinheiro, sem o que ele não consentiria em desfazer
o casamento da filha com Fernando, e este não seria meu marido.
- Como lhe havemos de pagar nunca tamanho benefício? disse
o moço comovido.
- Sendo feliz, respondeu Aurélia.
- Basta-me ser tanto como a senhora.
- Como eu?
- Sim; não é tão feliz?
- Muito; como não pode imaginar!
Aurélia serviu de madrinha a Adelaide, e Seixas foi obrigado
a assistir a esse casamento, que desdobrava-lhe por assim dizer
diante dos olhos um passado a que ele em vão tentava subtrair-se.
Ali estavam juntas, diante do altar, duas mulheres a quem ele traíra
sucessivamente, e não arrebatado da paixão, mas seduzido
pelo interesse.
Quando absorto em suas cogitações, abandonava-se à
melancolia daquelas reminiscências, Aurélia que se
aproximara, murmurou-lhe ao ouvido:
- Mostre-se alegre. Quero que todos, mas principalmente esta mulher,
acreditem que sou feliz e muito. O senhor deve-me ao menos esta
ridícula satisfação em troca do que roubou-me.
Tomando o braço de Seixas, e reclinando-se com esse voluptuoso
orgulho da mulher que se rende a um imenso amor, dirigiu-se à
porta da igreja onde a esperava o seu carro.
Nesse momento, como durante a noite em casa do Amaral, não
houve quem não invejasse a felicidade do par formoso que
Deus havia acumulado de todos os dons, de formosura, de graça,
de mocidade, de amor, de saúde e de riqueza.
Tinham tudo isto, e não passavam de dois infelizes! Essa
festa alegre e aparatosa, ninguém imaginava que suplício
era para essas duas almas, que estavam queimando-se nas luzes da
sala e dilacerando-se nos sorrisos que desfolhavam dos lábios.
No dia seguinte, domingo, Aurélia deixou-se ficar em seu
aposento, e até quarta-feira não viu o marido.
Nem D. Firmina, nem os fâmulos, desconfiaram do fato, embora
suspeitassem de algum estremecimento entre os noivos.
Como nessas ocasiões, o marido e a mulher encerravam-se cada
um de seu lado; as pessoas da casa, ignorantes do interdito a que
fora condenada a câmara nupcial, presumiam que eles se correspondessem
por essa comunicação interior.
Estas esquivanças de Aurélia repetiram-se muitas vezes
daí em diante: Seixas percebeu que ela o evitava, e desconfiou
que sua presença começasse a importuná-la.
Não se enganava. Desde que a moça não achava
mais em si a irritação e o sarcasmo, em que a princípio
se deleitava seu coração, a aproximação
do marido a oprimia.
Seixas não a contrariava. Conservando-se em casa ao alcance
da voz e ao aceno da mulher, poupava-lhe o desgosto de o ver.
Entrava isso na resolução que havia tomado, mas não
era sem grande esforço e luta acérrima, que obtinha
de si permanecer ao lado dessa mulher para a qual se havia tornado,
ele o sentia, verdadeiro flagelo.
Uma razão poderosa o retinha, devemos supor, e tão
forte que subjugava a todo o instante a revolta de seus brios, magoados
pela aversão cheia de desdém da qual era alvo.
Desse tempo data a agitação em que laborou ele à
busca de um recurso para subtraí-lo à terrível
colisão. Todas as idéias que lhe sugeria seu espírito
alvoroçado, ele as aceitava com sofreguidão, para
logo as rejeitar com desânimo.
Afinal decidiu-se. Antes de ir à repartição
procurou Lemos, com quem só de passagem se encontrara depois
do casamento. O velho recebeu-o com o seu modo folgazão:
- Que honraria, meu amigo! Esta pobre casa não o me-recia!
- Tinha necessidade de falar-lhe! respondeu Seixas.
O velhinho piscou os olhos. Ele adivinhava que o moço não
o tinha procurado àquela hora, para fazer-lhe uma visita
de cortesia.
- Desejava consultá-lo, continuou Seixas hesitando. Consta-me
que as apólices vão baixar consideravelmente, e que
seria um bom negócio vendê-las neste momento para comprá-las
mais tarde, talvez daqui a dous meses.
- Não é mau; porém há outro melhor neste
momento, disse Lemos.
- Qual?
- Vender libras esterlinas.
- Não as possuo.
- Isso não impede.
- Não entendo.
- Venda a entregar no fim do mês, pelo preço de 12$.
Nesse tempo elas baixam a 10$ com certeza, e o senhor ganha em quinze
dias sem despender um real, uns contos de réis que não
fazem mal a ninguém.
- Agora compreendo. Dez mil libras deixariam...
- Vinte contos.
- E se ao contrário subirem?
- Perde a diferença.
- Aí está o risco.
- Só há um meio de ganhar sem risco; é o de
não pagar.
Seixas despediu-se, apesar das instâncias de Lemos, que desejava
levá-lo à Praça do Comércio.
Nesse mesmo dia encontrou Abreu que depois de ter esbanjado a herança,
dera em jogador, e vivia segundo era fama, da banca. Pela conversa
que tiveram os dous ficou o marido de Aurélia sabendo a rua
e número de uma casa onde todas as noites havia reunião
plena dos amantes da roleta.
Nessa noite Seixas saiu furtivamente de casa, e chamando um tílburi
dirigiu-se para a cidade. Quando porém transpunha o limiar
da porta, por onde se penetrava na Cova do Caco, tomou tal horror,
que deitou a fugir pela rua, e não parou senão em
casa.
Capítulo
X
No pavimento
térreo, ao lado esquerdo, havia na casa das Laranjeiras uma
varanda de estilo campestre, decorada com palmeiras vivas e corbelhas
de parasitas.
Servia de sala de bilhar, e aí costumava Aurélia e
o marido passarem a tarde, quando o tempo não convidava ao
passeio no jardim.
Aí foi Seixas encontrar dous grandes quadros, colocados nos
respectivos cavaletes. Na tela viam-se os esboços de dous
retratos, o de Aurélia, e o seu, que um pintor notável,
êmulo de Vítor Meireles e Pedro Américo, havia
delineado à vista de alguma fotografia, para retocá-lo
em face dos modelos.
Ao olhar interrogador do marido, Aurélia respondeu:
- É um ornato indispensável à sala.
- Julga que seja indispensável? Parecia-me ao contrário
inconveniente reproduzir ainda que seja por esse modo, uma presença
que tanto lhe deve importunar.
- Não se tira retrato d'alma. Felizmente!... observou Aurélia
com o misterioso sorriso que desde certo tempo acompanhava essas
palavras de sentido recôndito.
Seixas prestou-se passivamente ao papel de modelo. As sessões
à tarde tinham ficado reservadas para ele a fim de não
estorvar-lhe o trabalho da repartição.
Aurélia retirou-se, deixando-o em plena liberdade.
No dia seguinte, pela manhã, quando o pintor voltou para
trabalhar em seu retrato, a moça antes de tomar posição
fez-lhe suas observações acerca da expressão
fria e seca da fisionomia de Seixas.
- Pintei o que vi. Se deseja um retrato de fantasia, é outra
cousa, respondeu o artista.
- Tem razão; meu marido não anda bom. É melhor
interromper seu trabalho por alguns dias; eu lhe mandarei aviso
quando for ocasião.
Essa tarde Seixas achou Aurélia inteiramente outra da que
era nos últimos tempos. Sua expressão meiga, e sobretudo
a candura e singeleza de seu modo, restauraram em sua memória
a imagem da formosa menina de Santa Teresa, a quem amara outrora.
Deixou-se aliciar por essa ilusão, embora estivesse bem convencido
de que a veria dissipar-se de repente, e dolorosamente como as outras.
Mas sua alma tinha necessidade de repouso e ainda mais do conforto
de uma crença consoladora; abandonou-se àquela doce
quimera e quis persuadir-se de que revivia um idílio de seu
passado.
Aurélia trouxe a conversa para os assuntos que mais po-diam
seduzir um espírito poético e elegante como o de Seixas.
Falou de música, de versos, de flores e de artes. Quando
a ironia não lhe acerava a palavra, ela tinha uma exuberância
de afeto e ternura que manava de seus lábios e derramava
em torno de si uma atmosfera de amor.
À noite tocou piano e cantou os trechos prediletos do ma-rido.
Não era ela decerto, apesar dos elogios de D. Firmina, uma
mestra, nem mesmo uma discípula exímia e correta.
Mas poucas teriam seu gênio artístico; ela tocava por
inspiração, e o canto eram as emoções
de sua alma que ressoavam espontaneamente como os harpejos da brisa
no seio da floresta.
Os dias seguintes correram na mesma doce intimidade. À tarde
no jardim, ou admiravam juntos as flores, ou liam no mesmo livro
algum romance menos interessante do que o seu -próprio.
Seixas incumbia-se da leitura, e Aurélia escutava sentada
a seu lado. Às vezes, ou porque se distraísse um momento,
ou por sofreguidão de antecipar a narração,
reclinava-se para correr os olhos pela página, onde ia brincar
um anel de seus cabelos castanhos.
Foi no meio de uma dessas cenas que o pintor apareceu de novo. Seixas
deu sinal de contrariedade, que a gentileza de Aurélia conseguiu
desvanecer. Conservou durante a sessão a mesma expressão
afável e graciosa, que pouco antes iluminava seu nobre semblante,
e que fora a sua fisionomia de outrora, quando a subversão
da existência ainda não o tinha revestido de gravidade
melancólica.
Na manhã seguinte, Aurélia examinando o trabalho do
pintor, viu palpitante de emoção a sorrir-lhe o homem
que ela havia amado. Ele aí estava em face dela, destacando-se
da tela, onde o pincel do artista o havia fixado com admirável
felicidade. Era um desses retratos em que o modelo, em vez de impor-se,
inspira o artista; e que deixam de ser cópias e tornam-se
criações.
Ainda Aurélia estava enlevada em sua contemplação,
quando chegou o artista, que recebeu seus elogios acompanhados de
sinceros agradecimentos. O pintor supunha ter feito apenas uma obra
de arte. Como podia ele suspeitar o segredo dessa mulher, viúva
daquele marido vivo?
- O senhor há de tirar uma cópia desse retrato, para
ficar na sala com o meu. Quanto a este, desejo que tenha o trajo
com que me lembro de ter visto meu marido, quando o conheci. É
uma surpresa que pretendo fazer-lhe. Compreende?
- Perfeitamente.
- Peço-lhe, porém, que não toque no rosto.
- Fique descansada.
Aurélia explicou ao pintor o trajo que devia figurar no retrato
do marido e tomou posição para concluir o seu.
Ao voltar da repartição, notou Seixas que sua mulher
não conservava a mesma disposição de ânimo
em que a deixara na véspera. Não tornou à primitiva
irritação, mas foi a pouco e pouco retraindo-se, e
acabou por isolar-se de todo.
Passava os dias encerrada em seu toucador. Quando aparecia, era
sempre distraída e tinha o aspecto dessas pessoas que se
habituam a viver no mundo da fantasia, e que sentindo-se como aturdidas
quando descem à realidade, refugiam-se em suas quimeras.
A casa das Laranjeiras tornara-se uma verdadeira solidão,
habitada por dois cenobitas, que não se viam, nem tratavam,
a não ser na hora de jantar.
Ao levantarem-se da mesa, Aurélia escondia-se no fundo de
algum espesso caramanchão, de onde seguia de longe com os
olhos o vulto do marido, que passeava pelo jardim.
À noite cada um tomava seu livro; Seixas lia; Aurélia
aproveitava esses instantes de liberdade para tornar aos seus pensamentos,
e aos suaves devaneios que abandonava ao sair do toucador.
D. Firmina a princípio estranhara os modos de Aurélia;
mas era uma senhora de muito juízo, e bastante prática
da vida. Atinou logo com a causa dessa alteração,
e aproveitou a primeira oportunidade para dar mostra da sua perspicácia.
- Não acha Aurélia tão diferente do que era,
Sr. Seixas?
Fernando surpreendido pela pergunta volveu os olhos para a mulher,
cujo pálido semblante iluminado nesse momento por um reflexo
do Sol no ocaso, tinha a diáfana aparência da cera.
- Algum incômodo passageiro. Precisa sair da cidade, passar
algum tempo fora, na Tijuca ou em Petrópolis.
- Não tenho moléstia, respondeu Aurélia com
indife-rença.
- Moléstia não tem, Aurélia; mas é cousa
que se parece, tornou a viúva. E os passeios no campo são
excelentes para essas melancolias e desmaios que você anda
sofrendo.
- Engana-se, não sofro cousa alguma.
- Ora, não disfarce! Quem não vê que aí
anda volta de...
- De quê? insistiu Aurélia completamente alheia à
intenção da viúva.
- De um neném!
Soltou a moça uma gargalhada; mas tão descompassada
e ríspida que D. Firmina mais confirmou-se em sua convicção.
Fernando erguera-se a pretexto de regar os tabuleiros de violetas
de Parma, que rodeavam os pedestais das estátuas de -bronze.
Decorreram meses. De repente, sem causa conhecida, com o constraste
e o improviso que tinham as resoluções dessa mulher
singular, operou-se uma revolução na casa das Laranjeiras,
e na existência de seus moradores. Saiu Aurélia do
isolamento a que se condenara durante tanto tempo, mas para lançar-se
no outro extremo. Mostrava pelos divertimentos uma sofreguidão
que nunca tivera, nem mesmo em solteira. Entrou a freqüentar
de novo a sociedade, mas com furor e sem repouso.
Os teatros e os bailes não lhe bastavam; as noites em que
não tinha convite, ou não havia espetáculo,
improvisava uma partida que em animação e alegria,
não invejava as mais lindas funções da Corte.
Tinha a arte de reunir em sua casa as formosuras fluminenses. Gostava
de rodear-se dessa corte de belezas.
Os dias destinava-os para as visitas da Rua do Ouvidor, e os piqueniques
no Jardim ou Tijuca. Lembrou-se de fazer da praia de Botafogo um
passeio, à semelhança dos Bois de Boulogne em Paris,
do Prater em Viena, e do Hyde Park em Londres. Durante alguns dias
ela e algumas amigas percorriam de carro aberto, por volta de quatro
horas, a extensa curva da pitoresca enseada, espairecendo a vista
pelo panorama encantador, e respirando a fresca viração
do mar.
Os passantes olhavam-nas surpresos, e com um aspecto que traduzia
a malignidade de suas conjeturas. Aurélia não fazia
o mínimo caso dessas caras mexeriqueiras; mas as amigas incomodaram-se;
e ela foi obrigada a abandonar o lindo passeio às aves de
arribação.
Esta ânsia de festa e distrações sucedendo a
uma inexplicável apatia e recolhimento, faria desconfiar
que Aurélia buscava na sociedade, não o prazer, mas
talvez o esquecimento. Porventura tentava aturdir o espírito,
e arrancá-lo por este modo às cismas e enlevos em
que se engolfara por tantos dias?
- Deve estranhar esta febre de divertimentos? disse ela ao marido.
É uma febre, é; mas não tem perigo. Quero que
o mundo me julgue feliz. O orgulho de ser invejada, talvez me console
da humilhação de nunca ter sido amada. Ao menos gozarei
de um aparato de ventura. No fim de contas, o que é tudo
neste mundo senão uma ilusão, para não dizer
uma mentira? Assim desculpe se incomodo, tirando-o de seus hábitos
para acompanhar-me. Há de reconhecer que mereço esta
compensação.
- É minha obrigação acompanhá-la, e
me achará sempre disposto a cumpri-la. Moça, formosa
e rica, deve gozar da vida que lhe sorri. O mundo tem esta virtude;
o que não absorve, gasta. Daqui a algum tempo a senhora verá
a existência por um prisma bem diverso, e do passado não
lhe ficará senão a lembrança de um pesadelo
de criança.
- É o que eu procuro justamente. Que não dera eu para
apagar estas crenças, ou antes essas incômodas ilusões
de minha infância, com que educou-se minha alma, e conformar-me
à realidade da vida. Oh! se eu o conseguisse!...
A reticência desfez-se nos lábios da moça em
um sorriso sardônico.
- Então nos havíamos de entender!