AUTOMÓVEIS
BANCOS
CELEBRIDADES
CHAT
COLUNISTAS
COMUNIDADES
CRIANÇAS
CULINÁRIA
ENTRETENIMENTO
EDUCAÇÃO
ESPORTES
ECONOMIA
HORÓSCOPO
GAMES
INTERNET
MÚSICA
MULHERES
NOTÍCIAS
POSTAIS
SAÚDE
SERVIÇOS
SEXUALIDADE
SHOPPING
TEENS
TEMPO
TRÂNSITO
VIAGEM
  BUSCA
digite a palavra
 

  MAIL
nome:

senha

   
A Relíquia
Eça de Queirós
 



Cansado, estirei-me, com as mãos sob a nuca, no
colchão de folhas secas que cheirava a murta; e lentamente
começou a invadir-me a alma uma inquietação estranha,
temerosa, que já no Pretório me roçara de leve como a asa
arrepiada de uma ave agourenta... Ia eu ficar para sempre
nesta cidade forte dos judeus? Perdera eu irre-
mediavelmente a minha individualidade de Raposo, de
católico, de bacharel, contemporâneo do Times e do gás -
para me tornar um homem da Antigüidade clássica, coevo de
Tibério? E, dado este mirífico retrogresso nos tempos, se
voltasse à minha pátria, que iria eu encontrar à beira do
rio claro...
Decerto encontraria uma colônia romana; na encosta da
colina mais fresca, uma edificação de pedra onde vive o
procônsul; ao lado um templo pequeno de Apolo ou de Marte,
coberto de lousa; nos altos um campo entrincheirado, onde
estão os legionários; e em redor a vila lusitana, esparsa,
com os seus caminhos agrestes, cabanas de pedra solta,
alpendres para recolher o gado, e estacadas no lodo onde
se amarram jangadas... Assim encontraria a minha pátria. E
que faria lá, pobre, solitário? Seria pastor nos montes?
Varreria as escadarias do templo, racharia a lenha das
coortes para ganhar um salário romano?... Miséria
incomparável!
Mas se ficasse em Jerusalém? Que carreira tomaria
nesta sombria, devota cidade da Ásia? Tornar-me-ia um
judeu, rezando o Esquema, cumprindo o Sabá, perfumando a
barba de nardo, indo preguiçar nos átrios do templo,
seguindo as lições de um Rabi, e passeando às tardes, com
um bastão dourado, nos jardins de Garebe entre os
túmulos?... E esta existência igualmente me parecia
pavorosa!... Não! A ficar encarcerado no mundo antigo com
o doutíssimo Topsius, então deveríamos galopar nessa mesma
noite, ao erguer da lua, para José; de lá embarcar em
qualquer trirreme fenícia que parasse para Itália; e ir
habitar Roma, ainda que fosse numa das escuras vielas do
Velabro, numa dessas altas, fumarentas trapeiras, com
duzentas escadas a subir, empestadas pelos guisados de
alho e tripa, que escassamente atravessam duas calendas
sem desabar ou arder.
Assim me inquietava quando a liteira parou; descerrei
as cortinas; vi ante mim os vastos granitos da muralha do
templo. Penetramos sob a abóbada da porta de Huldá; e
fomos logo detidos em quanto os guardas do templo
arrancavam a um pegureiro, teimoso e rude, a clava armada
de pregos com que ele queria atravessar o santuário. O
rolante rumor que vinha de longe, dos átrios, já me
atemorizava, semelhante ao de uma selva ou de um grande
mar irritado...
E ao emergir enfim da abóbada estreita, agarrei o
braço magro do historiador dos Herodes, no deslumbramento
que me tomou, intenso e repassado de terror! Um brilho de
neve e ouro vibrava profusamente no ar mole, irradiado dos
claros mármores, dos granitos brunidos, dos recamos
preciosos banhados pelo divino sol de Nizam. Os lisos
pátios que eu de manhã vira desertos, alvejando como a
água quieta de um lago, desapareciam agora sob o povo que
os atulhava, domado e festivo. Os cheiros estonteavam,
acres, emanados dos estofos tingidos, das resinas
aromáticas, da gordura frigindo em brasas. Sobre o denso
ruído passavam roucos mugidos de bois. E perenemente os
fumos votivos se sumiam na refulgência do céu...
- Caramba! - murmurei, enfiado. - Isto são magnificências
de entupir!
Fomos penetrando sob os pórticos de Salomão, onde
ressoava o profano tumulto de um mercado. Por trás de
grossas caixas gradeadas encruzavam-se os cambistas, com
uma moeda de ouro pendente da orelha entre as melenas
sórdidas, trocando o dinheiro sacerdotal do templo pelas
moedas pagãs de todas as regiões, de todas as idades,
desde as maciças rodelas do velho Lácio, mais pesadas que
broquéis, até aos tijolos gravados que circulam como
"notas" nas feiras da Assíria. Adiante, brilhava a
frescura e abundância de um pomar; as romãs, estaladas de
maduras, transbordavam dos gigos; hortelões, com um ramo
de amendoeira preso ao carapuço, apregoavam grinaldas de
anêmonas ou ervas amargas de Páscoa; jarras de leite puro
pousavam sobre sacos de lentilha; e os cordeiros, deitados
nas lajes, amarrados pelas patas às colunas, balavam
tristemente de sede.
Mas a multidão sobretudo apinhava-se, com suspiros de
cobiça, em torno aos tecidos e às jóias. Mercadores das
colônias fenícias, das ilhas gregas, de Tárdis, da
Mesopotâmia, de Tadmor, uns com soberbas samarras de lã
bordada, outros com toscos tabardos de couro pintado,
desdobravam os panos azuis de Tiro, que reproduzem o
brilho ardente dos céus do Oriente, as sedas impudicas de
Sheba, de uma transparência verde que voa na aragem, e
esses estofos solenes de Babilônia que sempre me
extasiavam, negros com largas flores cor de sangue...
Dentro de cofres de cedro, espalhados sobre tapetes da
Galácia, reluziam espelhos de prata simulando a lua e os
seus raios, sinetes de turmalina que os hebreus usam no
peito, manilhas de pedrarias enfiadas em cornos de
antílopes, diademas de sal-gema com que se enfeitam os
noivos; e, resguardados mais preciosamente, talismãs e
amuletos que me pareciam pueris, pedaços de raízes,
pedregulhos negros, couros tisnados e ossos com letras.
Topsius ainda parou entre as tendas dos perfumistas,
apreçando um esplêndido bastão de Tilos, de uma rara
madeira mosqueada como a pele do tigre, mas logo fugimos
ao ardente cheiro que ali sufocava, vindo das resinas, das
gomas dos países dos negros, dos molhos de plumas de
avestruz, da mirra de Oronte, das ceras de Cirenaica, dos
óleos rosados de Císico, e das grandes coifas de pele de
hipopótamo cheias de violetas secas e de folhas de
bácaris...
Entramos então na galeria chamada Real, toda votada à
doutrina e à lei. Aí, cada dia, tumultuam rancorosamente
as controvérsias entre saduceus, escribas, soforins,
fariseus, sectários de Esquemaia, sectários de Hilel,
juristas, gramáticos, fanáticos de toda a terra judaica.
Junto às colunas de mármore instalavam-se os mestres da
lei, sobre altos escabelos, tendo ao lado um prato de
metal onde caíam os óbolos dos fiéis; e em torno,
encruzados no chão, com as sandálias ao pescoço, as
pelicas cobertas de letras vermelhas desdobradas nos
joelhos, os discípulos, imberbes ou decrépitos,
resmoneavam os ditames, balançando os ombros lentos. Aqui
e além, no meio de devotos embebidos, dous doutores
disputavam, com as faces assanhadas, sobre temerosos
pontos da doutrina. "Pode-se comer um ovo de galinha posto
no dia de Sabá? Por que osso da espinha dorsal começa a
Ressurreição?" O filosófico Topsius ria, disfarçado numa
prega da capa; mas eu tremia quando os doutores,
escaveirados e barbudos, se ameaçavam, gritavam racca!
racca! - mergulhando a mão no seio da túnica, à procura de
um ferro escondido.
A cada momento cruzávamos esses fariseus, ressoantes
e vazios como tambores, que vêm ao templo assoalhar a sua
piedade - uns com as costas vergadas, esmagadas pela
vastidão do pecado humano; outros, tropeçando e apalpando
o ar, de olhos fechados, para não ver as formas impuras
das mulheres; alguns mascarados de cinza, gemendo, com as
mãos apertadas sobre o estômago - em testemunho dos seus
duros jejuns! Depois Topsius mostrou-me um Rabi,
interpretador de sonhos; num carão lívido e chupado os
seus olhos fundos luziam com a tristeza de lâmpadas de
sepulcro; e, sentado sobre sacos de lã, estendia por cima
de cada devoto, que vinha ajoelhar aos seus pés nus, a
ponta de um vasto manto negro com signos brancos pintados.
Eu, curioso, pensava em o consultar - quando de repente
gritos aflitos ressoaram no átrio. Corremos. Eram levitas,
com cordas e vergas, chibatando furiosamente um leproso
que, em estado de impureza, penetrara no pátio de Israel.
O sangue salpicava as lajes. Em torno crianças riam.
Ia caindo a sexta hora judaica, a mais grata ao
Senhor, quando o sol, na sua marcha para o mar, pára sobre
Jerusalém a contemplá-la com paixão; e, para nos
acercarmos do "átrio de Israel", fomos penosamente
fendendo a multidão que ali remoinhava, vinda de toda a
terra culta e bárbara... O rude saião de peles, dos
pegureiros das iduméias, roçava a clâmide curta dos gregos
de face rapada e mais brancos que mármores. Havia homens
solenes da planície de Babilônia, com as barbas metidas
dentro de sacos azuis, que uma corrente de prata lhes
prendia às mitras de couro pintado; e havia gauleses
ruivos, de bigodes pendentes como as ervas das suas
lagoas, que riam e parolavam, devorando com a casca os
limões doces da Síria. Por vezes um romano togado passava,
tão grave como se descesse de um pedestal. Gente da Dácia
e da Mísia, com as pernas enfaixadas em ligaduras de
feltro, tropeçava deslumbrada pelo claro esplendor dos
mármores. E não era menos estranho ir eu, Teodorico
Raposo, arrastando ali as minhas botas de montar, atrás de
um sacerdote de Moloque, enorme e sensual na sua samarra
de púrpura, que, em meio de um bando de mercadores de
Serepta, desdenhava daquele templo sem imagens, sem
bosques, e mais ruidoso que uma feira fenícia...
Assim lentamente nos fomos chegando à porta chamada
"a Bela", que dava acesso para o átrio sagrado de Israel.
Bela em verdade, preciosa e triunfal, sobre os quatorze
degraus de mármore verde de Numídia, mosqueado de amarelo;
os seus largos batentes, revestidos de chapas de prata,
faiscavam como os de um relicário e os dous umbrais,
semelhantes a grossos molhos de palmas, sustentavam uma
torre, redonda e branca, guarnecida de escudos tomados aos
inimigos de Judá, brilhantes no sol como um colar de
glória sobre o pescoço forte de um herói! Mas diante deste
ádito maravilhoso erguia-se severamente um pilar, encimado
por uma placa negra com letras de ouro, onde se
desenrolava esta ameaça em grego, em latim, em aramaico,
em caldaico: que nenhum estrangeiro aqui penetre, sob pena
de morrer!
Fortunadamente avistamos o magro Gamaliel que se
encaminhava ao santo pátio, descalço, apertando ao peito
um molho de espigas votivas; com ele vinha um homem nédio
e risonho, de face cor de papoula, coroado por uma enorme
mitra de lã negra enfeitada de fios de coral... curvados
até às lajes, saudamos o austero doutor da lei. Ele
salmodiou logo, de pálpebras cerradas:
- Sede bem-vindos... Esta é a hora melhor para
receber a benção do Senhor. O Senhor disse: "saí das
vossas habitações, vinde a mim com as primícias dos vossos
frutos, eu vos abençoarei em todas as obras das vossas
mãos..." Vós hoje pertenceis miraculosamente a Israel.
Subi à morada do Eterno! Este que vem a meu lado é Eliézer
de Silo, benéfico e sábio entre todos nas cousas da
natureza.
Deu-nos duas espigas de milho; e atrás dele pisamos,
com as nossas solas gentílicas, o adro interdito de Judá.
Caminhando a meu lado, Eliézer de Silo, cortês e
suave, perguntou-me se era remota a minha pátria e
perigosos os seus caminhos...
Eu rosnei, vaga e recatadamente:
- Sim... Chegamos de Jericó.
- Boa, por lá, a colheita do bálsamo?
- Rica! - afiancei, com calor. - Louvado seja o
Eterno, que neste seu ano de graça estamos lá
abarrotadinhos de bálsamos!
Ele pareceu regozijado. E revelou-me então que era um
dos médicos que residem no templo - onde os sacerdotes e
os sacrificadores sofrem perenemente "dissabores
intestinais", por pisarem suados e descalços as lajes
frias dos adros.
- Por isso - murmurou ele com uma faísca alegre no
olho benigno - o povo em Sião nos chama doutores da tripa!
Torci-me de riso, de gozo, com aquela jocosidade
assim sussurrada na austera morada do Eterno... Depois,
recordando os meus dissabores intestinais em Jericó, por
muito amar os divinos e pérfidos melões da Síria -
perguntei ao amável físico se nessas ocorrências ele
preconizava o bismuto...
O homem magistral abanou cautamente a sua mitra
bojuda. Depois, espetando um dedo no ar, segredou-me esta
receita incomparável:
- Tomai goma de Alexandria, açafrão de jardim, uma
cebola da Pérsia e vinho negro de Emaús... Misturai,
cozei... Deixai esfriar num vaso de prata... Colocai-vos
numa encruzilhada, ao nascer do sol...
Mas emudeceu subitamente, com os braços abertos e a
face pendida para as lajes. Penetramos no soberbo adro,
chamado "Pátio das Mulheres"; e nesse instante terminavam
as bênçãos que à sexta hora um sacerdote vem ali derramar,
do alto da porta de Nicanor.
Severa, toda de bronze - ela deixava entrever, lá ao
fundo, os ouros, a neve, as pedrarias do santuário,
refulgindo com serenidade... Nos largos degraus, mais
lustrosos que alabastro, desenrolavam-se duas colegiadas
de levitas, ajoelhados e vestidos de branco - uns com uma
trompa recurva, outros pousando os dedos sobre as cordas
mudas de liras. E, por entre estas alas de homens
prostrados, um grande velho emaciado vinha descendo
devagar os degraus, com um incensador de ouro na mão...
A sua túnica justa de biso tinha a fímbria orlada de
pinhas de esmeralda, alternando com guizos, que tiniam
finamente; os pés sem sandálias e tingidos de henê,
pareciam de coral; e ao meio da faixa que lhe cingia as
costelas magras brilhava, bordado a ouro, um grande sol.
Os fiéis ajoelhados, quedos, sem um murmúrio, quase
pousavam nas lajes a cabeça escondida sob os mantos e sob
os véus; e com as cores festivas, onde dominava o vermelho
da anêmona e o verde da figueira, era como se o adro
estivesse juncado de flores e folhagens, numa manhã de
triunfo, para passar Salomão!
Com a barba aguda e dura levantada aos céus - o velho
incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do
ocidente e dos mares; e o recolhimento era tão enlevado
que se ouviam no fundo do santuário os mugidos lentos dos
bois. Desceu ainda, alçou mais a mitra salpicada de jóias,
atirou o incensador que rangeu faiscando ao sol - e com o
fumo branco veio rolando, tênue e cheirosa, sobre Israel,
a bênção do Muito-Forte. Então os levitas, unissonamente,
feriram as cordas das liras; das trombetas curvas subiu um
grito de bronze; e todo o povo erguido, com os braços ao
céu, entoou um salmo celebrando a eternidade de Judá... E
subitamente tudo cessou; os levitas recolhiam pela
escadaria de mármore sem um rumor dos pés nus; Eliézer de
Silo e o rígido Gamaliel tinham desaparecido sob os
pórticos; e o claro pátio em redor resplandecia suntuoso e
cheio de mulheres.
Os revestimentos de alabastro eram tão lustrosos, que
Topsius mirava neles, como num espelho, as pregas nobres
da sua capa; todos os frutos da Ásia e as flores dos
vergéis se entrelaçavam, em copiosos lavores de prata, nas
portas das câmaras rituais onde se perfuma o óleo, se
consagra a lenha, se purifica a lepra; entre as colunas
pendiam em festões, fios grossos de pérolas e de contas de
ônix, mais numerosos que no peito de uma noiva; e nos
mealheiros de bronze, semelhantes a trombetas de guerra
colossais, pousadas nas lajes, enrolavam-se, cintilando e
reclamando as dádivas, inscrições em relevo de ouro,
graciosas como versos de cânticos - Queimai incensos e
nardos; Ofertai pombas e rolas...
Mas o santo adro resplandecia de mulheres; e meus
olhos bem depressa deixaram metais e mármores, para
cativadamente se prenderem àquelas filhas de Jerusalém,
cheias de graça e morenas como as tendas do Cedar! Todas
traziam no templo o rosto descoberto; ou apenas um fofo
véu, de uma musselina leve como ar, à moda romana,
enrodilhado finamente no turbante, punha em torno das
faces uma alvura de espuma, onde os olhos negros tomavam
um quebranto mais úmido, enlanguescidos pelas densas
pestanas, alongados pela tintura de cipro. A abundância
bárbara dos ouros, das pedrarias, envolvi-as numa
radiância trêmula, desde os peitos fortes até aos cabelos
mais crespos que a lã das cabras de Galaade. As sandálias,
ornadas de guizos e de correntes, arrastavam sobre as
lajes uma melodia argentina, tanta era a graça concertada
dos seus movimentos ondulados e graves; e os tecidos
bordados, os algodões de Galácia, os finos linhos de cores
que as cingiam, ensopados nas essências ardentes de âmbar,
de malobatro e de bácaris, enchiam o ar de fragrância e de
moleza a alma dos homens. As mais ricas caminhavam
solenemente entre escravas vestidas de panos amarelos, que
lhes traziam o pára-sol de penas de pavão, os rolos
devotos em que está escrita a lei, sacos de tâmaras doces,
espelhos ligeiros de prata. As mais pobres, com uma
simples camisa de algodão de riscadinho multicor, e sem
mais jóias que um rude talismã de coral, corriam,
chalravam, mostrando nus os braços e o colo cor de
medronho mal maduro... E sobre todas o meu desejo zumbia -
como uma abelha que hesita entre flores de igual doçura!
- Ai Topsius, Topsius! - rosnava eu. - Que mulheres!
Que mulheres! Eu estouro, esclarecido amigo! O sábio
afirmava, com desdém, que elas não tinham mais
intelectualidade que os pavões dos jardins de Antipas; e
que nenhuma decerto ali lera Aristóteles ou Sófocles!...
Eu encolhia os ombros. Oh esplendor dos céus! Por qual
destas mulheres, que não lera Sófocles não daria eu, se
fosse César, uma cidade de Itália e toda a Ibéria. Umas
entonteciam-me pela sua graça dolente e macerada de
virgens de devoção, vivendo na penumbra constante dos
quartos de cedro, com o corpo saturado de perfumes, a alma
esmagada de orações. Outras deslumbravam-me pela
suntuosidade sólida e suculenta da sua beleza. Que largos,
escuros olhos de ídolos! Que claros, macios membros de
mármore! Que sombria moleza! Que nudezes magníficas,
quando à beira do leito baixo se lhes desenrolassem os
cabelos pesados, e fossem docemente escorregando os véus e
os linhos de Galácia!...

1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6 | 7

1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6

1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6
7 | 8 | 9 | 10

1 | 2

1 | 2 | 3 | 4 | 5 | 6