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A Relíquia
Eça de Queirós
 



Defronte, elevavam-se, azuis e sem mancha, como feitas de
um só bloco de pedra preciosa, as montanhas do Moabe. O
céu branco, mudo, recolhido, parecia descansar
deliciosamente do duro tumulto que o agitou quando ali
vivia, entre preces e mortandades, o sombrio povo de Deus;
e onde constantemente batiam as asas dos serafins, e
flutuavam as roupagens dos profetas arrebatados pelo
Altíssimo, era calmante ver agora passar apenas uma
revoada de pombos bravos, voando para os pomares de
Engada.
Obedecendo à recomendação da Titi, despi-me, e
banhei-me nas águas do Batista. Ao princípio, enleado de
emoção beata, pisei a areia reverentemente como se fosse o
tapete de um altar-mor; e de braços cruzados, nu, com a
corrente lenta a bater-me os joelhos, pensei em São
Joãozinho, sussurrei um padre-nosso. Depois ri, aproveitei
aquela bucólica banheira entre árvores; Pote atirou-me a
minha esponja; e ensaboei-me nas águas sagradas,
trauteando o fado da Adélia.
Ao refrescar, quando montávamos a cavalo, uma tribo
de beduínos, descendo das colinas de Galgalá, trouxe os
seus rebanhos de camelos a beber ao Jordão; as crias
brancas e felpudas corriam, balando; os pastores, de lança
alta, soltando gritos de batalha, galopavam, num amplo
esvoaçar de albornozes; e era como se ressurgisse em todo
o vale, no esplendor da tarde, uma pastoral da idade
bíblica, quando Agar era moça! Teso na sela, com as rédeas
bem colhidas, eu senti um curto arrepio de heroísmo;
ambicionava uma espada, uma lei, um deus por quem
combater... Lentamente alargara-se pela planície sacra um
silêncio enlevado. E o mais alto cerro de Moabe cobriu-se
de um fulgor raro, cor-de-rosa e cor de ouro, como se nele
de novo, fugitivamente, ao passar, se refletisse a face do
Senhor! Topsius alçou a mão sapiente:
- Aquele cimo iluminado. D. Raposo, é o Moriá, onde
morreu Moisés!
Estremeci. E penetrado pelas emanações divinas dessas
águas, desses montes, sentia-me forte - e igual aos homens
fortes do Êxodo. Pareceu-me ser um deles, familiar de
Jeová, e tendo chegado do negro Egito com as minhas
sandálias na mão.. Esse aliviado suspiro que trazia a
brisa vinha das tribos de Israel, emergindo enfim do
deserto! Pelas encostas além, seguida de uma escolta de
anjos, a Arca dourada descia balançada sobre os ombros dos
levitas vestidos de linho e cantando. Outra vez, nas secas
areias, reverdecia a terra da promissão, Jericó
branquejava entre as searas; e através dos palmares
cerrados já ressoavam, em marcha, os clarins de Josué!
Não me contive, arranquei o capacete, soltei por
sobre Canaã este urro piedoso:
- Viva Nosso Senhor Jesus Cristo! Viva toda a corte
do céu!
Cedo, ao outro dia, domingo, o incansável Topsius
partiu, bem enlapisado e bem enguarda-solado, a estudar as
ruínas de Jericó, essa velha cidade das palmeiras que
Herodes cobrira de termas, de templos, de jardins, de
estátuas, e onde passaram os seus tortuosos amores com
Cleópatra... E eu, à porta da tenda, escarranchado num
caixote, fiquei a tomar o meu café, olhando os pacíficos
aspectos do nosso acampamento. O cozinheiro depenava
frangos; o beduíno triste arcava à beira da água o seu
pacato alfanje; o nosso lindo arrieiro esquecia a ração às
éguas para seguir no céu de um brilho de safira, a branca
passagem das cegonhas voando aos pares para Samaria.
Depois pus o capacete, fui vadiar na doçura da manhã,
de mãos nos bolsos, cantarolando um fado meigo. E ia
pensando na Adélia e no Senhor Adelino... Enroscados na
alcova, beijando-se furiosamente, estavam-me talvez
chamando carola, enquanto eu passeava ali, nos retiros da
Escritura! Àquela hora a Titi, de mantelete preto, com o
seu ripanço, saía para a missa de Santana; os criados do
Montanha, esguedelhados, assobiando, escovavam o pano dos
bilhares; e o Doutor Margaride, à janela, na Praça da
Figueira, pondo os óculos, abria o Dia rio de Notícias. Ó
minha doce Lisboa!... Mas ainda mais perto, para além do
deserto de Gaza, no verde Egito, a minha Maricoquinhas
nesse instante estava enchendo o vaso do balcão com
magnólias e rosas; o seu gato dormia no veludo da cadeira;
ela suspirava pelo "seu portuguesinho valente..." Suspirei
também; mais triste nos lábios se me fez o fado triste.
E de repente, olhando, achei-me, como perdido, num
sítio de grande solidão e de grande melancolia. Era longe
do regato e dos aromáticos arbustos de flor amarela; já
não via as nossas tendas brancas; e diante de mim
arredondava-se um ermo árido, lívido, de areia, fechado
todo por penedos lisos, direitos como os muros de um poço,
tão lúgubres que a luz loura da quente manhã de Oriente
desmaiava ali, mortalmente, desbotada e magoada. Eu
lembrava-me de gravuras, assim desoladas, onde um eremita
de longas barbas medita um in-fólio junto de uma caveira.
Mas nenhum solitário aniquilava ali a carne em heróica
penitência. Somente, ao meio do fero recinto, isolada,
orgulhosa, com um ar de raridade e de relíquia, como se as
penedias se tivessem amontoado para lhe arranjarem um
resguardo de sacrário - erguia-se uma árvore tão
repelente, que logo me fez morrer nos lábios o resto do
fado triste...
Era um tronco grosso, curto, atochado e sem nós de
raízes, semelhante a uma enorme moca bruscamente cravada
na areia; a casca corredia tinha o lustre oleoso de uma
pele negra; e da sua cabeça entumecida, de um tom de tição
apagado, rompiam, como longas pernas de aranha, oito
galhos que contei, pretos, moles, lanugentos, viscosos, e
armados de espinhos... Depois de olhar em silêncio para
aquele monstro, tirei devagar o meu capacete e murmurei:
- Para que viva!
E que me encontrava certamente diante de uma árvore
ilustre! Fora um galho igual (o nono talvez) que,
arranjado outrora em forma de coroa por um centurião
romano da guarnição de Jerusalém, ornara sarcasticamente,
no dia do suplício, a cabeça de um carpinteiro de
Galiléia, condenado... Sim, condenado por andar, entre
quietas aldeias e nos santos pátios do templo, dizendo-se
filho de Davi e dizendo-se filho de Deus, a pregar contra
a velha religião, contra as velhas instituições, contra a
velha ordem, contra as velhas formas! E eis que esse
galho, por ter tocado os cabelos incultos do rebelde,
torna-se divino, sobe aos altares, e do alto enfeitado dos
andores faz prostrar no lajedo, à sua passagem, as
multidões enternecidas...
No colégio dos Isidoros, às terças e sábados, o
sebento Padre Soares dizia esfuracando os dentes - "que
havia, meninos, lá num sitio da Judéia..." Era ali!
"...uma árvore que segundo dizem os autores é mesmo de
arrepiar..." Era aquela! Eu tinha, ante meus frívolos
olhos de bacharel, a sacratíssima árvore de espinhos!
E logo uma idéia sulcou-me o espírito, com um brilho
de visitação celeste... Levar à Titi um desses galhos, o
mais penugento, o mais espinhoso, como sendo a relíquia
fecunda em milagres, a que ela poderia consagrar seus
ardores de devota e confiadamente pedir as mercês
celestiais! "Se entendes que mereço alguma cousa pelo que
tenho feito por ti, traze-me então desses santos lugares
uma santa relíquia..." Assim dissera a senhora D.
Patrocínio das Neves na véspera da minha jornada piedosa,
entronada nos seus damascos vermelhos, diante da
magistratura e da igreja, deixando escapar uma baga de
pranto sob seus óculos austeros. Que lhe podia eu oferecer
mais sagrado, mais enternecedor, mais eficaz, que um ramo
da árvore de espinhos, colhido no vale do Jordão, numa
clara, rosada manhã de missa?
Mas de repente assaltou-me uma áspera inquietação...
E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas
fibras daquele tronco? E se a Titi começasse a melhorar do
fígado, a reverdecer, mal eu instalasse no seu oratório,
entre lumes e flores, um desses galhos eriçados de
espinhos? ó misérrimo logro! Era eu pois que lhe levava
nesciamente o princípio milagroso da saúde, e a tornava
rija, indestrutível, ininterrável, com os contos de G.
Godinho firmes na mão avara! Eu! Eu que só começaria a
viver, quando ela começasse a morrer!
Rondando então em torno à árvore de espinhos,
interroguei-a, sombrio e rouco: "Anda, monstro, dize! És
tu uma relíquia divina com poderes sobrenaturais? Ou és
apenas um arbusto grutesco com um nome latino nas
classificações de Lineu? Fala! Tens tu, como aquele cuja
cabeça coroaste por escárnio, o dom de sarar? Vê lá... Se
te levo comigo para um lindo oratório português, livrando-
te do tormento da solidão e das melancolias da
obscuridade, e dando-te lá os regalos de um altar, o
incenso vivo das rosas, a chama louvadora das velas, o
respeito das mãos postas, todas as carícias da oração, não
é para que tu, prolongando indulgentemente uma existência
estorvadora, me prives da rápida herança e dos gozos a que
a minha carne moça tem direito! Vê lá! Se, por teres
atravessado o Evangelho, te embebeste de idéias pueris de
caridade e misericórdia, vais com tenção de curar a Titi,
então fica-te aí, entre essas penedias, fustigado pelo pó
do deserto, recebendo o excremento das aves de rapina,
enfastiado no silêncio eterno!... Mas se prometes
permanecer surdo às preces da Titi, comportar-te como um
pobre galho seco e sem influência, e não interromperes a
apetecida decomposição dos seus tecidos, então vais ter em
Lisboa o macio agasalho de uma capela afofada de damascos,
o calor dos beijos devotos, todas as satisfações de um
ídolo, e eu hei de cercar-te de tanta adoração que não hás
de invejar o deus que os teus espinhos feriram... Fala,
monstro."
O monstro não falou. Mas logo senti perpassar-me na
alma, aquietadoramente, com uma consolante fresquidão de
brisa de estio, o pressentimento de que breve a Titi ia
morrer e apodrecer na sua cova. A árvore de espinhos
mandava, pela comunicação esparsa da natureza, da sua
seiva ao meu sangue, aquele palpite suave da morte da
senhora D. Patrocínio, como uma promessa suficiente de
que, transportado para o oratório, nenhum dos seus galhos
impediria que o fígado dessa hedionda senhora inchasse e
se desfizesse... E isto foi, entre nós, nesse ermo, como
um pacto taciturno, profundo e mortal.
Mas era esta realmente a árvore de espinhos? A
rapidez da sua condescendência, fazia-me suspeitar a
excelência da sua divindade. Resolvi consultar o sólido,
sapientíssimo Topsius.
Corri à fonte de Eliseu, onde ele rebuscava pedras,
lascas, lixos, restos da orgulhosa cidade das palmeiras.
Avistei logo o luminoso historiógrafo acocorado junto a
uma poça de água, com os óculos sôfregos, escarafunchando
um pedaço de pilastra negra, meio enterrada no lodo. Ao
lado um burro, esquecido da erva tenra, contemplava
filosoficamente e com melancolia o afã, a paixão daquele
sábio, de rastos no chão, à procura das termas de Herodes.
Contei a Topsius o meu achado, a minha incerteza...
Ele ergueu-se logo, serviçal, zeloso, presto às lides do
saber.
- Um arbusto de espinhos? - murmurava, estancando o
suor. Há de ser o nabka... Banalíssimo em toda a Síria!
Hasselquist, o botânico, pretende que daí se fez a coroa
de espinhos... Tem umas folhinhas verdes, muito tocantes,
em forma de coração, como as da hera... Ah, não tem?
Perfeitamente, então é o lycium spinosum. Foi o que
serviu, segundo a tradição latina, para a coroa da
injúria... Que, quanto a mim, a tradição é fútil; e
Hasselquist ignaro, infinitamente ignaro... Mas eu vou já
aclarar isso, D. Raposo. Aclarar irrefutavelmente e para
sempre!
Abalamos. No ermo, ante a árvore medonha, Topsius,
alçando catedraticamente o bico, recolheu um momento aos
depósitos interiores do seu saber, e depois declarou que
eu não podia levar à minha tia devotíssima nada mais
precioso. E a sua demonstração foi faiscante. Todos os
instrumentos da crucificação (disse ele, floreando o
guarda-sol), os pregos, a esponja, a cana verde, um
momento divinizados como materiais da divina tragédia,
reentraram pouco a pouco, pelas urgências da civilização,
nos usos grosseiros da vida... Assim, o prego não ficou
per eternum na ociosidade dos altares, memorando as chagas
sacratíssimas; a humanidade, católica e comerciante, foi
gradualmente levada a utilizar o prego como uma valiosa
ferragem; e tendo trespassado as mãos do Messias, ele hoje
segura, laborioso e modesto, as tampas de caixões
impuríssimos... Os mais reverentes irmãos do Senhor dos
Passos, empregam a cana para pescar; ela entra na folgante
composição do foguete; e o Estado mesmo (tão escrupuloso
em matéria religiosa), assim a usa em noites alegres de
nova Constituição, ou em festivos delírios pelas bodas de
príncipes... A esponja, outrora embebida no vinagre de
sarcasmo e oferecida numa lança, é hoje aproveitada nesses
irreligiosos cerimoniais da limpeza, que a Igreja sempre
reprovou com ódio... Até a cruz, a forma suprema, tem
perdido entre os homens a sua divina significação. A
cristandade, depois de a ter usado como lábaro, usa-a como
enfeite. A cruz é broche, a cruz é berloque; pende nos
colares, tilinta nas pulseiras; é gravada em sinetes de
lacre, é incrustada em botões de punho; e a cruz realmente
neste soberbo século pertence mais à ourivesaria do que
pertence à religião...
- Mas a coroa de espinhos, D. Raposo, essa não tornou
a servir para mais nada!
Sim, para mais nada! A Igreja recebeu-a das mãos de
um procônsul romano, e ela ficou isoladamente e para toda
a eternidade na igreja, comemorando o grande ultraje. Em
todo este vário universo, ela só encontra um lugar
congênere na penumbra das capelas; o seu único préstimo é
persuadir à contrição. Nenhum joalheiro jamais a imitou em
ouro, cravejada de rubis, para ornar um penteado louro;
ela é só instrumento de martírio; e com salpicos de
sangue, sobre os caracóis frisados das imagens, inspira
infinitamente as lágrimas... O mais astuto industrial,
depois de a retorcer pensativamente nas mãos, restituí-la-
ia aos altares como cousa inútil na vida, no comércio, na
civilização; ela é só atributo da Paixão, recurso de
tristes, enternecedora de fracos. Só ela, entre os
acessórios da escritura, provoca sinceramente a oração.
Quem, por mais adorabundo, se prostraria, a borbulhar de
padre-nossos, diante de uma esponja caída numa tina, ou de
uma cana à beira de um regato?... Mas para a coroa de
espinhos, erguem-se sempre as mãos crentes; e a sensação
da sua desumanidade passa ainda na melancolia dos
misereres!
Que maior maravilha podia eu levar à Titi?...
- Sim, Topsius, meu catita... Os teus dizeres são de
ouro puro... Mas a outra, a verdadeira, a que serviu teria
sido tirada daqui, deste tronco? Hem, amiguinho?
O erudito Topsius desdobrou lentamente o seu lenço de
quadrados; e declarou (contra a fútil tradição latina e
contra o ignaríssimo Hasselquist) que a coroa de espinhos
fora arranjada de uma silva, fina e flexível, que abunda
nos vales de Jerusalém, com que se acende o lume, com que
se eriçam as sebes, e que dá uma florzinha roxa, triste e
sem cheiro... Eu murmurei, sucumbido:
- Que pena! A Titi fazia tanto gosto que fosse daqui,
Topsius! A Titi é tão rica!...
Então este sagaz filósofo compreendeu que há razões
de família como há razões de Estado, e foi sublime.
Estendeu a mão por cima da árvore, cobrindo-a assim
largamente com a garantia da sua ciência, e disse estas
palavras memoráveis:
- D. Raposo, nós temos sido bons amigos... Pode pois
afiançar à senhora sua tia, da parte de um homem que a
Alemanha escuta em questões de crítica arqueológica, que o
galho que lhe levar daqui, arranjado em coroa, foi...
- Foi? - berrei ansioso.
- Foi o mesmo que ensangüentou a fronte do Rabi
Jeschoua Natzarieh, a quem os latinos chamam Jesus de
Nazaré, e outros também chamam o Cristo!...
Falara o alto saber germânico! Puxei o meu navalhão
sevilhano, decepei um dos galhos. E enquanto Topsius
voltava a procurar pelas ervas úmidas a cidadela de Cipron
e outras pedras de Herodes, eu recolhi às tendas, em
triunfo, com a minha preciosidade. O prazenteiro Pote,
sentado num selim, estava moendo café.
- Soberbo galho! - gritou ele. - Quer-se arranjadinho
em coroa... Fica de uma devoção!
E logo, com a sua rara destreza de mãos, o jucundo
homem entrelaçou o galho rude em forma de coroa santa. E
tão parecida! Tão tocante!...
- Só lhe faltam as pinguinhas de sangue! - murmurava
eu, enternecido. - Jesus! O que a Titi se vai babar!
Mas como levaríamos para Jerusalém, através dos
cerros de Judá, aqueles incômodos espinhos - que, apenas
armados na sua forma passional, pareciam já ávidos de
rasgar carne inocente? Para o alegre Pote não havia
dificuldades; tirou do fundo do seu provido alforje uma
fofa nuvem de algodão em rama; envolveu nela delicadamente
a coroa do agravo, como uma jóia frágil; depois, com uma
folha de papel pardo e um nastro escarlate, fez um
embrulho redondo, sólido, ligeiro e nítido... E eu,
sorrindo, enrolando o cigarro, pensava nesse outro
embrulho de rendas e laços de seda, cheirando a violeta e
a amor, que ficara em Jerusalém, esperando por mim e pelo
favor dos meus beijos.
- Pote, Pote! - gritei, radiante. - Nem tu sabes que
grossa moeda me vai render esse galhinho, dentro desse
pacotinho!
Apenas Topsius voltou da sacra fonte de Eliseu - eu
ofereci, para celebrar o encontro providencial da grande
relíquia, uma das garrafas de Champagne, que Pote trazia
nos alforjes, encarapuçadas de ouro. Topsius bebeu "à
ciência!" Eu bebi "à religião!" E largamente a espuma de
Moed et Chandon regou a terra de Canaã.
À noite, para maior festividade, acendemos uma
fogueira; e as mulheres árabes de Jericó vieram dançar
diante das nossas tendas. Recolhemos tarde, quando por
sobre Moabe, para os lados de Maqueros, a lua aparecia,
fina e recurva, como esse alfanje de ouro que decepou a
cabeça ardente de Iocanã.
O embrulho da coroa de espinhos estava à beira do meu
catre. O lume apagara-se; o nosso acampamento dormia no
infinito silêncio do Vale da Escritura... Tranqüilo,
regalado, adormeci também.

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