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A Relíquia
Eça de Queirós
 



Deslumbrada, a Titi ergueu-se de mãos postas. Eu
corri a prover-me de um martelo. Quando voltei, o Doutor
Margaride, grave, calçava as suas luvas pretas... E atrás
da senhora Dona Patrocínio, cujos cetins faziam no sobrado
um ruge-ruge de vestes de prelado, penetramos no corredor
onde o grande bico de gás silvava dentro do seu vidro
fosco. Ao fundo a Vicência e a cozinheira espreitavam com
os seus rosários na mão.
O oratório resplandecia. As velhas salvas de prata,
batidas pelas chamas das velas de cera, punham no fundo do
altar um brilho branco de glória. Sobre a candidez das
rendas lavadas, entre a neve fresca das camélias - as
túnicas dos santos, azuis e vermelhas, com o seu lustre de
seda, pareciam novas, especialmente talhadas nos guarda-
roupas do céu para aquela rara noite de festa... Por vezes
o raio de uma auréola tremia, despedia um fulgor, como se
na madeira das imagens corressem estremecimentos de
júbilo. E na sua cruz de pau preto, o Cristo, riquíssimo,
maciço, todo de ouro, suando ouro, sangrando ouro, reluzia
preciosamente.
- Tudo com muito gosto! Que divina cena! - murmurou o
Doutor Margaride, deliciado na sua paixão do grandioso.
Com piedosos cuidados coloquei o caixote na almofada
de veludo; vergado, rosnei sobre ele uma Ave; depois,
ergui a toalha que o cobria, e com ela no braço, tendo
escarrado solenemente, falei:
- Titi, meus senhores... Eu não quis revelar ainda a
relíquia que vem aqui no caixotinho, porque assim mo
recomendou o senhor Patriarca de Jerusalém... Agora é que
vou dizer... Mas antes de tudo, parece-me bem a pelo
explicar que tudo cá nesta relíquia, papel, nastro,
caixotinho, pregos, tudo é santo! Assim por exemplo os
preguinhos... são da Arca de Noé... Pode ver, senhor Padre
Negrão, pode apalpar! São os da Arca, até ainda
enferrujados... E tudo do melhor, tudo a escorrer virtude!
Além disso quero declarar diante de todos que esta
relíquia pertence aqui à Titi, e que lha trago para lhe
provar que em Jerusalém não pensei senão nela, e no que
Nosso Senhor padeceu, e em lhe arranjar esta pechincha...
- Comigo te hás de ver sempre, filho! - tartamudeou a
horrenda senhora, enlevada.
Beijei-lhe a mão, selando este pacto de que a
Magistratura e a Igreja eram verídicas testemunhas.
Depois, retomando o martelo:
E agora, para que cada um esteja prevenido e possa
fazer as orações que mais lhe calharem, devo dizer o que é
a relíquia...
Tossi, cerrei os olhos:
- É a coroa de espinhos!
Esmagada, com um rouco gemido, a Titi aluiu sobre o
caixote, enlaçando-o nos braços trêmulos... Mas o
Margaride coçava pensativamente o queixo austero; Justino
sumira-se na profundidade dos seus colarinhos; e o ladino
Negrão escancarava para mim uma bocaça negra, de onde saía
assombro e indignação! Justos céus! Magistrados e
sacerdotes evidenciavam uma incredulidade - terrível para
a minha fortuna!
Eu tremia, com suores - quando o Padre Pinheiro,
muito sério, convicto, se debruçou, apertou a mão da Titi
a felicitá-la pela posição religiosa a que a elevava a
posse daquela relíquia. Então, cedendo à forte autoridade
litúrgica de Padre Pinheiro, todos, em fila, numa
congratulação, estreitaram os dedos da babosa senhora.
Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei à beira do
caixote, cravei o formão na fenda da tampa, alcei o
martelo em triunfo...
- Teodorico! Filho! - berrou a Titi, arrepiada, como
se eu fosse martelar a carne viva do Senhor.
- Não há receio, Titi! Aprendi em Jerusalém a manejar
estas cousinhas de Deus!...
Despregada a tábua fina, alvejou a camada de algodão.
Ergui-a com terna reverência; e ante os olhos extáticos,
surgiu o sacratíssimo embrulho de papel pardo, com o seu
nastrinho vermelho.
- Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! - suspirou a
Titi a esvair-se de gosto beato, com o branco do olho
aparecendo por sobre o negro dos óculos.
Ergui-me, rubro de orgulho:
- É à minha querida Titi, só a ela, que compete, pela
sua muita virtude, desembrulhar o pacotinho!...
Acordando do seu langor, trêmula e pálida, mas com a
gravidade de um pontífice, a Titi tomou o embrulho, fez
mesura aos santos, colocou-o sobre o altar; devotamente
desatou o nó do nastro vermelho; depois, com o cuidado de
quem teme magoar um corpo divino, foi desfazendo uma a uma
as dobras do papel pardo... Uma brancura de linho
apareceu... A Titi segurou-a nas pontas dos dedos,
repuxou-a bruscamente - e sobre a ara, por entre os
santos, em cima das camélias, aos pés da cruz - espalhou-
se, com laços e rendas, a camisa de dormir da Mary!
A camisa de dormir da Mary! Em todo o seu luxo, todo
o seu impudor, enxovalhada pelos meus abraços, com cada
prega fedendo a pecado! A camisa de dormir da Mary! E
pregado nela por um alfinete, bem evidente ao clarão das
velas, o cartão com a oferta em letra encorpada: - "Ao meu
Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrança do
muito que gozamos!" Assinado, M. M.... A camisa de dormir
da Mary!
Mal sei o que ocorreu no florido oratório! Achei-me à
porta, enrodilhado na cortina verde, com as pernas a
vergar, num desmaio. Estalando, como achas atiradas a uma
fogueira, eu sentia as acusações do Negrão bradadas contra
mim junto à touca da Titi: -"Deboche! Escárnio! Camisa de
prostituta! Achincalho à senhora Dona Patrocínio!
Profanação do oratório!" Distingui a sua bota arrojando
furiosamente para o corredor o trapo branco. Um a um,
entrevi os amigos perpassarem, como longas sombras levadas
por um vento de terror. As luzes das velas arquejavam,
aflitas. E, ensopada em suor, entre as pregas da cortina,
percebi a Titi caminhando para mim, lenta, lívida, hirta,
medonha... Estacou. Os seus frios e ferozes óculos
trespassaram-me. E através dos dentes cerrados cuspiu esta
palavra:
- Porcalhão!
E saiu.
Rolei para o quarto, tombei no leito, esbarrondado.
Um rumor de escândalo acordara o casarão severo. E a
Vicência surgiu diante de mim, enfiada, com o seu avental
branco na mão:
- Menino! Menino! A senhora manda dizer que saia
imediatamente para o meio da rua, que o não quer nem mais
um instante em casa... E diz que pode levar a sua roupa
branca e todas as suas porcarias!
Despedido!
Ergui a face mole da travesseira de rendas. E a
Vicência, atontada, torcendo o avental:
- Ai, menino! Ai, menino! se não sai já para a rua, a
senhora diz que manda chamar um polícia!
Escorraçado!
Atirei os pés incertos para o soalho. Mergulhei na
algibeira uma escova de dentes; topando nos móveis,
procurei as chinelas que embrulhei num número da Nação.
Sem reparo, agarrei dentre as malas um caixote com bandas
de ferro; e em ponta de botins desci a escada da Titi,
encolhido e rasteiro, como um cão tinhoso vexado da sua
tinha.
Mal transpus o pátio, a Vicência, cumprindo as ordens
sanhudas da Titi, bateu-me nas costas com o portão
chapeado de ferro - desprezivelmente e para sempre!

Estava só na rua e na vida! À luz dos frios astros
contei na palma o meu dinheiro. Tinha duas libras, dezoito
tostões, um duro espanhol e cobres... E então descobri que
a caixa, apanhada tontamente entre as malas, era a das
relíquias menores. Complicado sarcasmo do destino! Para
cobrir meu corpo desabrigado - nada mais tinha que
tabuinhas aplainadas por São José, e cacos de barro do
cântaro da Virgem! Meti no bolso o embrulho das chinelas;
e, sem voltar os olhos turvos à casa de minha tia, marchei
a pé, com o caixote às costas, na noite cheia de silêncio
e de estrelas, para a Baixa, para o Hotel da Pomba de
Ouro.
Ao outro dia, descorado e misérrimo à mesa da Pomba,
remexia uma sombria sopa de grão e nabo - quando um
cavalheiro, de colete de veludo negro, veio ocupar o
talher fronteiro, junto de uma garrafa de água de Vidago,
de uma caixa de pílulas e de um número da Nação. Na sua
testa, imensa e arqueada como um frontão de capela,
torciam-se duas veias grossas; e sob as ventas largas,
enegrecidas de rapé, o bigode era um tufo curto de pêlos
grisalhos, duros como cerdas de escova. O galego, ao
servir-lhe o nabo e grão, rosnou com estima: "Ora, seja
bem aparecidinho o Senhor Lino!"
Ao cozido este cavalheiro, abandonando a Nação onde
percorrera miudamente os anúncios, pousou em mim os olhos
amarelentos de bílis e baços, e observou que estávamos
gozando desde os Reis um tempinho de apetite...
- De rosas - murmurei com reserva.
O Senhor Lino entalou mais o guardanapo para dentro
do colarinho lasso:
- E Vossa Senhoria, se não é curiosidade, vem das
provindas do norte?
Passei vagarosamente a mão pelos cabelos:
- Não, senhor... Venho de Jerusalém!
De assombrado o Senhor Uno perdeu a garfada de arroz.
E depois de ter ruminado mudamente a sua emoção, confessou
que lhe interessavam muito todos esses lugares santos
porque tinha religião, graças a Deus! E tinha um emprego,
graças também a Deus, na Câmara Patriarcal...
- Ah, na Câmara Patriarcal! - acudi eu. - Sim, muito
respeitável... Eu conheci muito um patriarca... Conheci
muito o senhor Patriarca de Jerusalém. Cavalheiro muito
santo, muito catita... Até nos ficamos tratando de tu!
O Senhor Lino ofereceu-me da sua água de Vidago - e
conversamos das terras da Escritura.
- Que tal Jerusalém, como lojas?...
- Como lojas?... Lojas de modas?
- Não, não! - atalhou o Senhor Lino. Quero dizer
lojas de santidade, de reliquiarias, de cousinhas
divinas...
- Sim... Menos mau. Há o Damiani na Via-Dolorosa que
tem tudo, até ossos de mártires... Mas o melhor é cada um
esquadrinhar, escavar... Eu nessas cousas trouxe
maravilhas!
Uma chama de singular cobiça avivou as pupilas
amareladas do Senhor Lino, da Câmara Patriarcal. E de
repente, com uma decisão de inspirado:
- Andrezinho, a pinguinha de Porto... Hoje é bródio!
Quando o galego pousou a garrafa, com a sua data
traçada à mão num velho rótulo de papel almaço - o Senhor
Lio ofertou-me um cálice cheio.
- A sua!
- Com a ajuda do Senhor!... À sua!
Por cortesia, rilhado o queijo, convidei aquele homem
que graças a Deus tinha religião, a entrar no meu quarto e
admirar as fotografias de Jerusalém. Ele aceitou, com
alvoroço; mas, apenas transpôs a porta, correu sem
etiqueta e gulosamente ao meu leito - onde jaziam
espalhadas algumas das relíquias que eu desencaixotara
essa manhã.
- O cavalheiro aprecia? - indaguei, desenrolando uma
vista do Monte Olivete, e pensando em lhe ofertar um
rosário.
Ele revirava em silêncio, nas mãos gordas e de unhas
roídas, um frasco de água do Jordão. Cheirou-o, pesou-o,
chocalhou-o. Depois, muito sério, com as veias entumecidas
na vastíssima fronte:
- Tem atestado?
Estendi-lhe a certidão do frade franciscano,
garantindo como autêntica e sem mistura a água do rio
batismal. Ele saboreou o venerando papel. E entusiasmado:
- Dou quinze tostões pelo frasquinho!
Foi, no meu intelecto de bacharel, como se uma janela
se abrisse e por ela entrasse o sol! Vi inesperadamente,
ao seu clarão forte, a natureza real dessas medalhas,
bentinhos, águas, lascas, pedrinhas, palhas, que eu
considerara até então um lixo eclesiástico esquecido pela
vassoura da filosofia! As relíquias eram valores! Tinham a
qualidade onipotente de valores! Dava-se um caco de barro
- e recebia-se uma rodela de ouro!... E, iluminado,
comecei insensivelmente a sorrir, com as mãos encostadas à
mesa como um balcão de armazém:
- Quinze tostões por água pura do Jordão! Boa! Em
pouca conta tem Vossa Senhoria o nosso São João Batista...
Quinze tostões! Chega a ser impiedade!... Vossa Senhoria
imagina que a água do Jordão é como a água do Arsenal? Ora
essa!... Três mil-réis recusei eu a um padre de Santa
Justa, esta manhã, aí, ao pé dessa cama...
Ele fez saltar o frasco na palma gorda, considerou,
calculou:
- Dou quatro mil-réis.
Vá lá, por sermos companheiros na Pomba!
E quando o Senhor Lino saiu do meu quarto, com o
frasco do Jordão embrulhado na Nação, eu, Teodorico
Raposo, achava-me fatalmente, providencialmente,estabelecido
vendilhão de relíquias!
Delas comi; delas fumei; delas amei, durante dous
meses, quieto e aprazido na Pomba de Ouro. Quase sempre o
Senhor Lino surdia de manhã no meu quarto, de chinelos,
escolhia um caco do cântaro da Virgem ou uma palhinha do
presépio, empacotava na Nação, largava a pecúnia e abalava
assobiando o De Profundis. E evidentemente o digno homem
revendia as minhas preciosidades com gordo provento -
porque bem depressa, sobre o seu colete de veludo preto,
rebrilhou uma corrente de ouro.
No entanto, muito hábil e fino, eu não tentara (nem
com súplicas, nem com explicações, nem com patrocínios)
amansar as beatas iras da Titi e repenetrar na sua estima.
Contentava-me em ir à Igreja de Santana, todo de negro,
com um ripanço. Não encontrava a Titi, que tinha agora de
manhã no oratório missa do torpíssimo Negrão. Mas lá me
prostrava, batendo contritamente no peito suspirando para
o sacrário - certo que, pelo Melchior, sacristão, as novas
da minha devoção inalterável chegariam à hedionda senhora.
Muito manhoso, também não procurara os amigos da Titi
- que deviam prudentemente partilhar as paixões da sua
alma para lograrem os favores do seu testamento; assim
poupava embaraços angustiosos a esses beneméritos da
Magistratura e da Igreja. Sempre que encontrava Padre
Pinheiro ou Doutor Margaride, cruzava as mãos dentro das
mangas, baixava os olhos, evidencianlo humildade e
compunção. E este retraimento era decerto grato aos
amigos, porque uma noite, topando o Justino perto da casa
da Benta Bexigosa, o digno homem segredou junto da minha
barba, depois de se ter assegurado da solidão da rua.
- Ande-me assim, amiguinho!... Tudo se há de
arranjar... Que ela por ora está uma fera... Oh diabo aí
vem gente!
E abalou.
No entanto, por intermédio do Lino, eu vendilhava
relíquias. Bem depressa, porém recordado dos compêndios de
Economia Política, refleti, que os meus proventos
engordariam se, eliminando o Lino, eu mesmo me dirigisse
ousadamente ao consumidor pio.
Escrevi então a fidalgas, servas do Senhor dos Passos
da Graça, cartas com listas e preços de relíquias. Mandei
propostas de ossos de mártires a igrejas de província.
Paguei copinhos de aguardente a sacristães, para que eles
segredassem a velhas com achaques - "Para cousas de
santidade não há como o senhor Doutor Raposo que vem
fresquinho de Jerusalém!..." E bafejou-me a sorte. A minha
especialidade foi a água do Jordão, em frascos de zinco,
lacrados e carimbados com um coração em chamas; vendi
desta água para batizados, para comidas, para banhos; e
durante um momento houve um outro Jordão, mais caudaloso e
límpido que o da Palestina, correndo por Lisboa, com a sua
nascente num quarto da Pomba de Ouro. Imaginativo,
introduzi novidades rendosas e poéticas; lancei no
comércio com eficácia "o pedacinho da bilha com que Nossa
Senhora ia à fonte"; fui eu que acreditei na piedade
nacional "uma das ferraduras do burrinho em que fugira a
Santa Família". Agora quando o Lino de chinelos batia à
porta do meu quarto, onde as medas de palhinhas do
presépio alternavam com as palhas de tabuinhas de São
José, eu entreabria uma fenda avara e ciciava:
- Foi-se... Esgotadinho!... Só para a semana... Vem-
me aí um caixotinho da Terra Santa...
As veias frontais do capacíssimo homem inchavam, numa
indignação de intermediário espoliado.
Todas as minhas relíquias eram acolhidas com o mais
forte fervor - porque provinham "do Raposo, fresquinho de
Jerusalém". Os outros reliquistas não tinham esta
esplêndida garantia de uma jornada à Terra Santa. Só eu,
Raposo, percorrera esse vastíssimo depósito de sanidade.
Só eu de resto sabia lançar na folha sebácea de papel que
autenticava a relíquia - a firma floreada do senhor
Patriarca de Jerusalém.
Mas bem cedo reconheci que esta profusão de
reliquilharia saturara a devoção do meu pais! Atochado,
empanturrado de relíquias, este católico Portugal já não
tinha capacidade - nem para receber um desses raminhos
secos de flores de Nazaré, que eu cedia a cinco tostões!
Inquieto, baixei melancolicamente os preços.

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