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A Relíquia
Eça de Queirós
 



O bom frade, risonho na sua barba de neve, bateu-me
no ombro, chamou-me seu filho, lembrou-me que se fechava o
santo horto e que lhe seria grata a minha esmola... Dei-
lhe uma placa; e recolhi regalado a Jerusalém, devagar,
pelo Vale de Josafate, cantarolando um fado meigo.
Ao outro dia de tarde, tocava o sino a novena na
Igreja da Flagelação quando a nossa caravana se formou à
porta do Hotel do Mediterrâneo, para partirmos de
Jerusalém. Os caixões das relíquias iam sobre o macho,
entre os fardos. O beduíno, mais encatarroado, abafara-se
num ignóbil cachenê de sacristão. Topsius montava outra
égua, séria e pachorrenta. E eu, que por alegria pusera
uma rosa vermelha ao peito, resmunguei, ao pisarmos pela
vez derradeira a Via-Dolorosa: - "Fica-te, pocilga de
Sião!"
Já chegávamos à porta de Damasco quando um grito
esbaforido ressoou, no alto da rua, à esquina do convento
dos abissínios:
- Amigo Pote, doutor, cavalheiros!... Um embrulho!
Esqueceu um embrulho...
Era o negro do hotel, em cabelo, agitando um embrulho
que logo reconheci pelo papel pardo e pelo nastro
vermelho. A camisinha de dormir da Mary! E recordei que,
com efeito, ao emalar, eu não o vira no guarda-roupa, no
seu ninho de peúgas.
Esfalfado, o servo contou que depois de pararmos,
varrendo o quarto, descobrira o embrulhinho entre pó e
aranhas, detrás da cômoda; limpara-o carinhosamente; e
como fora sempre seu afã servir o fidalgo lusitano,
abalara, mesmo sem a jaleca...
- Basta! - rosnei eu, seco e carrancudo.
Dei-lhe as moedas de cobre que me atulhavam as
algibeiras. E pensava: "Como rolou ele para trás da
cômoda?" Talvez o negro atabalhoado que, arrumando, o
tirara do seu ninho de peúgas... Pois antes lá
permanecesse para sempre, entre o pó e as aranhas! Porque
em verdade este pacote era agora audazmente impertinente.
Decerto! Eu amava a Mary. A esperança que em breve na
terra do Egito seria apertado pelos seus braços gordinhos,
ainda me fazia espreguiçar com langor. Mas guardando
fielmente a sua imagem no coração, não necessitava trazer
perenemente à garupa a sua camisinha de dormir. Com que
direito pois corria esta bretanha atrás de mim, pelas ruas
de Jerusalém, querendo instalar-se violentamente nas
minhas malas e acompanhar-me à minha pátria?
E era essa idéia de pátria que me torturava em quanto
nos afastávamos das muralhas da Cidade Santa... Como
poderia eu jamais penetrar com este pacote lúbrico na casa
eclesiástica da tia Patrocínio? Constantemente a Titi se
encafuava no meu quarto, munida de chaves falsas, ásperas
e ávida, rebuscando pelos cantos, nas minhas cartas e nas
minhas ceroulas... Que cólera a esverdearia se numa noite
de pesquisas ela encontrasse estas rendas babujadas pelos
meus lábios, fedendo a pecado, com a oferta em letra
cursiva "Ao meu portuguesinho valente!"
"Se soubesse que nesta santa viagem te tinhas metido
com saias, escorraçava-te como um cão!" Assim o dissera a
Titi, em vésperas da minha romagem, diante da Magistratura
e da Igreja. E iria eu, pelo luxo sentimental de conservar
a relíquia de uma luveira, perder a amizade da velha que
tão caramente conquistara com terços, pingos de água benta
e humilhações da razão liberal? Jamais!... E, se não
afoguei logo o embrulho funesto na água de um charco, ao
atravessarmos as choças de Coloniê, foi para não revelar
ao penetrante Topsius as covardias do meu coração. Mas
decidi que mal penetrássemos com a noite nas montanhas de
Judá, retardaria o passo à égua, e longe dos óculos do
historiador, longe das solicitudes de Pote, arrojaria a um
barranco a terrível camisa de Mary; evidência do meu
pecado e dano da minha fortuna. E que bem depressa os
dentes dos chacais a rasgassem! Bem depressa os chuveiros
do Senhor a apodrecessem!
Já passáramos o túmulo de Samuel por trás dos
rochedos de Emaús, já para sempre Jerusalém desaparecera
aos meus olhos, quando a égua de Topsius, avistando uma
fonte, num vale cavado junto à estrada, deixou a caravana,
deixou o dever - e trotou para a água, com impudência e
com alacridade. Estaquei, indignado:
- Puxe-lhe a rédea, doutor! Olhe que descaro de égua!
Ainda agora bebeu... Não lhe ceda! Puxe mais! Não lhe
toque, homem!
Mas debalde o filósofo, com os cotovelos saídos, as
pernas esticadas, lhe repuxava bridões e crinas. A
cavalgadura abalou com o filósofo.
Corri também à fonte, para não abandonar naquele ermo
o precioso homem. Era um fio de água turva, escorrendo de
uma quelha sobre um tanque escavado na rocha. Ao pé
branquejava, já tida, a grande carcaça de um dromedário.
Os ramos de uma mimosa, ali solitária, tinham sido
queimados por um fogo de caravana. Longe, na espinha
escamada de uma colina, um pastor, negro no céu opalino,
ia caminhando devagar entre as suas ovelhas com a lança
pousada ao ombro. E na sombria mudez de tudo a fonte
chorava.
Aquela quebrada era tão deserta, que me lembrou
deixar ali a fazer-se, como a ossada do dromedário, o
embrulhinho da Mary... A égua do historiador beberava com
pachorra. E eu procurava aqui, além, um barranco ou um
charco - quando me pareceu que, junto da fonte, e
misturado ao pranto dela, corria também pranto humano.
Torneei um penedo que avançava soberbamente, como a
proa uma galera - e descobri, agachada e refugiada entre
as pedras e os cardos, uma mulher que chorava, com uma
criancinha no regaço; os seus cabelos crespos espalhavam-
se pelos ombros e os braços, que os trapos negros mal
cobriam; e sobre o filho, que dormia no calor do colo, o
seu choro corria, mais contínuo, mais triste que o da
fonte, e como se não devesse findar jamais.
Gritei pelo jucundo Pote. Quando ele trotou para nós,
agarrando a coronha prateada da sua pistola, supliquei que
perguntasse à mulher a causa dessas longas lágrimas. Mas
ela parecia entontecida pela miséria; falou surdamente de
um casebre queimado, de cavaleiros turcos que tinham
passado, do leite que lhe secava... Depois apertou a
criança contra a face - e sufocada, sob os cabelos -
esguedelhados, recomeçou a chorar.
O festivo Pote deitou-lhe uma moeda de prata; Topsius
tomou, para a sua severa conferência sobre a Judéia
Muçulmana, um apontamento daquele infortúnio. E eu,
comovido, procurava na algibeira o meu cobre - quando me
recordei que o dera num punhado ao negro do Hotel do
Mediterrâneo. Mas tive uma útil inspiração. Atirei-lhe o
perigoso embrulho da camisinha da Mary; e a meu pedido o
risonho Pote explicou, à desventurada, que qualquer das
pecadoras que habitam junto à Torre de Davi, a gorda Fatmé
ou Palmira, a Samaritana, lhe daria duas piastras de ouro
por esse vestido de luxo, de amor e de civilização.
Trotamos para a estrada. Atrás de nós a mulher
lançava-nos, por entre soluços e beijos ao filho, todas as
bênçãos do seu coração; e a nossa caravana retomou a
marcha - enquanto o arrieiro adiante, escarranchado sobre
as bagagens, cantava à estrela de Vênus que se erguera
esse canto da Síria, áspero, alongado e doente, em que se
fala de amor, de Alá, de uma batalha com lanças, e dos
rosais de Damasco...
Ao apearmos de manhã no Hotel de Josafate, na vetusta
Jafa - prodigiosa foi a minha surpresa vendo,
pensativamente sentado no pátio, com um bojudo turbante
branco, o mofino Alpedrinha!... Fiz-lhe ranger os ossos
num abraço voraz. E quando Topsius e o jucundo Pote
partiram, debaixo do guarda-sol de paninho, a colher novas
do paquete que nos devia levar à terra do Egito -
Alpedrinha contou-me a sua história, escovando o meu
albornoz.
Fora por tristeza que deixara a "Alexandriazinha". O
Hotel das Pirâmides, as maletas carregadas, tinham já
saturado a sua alma de um tédio insondável; e o nosso
embarque no Caimão para Jerusalém dera-lhe a saudade dos
mares, das cidades cheias de história, das multidões
desconhecidas... Um judeu de Quechã, que ia fundar uma
estalagem em Bagdá com bilhar, aliciara-o para "marcador".
E ele, metendo num saco as piastras juntas nas amarguras
do Egito, ia tentar essa aventura do progresso junto às
águas lentas do Eufrates, na terra de Babilônia. Mas,
cansado de acarretar fardos alheios, buscava primeiro
Jerusalém, insensivelmente, levado talvez pelo espírito
como o apóstolo, para descansar com as mãos quietas a uma
esquina da Via-Dolorosa...
- E o cavalheiro recebeu alguns jornais da nossa
Lisboa? Gostava de saber como vai por lá a rapaziada...
Enquanto ele assim balbuciava, triste e com o
turbante à banda, eu revia risonhamente a terra quente do
Egito, a rua clara das Duas Irmãs, a capelinha entre
plátanos, as papoulas do chapéu da Mary..
E mais agudo me picava outra vez o desejo da minha
loura luveira. Que doce grito de paixão nos seus beiços
gordinhos, quando uma tarde, queimado pelo sol da Síria e
mais forte, eu surgisse diante do seu balcão espantando o
gato branco! E a camisinha?... Bem! Contaria que uma
noite, junto de uma fonte, ma tinham roubado cavaleiros
turcos com lanças.
- Dize lá, Alpedrinha! Tem-la visto, a Maricoquinhas?
Que tal está? Hem? Rechonchudinha?
Ele baixou o rosto murcho, onde um estranho rubor lhe
avivara duas rosas.
- Já não está... Foi para Tebas!
- Para Tebas? Onde há umas ruínas?... Mas isso é no
alto Egito! Isso é em cascos de Núbia! Ora essa!... Que
foi ela lá fazer?
- Alindar as vistas - murmurou Alpedrinha com
desolação.
Alindar as vistas! Só compreendi quando o patrício me
contou que a ingrata rosa de Iorque, adorno de Alexandria,
fora levada por um italiano de cabelos compridos, que ia a
Tebas fotografar as ruínas desses palácios, onde viviam
face a face Ramsés, rei dos homens, e Amon, rei dos
deuses... E Maricoquinhas ia amenizar "as vistas",
aparecendo nelas à sombra austera dos granitos
sacerdotais, com a graça moderna do seu guarda-solinho
fechado e do seu chapéu de papoulas...
- Que descarada! - gritei eu, varado. - Então com um
italiano? E gostando dele? Ou só negócio?... Hem,
gostando?
- Babadinha - balbuciou Alpedrinha.
E, com um suspiro, atroou o Hotel de Josafate.
Perante este ai, repassado de tormento e de paixão,
relampejou-me na alma uma suspeita abominável.
- Alpedrinha, tu suspiraste! Aqui há perfídia,
Alpedrinha!
Ele baixou a fronte tão contritamente que o turbante
lasso rolou nos ladrilhos. E antes que ele o levantasse já
eu lhe empolgara com sanha o braço mole.
- Alpedrinha, escarra a verdade! A Maricoquinhas,
hem? Também petiscaste?
A minha face barbuda chamejava... Mas Alpedrinha era
meridional, das nossas terras palreiras da vanglória e do
vinho. O medo cedeu à vaidade, e revirando para mim o
bugalho branco do olho:
- Também petisquei!
Sacudi-lhe o braço para longe, cheio de furor e de
nojo. Também aquela - com aquele! Oh, a Terra! A Terra!
Que é ela se não um montão de cousas podres, rolando pelos
céus com basófias de astro?
- E dize lá, Alpedrinha, dize lá, também te deu uma
camisa?
- A mim um chambrezinho...
Também a ele - roupa branca! Ri, acerbamente, com as
mãos nas ilhargas.
- E ouve lá... Também te chamava "seu portuguesinho
valente"?
- Como eu servia com turcos, chamava-me seu
"mourozinho catita."
Ia rebolar-me no divã, rasgá-lo com as unhas, rir
sempre, num desesperado desprezo de tudo... Mas Topsius e
o risonho Pote apareceram alvoroçados.
- Então?...
Sim, chegara de Esmirna um paquete que levantava
nessa tarde ferro para o Egito, e que era o nosso dileto
Caimão!
- Ainda bem! - gritei, atirando patadas ao ladrilho.
- Ainda bem, que estava farto de Oriente!... Irra! Que não
apanhei aqui senão soalheiras, traições, sonhos medonhos e
botas pelos quadris! Estava farto!
Assim eu bramava, sanhudo. Mas nessa tarde, na praia,
diante da barcaça negra que nos devia levar ao Caimão,
entrou-me na alma uma longa saudade da Palestina, e das
nossas tendas erguidas sob o esplendor das estrelas, e da
caravana marchando e cantando por entre as ruínas de nomes
sonoros.
O lábio tremeu-me, quando Pote comovido me estendeu a
sua bolsa, de tabaco de Alepo:
- D. Raposo, é o último cigarro que lhe dá o alegre
Pote.
E a lágrima rolou por fim quando Alpedrinha, em
silêncio, me estendeu os braços magros.
Da barcaça, acocorado sobre os caixões das relíquias,
ainda o vi na praia, sacudindo para mim um lenço triste de
quadrados - ao lado de Pote que nos atirava beijos, com as
grossas botas metidas na água. E já no Caimão, debruçado
na amurada, ainda o avistei imóvel sobre as pedras do
molhe, segurando com as mãos, contra a brisa salgada, o
seu vasto turbante branco.
Desventuroso Alpedrinha! Só eu, em verdade,
compreendi a tua grandeza! Tu eras o derradeiro lusíada,
da raça dos Albuquerques, dos Castros, dos varões fortes
que iam nas armadas à Índia! A mesma sede divina do
desconhecido te levara, como eles, para essa terra de
oriente, de onde sobem ao céu os astros que espalham a luz
e os deuses que ensinam a lei. Somente não tendo já, como
os velhos lusíadas, crenças heróicas concebendo empresas
heróicas, tu não vais como eles, com um grande rosário e
com uma grande espada, impor às gentes estranhas o teu rei
e o teu Deus. Já não tens Deus por quem se combata,
Alpedrinha! Nem rei por quem se navegue, Alpedrinha!...
Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas
ocupações únicas que comportam a fé, o ideal, o valor dos
modernos lusíadas - descansar encostado às esquinas, ou
tristemente carregar fardos alheios...
As rodas do Caimão bateram a água. Topsius ergueu o
seu boné de seda - e gravemente gritou para o lado de
Jafa, que escurecia na palidez da tarde, sobre os seus
tristes rochedos, entre os seus pomares verde-negros:
- Adeus, adeus para sempre, terra da Palestina!
Eu acenei também com o capacete:
- Adeusinho, adeusinho, cousas de religião!
Afastava-me devagar da amurada, quando roçou por mim
a longa capa de lustrina de uma religiosa; e dentre a
sombra pudica do capuz, que se voltou de leve, um fulgor
de olhos negros procurou as minhas barbas potentes. Oh
maravilha! Era a mesma santa irmã que levara nos seus
castos joelhos, através destas águas da Escritura, a
camisa imunda da Mary!
Era a mesma! Por que colocava novamente o destino
junto a mim, no estreito tombadilho do Caimão, este lírio
de capela, ainda fechado e já murcho? Quem sabe! Talvez
para que ao calor do meu desejo ele reverdecesse, desse
flor, e não ficasse para sempre estéril e inútil, tombado
aos pés do cadáver de um deus!... E não vinha agora
guardada pela outra religiosa, rechonchuda e de luneta! A
sorte abandonava-ma indefesa, como a pombinha no ermo.
Rompeu-me então na alma a fulgurante esperança de um
amor de monja mais forte que o medo de Deus; de um seio
magoado pela estamenha de penitência caindo, todo a tremer
e vencido, entre os meus braços valentes!... Decidi
segredar-lhe logo ali: "Oh minha irmãzinha, estou todo
lamecha por si!" E inflamado, torcendo os bigodes,
caminhei para a doce religiosa, que se refugiara num
banco, passando os dedos pálidos pelas contas do seu
rosário...
Mas, bruscamente, o tabuado do Caimão fugiu sob meus
pés ovantes. Estaquei, enfiado. Oh miséria! Humilhação!
Era a vaga enjoadora... Corri à borda; sujei imundamente o
azul do Mar de Tiro; depois rolei para o beliche - e só
ergui do travesseiro a face mortal, quando senti as
correntes do Caimão mergulharem nas calmas águas onde
outrora, fugindo de Ácio, caíram à pressa as âncoras
douradas das galeras de Cleópatra!
E outra vez, estremunhado e esguedelhado, te avistei,
terra baixa do Egito, quente e da cor de um leão! Em tomo
aos finos minaretes voavam as pombas serenas. O lânguido
palácio dormia à beira da água entre palmeiras. Topsius
sobraçava a minha chapeleira, serrazinando cousas
doutíssimas sobre o antigo farol. E a pálida religiosa já
deixara o Caimão, pomba do ermo escapada ao milhafre -
porque o milhafre no seu vôo fechara a asa, sordidamente
enjoado!
Nessa mesma tarde, no Hotel das Pirâmides, soube com
júbilo que um vapor de gado, El Cid Campeador, partia de
madrugada para as terras benditas de Portugal! Na caleche
de riscadinho, só com o douto Topsius, dei o derradeiro
passeio nas sombras olorosas do Mamudiê. E passei a curta
noite numa rua deleitosa. Oh meus concidadãos, ide lá, se
apeteceis conhecer os deleites ásperos do Oriente... Os
bicos de gás sem globo assobiam largamente, torcidos ao
vento; as casas baixas, de pau, são apenas fechadas por
uma cortina branca, atravessada de claridade; tudo cheira
a sândalo e alho; e mulheres sentadas sobre esteiras, em
camisa, com flores nas tranças, murmuram suavemente: - Eh
môssiu! Eh milord!... Recolhi tarde, exausto. Ao passar na
Rua das Duas Irmãs, avistei sobre a porta de uma loja
cerrada a mão de pau, pintada de roxo, que empolgara o meu
coração. Atirei-lhe uma bengalada. Este foi o último leito
das minhas longas jornadas.
De manhã, o fiel e douto Topsius veio, de galochas,
acompanhar-me ao barracão da alfândega. Enlacei-o
longamente nos braços trêmulos:
- Adeus, companheiro, adeus! Escreva... Campo de
Santana, 47...
Ele murmurou, estreitado comigo:
- Aqueles trinta mil-réis, lá mandarei...
Apertei-o generosamente, para abafar essa explicação
de pecúnia. Depois, já com a bota na proa do bote que me
ia levar ao Cid Campeador:
- Então, posso dizer à Titi que a coroazinha de
espinhos é a mesma...
Ele ergueu as mãos, solene como um pontífice do
saber:
- Pode dizer-lhe em meu nome que foi a mesmíssima,
espinho por espinho...
Baixou o bico de cegonha ornado de óculos - e
beijamo-nos na face como dous irmãos.
Os negros remaram. Eu levava, pousado sobre os
joelhos, o caixote da suprema relíquia. Mas quando o meu
bote, à vela, fendia a água azul - passou rente de outro
bote lento, levado a remos para o lado do palácio que
dormia entre palmeiras. E num relance vi o hábito negro, o
capuz descido... Um largo, sequioso olhar, pela vez
derradeira, procurou as minhas barbas. De pé, ainda
gritei: "Oh filhinha, oh magana!" Mas já o vento me
levara. Ela, no seu bote, sumia a face contrita - e sobre
o delicado peito que ousara arfar, decerto a cruz pesou
mais forte, ciumenta e de ferro!
Fiquei mono... Quem sabe? Era aquele, talvez, em toda
a vasta terra, o único coração em que o meu poderia
repousar, como num asilo seguro... Mas quê! Ela era só
monja, eu só sobrinho. Ela ia para o seu deus; eu ia para
a minha tia. E quando nestas águas os nossos peitos se
cruzavam, e sentindo a sua concordância, batiam mudamente
um para o outro - o meu barco corria com vela alegre para
Ocidente, e o barco que a levava, lento e negro, ia a
remos para Oriente... Desencontro contínuo das almas
congêneres - neste inundo de eterno esforço e de eterna
imperfeição!

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