SENHORA
José de Alencar
Capítulo V
Havia à
Rua do Hospício, próximo ao campo, uma casa que desapareceu
com as últimas reconstruções.
Tinha três janelas de peitoril na frente; duas pertenciam
à sala de visitas; a outra a um gabinete contíguo.
O aspecto da casa revelava, bem como seu interior, a pobreza da
habitação.
A mobília da sala consistia em sofá, seis cadeiras
e dois consolos de jacarandá, que já não conservavam
o menor vestígio de verniz. O papel da parede de branco passara
a amarelo e percebia-se que em alguns pontos já havia sofrido
hábeis remendos.
O gabinete oferecia a mesma aparência. O papel que fora primitivamente
azul tomara a cor de folha seca.
Havia no aposento uma cômoda de cedro que também servia
de toucador, um armário de vinhático, uma mesa de
escrever, e finalmente a marquesa, de ferro, como o lavatório,
e vestida de mosquiteiro verde.
Tudo isto, se tinha o mesmo ar de velhice dos móveis da sala,
era como aqueles cuidadosamente limpo e espanejado, respirando o
mais escrupuloso asseio. Não se via uma teia de aranha na
parede, nem sinal de poeira nos trastes. O soalho mostrava aqui
e ali fendas na madeira; mas uma nódoa sequer não
manchava as tábuas areadas.
Outra singularidade apresentava essa parte da habitação:
era o frisante contraste que faziam com a pobreza carrança
dos dois aposentos certos objetos, aí colocados, e de uso
do morador.
Assim no recosto de uma das velhas cadeiras de jacarandá
via-se neste momento uma casaca preta, que pela fazenda superior,
mas sobretudo pelo corte elegante e esmero do trabalho, conhecia-se
ter o chique da casa do Raunier, que já era naquele tempo
o alfaiate da moda.
Ao lado da casaca estava o resto de um trajo de baile, que todo
ele saíra daquela mesma tesoura em voga; finíssimo
chapéu claque do melhor fabricante de Paris; luvas de Jouvin
cor de palha; e um par de botinas como o Campas só fazia
para os seus fregueses prediletos.
Sobre um dos aparadores tinham posto uma caixa de charutos de Havana,
da marca mais estimada que então havia no mercado. Eram regalias
como talvez só saboreavam nesse tempo os dez mais puros fumistas
do império.
No velho sofá de palha escura, havia uma almofada de cetim
azul bordada a froco e ouro. A mais suntuosa das salas do Rio de
Janeiro não se arreava por certo com uma obra de tapeçaria,
nem mais delicada, nem mais mimosa do que essa, trabalhada por mãos
aristocráticas.
Passando à alcova, na mesquinha banca de escrever, coberta
com um pano desbotado e atravancada de rumas de livros, a maior
parte romances, apareciam sem ordem tinteiros de bronze dourado
sem serventia; porta-charutos de vários gostos, cinzeiros
de feitios esquisitos e outros objetos de fantasia.
A tábua da cômoda era verdadeiro balcão de perfumista.
Aí achavam-se arranjados toda a casta de pentes e escovas,
e outros utensílios no toucador de um rapaz à moda,
assim como as mais finas essências francesas e inglesas, que
o respectivo rótulo indicava terem saído das casas
do Bernardo e do Louis.
A um canto do aposento notava-se um sortimento de guarda-chuvas
e bengalas, algumas de muito preço. Parte destas naturalmente
provinha de mimos, como outras curiosidades artísticas, em
bronze e jaspe, atiradas para baixo da mesa, e cujo valor excedia
de certo ao custo de toda a mobília da casa.
Um observador reconheceria nesse disparate a prova material de completa
divergência entre a vida exterior e a vida doméstica
da pessoa que ocupava esta parte da casa.
Se o edifício e os móveis estacionários e de
uso particular denotavam escassez de meios, senão extrema
pobreza, a roupa e objetos de representação anunciavam
um trato de sociedade, como só tinham cavalheiros dos mais
ricos e francos da Corte.
Esta feição característica do aposento repetia-se
em seu morador, o Seixas, derreado neste momento no sofá
da sala, a ler uma das folhas diárias, estendidas sobre os
joelhos erguidos, que assim lhe servem de cômoda estante.
É um moço que ainda não chegou aos trinta anos.
Tem uma fisionomia tão nobre, quanto sedutora; belos traços,
tez finíssima, cuja alvura realça a macia barba castanha.
Os olhos rasgados e luminosos, às vezes coalham-se em um
enlevo de ternura, mas natural e estreme de afetação,
que há de torná-los irresistíveis quando o
amor os acende. A boca vestida por um bigode elegante, mostra o
seu molde gracioso, sem contudo perder a expressão grave
e sóbria, que deve ter o órgão da palavra viril.
Sua posição negligente não esconde de todo
o garbo do talhe, que se deixa ver nessa mesma retração
do corpo. É esbelto sem magreza, e de elevada estatura.
O pé pousado agora em uma chinela não é pequeno;
mas tem a palma estreita e o firme arqueado da forma aristocrática.
Vestido com um chambre de fustão que briga com as mimosas
chinelas de chamalote bordadas a matiz, vê-se que ele está
ainda no desalinho matutino de quem acaba de erguer-se da cama.
Ainda o pente não alisou os cabelos, que deixados a si tomam
entretanto sua elegante ondulação.
Depois de lavar o rosto e enfiar o chambre viera à sala,
buscar na porta que dava para a escada os jornais do dia; pois era
ele dos que se consideram em jejum e ficam de cabeça oca,
se ao acordarem não espreguiçam o espírito
por essas toalhas de papel com que a civilização enxuga
a cara ao público todas as manhãs.
Deitara-se então de bruços no sofá, para ler
mais a cômodo, e maquinalmente corria os olhos pelas rubricas
dos artigos à cata de algum escândalo que lhe aguçasse
a curiosidade embotada pela fadiga de uma prolongada vigília.
Apareceu à porta da escada uma pessoa, que deitou a cabeça
a espiar, dizendo:
- Mano, já acordou?
- Entra, Mariquinhas, respondeu o moço, do sofá.
A moça aproximou-se do sofá, reclinou-se para o irmão,
que sem mudar de posição cingiu-lhe o colo com o braço
esquerdo atraindo-a a jeito de pousar-lhe um beijo na face.
- Quer o seu café? perguntou Mariquinhas.
- Traze, menina.
Momentos depois voltou a moça com a xícara de café.
Enquanto o irmão, soerguendo o busto, sorvia aos goles a
aromática bebida dos poetas sibaritas, ela ia à alcova
buscar um charuto de marca pérola, e acendia um fósforo.
Todos estes pormenores praticava-os como quem tinha perfeito conhecimento
dos hábitos do irmão, e sabia por experiência
que regalia não era o charuto para fumar-se logo pela manhã,
e depois do café.
Aceitava o indolente estes serviços como um sultão
os receberia de sua almeia favorita; de tão acostumado que
estava, já não os agradecia, convencido que para a
moça era uma fineza consentir que lhos prestasse.
Depois que o irmão acendeu o charuto, Mariquinhas sentou-se
perto dele à beira do sofá.
- Divertiu-se muito, mano?
- Nem por isso.
- Acabou bastante tarde. Quando você entrou deviam ser três
horas.
- E não valeu a pena; perdi a noite quando podia recobrar-me
das péssimas que passei a bordo.
- É verdade; fez mal em ir a um baile no mesmo dia da chegada.
O moço acompanhou com os olhos a espiral de um alvo froco
da fumaça de seu havana até que de todo se desfez
nos ares.
- Sabes quem lá estava? E era a rainha do baile?... A Aurélia!
- Aurélia... repetiu a moça buscando na memória
recordação desse nome.
- Não te lembras?... Olha!
E o irmão cruzando o pé esquerdo sobre o joelho direito,
mostrou, com um aceno da mão alva e delicada, a chinela de
chamalote.
- Ah! já sei; exclamou a moça vivamente. Aquela que
morava na Lapa?
- Justamente.
- Você gostava bem dela, mano.
- Foi a maior paixão da minha vida, Mariquinhas!
- Mas você esqueceu-a pela Amaralzinha; observou a irmã
com um sorriso.
Seixas moveu a cabeça com um meneio lento e melancólico;
depois de uma pausa, em que a irmã contemplou, compassiva
e arrependida de ter evocado aquela saudade, ele continuou em tom
vivo e animado:
- Ontem no Cassino, estava deslumbrante, Mariquinhas! Nem tu podes
imaginar!... Vocês mulheres têm isso de comum com as
flores, que umas são flores da sombra e abrem com a noite,
e outras são filhas da luz e carecem de sol. Aurélia
é como estas; nasceu para a riqueza. Eu bem o pressenti!
Quando admirava a sua formosura naquela salinha térrea de
Santa Teresa, parecia-me que ela vivia ali exilada. Faltava o diadema,
o trono, as galas, a multidão submissa, mas a rainha ali
estava em todo o seu esplendor. Deus a destinara à opulência.
- Está rica então?
- Apareceu-lhe de repente uma herança.... Creio que dum avô.
Não me souberam bem explicar; o certo é que possui
hoje, segundo me disseram, cerca de mil contos.
- Ela também tinha muita paixão por você, mano!
observou a moça com uma intenção que não
escapou a Seixas.
Tomou ele a mão da irmã.
- Aurélia está perdida para mim. Quantos a admiravam
ontem no Cassino, podem pretendê-la, embora se arrisquem a
ser repelidos; eu não tenho esse direito, sou o único.
- Por quê, mano? É por causa da Amaralzinha, com quem
dizem que você há de casar-se?
- Isto ainda não é cousa decidida, Mariquinhas, tu
bem sabes. A razão é outra.
- Qual é então?
- Depois... depois eu te direi.
Terceira voz interveio no diálogo com estas palavras:
- Pode dizer já, mano; eu me vou embora. Não quero
surpreender seus segredos.
A pessoa que falara era outra moça que pouco antes entrara
na sala e ouvira as últimas réplicas da conversa.
- Pois vem cá, Nicota, que eu te direi ao ouvido o meu segredo!
retrucou-lhe Seixas a rir-se do amuo da irmã.
- Não mereço; isto é bom para Mariquinhas!
tornou a Nicota de longe.
- Que é isto agora de Nicota? Porque eu estava conversando
com Fernandinho? Será algum crime?
- Não é por isso, voltou-lhe a irmã com os
olhos a marejar. Você enganou-me dizendo que ia engomar seu
vestido e veio espiar se o mano já tinha acordado para trazer-lhe
o café.
- Pois fui mesmo engomar; porém ouvi o mano abrir a porta...
E você, por que se deixou ficar?
- Eu estava acabando a costura daquela senhora, que você bem
sabe, que devo dar hoje sem falta. Tinha pedido a mamãe para
me chamar logo que Fernandinho acordasse; e ela, não o ouvindo
assoviar como costuma, pensou que estivesse dormindo ainda com o
cansaço da viagem e do baile.
Seixas acompanhava com um sorriso de remoque, mas repassado de ternura
e desvanecimento, a contestação das duas irmãs.
- Mas afinal que culpa tenho eu, Nicota, do que fez a senhora D.
Mariquinhas? Não me dirás, menina?
- Não lhe acuso, mano. Alguém tem culpa de querer
mais bem a uma pessoa do que a outra?
- Ciumenta! exclamou Seixas.
O moço ergueu-se e foi ao meio da sala buscar a Nicota, que
por despeito se conservara arredia encostada à última
cadeira.
- É escusado te agastares comigo, que eu não admito
estes arrufos. Quanto mais franzires a testa, mais beijos te dou
para desmanchar estas rugas tão feias.
- É o que ela queria! observou Mariquinhas já com
sua ponta de ciúme.
- Ora vamos a saber, senhora ingrata, disse Seixas trazendo a Nicota
para o sofá e sentando-a junto a si. Em que mostrei eu querer
mais bem a Mariquinhas do que a ti? Não reparti meu coração
em duas fatias, bem iguaizinhas, das quais cada uma tem a sua?
- Mas você gosta mais de conversar com Mariquinhas, tanto
que toda esta manhã estiveram aqui em segredinhos...
- É este o ponto da queixa? Pois senhora D. Mariquinhas vá-se
embora que eu quero conversar outro tanto tempo com Nicota e com
ela só. Está satisfeita? Assim fica bem paga?
Nicota sorriu, ainda entre o arrufo, como raio de sol através
da nuvem.
- E o café?
- Ah! também temos o café? pois, filha, vai buscar
outra xícara que eu receberei com muito prazer de tuas mãos.
E também me darás um charuto que eu fumarei até
o meio em lugar desta ponta. Ainda falta alguma cousa?
A jovialidade do Seixas e o seu carinho, não só desvaneceram
as queixas da Nicota, como restabeleceram a cordialidade entre as
duas meninas, que se queriam extremosamente com afeto, só
estremecido pelo ciúme desse irmão mimoso.
Capítulo
VI
Filho de um
empregado público e órfão aos dezoito anos,
Seixas foi obrigado a abandonar seus estudos na Faculdade de São
Paulo pela impossibilidade em que se achou sua mãe de continuar-lhe
a mesada.
Já estava no terceiro ano, e se a natureza que o ornara de
excelentes qualidades lhe desse alguma energia a força de
vontade, conseguiria ele vencendo pequenas dificuldades, concluir
o curso; tanto mais quanto um colega e amigo, o Torquato Ribeiro
lhe oferecia hospitalidade até que a viúva pudesse
liquidar o espólio.
Mas Seixas era desses espíritos que preferem a trilha batida,
e só impelidos por alguma forte paixão, rompem com
a rotina. Ora, a carta de bacharel não tinha grande solução
para sua bela inteligência mais propensa à literatura
e ao jornalismo.
Cedeu pois à instância dos amigos de seu pai que obtiveram
encartá-lo em uma secretaria como praticante. Assim começou
ele essa vegetação social, em que tantos homens de
talento consomem o melhor da existência numa tarefa inglória,
ralados por contínuas decepções.
Continuando a carreira de empregado público, que lhe impunha
a necessidade, Seixas buscou para seu espírito superior campo
mais brilhante e encontrou-o na imprensa.
Admitido à colaboração de uma das folhas diárias
da Corte em princípio como simples tradutor, depois como
noticiarista, veio com o tempo a ser um dos escritores mais elegantes
do jornalismo fluminense. Não diremos festejado, como agora
é moda, porque nesta nossa terra os cortejos e aplausos rastejam
a medio-cridade feliz.
O pai de Seixas deixara seu escasso patrimônio complicado
com uma hipoteca, além de várias dívidas miúdas.
Depois de uma difícil e morosa liquidação,
com que a viúva achou-se embaraçada, pôde-se
apurar a soma de doze contos de réis, afora uns quatro escravos.
Partilhados estes bens, D. Camila, a mãe de Seixas, por conselho
de amigos, pôs o dinheiro a render na Caixa Econômica,
donde ia tirando os juros semestrais, com que acudia aos gastos
da casa, ajudada dos aluguéis de dois escravos e também
de algumas costuras dela e das duas filhas.
Fernando quis concorrer com seu ordenado para a despesa mensal,
mas tanto a mãe, como as irmãs, recusaram. Sentiam
elas ao contrário não poder reservar alguma quantia
para acrescentar aos mesquinhos vencimentos, que mal chegavam para
o vestuário e outras despesas do rapaz.
No geral conceito, esse único filho varão devia ser
o amparo da família, órfã de seu chefe natural.
Não o entendiam assim aquelas três criaturas, que se
desviviam pelo ente querido. Seu destino resumia-se em fazê-lo
feliz; não que elas pensassem isto, e fossem capaz de o exprimir;
mas faziam-no.
Que um moço tão bonito e prendado como o seu Fernandinho
se vestisse no rigor da moda e com a maior elegância; que
em vez de ficar em casa aborrecido procurasse os divertimentos e
a convivência dos camaradas; que em suma fizesse sempre na
sociedade a melhor figura; era para aquelas senhoras não
somente justo e natural, mas indispensável.
Durante que Fernandinho alardeava nas salas de espetáculos,
elas passavam o serão na sala de jantar, em volta do candeei-ro,
que alumiava a tarefa noturna. O mais das vezes solitárias;
outras acompanhadas de alguma rara visita, que as freqüentava
no seu modesto e recatado viver.
O tema da conversa era invariavelmente o ausente. Não cansavam
nunca os elogios. Cada uma comunicava sua conjetura sobre a realização
de certos desejos e esperanças; pois desde essa época
se acostumara Fernandinho a fazê-las confidentes de seus menores
segredos.
Se aquela de quem tanto gostava o rapaz estaria no baile; se lhe
concederia a contradança predileta, a quarta, que se reserva
para o escolhido, pela razão não somente de ser a
infalível, como de dançar-se no momento da maior animação;
se o Fernandinho conseguiria enfim dar-lhe a entender sua paixão,
e como receberia a moça essa declaração; tais
eram as graves preocupações dessas três criaturas,
que privadas de toda a distração, trabalhavam à
luz da candeia para ganhar uma parte do necessário.
Outras noites era o acolhimento que faria ao rapaz a mulher de certo
figurão, a quem ele devia ser apresentado. Contava Seixas
granjear os favores da senhora, com a mira de alcançar por
seu empenho a proteção do ministro para um acesso.
A mãe e as irmãs, às quais ele confiara o projeto,
inquietas do resultado, rezavam para que fosse bem-sucedido, não
percebendo em sua ingenuidade a natureza dessa influência
feminina que devia malear o ministro.
Foi assim que Seixas insensivelmente afez-se à dupla existência,
que de dia em dia mais se destacava. Homem de família no
interior da casa, partilhando com a mãe e as irmãs
a pobreza herdada, tinha na sociedade, onde aparecia sobre si, a
representação de um moço rico.
Dessa vida faustosa, que ostentava na sociedade, trazia Seixas para
a intimidade da família não só as provas materiais,
mas as confidências e seduções. Era então
muito moço; e não pensou no perigo que havia, de acordar
no coração virgem das irmãs desejos, que podiam
supliciá-las. Quando mais tarde a razão devia adverti-lo,
já o doce hábito das confidências a havia adormecido.
Felizmente D. Camila tinha dado a suas filhas a mesma vigorosa educação
brasileira, já bem rara em nossos dias, que, se não
fazia donzelas românticas, preparava a mulher para as sublimes
abnegações que protegem a família, e fazem
da humilde casa um santuário.
Mariquinhas, mais velha que Fernando, vira escoarem-se os anos da
mocidade, com serena resignação. Se alguém
se lembrava de que o outono, que é a estação
nupcial, ia passando sem esperança de casamento, não
era ela, mas a mãe, D. Camila, que sentia apertar-se-lhe
o coração, quando lhe notava o desbote da mocidade.
Também Fernando algumas vezes a acompanhava nessa mágoa;
mas nele breve a apagava o bulício do mundo.
Nicota, mais moça e também mais linda, ainda estava
na flor da idade; mas já tocava aos vinte anos, e com a vida
concentrada que tinha a família, não era fácil
que aparecessem pretendentes à mão de uma menina pobre
e sem proteções. Por isso cresciam as inquietações
e tristezas da boa mãe, ao pensar que também esta
filha estaria condenada à mesquinha sorte do aleijão
social, que se chama celibato.
Quando Fernando chegou à maioridade, D. Camila nele resignou
a autoridade que exercia na casa, e a administração
do módico patrimônio que ficara por morte do marido,
e que embora partilhado nos autos, ainda estava intacto e em comunhão.
O rendimento da caderneta da Caixa Econômica e dos escravos
de aluguel andava em 1:500$000 ou 125$000 mensais. Como, porém,
a despesa da família subia a 150$000; as três senhoras
supriam o resto com seus trabalhos de agulha e engomado, no que
as ajudavam as duas pretas do serviço doméstico.
Ao tomar a direção dos negócios da casa, Seixas
fez uma alteração nesse regulamento. Declarou que
entraria por sua parte com os 25$000 que minguavam, ficando as senhoras
com todo o produto de seu trabalho para as despesas particulares,
no que ele ainda as auxiliaria logo que pudesse.
Nessa época já ele era segundo oficial, com esperanças
de ser promovido a primeiro; e seus vencimentos acumulados à
gratificação que recebia pela colaboração
assídua do jornal, montavam acima de três contos de
réis. Mais tarde subiram a sete em virtude de uma comissão
que lhe deu o ministro, por haver simpatizado com ele.
Assim tinha anualmente um rendimento de 8:500$000 do qual deduzindo
1:800$000, quantia que dava à família em prestações
de 150$000 cada mês, ficavam-lhe para seus gastos de representação
6:700$000, quantia que naquele tempo não gastavam com sua
pessoa muitos celibatários ricos, que faziam figura na socie-dade.
Uma noite, Seixas sofreu uma decepção amorosa ao entrar
no baile, e retirou-se despeitado. Não tendo onde consumir
as horas, e aborrecido da sociedade, recolheu-se a casa. A desventura
pungiu-lhe a musa, que era de índole melancólica.
Lembrou-se do seu Byron e das imitações que havia
feito de algumas das mais acerbas exprobrações do
bardo inglês.
Era extraordinário passar Fernando a noite em casa. Para
evitar explicações resolveu entrar inapercebido, e
subiu as escadas de manso. Abriu a porta da sala com a chave francesa
que ele trazia na argola, assim como a da rua, para não incomodar
a família quando voltava a desoras, e ganhou sua alcova.
D. Camila com as filhas estava ao chá; havia de visita uma
família da vizinhança. As moças conversavam
alto; no meio dessa garrulice ouviu Fernando que falavam da representação
de uma ópera que se dava então no Teatro Lírico.
As amigas tinham assistido ao último espetáculo, e
referiam- por miúdo às duas irmãs, encarecendo
o divertimento com muitos louvores.
- Ainda não viram? Pois não devem faltar; vale a pena.
Peçam a seu irmão.
Tomadas de surpresa pela interpelação direta, as duas
irmãs arrefeceram logo no interesse com que escutavam a descrição
do espetáculo.
Retraíram-se ambas silenciosas, mas insistindo as outras
com alguma malícia, a Mariquinhas, que era mais desembaraçada,
respondeu:
- Fernandinho já nos convidou muitas vezes; mas tem havido
sempre um transtorno qualquer.
- É verdade! observou Nicota.
Pela primeira vez desenhou-se claramente no espírito de Seixas,
um contraste que aliás tinha diante de si todos os dias,
a cada instante, e do qual era ele próprio um dos termos.
Enquanto lhe minguavam as horas para os prazeres de que se fartava,
aquelas três senhoras ali desfiavam as compridas noites sem
outro entretenimento além da tarefa jornaleira ou daqueles
ecos do mundo, que até lá chegavam com alguma rara
visita.
Consigo unicamente despendia ele mais do triplo da subsistência
de toda a família. Nessa mesma noite para ir a um baile de
que saíra apenas chegado, dissipara maior quantia da necessária
para dar a suas irmãs a satisfação de um espetáculo
lírico.
Estas idéias apossaram-se de seu espírito. Em vez
de riscar o fósforo, já em mão para acender
a lâmpada que alumiasse-lhe a vigília poética,
e o charuto que lhe opiasse a musa, atirou-se à cama, fincou
a cabeça no travesseiro, e dormiu o sono do justo.
Na primeira noite de representação lírica,
Fernando levou ao teatro a família. Foi uma festa para as
três senhoras; D. Camila, apesar de sua lhaneza e modéstia,
sentiu ao atravessar a multidão pelo braço do filho
um aroma de orgulho, mas desse orgulho repassado de susto, que é
antes a consciência da própria humildade, do que desvanecimento
de egoísmo. As filhas partilhavam este sentimento; e acreditavam
que todas as outras moças lhes invejavam aquele irmão.
Quando Fernando depois de instalar a família no camarote
saiu a percorrer o salão, encontrou um camarada:
- Ó Seixas, não me dirás onde foste desencovar
aquele terno de roceiras? Aposto que andas com tenções
sinistras. Uma delas não é nenhuma asneira!... Que
temível!
Fernando cortou este diálogo, a pretexto de cumprimentar
um conhecido que passava.
Ao sair de casa, com a pressa e à luz mortiça do candeeiro,
não tinha ele reparado no vestuário da mãe
e irmãs. No camarote, porém, ao clarão do gás,
não escaparam a seu olhar severo em pontos de elegância,
os esquisitos do vestuário das três senhoras, tão
alheias às modas e usos da sociedade.
O resto da noite, que lhe pareceu interminável, esquivou-se
do camarote, e quando lá demorava-se, não chegava
à frente.
Durante alguns dias andou Seixas sorumbático e preocupado
com este incidente. Chegou a pretextar um incômodo para ficar-se
em casa, e fugir dos divertimentos. É verdade que esta esquivança
da sociedade também servia ao despeito da noite do baile.
Ao cabo, resultou dessa crise um raciocínio que serenou o
nosso jornalista.
Freqüentando assiduamente e com algum brilho a sociedade, adquirindo
relações, e cultivando a amizade de pessoas influentes
que o acolhiam com distinção, era natural que ele
Seixas fizesse uma bonita carreira. Poderia de um momento para outro
arranjar um casamento vantajoso, como tinham conseguido muitos que
não estavam em tão favoráveis condições.
Não era difícil também que de repente se lhe
abrisse essa estrada real da ambição, que se chama
política.
Uma vez rico e ilustre, montaria sua casa com um estado correspondente
à sua posição.
Então sua família participaria não só
dos gozos materiais desse viver opulento, como do brilho e prestígio
de seu nome. O trato da sociedade lhes imprimiria o cunho de distinção
de que precisavam para bem se apresentarem. Casaria as duas irmãs
vantajosamente; e faria assim a felicidade de todos esses entes
queridos confiados a seu desvelo.
Se ao contrário, ele Seixas se onerasse desde logo, no princípio
de sua carreira, com o peso da família, prendendo-se à
vida obscura de que não podia tirá-la ainda mesmo
com sacrifício de todos seus rendimentos, que outra cousa
devia esperar senão vegetar na penumbra da mediana e consumir
esterilmente sua mocidade?
Firmou-se pois Seixas nesta convicção que o luxo era
não so-men-te a porfia infalível de uma ambição
nobre, como o penhor único da felicidade de sua família.
Assim dissiparam-se os escrúpulos.
Seixas acabava de chegar de Pernambuco, onde se demorara oito meses;
desembarcara na véspera, a tempo de não perder o Cassino.
O motivo ostensivo dessa viagem fora uma comissão, creio
que de secretário da presidência. Dizia-se, porém,
nas rodas políticas que o nosso escritor fora lançar
as bases de uma candidatura próxima. Sem contestar o fato,
acrescentavam os invejosos que o levara ao Norte o fulgor dos belos
olhos negros de uma moreninha pernambucana, que fora o astro da
última sazão parlamentar.
Todas estas circunstâncias influíram na resolução
de Seixas; mas a razão predominante que o moveu, a ele carioca
da gema, a ausentar-se da Corte por oito meses, a seu tempo a saberemos.