SENHORA
José de Alencar
Ao Leitor
Este livro,
como os dois que o precederam, não são da própria
lavra do escritor, a quem geralmente os atribuem.
A história é verdadeira; e a narração
vem de pessoa que recebeu diretamente, e em circunstâncias
que ignoro, a confidência dos principais atores deste drama
curioso.
O suposto autor não passa rigorosamente de editor. É
certo que tomando a si o encargo de corrigir a forma e dar-lhe um
lavor literário, de algum modo apropria-se não a obra
mas o livro.
Em todo o caso, encontram-se muitas vezes nestas páginas,
exuberâncias de linguagem e afoutezas de imaginação,
a que já não se lança a pena sóbria
e refletida do escritor sem ilusões e sem entusiasmos.
Tive tentações de apagar alguns desses quadros mais
-plás----ti-cos ou pelo menos de sombrear as tintas vivas
e cintilantes.
Mas devia eu sacrificar a alguns cabelos grisalhos esses caprichos
artísticos de estilo, que talvez sejam para os finos cultores
da estética, o mais delicado matiz do livro?
E será unicamente fantasia de colorista e adorno de forma,
o relevo daquelas cenas, ou antes de tudo serve de contraste ao
fino quilate de um caráter?
Há efetivamente um heroísmo de virtude na altivez
dessa mulher, que resiste a todas as seduções, aos
impulsos da própria paixão, como ao arrebatamento
dos sentidos.
J. de AL.
PRIMEIRA PARTE
O Preço
Capítulo
I
Há anos
raiou no céu fluminense uma nova estrela.
Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou
o cetro; foi proclamada a rainha dos salões.
Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo
dos noivos em disponibilidade.
Era rica e formosa.
Duas opulências, que se realçam como a flor em vaso
de alabastro; dois esplendores que se refletem, como o raio de sol
no prisma do diamante.
Quem não se recorda da Aurélia Camargo, que atravessou
o firmamento da Corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente
no meio do deslumbramento que produzira o seu -fulgor?
Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade.
Não a conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações
acerca da grande novidade do dia.
Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu
tempo saberemos a verdade, sem os comentos malévolos de que
usam vesti-la os noveleiros.
Aurélia era órfã; e tinha em sua companhia
uma velha parenta, viúva, D. Firmina Mascarenhas, que sempre
a acompanhava na sociedade.
Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda,
para condescender com os escrúpulos da sociedade brasileira,
que naquele tempo não tinha admitido ainda certa emancipação
feminina.
Guardando com a viúva as deferências devidas à
idade, a moça não declinava um instante do firme propósito
de governar sua casa e dirigir suas ações como entendesse.
Constava também que Aurélia tinha um tutor; mas essa
entidade desconhecida, a julgar pelo caráter da pupila, não
devia exercer maior influência em sua vontade, do que a velha
pa-renta.
A convicção geral era que o futuro da moça
dependia exclusivamente de suas inclinações ou de
seu capricho; e por isso todas as adorações se iam
prostrar aos próprios pés do ídolo.
Assaltada por uma turba de pretendentes que a disputavam como o
prêmio da vitória, Aurélia, com sagacidade admirável
em sua idade, avaliou da situação difícil em
que se achava, e dos perigos que a ameaçavam.
Daí provinha talvez a expressão cheia de desdém
e um certo ar provocador, que eriçavam a sua beleza aliás
tão correta e cinzelada para a meiga e serena expansão
d'alma.
Se o lindo semblante não se impregnasse constantemente, ainda
nos momentos de cisma e distração, dessa tinta de
sarcasmo, ninguém veria nela a verdadeira fisionomia de Aurélia,
e sim a máscara de alguma profunda decepção.
Como acreditar que a natureza houvesse traçado as linhas
tão puras e límpidas daquele perfil para quebrar-lhes
a harmonia com o riso de uma pungente ironia?
Os olhos grandes e rasgados, Deus não os aveludaria com a
mais inefável ternura, se os destinasse para vibrar chispas
de escárnio.
Para que a perfeição estatuária do talhe de
sílfide, se em vez de arfar ao suave influxo do amor, ele
devia ser agitado pelos assomos do desprezo?
Na sala, cercada de adoradores, no meio das esplêndidas reverberações
de sua beleza, Aurélia bem longe de inebriar-se da adoração
produzida por sua formosura, e do culto que lhe rendiam; ao contrário
parecia unicamente possuída de indignação por
essa turba vil e abjeta.
Não era um triunfo que ela julgasse digno de si, a torpe
humilhação dessa gente ante sua riqueza. Era um desafio,
que lançava ao mundo; orgulhosa de esmagá-lo sob a
planta, como a um réptil venenoso.
E o mundo é assim feito; que foi o fulgor satânico
da beleza dessa mulher, a sua maior sedução. Na acerba
veemência da alma revolta, pressentiam-se abismos de paixão;
e entrevia-se que procelas de volúpia havia de ter o amor
da virgem bacante.
Se o sinistro vislumbre se apagasse de súbito, deixando a
formosa estátua na penumbra suave da candura e inocência,
o anjo casto e puro que havia naquela, como há em todas as
moças, talvez passasse desapercebido pelo turbilhão.
As revoltas mais impetuosas de Aurélia eram justamente contra
a riqueza que lhe servia de trono, e sem a qual nunca por certo,
apesar de suas prendas, receberia como rainha desdenhosa, a vassalagem
que lhe rendiam.
Por isso mesmo considerava ela o ouro, um vil metal que rebaixava
os homens; e no íntimo sentia-se profundamente humilhada
pensando que para toda essa gente que a cercava, ela, a sua pessoa,
não merecia uma só das bajulações que
tributavam a cada um de seus mil contos de réis.
Nunca da pena de algum Chatterton desconhecido saíram mais
cruciantes apóstrofes contra o dinheiro, do que vibrava muitas
vezes o lábio perfumado dessa feiticeira menina, no seio
de sua opulência.
Um traço basta para desenhá-la sob esta face.
Convencida de que todos os seus inúmeros apaixonados, sem
exceção de um, a pretendiam unicamente pela riqueza,
Aurélia reagia contra essa afronta, aplicando a esses indivíduos
o mesmo estalão.
Assim costumava ela indicar o merecimento de cada um dos pretendentes,
dando-lhes certo valor monetário. Em linguagem financeira,
Aurélia cotava os seus adoradores pelo preço que razoavelmente
poderiam obter no mercado matrimonial.
Uma noite, no Cassino, a Lísia Soares, que fazia-se íntima
com ela, e desejava ardentemente vê-la casada, dirigiu-lhe
um gracejo acerca do Alfredo Moreira, rapaz elegante que chegara
recentemente da Europa:
- É um moço muito distinto, respondeu Aurélia
sorrindo; vale bem como noivo cem contos de réis; mas eu
tenho dinheiro para pagar um marido de maior preço, Lísia;
não me contento com esse.
Riam-se todos destes ditos de Aurélia, e os lançavam
à conta de gracinhas de moça espirituosa; porém
a maior parte das senhoras, sobretudo aquelas que tinham filhas
moças, não cansavam de criticar desses modos desenvoltos,
impróprios de meninas bem-educadas.
Os adoradores de Aurélia sabiam, pois ela não fazia
mistério, do preço de sua cotação no
rol da moça; e longe de se agastarem com a franqueza, divertiam-se
com o jogo que muitas vezes resultava do ágio de suas ações
naquela empresa nupcial.
Dava-se isto quando qualquer dos apaixonados tinha a felicidade
de fazer alguma cousa a contento da moça e satisfazer-lhe
as fantasias; porque nesse caso ela elevava-lhe a cotação,
assim como abaixava a daquele que a contrariava ou incorria em seu
desagrado.
Muito devia a cobiça embrutecer esses homens, ou cegá-los
a paixão, para não verem o frio escárnio com
que Aurélia os ludibriava nestes brincos ridículos,
que eles tomavam por garridices de menina, e não eram senão
ímpetos de uma irritação íntima e talvez
mórbida.
A verdade é que todos porfiavam, às vezes colhidos
por desânimo passageiro, mas logo restaurados por uma esperança
obstinada, nenhum se resolvia a abandonar o campo; e muito menos
o Alfredo Moreira que parecia figurar a cabeça do rol.
Não acompanharei Aurélia em sua efêmera passagem
pelos salões da Corte, onde viu, jungido a seu carro de triunfo,
tudo que a nossa sociedade tinha de mais elevado e brilhante.
Proponho-me unicamente a referir o drama íntimo e estranho
que decidiu do destino dessa mulher singular.
Capítulo
II
Seriam nove
horas do dia.
Um sol ardente de março esbate-se nas venezianas que vestem
as sacadas de uma sala, nas Laranjeiras.
A luz coada pelas verdes empanadas debuxa com a suavidade do nimbo
o gracioso busto de Aurélia sobre o aveludado escarlate do
papel que forra o gabinete.
Reclinada na conversadeira com os olhos a vagar pelo crepúsculo
do aposento, a moça parece imersa em intensa cogitação.
O recolho apaga-lhe no semblante, como no porte, a reverberação
mordaz que de ordinário ela desfere de si, como a chama sulfúrea
de um relâmpago.
Mas a serenidade que se derrama por toda a sua pessoa, se de alguma
sorte desmaia a cintilação de sua beleza, a embebe
de um fluido inefável de meiguice e carinho, que a torna
irre-sistível.
Seus olhos já não têm aqueles fulvos lampejos,
que despedem nos salões, e que, a igual do mormaço
crestam. Nos lá-bios, em vez do cáustico sorriso,
borbulha agora a flor d'alma a rever os íntimos enlevos.
Sombreia o formoso semblante uma tinta de melancolia que não
lhe é habitual desde certo tempo, e que não obstante
se diria o matiz mais próprio das feições delicadas.
Há mulheres assim, a quem um perfume de tristeza idealiza.
As mais violentas paixões são inspiradas por esses
anjos de exílio.
Aurélia concentra-se de todo dentro de si; ninguém
ao ver essa gentil menina, na aparência tão calma e
tranqüila, acreditaria que nesse momento ela agita e resolve
o problema de sua existência; e prepara-se para sacrificar
irremediavelmente todo o seu futuro.
Alguém que entrava no gabinete veio arrancar a formosa pensativa
à sua longa meditação. Era D. Firmina Mascarenhas,
a senhora que exercia junto de Aurélia o ofício de
guarda-moça.
A viúva aproximou-se da conversadeira para estalar um beijo
na face da menina, que só nessa ocasião acordou da
profunda distração em que estava absorta.
Aurélia correu a vista surpresa pelo aposento; e interrogou
uma miniatura de relógio presa à cintura por uma cadeia
de ouro fosco.
Entretanto D. Firmina, acomodando a sua gordura semi-secular em
uma das vastas cadeiras de braços que ficavam ao lado da
conversadeira, dispunha-se esperar pelo almoço.
- Está fatigada de ontem? perguntou a viúva com a
expressão de afetada ternura que exigia o seu cargo.
- Nem por isso; mas sinto-me lânguida; há de ser o
calor - respondeu a moça para dar uma razão qualquer
de sua atitude pensativa.
- Estes bailes que acabam tão tarde não podem ser
bons para a saúde; por isso é que no Rio de Janeiro
há tanta moça magra e amarela. Ora, ontem, quando
serviram a ceia pouco faltava para tocar matinas em Santa Teresa.
Se a primeira quadrilha começou com o toque do Aragão!...
Havia muita confusão; o serviço não esteve
mau, mas andou tão atrapalhado!...
Firmina continuou por aí além a descrever suas impressões
do baile da véspera, sem tirar os olhos do semblante de Aurélia,
onde espiava o efeito de suas palavras, pronta a desdizer-se de
qualquer observação, ao menor indício de contrariedade.
Deixou-a a moça falar, desejosa de desprender-se de suas
preo-cupações e embalar-se ao rumor dessa voz que
ouvia, sem compreender. Sabia que a viúva conversava acerca
do baile; mas não acompanhava o que ela dizia.
De repente, porém, interrompeu-a:
- Que tal achou a Amaralzinha, D. Firmina?
A velha fez semblante de recordar-se.
- A Amaralzinha?... É aquela moça toda de azul?
- Com espigas de prata nos cabelos e nos apanhados da saia; simples
e de muito bom gosto.
- Lembra-me. É uma menina bem galante! afirmou a -viúva.
- E bem-educada. Dizem que toca piano perfeitamente, e que tem uma
voz muito agradável.
- Mas não costuma aparecer na sociedade. É a primeira
vez que a encontramos; não me lembro de a ter visto antes.
- Foi a primeira vez!
Pronunciando estas palavras, a moça parecia de novo sentir
sua alma refranger-se atraída imperiosamente por esse pensamento
recôndito que a absorvia.
Mas reagiu contra essa preocupação; e dirigiu-se à
viúva em tom vivo e instante:
- Diga-me uma cousa, D. Firmina!
- O que é, Aurélia?
- Mas há de ser franca. Promete-me?
- Franca? Mais do que eu sou, menina? Se é este o meu defeito!...
A moça hesitava.
- Experimente, Senhora!
- Quem acha a senhora mais bonita, a Amaralzinha ou eu? disse afinal
Aurélia, empalidecendo de leve.
- Ora, ora! acudiu a viúva a rir. Está zombando, Aurélia.
Pois, a Amaralzinha é para se comparar com você?
- Seja sincera!
- Outras muito mais bonitas que ela não chegam a seus pés.
A viúva citou quatro ou cinco nomes de moças que então
andavam no galarim e dos quais não me recordo agora.
- É tão elegante! disse Aurélia como se completasse
uma reflexão íntima.
- São gostos!
- Em todo o caso é mais bem-educada do que eu?
- Do que você, Aurélia? Há de ser difícil
que se encontre em todo o Rio de Janeiro outra moça que tenha
sua educação. Lá mesmo, por Paris, de que tanto
se fala, duvido que haja.
- Obrigada! É esta a sua franqueza, D. Firmina?
- Sim, senhora; a minha franqueza está em dizer a verdade,
e não em escondê-la. Demais, isso é o que todos
vêem e repetem. Você toca piano como o Arnaud, canta
como uma prima-dona, e conversa na sala com os deputados e os diplomatas,
que eles ficam todos enfeitiçados. E como não há
de ser assim? Quando você quer, Aurélia, fala que parece
uma novela.
- Já vejo que a senhora não é nada lisonjeira.
Está desmerecendo os meus dotes, acudiu a menina sublinhando
a última palavra com um fino sorriso de ironia. Então
não sabe, D. Firmina, que eu tenho um estilo de ouro, o mais
sublime de todos os estilos, a cuja eloqüência arrebatadora
não se resiste? As que falam como uma novela, em vil prosa,
são essas moças românticas e pálidas
que se andam evaporando em suspiros; eu falo como um poema: sou
a poesia que brilha e deslumbra!
- Entendo o que você quer dizer; o dinheiro faz do feio bonito,
e dá tudo, até saúde. Mas repare bem, os seus
maiores admiradores são justamente aqueles que não
podem pretender sua riqueza; uns casados, outros já velhos...
- Quando pela primeira vez fumaram perto da senhora, não
sentiu alguma cousa, um atordoamento?... Pois o ouro tem uma fumaça
invisível, que embriaga ainda mais do que a do charuto de
Havana, e até mesmo do que a desse nojento cigarro de papel,
com que os rapazes de hoje se incensam. Toda essa gente que rodeia
um velho ricaço, ministros, senadores e fidalgos, de certo
que não espera casar-se com a burra do sujeito; mas sofre
a atração do dinheiro.
- Agora mesmo, Aurélia, está você me dando razão
e mostrando sua instrução. Quem há de dizer
que uma menina de sua idade sabe mais de que muitos homens que aprenderam
nas academias? E assim é bom; porque senão, com a
riqueza que lhe deixou seu avô, sozinha no mundo, por força
que havia de ser enganada.
- Antes fosse! murmurou a moça recaindo em sua meditação.
D. Firmina ainda proferiu algumas palavras em continuação
da conversa; mas notou que a moça não lhe prestava
a menor atenção, antes parecia esquivar-se a qualquer
impressão exte-rior, para mais profundamente reconcentrar-se.
Então com o tacto dessas almas feitas para a domesticidade
moral, ergueu-se; e trocando alguns passos pela sala, disfarçou
a reparar nas estatuetas de alabastro e vasos de porcelana colocados
no mármore vermelho dos consolos.
Assim de costas para a conversadeira, mostrava-se desapercebida
daquele enlevo de Aurélia, a quem de certo havia de contrariar,
quando voltasse da distração à presença
de uma pessoa a escrutar-lhe nos gestos o segredo dos pensamentos.
Não teriam decorrido cinco minutos quando ouvia D. Firmina
um som trépido e cristalino, que ela bem conhecia por tê-lo
muitas vezes escutado. Voltou-se e viu Aurélia, cujos lábios
de nácar vibravam ainda com o harpejo daquele ríspido
sorriso.
A gentil menina surgira de sua pensativa languidez, como uma estátua
de cera que transmutando-se em jaspe de repente, se erigisse altiva
e desdenhosa, desferindo de si os lívidos e fulvos reflexos
do mármore polido.
Ela caminhou para as janelas, e com petulância nervosa suspendeu
impetuosamente as duas venezianas, que pareciam um peso excessivo
para sua mão fina e mimosa.
A torrente da luz precipitando-se pela abertura das janelas, encheu
o aposento; e a moça adiantou-se até a sacada, para
banhar-se nessas cascatas de sol, que lhe borbotavam sobre a régia
fronte coroada do diadema de cabelos castanhos, e desdobravam-se
pelas formosas espáduas como uma túnica de ouro.
Embebia-se de luz. Quem a visse nesse momento assim resplandecente,
poderia acreditar que sob as pregas do roupão de cambraia
estava a ondular voluptuosamente a ninfa das chamas, a lasciva salamandra,
em que se transformara de chofre a fada encantada.
Depois de saturar-se de sol como a alva papoula, que se cora aos
beijos de seu real amante, a moça dirigiu-se ao piano e estouvadamente
o abriu. Dos turbilhões da estrepitosa tempestade cromática,
que revolvia o teclado, desprendeu-se afinal a sublime imprecação
da Norma, quando rugindo ciúme, fulmina a perfídia
de Polião.
Moderando os arrojos dessa instrumentação vertiginosa,
para fazer o acompanhamento, a moça começou a cantar;
mas às primeiras notas, sentindo-se tolhida pela posição,
abandonou o pia-no, e em pé, no meio da sala, roçagando
a saia do roupão como se fosse a cauda do pálio gaulês,
ela reproduziu com a voz e o gesto, aquela epopéia do coração
traído, que tantas vezes tinha visto representada por Lagrange.
A ferocidade da mulher enganada, sanha da leoa ferida, nunca teve
para exprimi-la, nem mesmo na exímia cantora, uma voz mais
bramida, um gesto mais sublime. As notas que desatavam-se dos lábios
de Aurélia, possantes de vigor e harmonia, deixavam após
si um frêmito, que lembrava o silvo da serpente, sobretudo
quando este braço mimoso e torneado distendia-se de repente
com um movimento hirto para vibrar o supremo desprezo.
D. Firmina, apesar de habituada desde muito ao caráter excêntrico
de Aurélia, contemplava-a com surpresa nesse momento; e desconfiava
que alguma cousa de extraordinário ocorrera na vida da moça,
que a tornara a princípio tão pensativa, e produzia
agora esse acesso sentimental.
Entretanto ela com a mesma volubilidade que a tomara ao erguer-se
da conversadeira, correu para D. Firmina, travou-lhe do pulso fazendo-a
de Polião, e deu imediatamente um jeito cômico à
cena que terminou em risadas.