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SENHORA
José de Alencar


Capítulo VII

Brincava Fernando com as irmãs, quando bateram palmas à escada.
As meninas fugiram pela alcova; o Seixas, sem mudar de posição, disse em alta voz:
- Suba!
Este modo de receber tão sem-cerimônia, talvez cause reparo em um moço de educação apurada, mas Seixas não era procurado em casa senão por algum caixeiro, ou por gente de condição inferior.
Borbotou, é o termo próprio, borbotou pela sala a dentro a nédia e roliça figura do Sr. Lemos que de relance fez às car-reirinhas um ziguezague e atochou à queima-roupa no Seixas estático três apertos de mão um sobre o outro, coroados das respectivas cortesias.
- É ao Sr. Fernando Rodrigues de Seixas que tenho a honra de falar?
O nosso escritor ergueu-se de pronto. Compondo as abas do chambre com um gesto rápido, tomou o ar de suprema distinção, que ninguém revestia com tanta nobreza e tacto.
- Tenha a bondade de sentar-se; disse oferecendo ao Lemos o sofá; e desculpar-me este desarranjo de quem acaba de chegar.
- Sei. Desembarcou ontem?
Seixas confirmou com a cabeça:
- A quem tenho a honra de receber?
Lemos tirou do bolso uma carta que apresentou ao moço, fitando nele o olhar perspicaz.
- A pessoa que me fez a honra de apresentá-lo, Sr. -Ra-mos, merece-me tudo. É para mim uma fortuna esta ocasião de -provar-lhe minha estima, pondo-me inteiramente às ordens de V. S.ª.
Quando Seixas pronunciou o nome Ramos, o velhinho desfez-se em mesuras corrigindo Lemos, mas com uma presteza e no meio de tais afinados de garganta, que não o percebeu o seu interlocutor.
Eis a explicação do equívoco. Ao chegar à sua casa na Rua de São José, Lemos tinha traçado um plano, como indicava este monólogo:
- O que não tem remédio, remediado está. Desengane-se, meu Lemos: com a tal menina é escusado trapacear que ela corta-lhe as vasas. Portanto o que de melhor pode fazer um espertalhão da sua marca, é tirar partido da situação.
Saltando do tílburi, o velhinho subiu ao sobrado, donde voltou logo munido de um par de óculos verdes, que usara outrora por causa dum ameaço de oftalmia. Fez ao cocheiro sinal de acompanhá-lo, e dobrou pela Rua da Quitanda.
Pouco adiante entrou em uma loja:
- Ó comendador, dá-me aí uma carta de apresentação para o Seixas.
O negociante a quem estas palavras eram dirigidas puxou pela memória.
- Seixas... Não conheço!
- Hás de conhecer por força. Vamos, escreve lá. Em favor do Sr. Antônio Joaquim Ramos.
Era esta a carta que o tutor de Aurélia acabava de apresentar ao Seixas. Viera ele confiado nos dois disfarces, o dos óculos, e o do nome do recomendado.
Se apesar disto o moço o reconhecesse, ele acharia meio de sair perfeitamente da dificuldade.
- Desculpe-me, V. S.ª, se o procuro logo no dia seguinte ao de sua chegada, quando ainda deve estar fatigado da viagem; mas o assunto que me traz é de sua natureza urgentíssimo.
- Estou pronto a ouvi-lo com toda a atenção.
- É negócio importante que exige a maior reserva e discrição.
- Pode contar com ela.
O Lemos bamboleou-se na cadeira com sua frenética ala-cridade e prosseguiu:
- Trata-se de uma moça, sofrivelmente rica, bonitota, a quem a família deseja casar quanto antes. Desconfiando desses peralvilhos que por aí andam a farejar dotes, e receando que a menina possa de repente enfeitiçar-se por algum dos tais bonifrates, assentou de procurar um moço sisudo, de boa posição, embora seja pobre; porque são justamente os pobres que sabem melhor o valor do dinheiro, e compreendem a necessidade de poupá-lo, em vez de atirá-lo pela janela fora como fazem os filhos dos ricaços.
Lemos fitou os olhinhos de azougue no semblante de Seixas.
- Fui encarregado por essa família que me honra com sua amizade de procurar a pessoa que se deseja, e minha presença aqui, neste momento, significa que tive a fortuna de encon-trá-la.
- Sua escolha devia lisonjear-me o amor-próprio, se o tivesse, Sr. Ramos; porém há de compreender que não posso -aceder...
- Perdão; em negócio tenho o meu sistema. Faça a proposta com lisura, sem omitir os encargos e as vantagens, porque não costumo regatear. O outro pensa, e aceita se lhe convém.
- Já vejo que é um verdadeiro negócio que me propõe! observou Fernando com ironia cortês.
- Sem dúvida! atestou o velho. Mas ainda não disse tudo. A pequena é rica bastante e dota o marido com cem contos de réis em moeda sonante.
Como Seixas se calasse:
- Agora V. S.a me dirá se posso levar uma boa decisão?
- Nenhuma!
- Como assim? Nem recusa, nem aceita?
- Sua proposição, Sr. Ramos, permita-me esta franqueza, não é séria, disse o moço com a maior urbanidade.
- Por que razão?
- Antes de tudo cumpre-me declarar-lhe que estou de algum modo comprometido, e embora não haja um ajuste formal, todavia não poderia dispor livremente de mim.
- Os compromissos rompem-se dum momento para outro.
- É exato; às vezes ocorrem circunstâncias que desatam as mais solenes obrigações. Mas entre as razões que movem a consciência, não se conta o interesse; ele daria ao arrependimento a feição de uma transação.
- E o que é a vida, no fim de contas, senão uma contínua transação do homem com o mundo? exclamou Lemos.
- Não vejo ainda a vida por esse prisma. Compreendo que um homem sacrifique-se por qualquer motivo nobre, para fazer a felicidade de uma mulher, ou de entes que lhe são caros; mas se o fizer por um preço em moeda, não é sacrifício, mas tráfico.
O Lemos insistiu com todos os recursos da dialética materia-lista que ele manejava habilmente. Não conseguiu, porém, desvanecer os escrúpulos do moço que o ouvia com afabilidade, mantendo-se inflexível na negativa.
- Bem; resumiu o velho. Não são negócios que se resolvem assim de palpite. O Sr. Seixas pensará, e se como eu espero decidir-se, me fará o favor de prevenir. Vou deixar-lhe minha morada...
- Agradeço, mas para esse objeto é inútil, observou Seixas.
- Ninguém sabe o que pode acontecer!
O velho escreveu a lápis a rua e o número de sua casa numa folha da carteira que deixou sobre o consolo.
Meia hora depois, Seixas descia a Rua do Ouvidor em busca do hotel de Europa, onde ia almoçar à fidalga, pela volta do meio-dia.
De caminho encontrava os camaradas e conhecidos que o fes-tejavam, pedindo-lhe novas da viagem e dando-lhe as mais frescas da Corte. Entre estas figurava a aparição de Aurélia Camargo, que datava de meses, mas era ainda o grande sucesso do mundo fluminense.
Havia nessa noite teatro lírico. Cantava Lagrange no Rigoletto. Seixas, depois de um exílio de oito meses, não podia faltar ao espetáculo.
Às oito horas em ponto, com o fino binóculo de marfim na mão esquerda calçada por macia luva de pelica cinzenta, e o elegante sobretudo no braço, subia as escadas do lado do mar.
No patamar encontrou Alfredo Moreira com quem de véspera apenas falara de relance no Cassino.
- Ontem não sei onde te meteste, Seixas, cansei de procurar-te!
- Pois andava bem perto de ti. É que estavas ontem muito encandeado; respondeu Fernando a sorrir.
- É verdade! Que mulher, Seixas! Não imaginas. Olhas de longe e vês um anjo de beleza, que te fascina e arrasta a seus pés, ébrio de amor. Quando lhe tocas, não achas senão uma moeda, sob aquele esplendor. Ela não fala; tine como o ouro. Era para apresentar-te que eu te procurei. Ei-la que chega!
Esta última exclamação, Alfredo soltou-a avistando um carro que nesse momento parara à porta. Efetivamente dele saltou Aurélia, que se dirigiu acompanhada de D. Firmina a seu camarote na segunda ordem.
Envolvia-a desde a cabeça até aos pés um finíssimo e amplo manto de alva caxemira, que apenas descobria-lhe o fino rosto à sombra do capuz, e uma orla do vestido azul.
Era preciso ter a suprema elegância de Aurélia para dentre esse envolto singelo e fofo, desatar o garbo de um talhe encantador.
Ela parou justo em frente dos dous moços, voltando-lhes as costas, à espera de D. Firmina, que se demorara em descer do carro.
- Não é uma beleza? perguntou Moreira ao camarada, em tom de ser ouvido.
- Deslumbrante! Respondeu Seixas; mas para mim é uma beleza de espectro!
- Não entendo!
- É a imagem de uma mulher a quem amei, e que morreu. Esta semelhança me repele!
Aurélia ficou impassível. Moreira que se adiantara para cortejá-la pensou que o amigo tinha razão. Efetivamente havia alguma cousa de fantástico, naquela fronte lívida e cintilante.
D. Firmina se aproximara. A moça retribuindo com um afável cortejo ao cumprimento do Alfredo, passou como se não se apercebesse de Fernando, e subiu à segunda ordem.

Capítulo VIII

Lemos voltara satisfeito com o resultado da sua exploração.
Era o velho um espírito otimista, mas à sua maneira, confia-va no instinto infalível de que a natureza dotou o bípede social para farejar seu interesse e descobri-lo.
Tinha pois como impossível que um moço, em seu perfeito juízo, dirigido por conselho de homem experiente, repelisse a fortuna que de repente lhe entrava pela porta da casa, e casa da Rua do Hospício a sessenta mil-réis mensais, para tomá-lo pelo braço e conduzi-lo de carruagem, recostado em fofas almofadas, a um palácio nas Laranjeiras.
Sabia Lemos que os escritores para arranjarem lances dramáticos e quadros de romance, caluniavam a espécie humana atribuindo-lhe estultices desse jaez; mas na vida real não admitia a possibilidade de semelhantes fatos.
- "Não se recusam cem contos de réis", pensava ele, sem uma razão sólida, uma razão prática. O Seixas não a tem; pois não considero como tal essas palavras ocas de tráfico e mercado, que não passam de um disparate. Queria que me dissessem os senhores moralistas o que é esta vida senão uma quitanda? Desde que nasce um pobre-diabo até que o leve a breca não faz outra cousa senão comprar e vender? Para nascer é preciso dinheiro, e para morrer ainda mais dinheiro. Os ricos alugam os seus capitais; os pobres alugam-se a si, enquanto não se vendem de uma vez, salvo o direito do estelionato.
Assim, convencido de que Seixas não tinha o que ele chamava uma razão sólida para rejeitar o casamento proposto, não vira Lemos na primeira recusa senão um disfarce, ou talvez o impulso dessa tímida resistência, que os escrúpulos costumam opor à tentação. Esperava, pois, pela salutar revolução que dentro de poucos dias se devia operar nas idéias do mancebo.
Ao sair da casa de Seixas, Lemos dirigiu-se à casa do Amaral, onde entabulou uma negociação que devia assegurar o êxito da primeira.
Desenganado o moço da Adelaide e dos trinta contos, não tinha remédio senão aceitar a consolação dos cem; consolação que levaria o pico de uma vingançazinha.
Não sei como pensarão da fisiologia social de Lemos; a verdade é que o velhinho não mostrou grande surpresa quando uma bela manhã veio dizer-lhe seu agente que o procurava um moço de nome Seixas.
Esse agente chamava-se Antônio Joaquim Ramos, e era o mesmo de quem o velho tomara emprestado o nome. Estava prevenido pelo patrão desta circunstância que não o surpreendia, pois era jubilado em tais alicantinas.
- Que espere! gritou o velho.
Tinha Lemos na loja da casa de morada uma cousa chamada escritório de agências.
Era um corredor que dava porta para a rua e estendia-se até à área do fundo, onde o velho trabalhava dentro de uma espécie de gaiola, feita de tabique de madeira com balaústres.
Fora daí que respondera. Era seu costume sempre que ia tratar de negócio importante, ruminá-lo de antemão para não ser tomado de improviso. Foi o que fez nesse momento.
- De que disposições virá o sujeito? Quererá sondar-me a respeito da noiva, desconfiado de que lhe pretendo impingir alguma carcaça? Ah! ah! por este lado não há perigo. Terá intenção de regatear? A menina não se importa de chegar até aos duzentos e aposto que se for preciso vai por aí fora, que isso de mulher, o dinheiro faz-lhe cócegas. Mas eu é que não estou pelos autos! Seguro-me nos cem, que daí não me arrancam. Quando muito uns vinte de quebra, para o enxoval e nem mais um real!
Tendo feito seus cálculos, Lemos chegou à porta do cubí-culo e gritou para a frente do armazém:
- Mande entrar!
Quando Seixas chegou ao escritório, já Lemos estava de novo trepado no mocho, e debruçado à carteira continuava a despachar seus negócios. Sem erguer a cabeça fez com a mão esquerda um gesto ao moço indicando-lhe o sofá.
- Queira sentar-se; já lhe falo.
Terminada a carta, e enxuta com o mata-borrão, Lemos fechou-a na competente capa; pôs-lhe sobrescrito, e só então girando sobre o mocho, como uma figurinha de catavento, apresentou a frente ao moço.
- O senhor deseja falar-me? perguntou.
- Já se não recorda de mim? perguntou Seixas inquieto.
- Tenho uma lembrança vaga. O senhor não me é de todo estranho!
- Não há três dias estivemos juntos, tornou Seixas; é verdade que pela primeira vez.
- Há três dias?...
E Lemos fez semblante de recordar-se.
Desde que entrara, Seixas mostrara em sua fisionomia, como em suas maneiras, um constrangimento que não era natural ao seu caráter. Parecia lutar contra uma força interior que o demovia da resolução tomada; mas se não podia subtrair-se a esses rebates, dominava-se bastante para subjugá-los à necessidade.
O esquecimento de Lemos porém veio abalar aquela firmeza momentânea; no semblante do moço pintou-se imediatamente a vacilação do espírito. Não escapou essa alteração ao velho que, recostando-se na cadeira a jeito de olhar o seu interlocutor de meio perfil, se desfez em exclamações de surpresa:
- Ora!... O Sr. Seixas!... O meu amigo desculpe!... Isto de negociantes... O senhor deve saber!... Temos a memória na carteira ou no borrador. São tantas as cousas de que nos ocupamos, que realmente só uma cabeça de duzentas folhas, como esta, pode chegar para tanto!
O velho soltou uma risadinha cacofônica e apontou para um livro mercantil colocado sobre a carteira.
- Aqui está a minha, rubricada pelo tribunal do comércio e competentemente selada, com todas as formalidades legais. Ah! ah! ah!... Então, meu amigo, que manda a seu serviço?
- O Sr. Ramos mantém a proposta que me fez anteontem em minha casa? perguntou Seixas.
Lemos fingiu que refletia.
- Um dote de cem contos no ato do casamento, é isto?
- Resta-me conhecer a pessoa.
- Ah! Este ponto, parece-me que deixei-o bem claro. Não tenho autorização para declarar, senão depois de fechado nosso contrato.
- O senhor nada me disse a este respeito.
- Estava subentendido.
- Qual a razão deste mistério? Faz suspeitar algum defeito; observou Fernando.
- Garanto-lhe que não; se o enganar, o senhor está desobrigado.
- Ao menos pode dar-me algumas informações?
- Todas.
Seixas dirigiu ao velho uma série de interrogações acerca da idade, educação, nascimento e outras circunstâncias que lhe interessavam. As respostas não podiam ser mais favoráveis.
- Aceito, concluiu o moço.
- Muito bem.
- Aceito; mas com uma condição.
- Sendo razoável.
- Preciso de vinte contos até amanhã sem falta.
O velho saltou na cadeira. Este caso o apanhava de sur-presa:
- Meu amigo, se dependesse de mim... Mas o senhor sabe que neste negócio eu sou apenas um procurador oficioso. Não tenho ordem para adiantar a menor quantia. Quanto ao dote, depois de realizado o casamento, este sim, garanto.
- Não pode emprestar-me sobre essa garantia?
Ao Lemos escapou uma careta que ele procurou disfarçar.
- Tem razão; observou Seixas sem alterar-se. V. S.ª não me conhece, Sr. Ramos; e a posição em que me coloquei dando este passo, não é própria decerto para inspirar confiança.
- Não é isso, homem, acudiu o velho ainda um tanto atrapalhado; mas é que há viver e morrer.
- Desculpe-me o incômodo que lhe dei, tornou o moço fazendo um cumprimento de despedida.
O negociante estava tão atarantado e perplexo que não correspondeu à cortesia de Seixas, e o viu sair do escritório, indeciso sobre o que havia de fazer.
- Para que diabo quererá este marreco os vinte contos? Aposto que anda aqui volta do Alcazar. O rapaz está caído por alguma das tais francesinhas; e elas que são umas jibóias!... Finas como um alhambre, mas capazes de engolir um homem!... Que dirá a isso a senhora minha pupila? Estará disposta a correr todos os riscos e perigos da transação?
Neste ponto de seu monólogo, o velho recobrando sua petulante agilidade, deu uma corrida à porta do armazém, onde ainda chegou a tempo de avistar o moço, que afastava-se a passos lentos, pensativo e de cabeça baixa.
- Oh! Sr. Seixas!... Faz favor!
O negociante adiantara-se alguns passos na rua para ir ao encontro do moço.
- É só uma pergunta! foi logo dizendo o velho para não incutir vã esperança. Se recebesse os vintes contos, ficava fechado de uma vez o nosso ajuste?
- Sem dúvida! Já o declarei.
- Não tínhamos mais objeção de qualquer espécie, nem essas patranhas de honra e dignidade com que andam por aí uns certos sujeitos a embaçar os outros. Negócio decidido, sem olhar à fazenda, quero dizer, à pequena?
- Sendo ela como o senhor assegurou...
- Está visto! Escute, não prometo nada; mas espere-me amanhã em sua casa, que eu lá estarei por volta das nove.
Lemos aviou uns negocinhos; muniu-se de uma folha de papel selado de vinte mil-réis; e depois de jantar deu um pulo às Laranjeiras.
Aurélia estava lendo na sala de conversa; mas o estilo de George Sand não conseguia nesse momento cativar-lhe o espírito que às vezes batia as asas, e lá se ia borboleteando pelo azul de uma sesta amena.
Quando lhe anunciaram o Lemos, ela sobressaltou-se; e o tremor que agitou as róseas asas da narina, revelou a comoção interior:
- Uma pequena dificuldade que ocorreu naquele nosso negócio, é o que me traz.
- Qual foi?
- O Seixas...
- Já lhe pedi que não pronuncie este nome; disse a moça com um modo austero.
- É verdade! Desculpe-me, Aurélia, a precipitação... Ele exige vinte contos de réis à vista, até amanhã, sem o que não aceita.
- Pague-os!
A moça proferiu esta palavra com aquele timbre sibilante que em certas ocasiões tomava sua voz, e que parecia o ranger do diamante no vidro.
Cobrira-se-lhe o semblante de uma palidez mortal; e por momentos parecia que a vida tinha abandonado aquele formoso vulto, congelado em uma estátua de mármore.
Não percebeu Lemos esse profundo confrangimento, atrapalhado como estava a tirar do bolso uma das folhas de papel selado que estendeu sobre a mesa, alisando-a com as palmas das mãos. Depois, molhando a pena, apresentou-a à moça:
- Uma ordenzinha!
Aurélia sentou-se à mesa e traçou com uma letra miúda de talhe oblíquo algumas linhas.
- Para que pede ele este dinheiro? perguntou a menina enquanto escrevia.
- Não me quis dizer; mas eu suspeito; e tratando-se de uma união, de que depende o seu futuro, Aurélia, não devo ocultar cousa alguma.
- É um favor, que lhe agradeço.
- Não tenho certeza; mas desconfio que é uma rapaziada. O nosso José Clemente fez um palácio para guardar os doudos; mas vieram os meus francesinhos e inventaram o tal Alcazar, que é uma casa de fazer doudos; de modo que já eles não cabem na Praia Vermelha.
Aurélia mordia a extremidade da caneta, cujo marfim escurecia entre os dous rocais de seus dentes de pérola.
- Não importa?
E assinou a ordem.
No dia seguinte à hora aprazada estava o Lemos em casa de Seixas.
- O senhor é um rapaz feliz. Aqui lhe trago a bolada.
O negociante tirou do bolso a segunda folha de papel se-lado.
- Temos que passar primeiro um recibozinho.
- Em que termos?
Depois de uma pequena discussão em que os escrúpulos de Seixas relutaram contra a imposição da necessidade, assinou o moço contrariado esta declaração:
"Recebi do Ilmo. Sr. Antônio Joaquim Ramos a quantia de vinte contos de réis como avanço do dote de cem contos pelo qual me obrigo a casar no prazo de três meses com a senhora que me for indicada pelo mesmo Sr. Ramos; e para garantia empenho minha pessoa e minha honra."
Depois de verificar que o recibo estava em regra, Lemos contou com a destreza de um cambista o maço de notas que trazia e o entregou ao moço recolhendo uma das cédulas:
- Dezenove contos novecentos e oitenta mil-réis... com vinte de selo...
Seixas recebeu o dinheiro com tristeza.
- Maganão feliz!...
Soltando a sua implicante risadinha, Lemos fez duas piruetas, deu três saltinhos, beliscou a coxa de seu interlocutor e desceu a escada como uma bola de borracha aos ricochetes.


Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII e Capítulo VIII
Capítulo IX e Capítulo X
Capítulo XI e Capítulo XII
Capítulo XIII


Capítulo I e Capítulo II
Capítulo III e Capítulo IV
Capítulo V e Capítulo VI
Capítulo VII à Capítulo IX


Capítulo I
Capítulo II e Capítulo III
Capítulo IV e Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII à Capítulo X


Capítulo I
Capítulo II e Capítulo III
Capítulo IV e Capítulo V
Capítulo VI e Capítulo VII
Capítulo VIII e Capítulo IX