RECORDAÇÕES DO ESCRIVÃO ISAÍAS CAMINHA
Lima Barreto
Capítulo VII
Havia dias que notava com surpresa a indiferença que tinha então
pelos meus destinos. Aquele meu fervor primeiro, tinha sido substituído
por uma apatia superior a mim. Tudo me parecia acima de minhas forças,
tudo me parecia impossível; e que não era eu propriamente
que não podia fazer isso ou aquilo, mas eram todos os outros que
não queriam, contra a vontade dos quais a minha era insuficiente
e débil. A minha individualidade não reagia; portava-se
em presença do querer dos outros como um corpo neutro; adormecera,
encolhera-se timidamente acobardada.
Houve duas ou três crises de vontade que me obrigaram a procurar
emprego. Nas duas primeiras, recuei passado o primeiro ímpeto;
na terceira, fi-lo de tal modo, tão transtornado, tão lamuriento
e frouxo que fui mal-sucedido. Vendi os meus livros para apurar algum
dinheiro. Pago o hotel, fiquei reduzido à última extremidade,
com um curto prazo para dele retirar a minha insignificante bagagem. Esperava
resposta de uma carta em que pedira algum dinheiro a minha mãe.
Não se demorou em responder, mandando-me cinqüenta mil-réis.
Aluguei um quarto e os primeiros dias que nele passei foram do mais absoluto
enfado.
Saía, mas evitava a rua do Ouvidor e o Laje da Silva, que passara
a tratar-me de outro modo. Dei em passear de bonde, saltando de um para
outro, aventurando-me por travessas afastadas, para buscar o veículo
em outros bairros. Da Tijuca ia ao Andaraí e daí a Vila
Isabel; e assim, passando de um bairro para outro, procurando travessas
despovoadas e sem calçamento, conheci a cidade - tal qual os bondes
a fizeram alternativamente povoada e despovoada, com grandes hiatos entre
ruas de população condensada e toda ela, agitada, dividida,
convulsionada pelas colinas e contrafortes da montanha em cujas vertentes
crescera. Jantava, uns dias; em outros, almoçava unicamente; e
houve muitos que nem uma coisa ou outra fiz. Descobri a Biblioteca Nacional,
para onde muitas vezes fui, cheio de fome, ler Maupassant e Daudet. Estava
na casa de cômodos havia perto de quinze dias. Uma noite, acabara
de chegar e despia-me, quando me bateram à porta. Abri: "Boa
noite", falou-me um rapaz do lado de fora. "O senhor podia permitir
que eu acendesse a minha vela na sua? Cheguei sem fósforos e vendo
que no seu quarto havia luz, vinha-lhe pedir esse favor." Ficamo-nos
conhecendo, aos poucos nos aproximamos e entabulamos relações
mais estreitas. Abelardo Leiva, o meu recente conhecimento, era poeta
e revolucionário. Como poeta tinha a mais sincera admiração
pela beleza das meninas e senhoras do Botafogo. Não faltava às
regatas, às quermesses, às tômbolas, a todos os lugares
em que elas apareciam em massa; e a sua musa - uma pálida musa,
decentemente abotoada no Castilho e penteada diante dos espelhos de B.
Lopes e Macedo Papança - quase diariamente lhes cantava a beleza
"olímpica e lirial". Como revolucionário, dizia-se
socialista adiantado, apoiando-se nas prédicas e brochuras do Sr.
Teixeira Mendes, lendo também formidáveis folhetos de capa
vermelha, e era secretário do Centro de Resistência dos Varredores
de Rua. Vivia probremente, curtindo misérias e lendo, entre duas
refeições afastadas, as suas obras prediletas e enchendo
a cidade com os longos passos de homem de grandes pernas.
Depois de nossas relações, era freqüente passearmos
juntos. Saíamos às dez horas, tomávamos café
e andávamos até as três ou quatro da tarde. A essa
hora separávamo-nos em obediência a uma convenção
tácita. Tratava-se de jantar e cada um de nós ia arranjar-se.
À tarde, encontrávamo-nos e íamos conversar a um
café com alguns outros amigos dele, na mor parte desprovidos de
dinheiro, com magros e humildes empregos, pretendendo virar a face do
mundo para ter almoço e jantar diariamente. Leiva era o chefe,
era a inteligência do grupo, pois, além de poeta, tinha todos
os preparatórios para o curso de dentista. Eu gostava de notar
a adoração pela violência que as suas almas pacíficas
tinham, e a facilidade com que explicavam tudo e apresentavam remédios.
Embora mais moço do que ele, várias vezes cheguei a sorrir
aos seus entusiasmos. Creio que lhes não faltava inteligência,
sinceridade também; o que não encontravam era uma soma de
necessidades a que viessem responder e sobre as quais apoiassem as suas
furiosas declamações. Insurgiam-se contra o seu estado particular,
oriundo talvez mais de suas qualidades de caráter do que de falhas
de temperamento. Eram todos honestos, orgulhosos, independentes e isso
não leva ninguém à riqueza e à abastança.
Leiva era quem mais exagerava nos traços do caráter comum
e se encarregava de pintar os sofrimentos da massa humana. Era um grupo
de protestantes, detestando a política, dando-se ares de trabalhar
para obra maior, a quem as periódicas "revoluções"
não serviam. Um ou outro acontecimento vinha-lhes dar a ilusão
de que eram gênios da opinião. Leiva gabava-se de ter feito
duas greves e de ter modificado as opiniões do operariado do Bangu
com as suas conferências aplaudidas. Os outros, sem a sua enfibratura,
os seus rompantes de atrevimento e a sua ambição oculta,
mais sinceros talvez por isso, limitavam-se a falar e a manifestar as
suas terríveis opiniões em publicações pouco
lidas.
No entanto, Leiva parecia-me mais sincero na sua poesia palaciana e de
modista do que nas idéias revolucionárias. Não o
julgava perfeitamente hipócrita; era a sua situação
que lhe determinava aquelas opiniões; o seu fundo era cético
e amoroso das comodidades que a riqueza dá. Cessassem as suas dificuldades,
elas desapareceriam e surgiria então o verdadeiro Leiva, indiferente
aos destinos da turba, dando uma esmola em dia de mau humor e preocupado
com uma ruga no fraque novo que viera do alfaiate.
No café, em certos momentos, quase sem transição,
ele passava das objurgatórias mais terríveis a recitar versos,
cheios de detalhes de modas e ardendo de admiração pelas
coisas do luxo. Havia nisso muito da sua forte mocidade para que eu me
lembrasse de Georges Ohnet. Bem parecido, de rosto bem feito e um nariz
clássico e uns bigodes e uns cabelos pretos, tratados com especial
carinho de manhã e à tarde, ele tinha a insignificante boniteza
dos homens, tanto do agrado das nossas mulheres. Era um namorador temível.
No seu quarto, além da mesa e alguns volumes com que preparava
as arengas revolucionárias, tinha uma cama-de-vento, nua e órfã
de lençóis e travesseiros com fronhas, uma grande mala cheia
de camisas, colarinhos, punhos, gravatas e perfumes. Ganhava noventa mil-réis
no Centro dos Varredores, gastava vinte e cinco no quarto e o que sobrava
era mais para as coisas de toillette do que para a sua alimentação.
Freqüentava os lugares elegantes, ou tidos como tal, e uma noite
levou-me ao Parque Fluminense, onde encontrei o Agostinho Marques, o elegante
Agostinho, cheio de anéis e alfinetes, que não quis reconhecer.
Desde que nos demos a conhecer, isso havia perto de um mês, nunca
mais o tinha visto; ele, porém, chamou-me amigavelmente. Era o
solicitador do dr. Leitão Fróis, ganhava um conto e tanto
por mês e pretendia formar-se em direito precisando de mim, para
lhe explicar uns preparatórios. Disse-me isso no momento em que
Leiva se deixara absorver por uma dama elegante da nossa vizinhança.
Estávamos sentados a uma mesa do botequim, e servíamo-nos
de cerveja, a convite de Marques. Quando Leiva se voltou de sua preocupação
extra-revolucionária, Agostinho queixou-se dos calos:
- Não há sapateiro que preste no Rio de Janeiro... Mandei
fazer essas botinas no Martinelli, dei quarenta e cinco mil-réis
e é esta desgraça! Apertam-me como diabo...
O Abelardo tinha opinião um pouco diferente sobre os sapateiros
da cidade. Antigamente, mandava fazer as botinas de encomenda; ultimamente,
porém, comprava-as feitas. Eram estrangeiras e melhores...
- Mas o Martinelli, "seu" Abelardo! objetou semi-indignado o
solicitador. O cabedal, os aviamentos, tudo vem da Europa; só são
cortadas e montadas aqui...
- Ora, continuava Leiva, eu já tive botinas dele e sei tudo isso;
mas não vale a pena, é um engano... Olhe, o Sr. dá
trinta e cinco mil-réis por uma Walk-Over ou Clark e fica mais
bem servido do que com ele. E são bonitas... Veja!
Mostrou o pé e durante minutos os dois estiveram a debater-se,
procurando toda a sorte de argumentos para defenderem as suas firmes opiniões
sobre a distinção, a comodidade do calçado comprado
feito e mandado fazer de encomenda.
Agostinho Marques, "solicitador nos auditórios desta Capital",
chegou a empregar argumentos de natureza jurídica; Abelardo Leiva,
apóstolo do socialismo revolucionário, inimigo da execrável
burguesia, procurou justificativa nos elegantes do mundo chic parisiense.
A minha reserva só os fazia prolongar a discussão; estavam
diante de um juiz, a quem expunham as suas razões com delicadeza
e urbanidade.
- Lá vai o Raul Gusmão, exclamou Marques.
Voltei-me um pouco. Era de fato ele de braço com o Oliveira. Vestia
um grande fraque de xadrez; tinha botinas de verniz com os canos de pano
e marchava conversando com o companheiro, apertando os olhos e procurando
os mais surpreendentes gestos que lhe viessem aumentar a reputação
jornalística.
- É um rapaz de talento, disse Marques.
O carroussel moía uma música banal, preguiçosa e
irritante. Leiva esteve pensando um instante e disse:
- É, e parece que faz prosperar o seu talento com práticas
suspeitas.
- É verdade o que se diz por aí dele? indagou a meia voz
o solicitador.
- Não sei, nunca vi, mas, no domingo, nós... - não
foi Caminha?
Fiz um sinal afirmativo e o meu amigo continuou:
- ...no domingo vimo-lo entrar numa hospedaria da rua da Alfândega
com um fuzileiro naval.
- Que coisa! Mas será verdade?
- Qual, disse Leiva, não creio. Ele faz constar isso e faz suspeitar,
para se ter em melhor conta o seu talento. O público quer que o
seu talento artístico tenha um pouco de vício; aos seus
olhos, isso o aumenta extraordinariamente, dá-lhe mais valor e
faz com que o escritor ganhe mais dinheiro.
- Como é então que entrou na hospedaria? indagou Marques.
- Tinha-nos visto e, mediante uma gorjeta, obrigou o soldado a prestar-se
ao papel... Aquilo é o gênio do réclame...
Em torno de nós, sob a chuva miúda do vapor condensado do
motor de iluminação, grupos de passeantes moviam-se de um
lado para outro, isocronamente, lenta, tristemente, como se obedecessem
a uma lei inflexível a cujo império não se pudessem
furtar. Só o Carnaval tira essa triste gravidade aos nossos passeios.
Os rapazes excedem-se, saem fora da bitola, e as moças e as senhoras
abandonam-se aos impulsos do temperamento. Lembro-me que em um dos últimos
carnavais a que assisti, às oito e meia da noite, vi duas moças
afastarem-se um pouco para o interior da Gazeta de Notícias, donde
assistiam à passagem de cordões, e lá dentro requebrarem
lascivamente com as exigências que um "maxixe" tocado
por uma banda de música a passar pedia. Fora do carnaval sempre
senti essa mesma tristeza nos nossos passeios públicos, tendo presente
sempre a tirania doméstica e a preocupação do dia
seguinte.
Os dois continuavam a conversar, quando voltei a ouvi-los. Tinham passado
imprevistamente para a reforma social que Leiva anunciava. Agostinho,
que se sentia chegar a homem rico e considerado, fazia imensos esforços
para contestar as doutrinas subversivas de Leiva:
- Mas o sr. o que quer é desordem, é anarquia, é
extinção da ordem social...
E Leiva sorria um instante, satisfeito que ele viesse ao encontro da sua
resposta querida.
- Mas é isso mesmo, não quero outra coisa! Pois o senhor
acha justo que esses senhores gordos, que andam por aí, gastem
numa hora com as mulheres, com as filhas e com as amantes, o que bastava
para fazer viver famílias inteiras? O sr. não vê que
a pátria não é mais do que a exploração
de uma minoria, ligada entre si, estreitamente ligada, em virtude dessa
mesma exploração, e que domina fazendo crer à massa
que trabalha para a felicidade dela? O público ainda não
entrou nos mistérios da religião da Pátria... Ah!
quando ele entrar!
Levado pelo calor da frase Leiva continuou a falar cheio de força,
entusiasmado: - Não há na natureza nada que se pareça
com a nossa sociedade governada pelo Estado... Observe o sr. que todas
as sociedades animais se governam por leis para as quais elas não
colaboraram, são como preexistentes a elas, independentes de sua
vontade; e só nós inventamos esse absurdo de fazer leis
para nós mesmos - leis que, em última análise, não
são mais que a expressão da vontade, dos caprichos, dos
interesses de uma minoria insignificante... No nosso corpo há uma
multidão de organismos, todos eles interdependem, mas vivem autonomamente
sem serem propriamente governados por nenhum, e o equilíbrio se
faz por isso mesmo... O sistema solar... Na natureza, todo o equilíbrio
se obtém pela ação livre de cada uma das forças
particulares...
Agostinho precisava arranjar uma objeção, mas o desconhecimento
das noções que Leiva punha em jogo estava completamente
fora da sua atividade mental. O apóstolo-poeta, sentindo a fraqueza
do adversário, exultou, e, deitando um olhar em torno, exclamou
vitoriosamente:
- Eu quero a confusão geral, para que a ordem natural surja triunfante
e vitoriosa!
Deitou um longo e terno olhar para a linda burguesa da vizinhança
e bebeu voluptuosamente um grande gole de cerveja. Eu creio que se a nova
era dependesse do seu braço, ele não deitaria a bomba para
não assustar as meninas bonitas e delicadas.
Foi Leiva o meu iniciador no Rio de Janeiro. Deu-me relações,
ensinou-me as maneiras, o calão da boêmia, levou-me aos lugares
curiosos e consagrados. Com ele fui ao Apostolado Positivista ouvir o
Sr. Teixeira Mendes. Um grande matemático, disse-me; a primeira
cabeça do Brasil, uma inteligência enciclopédica,
uma erudição segura, e, sobretudo, um caráter e um
coração!
Um domingo, em que havíamos saído do Apostolado, vínhamos
descendo pachorrentamente o cais da Glória.
Leiva viera pela rua de Benjamin Constant abaixo gabando a eloqüência
do venerável Sr. Mendes, a sua virtude, a sua sobriedade e contara-me
por alto a surra que ele dera no Bertrand, da Academia Francesa, em assunto
de matemática. Eu ouvia-o sem coragem de contestar, embora não
compartilhasse as suas crenças. Não era a primeira vez que
ia ao Apostolado, mas quando via o vice-diretor sair rapidamente por detrás
de um retábulo, na absida da capela, ao som de um tímpano
rouco, arrepanhando a batina, com aquele laço verde no braço,
dava-me vontade de rir às gargalhadas. Demais, ficava assombrado
com a firmeza com que ele anunciava a felicidade contida no positivismo
e a simplicidade dos meios necessários para a sua vitória:
bastava tal medida, bastava essa outra - e todo aquele rígido sistema
de regras, abrangendo todas as manifestações da vida coletiva
e individual, passaria a governar, a modificar costumes, hábitos
e tradições. Explicava o catecismo. Abria o livro, lia um
trecho e procurava o caminho por alusões a questões atuais,
repetindo fórmulas para se obter um bom governo que tendesse a
preparar a era normal - o advento final da Religião da Humanidade.
E eu achava toda aquela dissertação tão intelectual,
tão balda de comunicação, tão incapaz de erguer
dentro de mim o devotamento, o altruísmo, "o esforço
sobre mim mesmo em favor dos outros", como dizia o apóstolo,
que me quedava a indagar até que ponto o auditório respeitoso
estava convencido e até que ponto fingia convicção.
Havia trechos em que ele insistia com particular agrado. Via-se que neles
repousava a conversão dos espíritos. Não me esqueci
que ele amava repetir que a física, a química, a biologia,
a sociologia, todas as ciências e todo o esforço humano de
qualquer ordem tinham preparado lentamente e tendiam para a religião
da humanidade; era ela como a coroação, a cúpula
do edifício do pensamento e dos grandes sentimentos da humanidade.
Citava trechos de grandes poetas nesse sentido, e procurava dados históricos.
Quando se oferecia ocasião, esboçava a ordem futura, cotejando-a
com a presente. O médico, o professor e o sacerdote estariam juntos
em um mesmo homem, cujos serviços seriam gratuitos: todos exerceriam
um ofício manual e os capitais acumulados em poucas mãos,
seriam empregados em benefício social. A quantas necessidades presentes
daquele auditório não iria dar remédio a promessa
daquela sociedade a vir?! Os homens têm amor à utopia quando
condensada em fórmulas de felicidade; e aqueles militares, funcionários,
estudantes, encontravam naquelas afirmações, repetidas com
tanta segurança e cuja verdade não procuravam examinar,
um alimento para a forma de felicidade da espécie e um consolo
para os seus maus dias presentes.
Pelo caminho, ouvi repetirem as palavras do Mestre e apoiarem-se nelas
para criticar atos do Governo, projetos da Câmara - esse viveiro
de bacharéis ignorantes que não sabem matemática.
Observei que o meu próprio amigo Leiva partia também dessa
crença pitagórica das virtudes da matemática para
condenar e criticar o Governo e os governantes; entretanto, além
daquelas explicações filosóficas do sr. Teixeira
Mendes, ele sabia pouco mais das quatro operações na ciência
divina.
- Vê tu, dizia-me ele, quem no Brasil tem conhecimentos mais seguros
que o T. Mendes? E acrescentava logo: como se pode acreditar que, na nossa
época científico-industrial, um homem que não conhece
como se fabricam os encanamentos d'água, as propriedades do ferro
e o seu tratamento industrial, as teorias hidráulicas, saberá
aquilatar e dirigir as necessidades de uma cidade moderna, cuja primeira
necessidade é um seguro e farto abastecimento d'água?
Leiva gostava de falar; e, quando a matéria lhe agradava, o cansaço
dificilmente vinha. Eu amava ouvi-lo, pois tinha uma bela voz, acariciante
e de agradável timbre, e que vibrava musicalmente ao chegar-lhe
a paixão. Continuou:
- Antigamente, todos os governantes tinham, ou antes, estavam a par do
saber de seu tempo, e só com a necessidade do estabelecimento de
novas ciências - o que fez a especialização dos conhecimentos
- deixaram tão salutar regra. Hoje, porém, graças
ao sobre-humano cérebro de Comte - o maior talvez depois de Aristóteles
- o saber voltou à unidade útil e moral dos outros tempos.
A síntese foi feita e os estadistas verdadeiramente dignos, servidores
práticos da Humanidade, poderão encontrar nela um seguro
farol para guiá-los.
Não me animei a perguntar-lhe se a síntese de que falava
continha também a questão do abastecimento d'água.
Senti a sinceridade momentânea de suas palavras, ditas até
com certo entusiasmo; e quando alguém me fala desse modo, encho-me
de respeito e de amizade. Vínhamos descendo a rua e assim continuamos
um instante calados. Houve uma ocasião, que, quase sem refletir,
perguntei ao Leiva:
- Como você é ao mesmo tempo anarquista e positivista - uma
doutrina de ordem, de submissão, que espera a vitória pelo
resultado fatal das leis sociológicas?
- Ora você? Eu quero uma confusão geral, um abalo completo
desta ordem iníqua, para então... O Mendes é simples,
é bom, pensa que isso vai como ele quer; mas é preciso...
Olhe, o Cristianismo...
Olhei um instante a seda azul do mar levemente enrugada e sorvi um pouco
da vibração que soprava da barra; depois perdemo-la de vista
e a vibração deixou de açoitar-nos com força
e fomos descendo a rua da Lapa, transitada, ladeada de sobrados, donde
pendiam mulheres públicas em peignoir, como descoradas orquídeas
de milionário europeu, cujo brilho natural o ambiente de estufa
lhes tirou ou não soube dar. Nós olhamo-las com um pouco
da nossa mocidade e com um pouco das preocupações que trazíamos;
e caminhamos para o Passeio Público, onde íamos esquecer
que não jantávamos, olhando a turba resignada que aproveitava
o domingo.
Uma banda de música enchia o jardim com os seus estridentes compassos.
Nas proximidades do coreto, Leiva encontrara um conhecido com quem ficara
a conversar. Eu não me detive; avancei vagarosamente para o terraço
que deita para o mar. O meu companheiro veio ter comigo meia hora depois
e vinha acompanhado de outro rapaz. Apresentou-nos. Um instante, contemplei
a angustiada cabeça do desconhecido, o seu ar orgulhoso e todo
ele esguio e alto, ligeiramente curvado como um teimoso caniço
que não se pôde erguer completamente depois das muitas tempestades
que suportou.
- O Plínio, Caminha, disse Leiva, vinha-me contando o seguinte:
há dias, o Florêncio - conheces? Fiz sinal que não
e ele insistiu: o Florêncio que redige a seção do
Jornal do Rio - conheces, não é? Pois bem; o Florêncio
entrou na Garnier e pôs-se a ler um livro. De quando em quando mudava
de lugar, aproximando-se da porta. Assim leva hora e tanto. Ele, porém,
não tinha reparado que os empregados vigiavam-no. Num dado momento,
meteu a brochura debaixo do paletó e encaminhou-se para a porta.
Os caixeiros cortaram-lhe os passos, intimidando-o a entregar a obra.
Florêncio ataranta-se, prontifica-se a pagar, do dinheiro cai e...
- Pagou? perguntei.
- Pagou sim, apressou-se em responder Plínio de Andrade; mas um
dos empregados disse-lhe insolentemente: Você paga este sobre a
Grécia, que queria levar agora e também o romance francês
que levou anteontem... A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo
que, se o Barba-Roxa ressuscitasse, agora com os nossos velozes cruzadores
e formidáveis couraçados, só poderia dar plena expansão
à sua atividade se se fizesse jornalista. Nada há tão
parecido como o pirata antigo e o jornalista moderno: a mesma fraqueza
de meios, servida por uma coragem de salteador; conhecimentos elementares
do instrumento de que lançam mão e um olhar seguro, uma
adivinhação, um faro para achar a presa e uma insensibilidade,
uma ausência de senso moral a toda a prova... E assim dominam tudo,
aterram, fazem que todas as manifestações de nossa vida
coletiva dependam do assentimento e da sua aprovação...
Todos nós temos que nos submeter a eles, adulá-los, chamá-los
gênios, embora intimamente os sintamos ignorantes, parvos, imorais
e bestas... Só se é geômetra com o seu placet, só
se é calista com a sua confirmação e se o Sol nasce
é porque eles afirmam tal coisa... E como eles aproveitam esse
poder que lhes dá a fatal estupidez das multidões! Fazem
de imbecis gênios, de gênios imbecis; trabalham para a seleção
das mediocridades, de modo que...
- Você exagera, objetou Leiva. O jornal já prestou serviços.
- Decerto... não nego... mas quando era manifestação
individual, quando não era coisa que desse lucro; hoje, é
a mais tirânica manifestação do capitalismo e a mais
terrível também... É um poder vago, sutil, impessoal,
que só poucas inteligências podem colher-lhe força
e a ausência da mais elementar moralidade, dos mais rudimentares
sentimentos de justiça e honestidade! São grandes empresas,
propriedade de venturosos donos destinadas a lhes dar o mínimo
sobre as massas, em cuja linguagem falam, e a cuja inferioridade mental
vão ao encontro, conduzindo os governos, os caracteres para os
seus desejos inferiores... Não é fácil a um indivíduo
qualquer, pobre, cheio de grandes idéias, fundar um que os combata...
Há necessidade de dinheiro; são preciosos, portanto, capitalistas
que saibam bem o que se deve fazer num jornal... Vocês vejam: antigamente,
entre nós, o jornal era de Ferreira de Araújo, de José
do Patrocínio, de Fulano, de Beltrano... Hoje de quem são?
A Gazeta é do Gaffrée, o País é do Visconde
de Morais e assim por diante. E por detrás dela estão os
estrangeiros, inimigos nossos naturalmente, indiferentes às nossas
aspirações...
Andrade acabou de falar e tirou o chapéu um instante. Vi-lhe o
cabelo crespo, lanudo e revolto e toda a sua grande cabeça angustiada
e inteligente assomou aos meus olhos com uma grande expressão de
rebeldia. Coado através das árvores, um jato de luz veio
bater-lhe em cheio e ela mais bela me apareceu quando inundada por aquela
luz de ouro. Sentando-se, o seu ar já era outro, manso, passivo,
e a sua voz, antes tão enérgica, passou a ser macia, preguiçosa
e tomou um ar distraído até despedir-se. Nós fomos
jantar com o dinheiro que ele deu ao Leiva e soube por este alguma coisa
da sua vida passada. Fora estudante de medicina na Bahia, e freqüentava
o segundo ano quando um estudante mais antigo lhe dissera: "Apanha
isto aí, 'seu' calouro!" Andrade olhou-o devagar e virou-lhe
as costas. O veterano exacerbou-se com o olhar, quis obrigá-lo
a obedecer, empregando a força; e, como fosse mais forte, Plínio
bruscamente apanha de cima da mesa de um guarda uma raspadeira, crava-a
várias vezes no colega e mata-o. Atualmente, vivia ensinando História
Natural nos colégios e publicando panfletos em que a sua irritação
lhe congestionava a frase indignada. Era odiado e gostava de sê-lo.
Esse domingo foi um dos últimos que passei com relativa satisfação.
Invadia-me uma indiferença, uma atonia, que me fazia viver sem
me decidir a tentar o menor passo para sair da situação
em que me achava. Media as dificuldades, os óbices, os tropeços,
achava-os iníquos mas superiores às minhas forças.
Abandonara-me à miséria que a proteção de
Agostinho Marques impedia que chegasse a ser declarada. Fizera-me seu
professor e secretário; mas era difícil dar-me o ordenado
que me tinha marcado. Fazia-lhe requerimentos, cartas de amor, ensinava-lhe
os prolegômenos de alguns preparatórios; mas a sua pobreza
intelectual e a sua malandragem resistiam particularmente à entrada
na sua cabeça da menor noção. Nunca chegou a compreender
os teoremas de divisibilidade e a sua memória não guardava
as regras do plural francês. Aos poucos, desistiu da lição
e diminuiu-me o ordenado, que era anteriormente de quarenta mil-réis,
dados aos bocados. Entretanto, cada dia se apurava mais no trajar, fazia
amigos entre a gente importante, cercava-os, tinha um cumprimento e um
sorriso para cada um.
Num dia de abandono em que lhe cheguei de manhã a casa, pedindo-lhe
dez tostões, contou-me que estivera na véspera numa grande
"esbórnia". Tinham sido seus companheiros o deputado
S., leader do Governo, e o doutor H.; o primeiro foi mais tarde Ministro
e o segundo ainda é desembargador da Corte de Apelação.
Marques preferia que eu lhe pedisse dinheiro a experimentar o seu prestígio
junto aos seus poderosos amigos, solicitando uma colocação
para mim. Uma vez que lhe falei a respeito, esforçou-se por me
mostrar que era impossível enquanto os seus amigos estivessem por
baixo. Enquanto ele esteve no Rio, deu-me roupas; tive com que pagar o
quarto e dinheiro para comer com intervalo de quarenta e oito horas. Um
belo dia, porém, disse-me que ia para fora, para um estado do Norte,
tratar de negócios, demorando-se dois ou três meses. Foi
uma grande época de fome e sofrimentos na minha vida. Leiva era
incapaz do menor obséquio; nada lhe fazia retirar um tostão
dos seus perfumes e das suas roupas. Vendi as melhores roupas que tinha,
tudo que tinha valor vendi, e, quando nada mais tinha que vender, passei
dias inteiros sem tomar café. Lá chegava uma ocasião
que alguém, um quase desconhecido, uma fisionomia encontrada momentaneamente,
me convidava a tomar café ou a jantar; e se não fossem eles,
eu talvez tivesse morrido de inanição ou furtado bolos às
confeitarias. Esperava resposta de uma carta minha que não tardou
a vir. Recebi-a na "Posta-Restante" e, encostado a uma coluna,
pus-me a lê-la. Tio Valentim dizia-me que lá atravessavam
uma grande crise. Minha mãe estava de cama, muito mal, desenganada...
Não continuei a leitura; deixei cair a mão ao longo do corpo
e estive a olhar a rua, sem ver coisa alguma. Morria minha mãe!
E via-a logo morta, muito magra, os círios, o crucifixo, o choro...
Passou-me pelos olhos a sua triste vida, humilde e humilhada, sempre atirada
a um canto como um móvel velho, sem alegria, sem fortuna, sem amizade
e sem amor...
Durante aqueles meses de ausência, eu pouco me detive na sua recordação;
mas agora elas eram freqüentes e a sua figura flutuava a meus olhos:
magra, esquálida, com o corpo premido pelos trabalhos e tendo pelas
faces aquelas manchas que pareciam de fumaça entranhada... Eu quis
envolver essa recordação com o que havia em mim de mais
terno e também as outras que me vieram: a volta do colégio,
o abraço que eu lhe dava; a minha doença, como ela me dava
remédios... E tudo vinha com pressa do fundo de mim mesmo, subia
uma recordação que expulsava outra; por fim, tudo se baralhou,
tornou-se confuso e os meus olhos se orvalharam de pranto.
- Oh! Caminha! Onde tens andado? Que tens, rapaz?
Era Gregoróvitch Rostóloff. Falei, contei-lhe a vida. Os
seus olhos de conta mais se arredondaram de desconfiança; mas,
depois de duas ou três perguntas, de examinar-me o vestuário
e algumas palavras de consolo, ao despedir-se, assim me convidou:
- Aparece-me logo, à noitinha, na redação do O Globo.
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