SENHORA
José de Alencar
Capítulo XIII
Afastemos indiscretamente
uma dobra do reposteiro que recata a câmara nupcial.
É uma sala em quadro, toda ela de uma alvura deslumbrante,
que realça o azul-celeste do tapete de riço recamado
de estrelas e a bela cor de ouro das cortinas e do estofo dos móveis.
A um lado, duas estatuetas de bronze dourado representando o amor
e a castidade sustentam uma cúpula oval de forma ligeira,
donde se desdobram até o pavimento, bambolins de cassa finíssima.
Por entre a diáfana limpidez dessas nuvens de linho, percebe-se
o molde elegante de uma cama de pau-cetim, pudicamente envolta em
seus véus nupciais, e forrada por uma colcha de chamalote
também cor de ouro.
Do outro lado, há uma lareira, não de fogo, que o
dispensa nosso ameno clima fluminense, ainda na maior força
do inverno. Essa chaminé de mármore cor-de-rosa é
meramente pretexto para o cantinho de conversação,
pois que não podemos chamá-lo como os franceses o
coin du feu.
A bem dizer a lareira não passa de uma jardineira que esparze
o aroma de suas flores, em vez do brando calor do lume, por aquele
círculo, onde estão dispostas algumas poltronas baixas
e derreadas, transição entre a cadeira e o leito.
O aposento é iluminado por uma grande lâmpada de gás,
cujo globo de cristal opaco filtra uma claridade serena e doce,
que derrama-se sobre os objetos e os envolve como de um creme de
luz.
Correu-se uma cortina, e Aurélia entrou na câmara nupcial.
Seu passo deslizou pela alcatifa de veludo azul marchetado de alcachofras
de ouro, como o andar com que as deusas per-lus-travam no céu
a galáxia quando subiam ao Olimpo.
A formosa moça trocara seu vestuário de noiva por
esse outro que bem se podia chamar trajo de esposa; pois os suaves
emblemas da pureza imaculada, de que a virgem se reveste quando
caminha para o altar, já se desfolhavam como as pétalas
da flor no outono, deixando entrever as castas primícias
do santo amor conjugal.
Trazia Aurélia uma túnica de cetim verde, colhida
à cintura por um cordão de torçal de ouro,
cujas borlas tremiam com seu passo modulado. Pelos golpeados deste
simples roupão borbulhavam os frocos de transparente cambraia,
que envolviam as formas sedutoras da jovem mulher.
As mangas amplas e esvasadas eram apanhadas, na covinha do braço
e sobre a espádua, por um broche onde também prendia
a ombreira, mostrando o braço mimoso, cuja tez roseava a
camisa de cambraia abotoada no punho por uma pérola.
Os lindos cabelos negros refluíam-lhe pelos ombros presos
apenas com o aro de ouro, que cingia-lhe a opulenta madeixa; o pé
escondia-se em um pantufo de cetim que às vezes beliscava
a orla da anágua, como um travesso beija-flor.
O casto vestuário da moça recatava-lhe as graças
do talhe; entretanto quando ela andava, e que seu corpo airoso nadava
nas ondas de seda e cambraia, sentia-se mais n'alma do que nos olhos
o debuxo da estátua palpitante de emoção. A
cada movimento que imprimia-lhe o passo onduloso, acreditava-se
que o broche da ombreira partira-se e que os véus zelosos
se abatiam de repente aos pés dessa mulher sublime, desvendando-
uma criação divina, mas de beleza imaterial, e vestida
de esplendores ce-lestes.
Aurélia atravessou o aposento, e chegando à porta
que ficava fronteira àquela por onde entrara, curvou de leve
a cabeça recolhendo-se para escutar; mas não ouviu
senão o arfar do seio, que ofegava.
Afastou-se rapidamente, e foi atirar-se a uma das poltronas, em
um gesto de desânimo, cruzando as mãos e erguendo-as
ao céu com um olhar repassado de angústia.
- Meu Deus, por que não me fizeste como as outras? Por que
me deste este coração exigente, soberbo e egoísta?
Posso ser feliz como são tantas mulheres neste mundo, e beber
na taça do amor, em que talvez nunca mais toquem estes lábios.
Não é o néctar divino que eu sonhei, não;
mas dizem que embriaga a alma, e faz esquecer!...
O espírito de Aurélia rastreou a idéia que
despontava, e por algum tempo como que embalou-se num sonho:
- Não! exclamou arrebatadamente. Seria a profanação
deste santo amor que foi e será toda a minha vida!
Ergueu-se; deu algumas voltas pela câmara nupcial acarician-do
com os olhos todos estes móveis e adereços, que ela
escolhera para ornarem o regaço de sua felicidade, e nos
quais tinha como que esculpido suas mais queridas esperanças.
Depois que assim repassou-se das reminiscências que lhe acordavam
esses objetos, foi rever-se no espelho, e enviou à sua feiticeira
imagem reproduzida no cristal, um sorriso de inde-finí-vel
expressão.
Dirigiu-se então à porta, onde pouco antes escutara;
deu volta à chave, e afastou uma das bandas. Pouco depois,
Seixas roçagou a cortina, e cingindo o talhe de sua mulher,
foi sentá-la em uma das cadeiras.
- Como tardaste, Aurélia! disse ele queixoso.
- Tinha um voto a cumprir; quis emancipar-me logo de uma vez para
pertencer toda a meu único senhor; respondeu a moça
galanteando.
- Não me mates de felicidade, Aurélia! Que posso eu
mais desejar neste mundo do que viver a teus pés, adorando-te,
pois que és a minha divindade na terra.
Seixas ajoelhou aos pés da noiva; tomou-lhe as mãos
que ela não retirava; e modulou o seu canto de amor, essa
ode sublime do coração, que só as mulheres
entendem, como somente as mães percebem o balbuciar do filho.
A moça com o talhe languidamente recostado no espaldar da
cadeira, a fronte reclinada, os olhos coalhados em uma ternura maviosa,
escutava as falas de seu marido; toda ela se embebia dos eflúvios
de amor, de que ele a repassava com a palavra ardente, o olhar rendido,
e o gesto apaixonado.
- É então verdade que me ama?
- Pois duvida, Aurélia?
- E amou-me sempre, desde o primeiro dia que nos vimos?
- Não lho disse já?
- Então nunca amou a outra?
- Eu lhe juro, Aurélia. Estes lábios nunca tocaram
a face de outra mulher, que não fosse minha mãe. O
meu primeiro beijo de amor, guardei-o para minha esposa, para ti...
Soerguendo-se para alcançar-lhe a face, não viu Seixas
a súbita mutação que se havia operado na fisionomia
de sua -noiva.
Aurélia estava lívida, e a sua beleza, radiante há
pouco, se marmorizara.
- Ou de outra mais rica!... disse ela retraindo-se para fugir ao
beijo do marido, e afastando-o com a ponta dos dedos.
A voz da moça tomara o timbre cristalino, eco da rispidez
e aspereza do sentimento que lhe sublevava o seio, e que parecia
ringir-lhe nos lábios como aço.
- Aurélia! Que significa isto?
- Representamos uma comédia, na qual ambos desempenhamos
o nosso papel com perícia consumada. Podemos ter este orgulho,
que os melhores atores não nos excederiam. Mas é tempo
de pôr termo a esta cruel mistificação, com
que nos estamos escarnecendo mutuamente, senhor. Entremos na realidade
por mais triste que ela seja; e resigne-se cada um ao que é,
eu, uma mulher traída; o senhor, um homem vendido.
- Vendido! exclamou Seixas ferido dentro d'alma.
- Vendido, sim: não tem outro nome. Sou rica, muito rica;
sou milionária; precisava de um marido, traste indispensável
às mulheres honestas. O senhor estava no mercado; comprei-o.
Custou-me cem contos de réis, foi barato; não se fez
valer. Eu daria o dobro, o triplo, toda a minha riqueza por este
momento.
Aurélia proferiu estas palavras desdobrando um papel, no
qual Seixas reconheceu a obrigação por ele passada
ao Lemos.
Não se pode exprimir o sarcasmo que salpicava dos lábios
da moça; nem a indignação que vazava dessa
alma profundamente revolta, no olhar implácavel com que ela
flagelava o semblante do marido.
Seixas, trespassado pelo cruel insulto, arremessado do êxtase
da felicidade a esse abismo de humilhação, a princípio
ficara atônito. Depois quando os assomos da irritação
vinham sublevando-lhe a alma, recalcou-os esse poderoso sentimento
do respeito à mulher, que raro abandona o homem de fina educação.
Penetrado da impossibilidade de retribuir o ultraje à senhora
a quem havia amado, escutava imóvel, cogitando no que lhe
cumpria fazer; se matá-la a ela, matar-se a si, ou matar
a ambos.
Aurélia como se lhe adivinhasse o pensamento, esteve por
algum tempo afrontando-o com inexorável desprezo.
- Agora, meu marido, se quer saber a razão por que o comprei
de preferência a qualquer outro, vou dizê-la; e peço-lhe
que me não interrompa. Deixe-me vazar o que tenho dentro
desta alma, e que há um ano a está amargurando e consumindo.
A moça apontou a Seixas uma cadeira próxima.
- Sente-se, meu marido.
Com que tom acerbo e excruciante lançou a moça esta
frase meu marido, que nos seus lábios ríspidos acerava-se
como um dardo ervado de cáustica ironia!
Seixas sentou-se.
Dominava-o a estranha fascinação dessa mulher, e ainda
mais a situação incrível a que fora arrastado.