A Relíquia
Eça de Queirós
Cansado, fui sentar-me com Topsius numa pedra. Era
perto da oitava hora judaica; o sol, sereno como um herói
que envelhece, descia para o mar por sobre as palmeiras de
Betânia. Diante de nós o Garebe verdejava, coberto de
jardins. Junto às muralhas, no bairro novo de Bezeta,
grandes panos vermelhos e azuis secavam em cordas às
portas das tinturarias; um lume vermelhejava no fundo de
uma forja; crianças corriam brincando sobre a borda de uma
piscina. Adiante, no alto da torre hípica, que estendia já
a sua sombra sobre o vale de Hinom, soldados de pé na
amurada apontavam a seta aos abutres voando no azul. E
para além, entre arvoredos, surgiam, frescos e rosados
pela tarde, os eirados do palácio de Herodes.
Triste, com o espírito disperso, eu pensava no Egito,
nas nossas tendas, na vela que lá me esquecera ardendo,
fumarenta e vermelha - quando avistei, subindo a colina
devagar, apoiado ao ombro da criança que o conduzia, o
velho que já cruzáramos na estrada de Jopé, com uma
lira
presa à cintura. Os seus passos arrastavam-se mais
incertos, na fadiga de uma jornada penosa; uma tristeza
abatia-lhe sobre o peito a clara barba ondeante; e debaixo
do manto cor do vinho, que lhe cobria a cabeça, as folhas
da coroa de louro pendiam raras e murchas.
Topsius gritou-lhe: "Eh, rapsodo!" E quando ele,
tenteando as urzes do caminho, se acercou - o douto
historiador perguntou-lhe se das doces ilhas do mar trazia
algum canto novo. O velho ergueu a face entristecida; e
muito nobremente, murmurou que uma mocidade imperecível
sorri nos mais antigos cantos da Helênia. Depois, tendo
assentado a sandália sobre uma pedra, tomou a lira entre
as mãos vagarosas; a criança, direita, com as pestanas
baixas, pôs à boca uma flauta de cana; e, no resplendor da
tarde que envolvia e dourava Sião, o rapsodo soltou um
canto já trêmulo, mas glorioso e repassado de adoração,
como ante a ara de um templo, numa praia da Jônia... E eu
percebi que ele cantava os deuses, a sua beleza, a sua
atividade heróica. Dizia o délfico, imberbe e cor de ouro,
afinando os pensamentos humanos pelo ritmo da sua citara;
Atenéia, armada e industriosa, guiando as mãos dos homens
sobre os teares; Zeus, ancestral e sereno, dando a beleza
às raças, a ordem às cidades; e acima de todos, sem
forma
e esparso, o Fado, mais forte que todos!
Mas subitamente um grito varou o céu no alto da
colina, supremo e arrebatado como o de uma libertação! Os
dedos frouxos do velho emudeceram entre as cordas de
metal; com a cabeça descaída, a coroa do louro épico
meio
desfolhada, parecia chorar sobre a lira helênica, de ora
em diante e para longas idades silenciosa e inútil. E ao
lado a criança, tirando a flauta dos lábios, erguia para
as cruzes negras os olhos claros - onde subia a
curiosidade e a paixão de um mundo novo.
Topsius pediu ao velho a sua história. Ele contou-a,
com amargura. Viera de Samnos a Cesaréia e tocava o honnor
junto ao templo de Hércules. Mas a gente abandonava o puro
culto dos heróis; e só havia festas e oferendas para a boa
deusa da Síria! Acompanhara depois uns mercadores a
Tiberíade; os homens aí não respeitavam a velhice,
e
tinham corações interesseiros como escravos. Seguira então
pelas longas estradas, parando nos postos romanos onde os
soldados o escutavam; nas aldeias de Samaria batia às
portas dos lagares; e para ganhar o pão duro, tocara a
citara grega nos funerais dos bárbaros. Agora errava ali,
nessa cidade onde havia um grande templo, e um deus feroz
e sem forma que detestava as gentes. E o seu desejo era
voltar a Mileto, sua pátria; sentir o fino murmúrio das
águas do Meandro; poder palpar os mármores santos do
Templo de Febo Didimeu - onde ele em criança levara num
cesto e cantando, os primeiros anéis dos seus cabelos...
As lágrimas rolavam pela sua face, tristes como a
chuva por um muro em ruínas. E a minha piedade foi grande
por aquele rapsodo das ilhas da Grécia, perdido também na
dura cidade dos judeus, envolto pela influência sinistra
de um deus alheio! Dei-lhe a minha derradeira moeda de
prata. Ele desceu a colina, apoiado ao ombro da criança,
lento e curvado, com a orla esfarrapada do manto
trapejando nas pernas nuas, e muda e mal segura do cinto a
lira heróica de cinco cordas.
No entanto, em torno às cruzes, no alto, crescera um
rumor de revolta. E fomos encontrar a gente do templo, com
as mãos no ar, mostrando o sol que descia como um escudo
de ouro para o lado do Mar de Tiro, intimando o centurião
a que baixasse os condenados da cruz, antes de soar a hora
santa da Páscoa! Os mais devotos reclamavam que se
aplicasse aos crucificados, se ainda viviam, o crurifrágio
romano, quebrando-lhes os ossos com barras de ferro,
arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom. E a indiferença do
centurião exasperava o zelo piedoso. Ousaria ele macular o
Sabá, deixando um corpo morto no ar? Alguns enrolavam a
ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o Pretor.
- O sol declina! O sol vai deixar o Hébron! - gritou
de cima de uma pedra um levita, aterrado.
- Acabai-os, acabai-os!
E ao nosso lado, um formoso moço exclamava,
requebrando os olhos lânguidos, movendo os braços cheios
de manilhas de ouro:
- Atirai o Rabi aos corvos! Dai às aves de rapina a
sua páscoa!
O centurião, que espreitava o alto da Torre Mariana,
onde os escudos suspensos luziam batidos pelo sol
derradeiro - acenou devagar com a espada. Dous
legionários, lançando pesadamente ao ombro as barras de
ferro, marcharam com ele para as cruzes. Eu, arrepiado,
agarrei o braço de Topsius. Mas diante do madeiro de
Jesus, o centurião parou, erguendo a mão...
O corpo branco e forte do Rabi tinha a serenidade de
um adormecimento; os pés empoeirados, que há pouco a dor
torcia dentro das cordas, pendiam agora direitos para o
chão, como se o fossem em breve pisar; e a face não se
via, tombada para trás molemente por sobre um dos braços
da cruz, toda voltada para o céu onde ele pusera o seu
desejo e o seu reino... Eu olhei também o céu; rebrilhava,
sem uma sombra, sem uma nuvem, liso, claro, mudo, muito
alto, e cheio de impassibilidade...
- Quem reclamou o corpo deste homem? - gritou,
procurando para os lados, o centurião.
- Eu, que o amei em vida! - acudiu José de Ramata,
estendendo por cima da corda o seu pergaminho.
O escravo que esperava junto dele, depôs logo no chão
a trouxa de linho e correu para as ruínas do casebre, onde
as mulheres choravam entre as amendoeiras.
E por trás de nós, fariseus e saduceus que se tinham
juntado, estranhavam com azedume que José de Ramata, um
membro do Sanedrim, assim solicitasse o corpo do Rabi para
o perfumar e lhe fazer soar em tomo as flautas e os
prantos de um funeral... Um deles, corcovado, com esfiadas
melenas luzidias de óleo, afirmava que sempre conhecera
José de Ramata inclinado para todos os inovadores, todos
os sediciosos... Mais de uma vez o vira falar com esse
Rabi junto ao Campo dos Tintureiros... E com eles estava
Nicodemo, homem rico que tem gados, que tem vinhas, e
todas as casas que estão de ambos os lados da Sinagoga de
Cirenaica...
Outro, rubicundo e mole, gemeu:
- Que será da nação, se os mais considerados se
juntam aos que adulam o pobre, e lhe ensinam que os frutos
da terra devem ser igualmente para todos!...
- Raça de Messias! - bradou o mais moço com furor,
atirando o bastão contra as urzes. - Raça de Messias,
perdição de Israel!
Mas o saduceu de melenas oleosas ergueu devagar a
mão, ligada em tiras sagradas:
- Sossegai; Jeová é grande; e tudo em verdade
determina para melhor... No templo e no conselho não
faltarão jamais homens fortes que mantenham a velha ordem;
e em cima dos calvários, felizmente, hão de sempre erguer-
se as cruzes!...
E todos sussurraram:
- Amém!
No entanto o centurião, com os soldados atrás levando
ao ombro as barras de ferro, marchava para os outros
madeiros onde os condenados, vivos e cheios de agonia,
pediam água - um pendido e gemendo; outro torcido, com as
mãos rasgadas, rugindo terrivelmente. Topsius, que sorria
friamente, murmurou: "É tempo, vamos".
Com os olhos alagados de água amarga, tropeçando nas
pedras, desci ao lado do fecundo crítico a colina de
imolação. E sentia uma densa melancolia entenebrecer a
minha alma, pensando nessas cruzes vindouras, anunciadas
pelo conservador de guedelha oleosa... Assim seria, oh
dura miséria! Sim! De ora em diante por todos os séculos a
vir, iria sempre recomeçando em torno à lenha das
fogueiras, sob a frialdade das masmorras, junto às escadas
das forcas - este afrontoso escândalo de se juntarem
sacerdotes, patrícios magistrados, soldados, doutores e
mercadores para matarem ferozmente, no alto de um morro, o
justo que, penetrado do esplendor de Deus, ensine a
adoração em espírito ou cheio do amor dos homens, proclame
o reino da igualdade!
Com estes pensamentos recolhi a Jerusalém - em quanto
as aves mais felizes que os homens, cantavam nos cedros do
Garebe...
Escurecera e era a hora da ceia pascal, quando
chegamos à casa de Gamaliel; no pátio, preso a uma argola,
estava o burro, albardado de panos pretos, que trouxera o
amável físico Eliézer de Silo.
Na sala azul, de teto de cedro, perfumada de
malobatro, o austero doutor já nos aguardava estendido no
divã de correias brancas, com os pés nus, as largas mangas
arregaçadas e pregadas no ombro - e ao lado um bordão de
viagem, uma cabaça de água e uma trouxa, emblemas rituais
da saída do Egito. Defronte dele, numa mesa incrustada de
madrepérola, entre vasos de barro com flores pintadas,
açafates de filigrana de prata, transbordando de fruta e
pedaços cintilantes de gelo, erguia-se um candelabro em
forma de arbusto, tendo na ponta de cada galho uma pálida
chama azul e, com os olhos perdidos no seu brilho trêmulo,
as mãos cruzadas no ventre, Eliézer, o benigno doutor da
tripa, sorria beatificamente encostado a almofadas de
couro vermelho. Junto dele dous escabelos, recobertos com
tapetes da Assíria, esperavam por mim e pelo sagaz
historiador.
Sede bem-vindos - rosnou Gamaliel. - Grandes são as
maravilhas de Sião; deveis vir esfomeados...
Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem
ruído nas sandálias de feltro, e precedidos majestosamente
pelo homem obeso de túnica amarela, entraram, erguendo
muito alto largos pratos de cobre que fumegavam.
A um lado tínhamos, para limpar os dedos, um bolo de
farinha branca, fino e mole como um pano de linho; do
outro um prato largo, com cercadura de pérolas, onde
negrejava, entre ramos de salsa, um montão de cigarras
fritas; no chão jarros com água de rosa. Cumprimos as
abluções; e Gamaliel, tendo purificado a boca com um
pedaço de gelo, murmurou a oração ritual sobre a vasta
travessa de prata, onde o cabrito assado fazia transbordar
o molho de açafrão e saumura.
Topsius, bom sabedor das maneiras orientais, arrotou
fortemente, por cortesia, demonstrando fartura e deleite;
depois, com uma febra de anho entre os dedos, afirmou,
sorrindo aos doutores, que Jerusalém lhe parecera
magnífica, formosa de claridade, e bendita entre as
cidades...
Eliézer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de
gozo, como se o acariciassem:
- Ela é uma jóia melhor que o diamante, e o Senhor
engastou-a no centro da Terra, para que irradiasse
igualmente o seu brilho em redor...
- No centro da Terra!... - murmurou o historiador,
com douto espanto.
Sim! E, ensopando um pedaço de bolo no molho de
açafrão, o profundo físico explicou a Terra. Ela é
chata e
mais redonda que um disco; no meio está Jerusalém a santa,
como um coração cheio de amor do Altíssimo; em redor
a
Judéía, rica em bálsamos e palmeiras, cerca-a de sombra
e
de aromas; para além ficam os pagãos, em regiões duras,
onde nem o mel nem o leite abundam; depois são os mares
tenebrosos... E por cima o céu, sonoro e sólido.
- Sólido!... - balbuciou o meu sapiente amigo,
esgazeado.
Os escravos serviam em taças de prata cerveja amarela
da Média. Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para
lhe avivar o sabor, trincasse uma cigarra frita. E Rabi
Eliézer, sábio entre todos nas cousas da natureza,
revelava a Topsius a divina construção do céu.
Ele é feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes
camadas de cristal; por cima delas constantemente rolam as
grandes águas; sobre as águas flutua, num fulgor, o
espírito de Jeová... Estas lâminas de cristal, furadas
como um crivo, resvalam umas sobre as outras com uma
música doce e lenta, que os profetas mais queridos por
vezes ouviam... Ele mesmo, uma noite que orava no eirado
da sua casa em Silo, sentira por um raro favor do
Altíssimo essa harmonia, tão penetrante e suave, que as
lágrimas uma a uma lhe caíam nas mãos abertas... Ora,
nos
meses de Quisleu e de Tebé os furos das lâminas coincidem,
e por eles caem sobre a terra as gotas das águas eternas,
que fazem crescer as searas!
- A chuva? - perguntou Topsius, com acatamento.
- A chuva! - respondeu Eliézer, com serenidade.
Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os
seus óculos de ouro, que faiscavam de sábia ironia; mas o
piedoso filho de Simeão conservava sobre a face,
emagrecida no estudo da lei, uma seriedade impenetrável.
Então o historiador, remexendo as azeitonas, desejou
saber, do esclarecido físico, por que tinham os cristais
do céu essa cor azul que enleva a alma...
Eliézer de Silo elucidou-o:
Uma grande montanha azul, invisível até hoje aos
homens, ergue-se a ocidente; ora, quando o sol abate, a
sua reverberação banha o cristal do céu e anila-o.
E
talvez nessa montanha que vivem as almas dos justos!...
Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: "Bebamos,
louvando o Senhor!"
Ergueu uma taça cheia de vinho de Siquém, pronunciou
sobre ela uma bênção - e passou-ma, chamando a paz sobre
o
meu coração. Eu rosnei: "À sua, muitos e felizes!"
E
Topsius, recebendo a taça com veneração, bebeu - "à
prosperidade de Israel, à sua força ao seu saber!"
Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de
túnica amarela, que fazia ressoar sobre as lajes com pompa
a sua vara de marfim, trouxeram a mais devota comida
pascal - as ervas amargas.
Era uma travessa repleta de alface, agriões,
chicória, macela, com vinagre e grossas pedras de sal.
Gamaliel mastigava-as solenemente, como cumprindo um rito.
Elas representavam as amarguras de Israel, no cativeiro do
Egito. E Eliézer, chupando os dedos, declarou-as
deliciosas, fortificadoras e repassadas de alta lição
espiritual.
Mas Topsius lembrou, fundado nos autores gregos, que
todos os legumes amolecem no homem a virilidade, lhe
descoram a eloqüência, lhe enervam o heroísmo; e com
torrencial erudição citou logo Teofrasto, Êubulo, Nicandro
na segunda parte do seu Dicionário, Fênias no seu Tratado
das Plantas, Défilo e Epicarmo!
Gamaliel, secamente, condenou a inanidade dessa
ciência - porque Hecateu de Mileto, só no primeiro livro
da sua Descrição da Ásia, encerra cinqüenta e
três erros,
quatorze blasfêmias e cento e nove omissões... Assim dizia
o leviano grego que a tâmara, maravilhoso dom do
Altíssimo, enfraquece o intelecto!...
- Mas - exclamou Topsius com ardor - a mesma doutrina
estabelece Xenofonte no livro segundo do Anábasis! E
Xenofonte...
Gamaliel rejeitou a autoridade de Xenofonte. Então
Topsius, vermelho, batendo com uma colher de ouro na borda
da mesa, exaltou a eloqüência de Xenofonte, a forte
nobreza do seu sentimento, a sua terna reverência por
Sócrates!... E enquanto eu partia um empadão de Comagênia,
os dous facundos doutores, asperamente, romperam debatendo
Sócrates. Gamaliel afirmava que as vozes secretas ouvidas
por Sócrates, e que tão divina e puramente o governavam,
eram murmúrios distantes que lhe chegavam da Judéia,
repercussões miraculosas da voz do Senhor... Topsius
pulava, encolhia os ombros, com desesperado sarcasmo.
Sócrates inspirado por Jeová! Ora lérias!
No entanto era certo (insistia Gamaliel, já lívido),
que os gentílicos iam emergindo da sua treva, atraídos
pela luz forte e pura que derramava Jerusalém; porque a
reverência pelos deuses aparecia em Ésquilo, profunda e
cheia de terror; em Sófocles, amável e cheia de
serenidade; em Eurípides, superficial e cheia de dúvida...
E cada um dos trágicos dava assim, largamente, um passo
para o Deus verdadeiro!
- Oh Gamaliel, filho de Simeão - murmurou Eliézer de
Silo -, tu, que possuis a verdade, para que dás acesso no
teu espírito aos pagãos?
Gamaliel respondeu:
- Para os desprezar melhor dentro em mim!
Farto de tão clássica controvérsia, acheguei a
Eliézer um covilhete de mel do Hébron - e contei-lhe
quanto me agradara o caminho do Garebe entre jardins. Ele
concordou que Jerusalém, cercada de vergéis, era doce à
vista como a fronte da noiva toucada de anêmonas. Depois
estranhou que eu escolhesse, para me recrear, esses
arredores de Gihon, cheios de açougues, junto ao morro
escalvado onde se erguem as cruzes. Mais suave me teria
sido a fragrância de Siloé...
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