RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
Lima Barreto
Capítulo IX
Aos poucos,
me esqueci dos dias de fome passados a deambular pelas ruas da cidade.
Tinha já um quarto, cama e um lavatório de ferro,
pensão de almoço e jantar; e, ainda, do ordenado,
me sobravam sempre alguns mil-réis para comprar, de quando
em quando, umas botinas de abotoar ou um chapéu de palha
mais catita. Gregoróvitch dera-me um terno de roupa em por
todo o tempo em que fui contínuo, conheci vários alfaiates
caros por intermédio do corpo dos outros.
No começo, não foi sem pezar que aceitei as fatiotas
daqueles desconhecidos. Custou-me muito curvar-me a tão vil
necessidade; com o tempo, porém, conformei-me e de tal modo
me habituei que, mais tarde, quando a minha situação
mudou, foi-me preciso um grande esforço, para me habituar
a comprar roupa em primeira mão. Achava-a cara, e o dinheiro
gasto nela, despendido inutilmente, como se o gastasse em orgias
e bebedeiras. Os meus vencimentos eram aumentados pelas gorjetas.
Havia-as de duzentos réis, mas, em geral, eram de quinhentos
réis para cima. A gente dos jornais é pródiga
como jogadores e gosta de aparentar desprezo pelo dinheiro e generosidade.
Uma vez, recordo-me bem, um repórter, entrando alta noite
na redação, com o olhar brilhante e o passo um tanto
trôpego, disse-me cheio de efusão:
- Caminhas, tens dinheiro?
- Tenho, sim senhor, dois mil-réis... O sr...
Ele não entendeu bem a minha resposta e continuou com a voz
pastosa:
- Sabes donde venho? Do Aplomb Club. Ganhei oitocentos mil-réis
no bacarat... Arre! Que desta vez levei a melhor ao Laje... Sabes
quem bancava? O Demóstenes, dr. Demóstenes Brandão,
pretor, primo do Ministro do Interior.
O repórter falava bamboleando a cabeça e agitando
os braços molemente. Esteve alguns instantes calado, a revirar
os olhos, e depois puxou da algibeira uma nota de vinte mil-réis
e disse-me:
- Toma! Vai procurar um bom fim de noite...
Eu tinha cem mil-réis por mês. Vivia satisfeito e as
minhas ambições pareciam assentes. Não fora
só a miséria passada que assim me fizera; fora também
a ambiência hostil, a certeza de que um passo para diante
me custava grandes dores, fortes humilhações, ofensas
terríveis. Relembrava-me da minha vida anterior; sentia ainda
muito abertos os ferimentos que aquele choque com o mundo me causara.
Sem os achar, em consciência, justos, acovardava-me diante
da perspectiva de novas dores e apavorei-me diante da imagem de
novas torturas. Considerei-me feliz no lugar de contínuo
da redação do O Globo. Eu tinha atravessado um grande
braço de mar, agarrara-me a um ilhéu e não
tinha coragem de nadar de novo para a terra firme que barrava o
horizonte a algumas centenas de metros. Os mariscos bastavam-me
e aos insetos já se me tinham feito grossa a pele...
De tal maneira é forte o poder de nos iludirmos, que um ano
depois cheguei a ter até orgulho da minha posição.
Senti-me muito mais que um contínuo qualquer, mesmo mais
que um contínuo de Ministro. As conversas da redação
tinham-me dado a convicção de que o doutor Loberant
era o homem mais poderoso do Brasil; fazia e desfazia Ministros,
demitia diretores, julgava juízes e o Presidente, logo ao
amanhecer lia o seu jornal, para saber se tal ou qual ato seu tinha
tido o placet desejado do dr. Ricardo. Participar de uma redação
de jornal era algo extraordinário, superior, acima das forças
comuns dos mortais; e eu tive a confirmação disso
quando, certa vez, na casa de cômodos em que morava, dizendo-o
ao encarregado que trabalhava na redação do O Globo,
vi o pobre homem esbugalhar muito os olhos, olhar-me de alto a baixo,
tomar-se de grande espanto como se estivesse diante de um ente extraordinário.
As raparigas que residiam junto a mim, lavadeiras e costureiras,
criadas de servir apelidaram-me "o jornalista", e mesmo
quando vieram a ter exato conhecimento da minha real situação
no jornal, continuei a ser por esse apelido conhecido, respeitado
e debochado.
Fiquei enervado de orgulho pueril, tratando toda a gente com um
desdém sobranceiro, sentindo-me tocado, atingido por um pouco
de grandeza que cabia ao dr. Loberant, ao Losque e ao inimitável
Floc.
Depois de acobardado, tornei-me superior e enervado e não
tentei mais mudar de situação, julgando que não
havia no Rio de Janeiro lugar mais digno para o genial aluno de
Dr. Ester que o de contínuo numa redação sagrada.
Não estudei mais, não mais abri livro. Só a
leitura d'O Globo me agradava, me dava prazer. Comecei a admirar
as sentenças literárias do Floc, a pilhérias
do Losque, a decorar a gramática homeopática do Lobo
e a não suportar uma leitura mais difícil, mais densa
de idéias, mais logicamente arquitetada, mesmo quando vinha
em jornal. Era pesado e...
Em menos de ano e tanto, tinha já construído uma pequena
consciência jornalística para meu uso. Julguei-me superior
ao resto da humanidade que não pisa familiarmente no interior
das redações e cheio de inteligência e de talento,
só porque levara tinta aos tinteiros dos repórteres
e dos redatores e participava assim de um jornal, onde todos têm
gênio. Os contínuo, os revisores, os caixeiros de balcão,
o gerente, os redatores, os homens das máquinas, os tipógrafos,
os agentes de anúncios, todos têm gênio, muito
gênio mesmo, quando de sobra não têm também
muito espírito, muito mesmo! Aquela casa, como todas do seu
feitio, em que se fabricam novidades para o público, era
uma colmeia de gênios. Colmeia é bem o termo porque
era pequena e acanhada. Os redatores escreviam uns em cima dos outros;
na revisão, que ficava misturada com a composição,
não se podia andar; e pela noite os bicos de gás sem
vidros iluminavam tudo aquilo lobregamente, com grandes hiatos de
sombras como um porão de navio. Pela sala em que esses dois
departamentos funcionavam, flutuava um forte odor de urina, desprendido
de um mictório, que existia entre duas caixas de tipografia.
No dia que notei isso, não fazia oito, que um artigo furioso
atacava o governo pelas más condições higiênicas
do Hospício Nacional de Alienados.
Quando se tratava de per si com qualquer dos empregados do jornal,
ficava-se admirado que a folha se imprimisse e se escrevesse diariamente.
Floc tinha em pouca conta Losque: um bufão, dizia ele; Bandeira
desprezava Floc: um eunuco; e todos como que pareciam querer entredevorar-se
até aos ossos. Entretanto, quando um fazia anos, a seção
competente gemia e os adjetivos mais ternos e mais camaradários
não eram poupados. De seção para seção,
a guerra era terrível. A revisão dizia que a redação
era analfabeta; a tipografia acusava ambas de incompetentes; e até
a impressão que não lia nem via originais tinha uma
opinião desfavorável sobre todas três.
A redação não perdoava a menor falha da revisão.
Às vezes, eram os originais defeituosos; em outras, havia
descuido ou a pretensão fazia emendar o que estava certo;
mas sempre as reclamações choviam por parte dos redatores,
dos colaboradores e dos repórteres.
Um caso curioso deu-se com um artigo de Aires d'Ávila. Na
sua cantilena diária, o paquidérmico plumitivo tinha
escrito "pesados 200$000 impostos pelo Congresso", mas,
passando de uma linha para outra, cortara a quantia pelo cifrão,
sem o qual, a revisão e a tipografia entenderam: "200
ovos postos pelo Congresso". Ávila às nove horas
da manhã veio ao jornal furioso, com as banhas agitadas,
todo ele nervoso de pasmar, pois sempre me pareceu sem nervos. O
que tinha sido uma simples obra do acaso, atribuía-a ele
uma canalhice da revisão, uma pilhéria de mau gosto.
De tarde o chefe da revisão foi chamado, quis explicar o
"gato"; mas a nada se atendeu e houve algumas demissões.
Não eram raras aliás. No jornal, há-as de mês
a mês; por dá cá aquela palha, o diretor ou
o secretário demite, suspende, multa nos ordenados. Daí
vem o terror dos subalternos, a lisonja, o respeito religioso de
que são cercados. Entretanto, quantas vezes se não
lêem acres censuras ao Ministro que demitiu este ou aquele
funcionário, por motivo em geral mais plausíveis!
Unicamente Michaelowsky não fazia carga sobre a revisão.
Para ele, tanto se lhe dava sair "nós fomos" como
"nós foi". Não tinha nenhum amor pelos escritos;
eram como cutiladas, tanto fazia matar, ferindo no pescoço
como rachando a cabeça meio a meio. O que ele queria era
matar, ferir, golpear: a maneira pouca se lhe dava. E era uma felicidade
para a revisão que ele pensasse assim. No jornal, só
o russo tinha prestígio e iniciativa. Os outros curvavam-se
servilmente ao diretor. O que não seria se o doutor em exegese
bíblica tivesse os cuidados puristas do Oliveira, que reclamava
um "propositalmente" por propositadamente! Toda a sua
gramática estava aí. Ele conseguira saber que "propositalmente"
não era aconselhado pelo Rui e ai do revisor que deixasse
escapar um na sua seção! O próprio Loberant,
tão ignorante como o Oliveira, péssimo escritor, tinha
fúrias extraordinárias quando lhe trocavam uma palavra
no luminoso artigo. Diariamente, mesmo quando não escrevia,
corria o jornal de manhã, de princípio ao fim, auxiliado
pela mulher, para descobrir erros segundo a gramática do
Lobo. Graças a leituras das "sorites" do esquálido
gramático, Loberant julgava-se um purista; demais, ele sempre
tivera culto pelo dicionário, pelo purismo. Era um gosto
ver surgir nos seus artigos-descomposturas, termos, catados ao Morais
e ao Domingos Vieira. E essa sua crença de purista e cultor
da língua, juntara-se com o tempo, a de ser também
um grande homem, um messias, um homem providencial. Com cuidado
e atilamento, afastara do jornal toda e qualquer pessoa de mais
talento que ele. Proprietário da folha absorvera-a toda em
si: os artigos, a criação das seções,
as referências elogiosas, as "cavações",
tudo só se fazia com sua audiência e aprovação.
Ele pairava sobre o jornal como um sátrapa que desconhecesse
completamente qualquer espécie de lei, fosse jurídica,
moral ou religiosa. Não havia regulamentos, praxes; o jornal
era ele e a coerência de suas opiniões vinha dos impulsos
desordenados de sua alma, que o despeito agitava em todos os sentidos.
No curto prazo de uma semana, o seu jornal atacou, elogiou e qualificou
herói o Ministro da Guerra; e nenhum dos três artigos
saiu da sua pena; foram escritos à sua ordem pelo Adelermo
Caxias, que se gabava de honestidade intelectual. Na redação
era assim: escrevia-se, mediante ordem do Diretor, hoje contra e
amanhã a favor. Floc, entretanto, gabava-se de ter autonomia
nos seus artigos. Eram puramente literários, ou tinham esse
propósito, e, à luz da inteligência de Loberant,
era-lhe perfeitamente indiferente que o naturalismo fosse elogiado
e o nefelibatismo detratado; que a Academia de Letras tivesse referências
elogiosas ou recebesse epigramas acerados. Floc era contra a Academia,
contra os novos, contra os poetas, contra os prosadores; só
admitia, além dele, com a sua obra subjacente, que se juntassem
e fizessem versos, certos rapazes de sua amizade, bem-nascidos,
limpinhos e candidatos à diplomacia. Confundia arte, literatura,
pensamento com distrações de salão; não
lhes sentia o grande fundo natural, o que pode haver de grandioso
na função da Arte. Para ele, arte era recitar versos
nas salas, requestar atrizes e pintar umas aquarelas lambidas, falsamente
melancólicas.
Na crítica, tinha-se na convicção de um fazedor
de poetas, um consagrador de reputações; com aquele
endosso da firma burlesca - Floc - o autor que lhe recebesse elogios,
passava imediatamente para o Larousse. Ignorante, insciente, com
uma leitura de pacotilha, não se animava a desenvolver qualquer
teoria, a ter um ponto de vista qualquer; bordava umas banalidades
- "uns deliciosos momentos de gozo estético deu-nos,
etc.; a sua alma vibra e palpita, etc."
Com isso, e repetidos elogios aos outros jornalistas, adquiriu ele
uma linda reputação e um grande prestígio de
talento e de artista. Quando se suicidou (oh! como isto é
triste de recordar!), quando se suicidou fui-lhe ver os livros;
lá havia a Grande Marnière, de Ohnet; Je Suis Belle,
de Victorien de Saussay; uns volumes de Bourget, alguns de Maupassant,
nenhum historiador, nenhum filósofo, nenhum estudo de crítica
literária, mas dez de anedotas literárias de autores
de todos os tempos e de todos os países. A sua crítica
não obedecia a nenhum sistema; não seguia escola alguma.
O único critério era as suas relações
com o autor, as recomendações recebidas, os títulos
universitários, o nascimento e a condição social.
Elogiava nefelibatas, se eram de sua amizade, se eram "limpos";
detratava se não eram. Tinha dois princípios: a aristocracia
da arte e a fulminação dos nulos. Entendia a seu modo
aristocracia da arte, isto é, arte feita pelos aristocratas
como ele, cujo pai tivera na primeira mocidade uma taverna em Barra
Mansa.
Uma tarde, chegou à redação com uma plaquette,
impressa em Portugal, tendo por título - Coração
Magoado. Encontrando Leporace, mostrou-lhe a brochura:
- Conheces?
- Não. Deixa-me vê-la.
Leporace quis dar à sua fisionomia baça, aos músculos
inexpressivos de sua face, uma expressão de finura, de atilamento
particular de entendimento. Leu o título, o nome do autor,
folheou o livro e perguntou:
- Quem é Odalina?
- Uma poetisa portuguesa de muito talento... Está de passagem
e vem tratar de uma revista - O Bandolim... Os versos são
líricos, mas de uma pureza de sentimento e cheios de um acento
pessoal de encantar... Eu não gosto da arte pessoal; a arte
(tomou outra atitude) deve refletir o mundo e o homem, e não
a pessoa... Penso com o Flaubert... Vê só este:
Meu coração
por desgraça
Entrou no meu pensamento
É como crime de faca
Que nunca tem livramento.
- Notaste, acrescentou
ao terminar a leitura, como está bem aproveitada a devida
cadência da trova popular para exprimir um alto conceito filosófico?
Ela quer dizer que o seu, a perigo sua inteligência é
perturbada pelo Amor, pelo sentimento... E como ela compara bem
com um dizer popular, essa coisa alta e transcendente! O livro é
notável... Vê só esta quadrinha, que perfeição!
Quanta emoção há nela! Ouve:
Quem tem amores
vai dormir
Na porta do seu amor
Das pedras faz cabeceira
Das estrelas cobertor.
Leporace pediu
de novo o livro e pôs-se a folheá-lo, lendo aqui e
ali. Não teve uma palavra para dizer, descansou o livro e
perguntou:
- Quem te apresentou?
- O Raul de Gusmão.
- O Raul! Com mulheres! É casada?
- É, com o Visconde de Varennes, um fidalgo francês.
- Olá! Deve ser uma grande família, nobreza antiga...
O nome é histórico, rematou Leporace satisfeito por
ter encontrado uma observação a fazer.
- Não sei se é.
- O marido veio com ela?
- Não. Ela vive separada do marido...
- Ahn! Vais escrever sobre ela, não?
- Naturalmente.
E os dois sorriam: Floc cheio de satisfação, recordando
vagamente as mulheres já gozadas; Leporace com um evidente
travo de amargura nos lábios. O crítico preparava-se
para se pôr à mesa, quando entraram o doutor Loberant
e Michaelowsky. O diretor vinha com a fisionomia alegre. Floc e
Leporace, este mais que aquele, acolheram com as grandes mostras
de respeito de sempre a presença do dr. Ricardo Loberant.
O desbotado secretário deu-lhe conta das recomendações
do dia seguinte. Tinha posto mais uma "brotoeja" contra
o Prefeito e fizera escrever um solto combatendo o empréstimo
da Prefeitura; e, se não saíra a "porrada"
na gente do Paraná, fora porque o vira a conversar com o
Chavantes.
- Ora, "seu" Leporace! exclamou o diretor. Que é
que tem isso! O jornal é uma coisa e eu sou outra...
- Pensei...
- Bem... Foi bom... Mas não me deixe de bater na Prefeitura...
É um escândalo! Uma vergonha! Só o Machado vai
ganhar mil contos... Embirro com esse Machado... Um tratante que
não me cumprimenta... Ainda se fosse outro, vá! E
não é isso; é um nulo, um título desvantajoso,
e que juro!... Não o deixem, não o deixem; havemos
de ver se o O Globo vale ou não vale...
E o diretor rematou as suas recomendações com um baixo
palavrão insultuoso. Floc e Leporace tinham ficado a ouvir
o venerável diretor; Michaelowsky, sentado, fumando, estivera
a ler o livro da poetisa portuguesa.
- De quem é isto? perguntou.
- É meu.
- É o autor que pergunto.
- O autor! É uma fidalga portuguesa...
- Livra! São versos de folhinha...
- De folhinha!
- De folhinha, sim. Este aqui. "Quem tem amores vai dormir"
- é "verso" de hoje até!
- Não é possível! Não é possível!
reclamou o crítico literário.
- Queres ver? Caminha, gritou o russo para mim, traze-me aí
o "verso" de hoje.
Procurei-o nos papéis de uma cesta e entreguei-o ao redator
poliglota. O estrangeiro passou os olhos no papelucho e entregou-o
ao Floc. O oráculo artístico do jornal correu rapidamente
os versos e confessou: é verdade, acrescentando - que cinismo!
mas sem convicção nem indignação.
O Diretor tinha entrado para o gabinete seguido de Leporace e nenhum
dos dois ouvira o breve diálogo trocado na sala entre os
dois redatores. De repente, com aquela sofreguidão que lhe
era peculiar e que ele punha nos atos, nos afetos e nos seus medíocres
artigos, chegou-se à porta e perguntou ao Floc:
- Vi esse tal Andrade na rua... O jornaleco dele ainda continua
a sair?
- Penso que sim.
- Tens lido?
- Às vezes.
- Continua a insultar-me?
- Sempre. E acrescentou: o dr. se incomoda com o que diz esse vagabundo?
- Não... Ora! Mas... Deixa estar que ele há de precisar
de mim, há de cair em alguma; então veremos... Não
se esqueçam dele, quando for ocasião, casquem... Patife!!!
E passou por mim ainda com os dentes rilhados, cheio de raiva, desabotoando
a braguilha, apressado para o mictório, olhando para o lado
em que eu estava, como querendo dar a entender que ele era forte,
muito forte, e havia de esmagar um dia aquele pigmeu que ousava
pôr-se diante do seu caminho triunfante, atirando-lhe alfinetadas
com uma cômica violência liliputiana. Havia de esmagá-lo,
inutilizá-lo para sempre e fazê-lo sofrer eternamente
o grande desaforo de o não supor Deus no "Domingo",
a ele, doutor Ricardo Loberant, diretor-proprietário d'O
Globo, jornal independente, órgão do povo e dos sofredores,
pesadelo dos Ministros, espada de Dâmocles suspensa sobre
a tríade política e administrativa da República.
E ele tinha razão.
O terror, que inspirava dentro do jornal, irradiava para fora. Aquele
homem magrinho, fraco de corpo e de inteligência, sem cultura,
amedrontava a cidade e o país. Todos o cortejavam; os colegas
que o combatiam, evitavam feri-lo de frente. Um ou outro, num momento
de desespero, tinha a coragem de enfrentá-lo; mas era num
momento de desespero. Armados, cercados de todos os lados, tinham
uma convulsão e atiravam-se, desferindo golpes para a esquerda
e para a direita. Se porventura algum era mais certeiro e parecia
esmagar o dr. Loberant, ficava-se pasmado que se desse o contrário.
Longe de perder prestígio, esses ferimentos aumentavam-no.
O povo não queria ver a sua ignorância, a sua inabilidade
no escrever; era valente e dizia a verdade. Houve uma polêmica
sobre um trabalho de limites em que o seu desconhecimento da geografia
pátria ficou patente; o jornal foi mais lido. Em outra vez,
deu como tendo feito oferecimentos a conventos do Brasil, reis da
dinastia de Borgonha; recebeu uma ovação. De dia para
dia o jornal crescia em venda. Todos o liam; era o jornal dos desgostosos,
dos pequenos empregados, dos ratés de todas as profissões
e também dos ricos que não podem ganhar mais e dos
destronados das posições e das honras. Na venda avulsa,
nenhum o excedia, nem o próprio Correio da Manhã.
Só o Jornal do Brasil se mantinha emparelhado com ele, e
a rivalidade era acesa. Julgando que a prosperidade do outro era
devida aos bonecos, Loberant punha na sua folha bonecos. Parecendo-lhe
que isso não era o bastante, forjava anúncios, "calhaus",
calhaus de "precisa-se", de "aluga-se", de pequenos
anúncios que, em abundância, parecem ser o índice
da prosperidade de um jornal. Mas não contente com esses
expedientes todos, um dia o doutor Loberant, supondo a popularidade
do rival devido à falta de gramática nos artigos,
chegou à redação furioso e, com o seu modo
habitual, berrou:
- Não quero mais gramática, nem literatura aqui!...
Nada! Nada! De lado essas porcarias todas... Coisa para o povo,
é que eu quero!
O Lobo, que estava na sala, teve em começo um grande olhar
de tristeza com que envolveu toda a sala e a coleção
de jornais dependurados pelas paredes. Depois de um momento de hesitação,
tomou coragem e observou:
- Mas, dr...
- Ora, Lobo! Já vem você...
- Mas, dr., a língua é uma coisa sagrada. O culto
da língua é um pouco o culto da pátria. Então
o senhor quer que o seu jornal contribua para corrupção
deste lindo idioma de Barros e Vieira...
- Qual Barros, qual Vieira! Isto é brasileiro - coisa muito
diversa!
- Brasileiro, doutor! falou mansamente o gramático. Isto
que se fala aqui não é língua, não é
nada: é um vazadouro de imundícies. Se frei Luís
de Sousa ressuscitasse, não reconheceria a sua bela língua
nessa amálgama, nessa mistura diabólica de galicismos,
africanismos, indianismos, anglicismos, cacofonias, cacotenias,
hiatos, colisões... Um inferno! Ah, doutor! Não se
esqueça disto: os romanos desapareceram, mas a sua língua
ainda é estudada...
Loberant não ficou calado com a exortação do
gramático. Manteve a ordem que lhe parecia necessária
para o aumento de alguns milheiros na venda de sua folha. Conquanto
afetasse desprezo pela literatura, ele não deixava de ter
pretensões a intelectual. Com a prosperidade do jornal, a
sua pretensão aumentava. Julgava-se um Patrocínio,
um Ferreira de Araújo, um Bocaiúva; embora não
escrevesse com destaque, ele ia buscar o seu parentesco espiritual
em Rochefort, Luís Veuillot e outros nomes de jornalistas
estrangeiros de que tinha informações.
O seu gabinete era alvo de uma peregrinação. Durante
o dia e nas primeiras horas da noite, entrava toda a gente, militares,
funcionários, professores, médicos, geômetras,
filósofos. Uns vinham à cata de elogios, de gabos
aos seus talentos e serviços. Grandes sábios e ativos
parlamentares eu vi escrevendo os seus próprios elogios.
O leader do governo enviava notas, já redigidas, denunciando
os conchavos políticos, as combinações, os
jogos de interesses que se discutiam no recesso das antecâmaras
ministeriais. Foi sempre coisa que me surpreendeu ver que amigos,
homens que se abraçavam efusivamente, com as maiores mostras
de amigos, vinham ao jornal denunciar-se uns aos outros. Nisso é
que se alicerçou o O Globo; foi nessa divisão infinitesimal
de interesses, em uma forte diminuição de todos os
laços morais.
Cada qual mais queria, ninguém se queria submeter nem esperar;
todos lutavam desesperadamente como se estivessem num naufrágio.
Nada de cerimônias, nada de piedade; era para a frente, para
as posições rendosas e para os privilégios
e concessões. Era um galope para a riqueza, em que se atropelava
a todos, os amigos e inimigos, parentes e estranhos. A república
soltou de dentro das nossas almas toda uma grande pressão
de apetites de luxo, de fêmeas, de brilho social. O nosso
império decorativo tinha virtudes de torneira. O encilhamento,
com aquelas fortunas de mil e uma noites, deu-nos o gosto pelo esplendor,
pelo milhão, pela elegância, e nós atiramo-nos
à indústria das indenizações. Depois,
esgotado, vieram os arranjos, as gordas negociatas sob todos os
disfarces, os desfalques, sobretudo a indústria política,
a mais segura e a mais honesta. Sem a grande indústria, sem
a grande agricultura, com o grosso comércio nas mãos
dos estrangeiros, cada um de nós, sentindo-se solicitado
por um ferver de desejos caros e satisfações opulentas,
começou a imaginar meios de fazer dinheiro à margem
do código e a detestar os detentores do poder que tinham
a feérica vara legal capaz de fornecê-lo a rodo. Daí
a receptividade do público por aquela espécie de jornal,
com descomposturas diárias, pondo abaixo um grande por dia,
abrindo caminho, dando esperanças diárias aos desejosos,
aos descontentes, aos aborrecidos. E os outros jornais? Nos outros
o suborno era patente; a proteção às negociatas
dos dominantes não sofria ataques; não demoliam, conservavam,
escoravam os que estavam.
Loberant sabia o segredo do seu sucesso e velava pela folha com
cuidados especiais. Diariamente lhe vinham informações
sobre a venda avulsa, sobre o movimento de anúncios. Se decaíam
um pouco, logo procurava um escândalo, uma denúncia,
um barulho, em falta um artigo violento fosse contra quem fosse.
Havia na redação farejadores de escândalos;
um, para os públicos; outro, para os particulares. Este era
o mais interessante. Tinha uma imaginação doentia;
forjava coisas terríveis, inventava, criava crimes. Eram
cárceres privados, enterramentos clandestinos, incestos,
tutores dolosos, etc.
Porém, os grandes escândalos, os grossos, as ladroeiras
públicas eram denunciadas pelos próprios funcionários
desgostosos, por políticos pedichões e não
satisfeitos e pelos próprios subornados. A venda cresceu
sempre, mas com todos esses alvitres houve um momento em que estacionou.
Loberant encheu-se de temor, carregou mais nas descomposturas, começou
a implicar com o chefe de polícia; mas nem assim subia. Uma
frase equívoca que lhe saíra da pena, determinou o
aparecimento de um "apedido" no Jornal do Comércio,
denunciando-o como inimigo da colônia portuguesa, tanto assim
que não tinha um português na redação
da sua gazeta. Foi Aires d'Ávila quem leu o "apedido"
e o mostrou ao diretor. Era hábito de muitos anos, depois
de ver o palpite do bicho correr os "apedidos" dos jornais
e lê-los atentamente. Ali, ele procurava caminho para as "cavações",
informava-se das reputações, preparava os "ganchos".
Loberant, quando teve notícia da mofina, considerou bem a
falta e pediu o alvitre do Floc.
- Conheces aí algum capaz?
- Qual, não há!
- Como poderíamos arranjar um português para redator,
dize lá?
Anos mais tarde, ele não teria dificuldades.
- Encomenda-se a Portugal.
E fui eu encarregado de levar o telegrama ao submarino. Não
se tratava já de um redator; pedia-se a uma livraria de Lisboa
um redator e dois correspondentes literários. Nos dias seguintes,
era o seu primeiro cuidado indagar se já tinha chegado a
resposta. Veio afinal. Os correspondentes já estavam arranjados,
mas não havia quem quisesse vir. Iam ver. Dias depois, ao
abrir a correspondência, Leporace deu com a resposta de Lisboa
e correu alvissareiro para o diretor.
- Cá está ele... Está arranjado...
- O quê?
- O redator português.
- Ahn!
E leu o telegrama. Embarcaria no primeiro paquete. Era espirituoso,
entendido em coisas portuguesas e queria setecentos mil-réis
fracos. Aceitou e nesse sentido telegrafou para Lisboa. Quando voltei
da Western, Pranzini, o gerente, entrava na redação.
Chegava com o sobrecenho carregado e os olhos fuzilando indignados.
Pranzini era o cão de fila do diretor. O cofre e a economia
do jornal estavam-lhe inteiramente entregues. Ele pagava e recebia,
depositava dinheiro, arbitrava os preços da matéria
paga. Todos estavam debaixo da sua tirania; precisavam adulá-lo,
animá-lo, e ele abusava extraordinariamente dos grandes poderes
de que estava investido. Ficava-lhe bem a função.
Era cúpido, metódico, organizado. No jornal, vivia
sempre em mangas de camisa e a fieira dos botões do colete
não se afastava nunca do eixo do peito. A fisionomia era
larga e dura; grandes faces assimétricas, queixo forte e
quadrado, pouco distinto do maxilar, uma grande dificuldade em sorrir.
Aquela inteligência rudimentar de aldeão italiano tinha
finuras de doutor da escolástica. Certa vez furtou-se ao
pagamento de uma comissão do anúncio de uma casa,
sob o pretexto de que a autorização falava em "Bal
Masqué" e o nome do estabelecimento era "Au Bal
Masqué". Murmurava-se no jornal que ele desviava um
pouco as rendas do diretor, mas dizia-se também que este
não se importava porque assim indiretamente pagava as doces
intimidades com a mulher do italiano, uma pequena mulher, coberta
de um pêlo fino e abundante, de carnes duras e grandes ancas
provocadoras. Filha de um usuário vaidoso que vivia pelos
corredores do Paço a implorar um título nobiliárquico,
conta-se que, desflorada por um dos netos do Imperador, foi casada
precipitadamente com Pranzini, ex-croupier de casa de jogar, para
salvar a reputação da família e evitar um grande
escândalo público. O antigo croupier, graças
ao dote, fez-se em breve cavalheiro da nossa alta sociedade e, aos
poucos insinuou-se nos jornais e foi chamado pelos entrelinhados
"nosso colega da imprensa". Logo que o gerente se aproximou
do diretor, este disse-lhe prontamente:
- Sabes, Pranzini? Temos um homem... De Lisboa chegou-nos a resposta.
- É bom... Vocês sabem, sem português, nada aqui
vai adiante. Os patrícios exigem, é justo: eles são
talvez trezentos mil, pagam rios de dinheiro em anúncios
- é justo!
Depois tomando outro tom de voz falou assim ao diretor:
- Tenho aqui este vale para o senhor visar.
- Eu já disse a você que não é preciso...
- Não é isso. É que com este tive dúvidas.
Tratava-se de um artigo que não saiu assinado. Não
parecia ser colaboração e eu...
- De quem é o vale?
- Do Veiga Filho.
- De que artigo?
- Um sobre o Teixeira de Almeida.
- Mas o quê! exclamou o diretor. Pois se foi ele próprio
que pediu para escrevê-lo, dizendo-me que tinha sido colega
de escola do homem, como é que cobra?... Enfim deixa-me vê-lo.
O doutor considerou bem o pedaço de papel que tinha na mão,
abanou a cabeça e veio dizendo:
- Esses literatos! Livra! Até as lágrimas cobram.
Floc nada dissera. Evitava fazer qualquer crítica ao mestre
incomparável da nossa língua. Losque, tendo deixado
de escrever, meteu-se na palestra. Tinha a mania do "espírito";
mas não era propriamente espírito que ele queria ter.
A sua mania era ser um ironista, à moda inglesa - um humorista.
Fazia de si um retrato de Sterne, de Lamb, de Swift; embora não
soubesse uma linha de inglês filiava a sua graça, o
seu feitio de rir, no gênio britânico. Não é
que isso, de fato, houvesse nele; faltava-lhe na ironia o imprevisto,
o alcance moral e filosófico, aquela meditação
por absurdo que Taine achou em Swift. Ele tinha a graça fácil
dos pequenos autores e muitas das suas boutades tinham origem nos
autores portugueses e franceses de segunda ordem. Não era
uma atitude de pensamento, um estado d'alma constante, um julgamento
sobre os homens e as coisas: era uma profissão, um ganha-pão,
que ele executava automaticamente.
Adaptável, sem rebeldia nem independência de caráter,
escrevia pilhérias como um amanuense faz ofícios.
Nunca tinha escrito obra de vulto, a não ser uma novela de
calembourgs, em que explorava esse velho filão do roceiro
acanhado. Combinava a sua intensidade pilhérica com a de
escritor de estirados artigos sobre a crise do açúcar
e o policiamento da cidade. Era autor de várias revistas,
com algumas pilhérias novas e bem achadas. Sem ser moço,
não era velho e ia fazendo a sua carreira nos jornais com
vagar e submissão, tendo já uma vaga reputação
no seio do público. Sabendo da vida de todo o mundo, inventando
mesmo, quando os dados lhe faltavam, punha um grande esforço,
uma nota de arte no cultivo da maledicência, da "trepação".
Diariamente estudava assuntos, organizava pilhérias e logo
que o momento se oferecia desandava. Viera disposto nesse dia. Ao
entrar, enquanto Leporace conversava na sala, pusera-se a escrever
a sua celebrada seção - "Pulgas e Brotoejas"
- constantemente cheia de alusões, de ditinhos, de versos
aos políticos, em que ele gastava uma certa dose de talento,
já um tanto diminuído pelo automatismo adquirido.
Acabando de escrever a seção, procurou um rodeio e
dirigiu a conversa para o ponto que queria:
- De fato este Rio tem coisas bem singulares. Vocês conhecem
a viúva Pais Brandão?
Nem todos responderam, mas Leporace que se gabava de conhecer toda
a cidade - as ruas, becos, segredos - acudiu prontamente:
- Ora! Como não? Uma loura de forte nariz romano, que anda
sempre de preto? Ora, muito!
- É essa mesma. Mora num palácio na rua das Laranjeiras...
- Mas que tem ela? indagou Floc.
- É um caso curioso.
Leiva veio interromper a conversa. Há dias que ele estava
no jornal, fazendo polícia. Sabendo que eu me fizera contínuo,
começou a procurar-me e por aí foi travando relações,
"engrossando" habilmente, até que um dia entrou
como repórter e começou a gritar comigo para que eu
lhe trouxesse penas. Losque continuou:
- Passa por séria, por ser um poço de virtudes. Ninguém
se anima a requestá-la. O rosto é de Messalina, mas
a alma é de Cornélia; entretanto...
Calou-se um pouco, suspendeu o auditório, para obter o efeito
desejado.
- Mas é curioso, continuou devagar; é curioso que
o seu egoísmo familiar a tivesse levado tão longe.
- Por quê? perguntou alguém.
- Por quê!? Porque vive em mancebia com o sobrinho e com o
filho.
Os circunstantes não se espantaram; sorriram incredulamente.
- Qual! fez um.
- Engraçado, aduziu sem ir de encontro à dúvida
geral, é que ela não pode suportar um só! Hão
de ser os dois, juntos, um do lado esquerdo e outro do lado direito...
Disse-me a Fulgência, que foi lá criada, que uma noite,
não vindo um deles, ela a passou toda na sala de jantar chorando
e arrancando os cabelos.
- É um caso curioso de psicopatia sexual, falou Loberant.
Em Londres, há casos especiais quase em gênero semelhante;
mas ao contrário: é um homem para duas mulheres, parentas
próximas, irmãs, mãe e filha; mas como este
não conhecia... Mas quem te informou, Losque?
- Uma rapariga que é minha criada, e foi da viúva.
É maravilhoso! Que revulsão na alma! Que móveis
íntimos a levaram a isso! Que forte ideal amoroso não
encontrado foi esse que a obrigou a arruinar dois rapazes para satisfazê-lo!
Leporace então observou:
- Esta sociedade está muito corrupta.
Michaelowsky entrava e ainda ouviu as palavras do secretário.
Parou um instante, concertou os óculos de aros de ouro e
exclamou com malícia:
- Oh! Catão!
- Não sou Catão, mas o que há por aí,
pelos bastidores, causa espanto. A sociedade, ao que parece, despenha-se...
- Sempre houve quem dissesse isso, objetou o russo. Se examinares
os satíricos de todos os tempos, eles te revelarão
a sociedade sempre corrupta e desbocada... Eu julgo a moral impossível!
- Por quê?
- Porque é feita para diminuir em nós o que é
de mais estrutural e de mais profundo: a individualidade, o prazer
e os instintos!
- Mas a sociedade precisa repousar nela; senão... disse Leporace.
- Não há dúvida!
- Então concordas que, em face da própria sociedade,
nós nos devemos esforçar por justificar as regras
morais, manter sempre de pé os seus preceitos.
- Mas se têm sido inúteis todos os esforços
das religiões - a força mais poderosa para uma modificação
inteira do indivíduo, como havemos de consegui-lo? Demais...
demais, para quê?
- Para eternidade da espécie, falou com ênfase Leporace.
- Valeria a pena? retrucou Michaelowsky.
E todos se calaram sem achar de pronto uma resposta cabal.