SENHORA
José de Alencar
TERCEIRA PARTE
Posse
Capítulo
I
Chegando a seu
aposento Seixas nem teve tempo de sentar-se.
Arrimou-se como um ébrio à cômoda que estava
próxima ao corredor, e ali ficou no estupor da alma, violentamente
subvertida pela crise tremenda. Parecia uma criatura fulminada,
na qual arqueja apenas um último sopro. Sua respiração
angustiada sibilava-lhe nos lábios, como as vascas do moribundo.
E era este o único sinal de vida, nessa organização
jovem e rica de seiva.
De repente saiu daquele torpor, mas foi preciso um esforço
supremo para arrancar-se à insânia que o invadia. Em
seu rosto desenhou-se o pavor que dele se havia apoderado com a
idéia de que a vida o abandonava, ou pelo menos de que a
luz da alma ia apagar-se.
- Deus! Não me tires a vida neste momento. Agora mais do
que nunca preciso de minha razão.
Seixas arrojou-se pelo aposento a passos precípites, esbarrando-se
nos trastes, batendo de encontro às paredes; alucinado e
ao mesmo tempo impelido pelo desejo de arrebatar-se à obsessão
que o aniquilara.
Correu pela casa um olhar ansiado, buscando algum objeto a que seu
espírito se agarrasse, como o náufrago que trava do
menor fragmento no meio das ondas em que se debate. O rico toucador,
esclarecido por duas arandelas de cristal com velas cor-de-rosa,
ostentava os primores do luxo.
Então nessa alma sucumbida, luziu uma centelha. Foi o instinto
da elegância, por certo a corda mais vivaz dessa índole
poética e fidalga.
Seixas aproximou-se do toucador, levado por indefinível impulso;
e entrou a contemplar minuciosamente os objetos colocados em cima
da mesa de mármore; lavores de marfim, vasos e grupos de
porcelana fosca, taças de cristal lapidado, jóias
do mais apurado gosto.
À proporção que se absorvia nesse exame, ia
como ressurgindo à sua existência anterior, a que vivera
até o momento do cataclismo que o submergira. Sentia-se renascer
para esse fino e delicado materialismo, que tinha para seu espírito
aristocrático tão poderosa sedução e
tão meiga voluptuosidade.
Todos esses mimos da arte pareciam-lhe estranhos, e despertavam
nele ignotas emoções; tal era o abismo que o separava
do recente passado. Era com uma sofreguidão pueril que os
examinava um por um, não sabendo em qual se fixar. Fazia
cintilar os brilhantes aos raios de luz; e aspirava a fragrância
que se -exala-va dos frascos de perfumaria com um inefável
prazer.
Nessa fútil ocupação demorou-se tempo esquecido.
Por-ventura sua memória, atraída pelas reminiscências
que suscitavam objetos idênticos a esses, remontava o curso
de sua existência, e descendo-o, depois o trazia àquela
noite fatal em que se achava, e à pungente realidade desse
momento.
Recuou com um gesto de repulsão. Esses primores de arte que
pouco antes lhe acariciavam a imaginação, agora inspiravam-lhe
nojo. Apartou-se do toucador, e chegou à janela.
A noite estava plácida e serena. No céu recamado de
estrelas, a brisa cariciava uns frocos de nuvens alvas como a penugem
das garças. Uma onda trépida garrulava na bacia de
mármore coberta de nenúfares, que alçavam os
grandes e níveos cálices, aljofrados de orvalhos.
O arvoredo, que recortava-se bizarramente no horizonte luminoso
como um relevo gótico, estremecia com o doce arrepio da aragem,
que esparzia os aromas das rosas e das magnólias.
Seixas parou um instante a contemplar a doce placidez da natureza.
Essa calma suave da noite penetrou-o. Relaxaram-se-lhe as fibras
da alma.
Apoiando a fronte à ombreira da janela deixou cair as lágrimas
que lhe assoberbavam o seio.
Depois desse pranto que o desafogou, Seixas aproximou-se da elegante
escrivaninha de mirapininga, e a abriu. Ainda chegou a puxar a pasta
de chamalote escarlate. Na aba superior, dentro de um florão
branco, aparecia bordado em debuxo de ouro o seu monograma, F.R.S.,
entrelaçados.
Esteve a olhar maquinalmente essas letras que se lhe afigura-vam
um enigma. Como na fábula antiga, a esfinge o estu-pi-di-fi-cava.
Que significação tinha isso depois do desenlace que
momentos antes o havia arremessado à maior abjeção?
Afinal tomou a resolução que o levara à mesa.
Estendeu sobre a pasta uma folha de papel e preparou-se para escrever
uma -carta.
Mas a pena estacou ao penetrar no bocal do tinteiro. Seixas retirou-a
com vivacidade e examinou inquieto os bicos. Vendo-os intactos,
ergueu-se precipitadamente e percorreu o aposento.
Ao cabo de algum tempo voltou ao toucador, com um modo decidido.
Mudara de resolução.
Abriu as gavetas, e guardou nelas cuidadosamente todos os objetos
de preço que ali havia. Concluída a tarefa, trancou
o móvel e o mesmo fez a todos os outros de que poucas horas
antes o Lemos lhe fizera exibição.
Apesar da recomendação do tutor de Aurélia,
Seixas tinha pela manhã enviado uma secretária em
cujas gavetas inferiores acomodara a melhor roupa de seu uso, branca
e exterior.
Procurou esse traste e achando-o em um quarto próximo onde
o tinham colocado, verificou se com efeito ali estava a roupa; e
teve ao achá-la grande satisfação. Tirou de
si o rico chambre de seda, as chinelas de veludo; e vestiu-se com
um trajo mais modesto, dos que trouxera.
Na secretária havia charutos. Acendeu um e sentou-se à
janela. Sentiu-se com forças de encarar a situação
a que fora arrastado, e a crise em que se achava sua existência.
No meio das reflexões acerbas que lhe despertara a recordação
da cena recente, das revoltas por muito tempo contidas de sua dignidade
contra o orgulho da mulher que o humilhava, flutuava um sentimento
que afinal desprendeu-se do turbilhão de seus pensamentos
e o dominou.
Esse sentimento era a intensa admiração que lhe inspirava
a energia e veemência do amor de Aurélia. Havia nessa
paixão que o acabava de insultar uma beleza fera, que incutia-lhe
entusiasmo cheio de espanto.
- Não compreendi esse amor... E como podia eu com-preendê-lo?...
Se alguém me referisse o que se acaba de passar comigo, eu
receberia semelhante conto com um sorriso de incredulidade. Que
outrora, quando a família seqüestrava a mulher da sociedade,
a paixão subisse a esse auge, e absorvesse uma existência
inteira...
"Então não havia tempo de amar-se mais de uma
vez, e o amor deixava a alma exausta. Mas atualmente que a mulher
vive cercada de adoradores, e que todas as distinções
se ajoelham ante sua beleza, o amor não é mais do
que um capricho, uma doce preferência, um terno devaneio,
até que se transforme na amizade conjugal. Assim o imaginei
sempre, assim o senti e me foi retribuído. Quando Aurélia
me falava de sua afeição, estava bem longe de pensar
que ela nutrisse uma paixão capaz de tais ímpetos.
Pensava que eram romantismos. Não os tinha eu também?
Não jurei tantas vezes um amor eterno, que no dia seguinte
desfolhava no turbilhão de uma valsa? Esse amor que eu supunha
uma ilusão de poeta, um sonho da imaginação,
aí está em sua realidade esplêndida. Suas asas
de fogo roçaram por minha alma e a crestaram para sempre!..."
Seixas ficou um momento como extático ante a imagem que se
lhe debuxava no pensamento representando a figura de Aurélia,
quando soberba de cólera e indignação, o cobria
de acerbas exprobrações.
- Uma paixão como a sua tinha direito de ser implacável!...
E essa mulher que se deu a mim com a mais sublime abnegação,
essa mulher a quem a sorte ligou-me eternamente, essa mulher única,
eu a admiro, e não posso amá-la nunca mais! Encontrei-a
em meu caminho, e perdi-a para sempre! Também não
amarei outra. Depois de a ter conhecido, não profanarei minha
alma com a afeição de mulher alguma.
Os arrebóis da manhã já se arraiavam no horizonte.
Uma brisa mais fresca derramava-se no espaço, e os primeiros
atitos das aves misturavam-se com os rumores confusos da cidade,
que ia acordando por detrás dos muros da chácara.
Seixas desceu ao jardim, e percorreu os passeios sinuosos do prado
artificial coberto de fina grama, e recortado à inglesa.
Os tabuleiros de margaridas e boninas, abertas ao primeiro raio
de sol, recamavam com suas coroas matizadas a verde alcatifa de
relva. Fúcsias e begônias lastravam pelas grades das
latadas compondo graciosos bambolins com os tirsos de flores caprichosas.
Os botões das camélias e magnólias cheios de
seiva haurida com a frescura da noite, esperavam o calor do dia
para desabrochar, enquanto as flores da véspera que tinham
cerrado o seio à tarde, abriam-no de novo, mais pálido
e langue, para despedir-se do sol, que lhe tinha dado a vida, e
a crestara, como o caprichoso artista.
Seixas, como homem de sociedade que era, conhecia a natureza de
tradição apenas, ou quando muito de vista. As árvores,
as flores, as perspectivas, eram para ele ornatos, que se confundiam
com os tapetes, cortinas, trastes, dourados e toda a casta de adereços
inventados pelo luxo.
À força de viverem em um mundo de convenção,
esses homens de sociedade tornam-se artificiais. A natureza para
eles não é a verdadeira, mas essa fictícia,
que o hábito lhes embutiu, e que alguns trazem do berço,
pois aí os espera a moda para fazer neles presa, transformando-lhes
a mãe, em uma simples produtora de filhos.
Freqüentemente, em seus versos, Seixas falava de estrelas,
flores e brisas, de que tirava imagens para exprimir a graça
da mulher, e as emoções do amor. Pura imitação:
como em geral os poetas da civilização, ele não
recebia da realidade essas impressões, e sim de uma variada
leitura. Originais somente são aqueles engenhos que se infundem
na natureza, musa inexaurível porque é divina. Para
isso é preciso, ou nascer nas idades primitivas, ou desprezar
a sociedade e refugiar-se na solidão.
Naquele momento porém, assistindo ao romper do dia, ali no
meio do jardim, Seixas sentia que além das cores brilhantes,
das formas graciosas e dos perfumes agrestes, havia alguma cousa
de imaterial que palpitava no seio desse ermo, e que infundia-se
em seu ser. Era a alma da criação que o envolvia,
e comungava com sua alma a inefável serenidade da límpida
e fresca manhã.
Com a calma que derramou-se em seu espírito, ainda mais robusteceu-se
a resolução tomada pouco antes. Encheu-se dessa fria
resignação, que imprime à alma uma têmpera
inflexível.
Tirou-o de suas cogitações um rumor, que levantava-se
ali perto. Voltou-se, e reconheceu que estava próximo à
grade exterior, oculta nesse lugar pela folhagem do arvoredo. Afastou
os ramos e aproximou-se para conhecer a causa do ruído. Talvez
receasse que o estivessem espreitando, e talvez fosse movido por
essa curiosidade fútil que se apodera do homem, a quem um
abalo violento arrancou às preocupações habituais.
Um mascate de quinquilharias arreara na calçada a caixa que
trazia a tiracolo, e sentado no chão, com as costas apoiadas
ao muro, fazia suas contas e dava balanço à mercadoria.
Ou madrugara com intenção de estender o giro, ou apanhado
pela noite longe da casa, a passara em alguma estalagem, e ia agora
recolhendo-se, o que parecia mais provável.
Na tampa emborcada da caixa, viam-se presos de cadarços,
pregados vários objetos, que atraíram especialmente
a atenção de Seixas.
Fez ele um movimento para diante, como se quisesse chamar o mascate.
Retraiu-se porém com certo vexame; dir-se-ia que estivera
a praticar uma leviandade, da qual o advertira em tempo sua razão.
Como quer que fosse, ao cabo de alguma hesitação,
venceu a primeira repugnância, mas não ao pejo do ato
que ia praticar. Lançou pelos arredores um olhar perscrutador
e verificando que a rua estava deserta, estendeu o braço
fora da grade e bateu no ombro do mascate:
- Chi va... exclamou o mascate voltando-se.
Não viu as feições de Seixas que se afastara
da grade, e escondia-se por trás da folhagem; mas percebeu
uma nota de dois mil-réis que flutuava acima da cabeça,
e tinha para ele decerto mais encanto do que a fisionomia do freguês.
- Um pente e uma escova de dentes, disse Seixas em tom rápido.
Depressa!
- Questo? perguntou o mascate tirando da tampa um pente de búfalo.
- Sim, qualquer. Não posso esperar.
O mascate passou os objetos, arrecadou a nota e querendo apresentar
o troco percebeu que o freguês havia desaparecido.
- Che birbone!
Entendeu o mascate que um dinheiro assim atirado fora com tanto
desamor, era furtado; e por cautela foi arrumando a trouxa e fazendo-se
ao largo, antes que lhe surgisse alguma compli-cação.
Entretanto Seixas ganhava seus aposentos com receio de que o descobrissem
no jardim àquela hora matinal, e suspeitassem do que ocorrera.
A casa porém não dava o menor sinal da la-butação
diária. Todos decerto dormiam ainda sob a influência
da festa nupcial.
Fazendo esta observação, lembrou-se Fernando da posição
em que deixara Aurélia na véspera, e de si mesmo inquiriu
que teria ela feito nessa longa noite de agonia. Naturalmente passara-a,
extasiando-se no júbilo da humilhação que lhe
infligira, e afinal saciada dessa vingança brutal, adormecera
na febre de seu or-gulho.
Se ao atravessar o jardim ele examinasse disfarçadamente
as janelas desse lado de casa, talvez satisfizesse em parte sua
curiosidade. Uma das alvas e diáfanas cortinas de cassa estendidas
por detrás da vidraça, tinha-se esfumado de uma sombra
interior que desenhava o contorno delicado de um busto.
Já era sol alto quando Seixas ouviu mexer na maçaneta
da porta, que de seus aposentos comunicava para o interior da casa.
Era sem dúvida o criado que vinha preparar-lhe o toucador
para o asseio da manhã. Achando a porta fechada e pensando
que era escusado bater àquela hora, retirou-se.
Havia água no jarro de porcelana de Sèvres, que ornava
o rico lavatório de pau-cetim. Seixas esteve em dúvida
algum tempo; mas pensando que a louça não perdia o
seu verniz de novidade por ser molhada uma vez, resolveu-se a lavar
o rosto no serviço luxuoso. Usou porém no resto de
seu adereço, do pente e escova que havia comprado.
Terminando, enxugou com uma toalha de seu próprio enxoval
a bacia e o lavatório; trancou em sua secretária os
objetos que o podiam denunciar; e abrindo a porta de comunicação,
sentou-se, já vestido e pronto com seu costumado apuro, na
otomana, à espera... Nem ele sabia de quê. Depois da
decepção que o precipitara do cúmulo da felicidade
àquela incrível situação, podia ele
conhecer que peripécias ainda lhe reservava o drama em que
se agitava sua existência?
Com pouco apareceu o criado.
- O senhor já está pronto? Eu vim preparar o toucador,
mas achei a porta fechada.
- Nada faltou, respondeu Seixas.
- O senhor ordena que lhe traga os jornais a seu gabinete, para
os ler logo ao acordar, ou quer que fiquem na saleta?
- Onde ficavam até agora?
- Na saleta...
- É melhor assim.
- É como o senhor mandar. Foi a ordem que recebi.
O criado lançava um olhar pelo aposento, muito admirado da
ordem em que encontrava todo os objetos, inclusive os adereços
do lavatório.
- O cocheiro pergunta se o senhor quer sair antes do almoço?
De carro ou a cavalo?
- Não, obrigado.
- A Diana já está selada. Mas em um momento pode-se
mudar a sela para o Nélson, ou aprontar-se a vitória.
- É escusado.
- A que horas o senhor deseja almoçar?
- À hora do costume. Não há necessidade de
alterar.
- Então às dez.
O criado retirou-se para voltar uma hora depois:
- O almoço está na mesa.
- Quem mandou chamar?
- A senhora.
Seixas fez um aceno de cabeça, e deixou-se conduzir pelo
criado.