Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO XCVIII
RUBIÃO
sentou-se na cama estremunhado, não reparou na letra de sobrescrito;
abriu o bilhete, e leu
Ficamos ontem
muito inquietos, depois que o senhor saiu. Cristiano não
vai lá agora, porque acordou tarde, e tem de ir ao inspetor
da alfândega. Mande-nos dizer se passou melhor. Lembranças
de Maria Benedita e da
Sua amiga e
obrigada
SOFIA.
-Diga ao portador
que espere.
Daí
a vinte minutos a resposta chegou à mão do moleque
que trouxera o bilhete; foi o próprio Rubião que lha
entregou, perguntando-lhe como tinham passado as senhoras. Soube
que bem; deu-lhe dez tostões, recomendando-lhe que, quando
precisasse algum dinheiro, viesse procurá-lo. O rapaz, espantado,
arregalou os olhos e prometeu tudo.
-Adeus! disse-lhe
benevolamente o Rubião.
E ficou parado,
enquanto o portador descia os pousos degraus. Indo este a meio do
jardim, ouviu bradar
-Espera!
Voltou para
acudir ao chamado; Rubião já tinha descido os degraus;
foram um ao outro, e pararam, calados. Correram dous minutos, sem
que Rubião abrisse a boca. Afinal, perguntou alguma cousa,-se
as senhoras tinham passado bem. Era a mesma pergunta de há
pouso; o criado confirmou a resposta. Depois, Rubião deixou
vagar os olhos pelo jardim. As rosas e as margaridas estavam lindas
e frescas, alguns cravos desabrochavam, outras flores e folhagens,
begônias e trepadeiras, todo esse pequeno mundo parecia estender
os olhos invisíveis ao Rubião, e bradar-lhe
-Alma sem vigor,
acaba de uma vez com o teu desejo; colhe-nos, manda-nos...
-Bem, disse
finalmente Rubião lembranças às senhoras. Não
se esqueça do que lhe disse; precisando de mim, venha cá.
Guardou a carta?
-Está
aqui, sim, senhor.
-É melhor
metê-la no bolso, mas olhe não machuque.
-Não
machuco, não, senhor, retorquiu o criado acomodando a carta.
CAPÍTULO
XCIX
SAIU O MOLEQUE;
Rubião ficou passeando no jardim, com as mãos nos
bolsos do chambre, e os olhos nas flores. Que tinha que mandasse
algumas? Era um presente natural, e até de obrigação
para pagar uma cortesia com outra. Fez mal; correu ao portão,
mas já o moleque ia longe; Rubião advertiu que o luto
excluía as lembranças alegres, e ficou tranqüilo.
Senão
quando, ao recomeçar o passeio, viu uma carta ao pé
de um canteiro. Inclinou-se, apanhou-a, leu o sobrescrito... A letra
era dela, tão-só dela; comparou-a com a do bilhete
que recebera; era a mesma. O nome era o do diaboCarlos Maria.
"Sim,
foi isso, pensou ele ao cabo de alguns minutos, o portador da minha
carta trouxe esta, e deixou-a cair."
E, mirando
a carta, de um e outro lado, perguntava-lhe pelo conteúdo.
Oh! o conteúdo! Que iria ali escrito dentro daquele papel
homicida? Perversidade, luxúria, toda a linguagem do mal
e da demência, resumidas em duas ou três linhas. Ergueu-a
ante os olhos, para ver se podia ler alguma palavra; o papel era
grosso; não se podia ler nada. Ao lembrar-se que o portador,
dando por falta da carta, soltaria a procurá-la, meteu-a
atrapalhadamente no bolso, e correu para dentro.
Em casa, tirou-a
e mirou-a outra vez; as mãos hesitavam, reproduzindo o estado
da consciência. Se abrisse a carta, saberia tudo. Lida e queimada,
ninguém mais conheceria o texto, ao passo que ele teria acabado
por uma vez com essa terrível fascinação que
o fazia penar ao pé daquele abismo de opróbrios. .
. Não sou eu que o digo, é ele; ele é que junta
esse e outros nomes ruins, ele o que pára no meio da sala,
com os olhos no tapete, em cuja trama figura um turco indolente,
cachimbo na boca, olhando para o Bósforo...Devia ser o Bósforo.
- Infernal
carta! rosnou surdamente, repetindo uma frase ouvida no teatro,
semanas antes; frase esquecida, que vinha agora exprimir a analogia
moral do espetáculo e do espectador.
Teve ímpetos
de abri-la; era só um gesto, um ato, ninguém o via
os quadros da parede estavam quietos, indiferentes, o turco do tapete
continuava a fumar e a olhar para o Bósforo. Contudo, sentia
escrúpulos; a carta, posto que achada no jardim, não
lhe pertencia, mas ao outro. Era como se fosse um embrulho de dinheiro;
não devolveria o dinheiro ao dono? Despeitado, meteu-a outra
vez no bolso Entre mandar a carta ao destinatário e entregá-la
a Sofia, adotou afinal o segundo alvitre; tinha a vantagem de poder
ler a verdade nas feições da própria autora.
"Digo-lhe
que achei uma carta, assim e assim, pensou Rubião e antes
de lhe dar a carta, vejo bem na cara dela, se fica aterrada ou não.
Talvez empalideça; então ameaço-a, falo-lhe
da Rua da Harmonia; juro-lhe que estou disposto a gastar trezentos,
oitocentos, mil contos, dous mil, trinta mil contos, se tanto for
preciso para estrangular o infame..."
CAPÍTULO
C
NENHUM DOS
HABITUADOS da casa compareceu ao almoço. Rubião esperou
ainda uns dez minutos, chegou a mandar um criado ao portão,
a ver se vinha alguém. Ninguém; teve de almoçar
sozinho. Em geral, não podia suportar as refeições
solitárias, estava tão afeito à linguagem dos
amigos, às observações, às graças,
não menos que aos respeitos e considerações,
que comer só era o mesmo que não comer nada. Agora,
porém, era como um Saul que precisasse de algum Davi, para
expelir o espírito maligno que se metera nele.
Já queria
mal ao portador da carta, porque a deixara cair; ignorarera um benefício.
E depois, a consciência vacilava,-ia da entrega da carta à
recusa e à guarda indefinida. Rubião tinha medo de
saber ora queria, ora não queria ler nada no rosto de Sofia.
O desejo de saber tudo era, em resumo, a esperança de descobrir
que não havia nada.
Davi apareceu
enfim, entre o queijo e o café, na pessoa do Dr. Camacho,
que voltara de Vassouras, na véspera, à noite.
Como o Davi
da Escritura, trazia um jumento carregado de pães, um cântaro
de vinho e uni cabrito. Deixara gravemente enfermo um deputado que
estava em Vassouras e preparou a candidatura do Rubião, escrevendo
às influências de Minas. Foi o que Ihe disse aos primeiros
golos de café.
-Candidato,
eu?
-Pois então
quem?
Camacho demonstrou
que não podia haver melhor. Tinha serviços em Minas,
não tinha?
-Alguns.
-Aqui os tem
de grande relevância. Mantendo comigo o órgão
dos princípios, tem recebido solidariamente os golpes que
me dão, além dos sacrifícios que todos fazemos
pelo lado pecuniário. Sobre isto, não me diga nada.
Digo-lhe que hei de fazer o que puder. Demais, o senhor é
a melhor solução da divergência.
-Divergência?
-Sim, o Dr.
Hermenegildo, de Catas-Altas, e o Coronel Romualdo; dizem que ambos,
em caso de vaga, querem apresentar-se; é dividir os votos...
-Seguramente;
mas teimam?
-Creio que
não teimarão, quando eu lhes mandar daqui confir-mação
dos chefes, porque foi uma das cousas que me lançaram à
cara, é que eu não tinha poderes; confessei que, para
aquele caso imprevisto, não; mas que possuía a confiança
dos chefes, os quais me aprovariam. Creia que está feito.
Então que pensa? Pensa que trabalho aqui sacrificando tempo
e dinheiro, e algum talento, para não valer a um amigo, que
tantas provas tem dado de fidelidade aos princípios? Oh!
isso não. Hão de ouvir-me, e adotar o que lhes pro-ponho.
Rubião,
comovido, fez ainda outras perguntas acerca da luta e da vitória,
se eram precisas despesas já, ou carta de recomendação
e pedido, e como é que se havia de ter notícia freqüente
do enfermo, etc. Camacho respondia a tudo; mas recomendava-lhe cautela.
Em política, disse ele, uma cousa de nada desvia o curso
da campanha e dá a vitória ao adversário. Contudo,
ainda que não saísse vencedor, tinha Rubião
a vantagem de ficar com o seu nome sufragado; e o precedente contava-se
por um serviço.
-Firmeza e
paciência, concluiu.
E logo em seguida
-Eu próprio
que sou, senão um exemplo de paciência e firmeza? A
minha província está entregue a um grupo de bandidos;
não há outro nome para a gente dos Pinheiros; e além
disso (digo-lhe isto com dor e em particular) tenho amigos que me
intrigam, uns ganhadores, que querem ver se o partido me repele
e se me tomam o lugar. . . Uns biltres! Ah! meu caro Rubião,
isto de política pode ser comparado à paixão
de Nosso Senhor Jesus Cristo; não falta nada, nem o discípulo
que nega, nem o discípulo que vende. Coroa de espinhos, bofetadas,
madeiro, e afinal morre-se na cruz das idéias, pregado pelos
cravos da inveja, da calúnia e da ingratidão. . .
Esta frase,
caída no calor da conversa, pareceu-lhe digna de um artigo-
reteve-a de memória; antes de dormir, escreveu-a em uma tira
de papel. Mas, na ocasião da conversa, enquanto a repetia
con-sigo para fixá-la, Rubião dizia que se animasse,
que ele era homem para grandes campanhas. E não fugisse de
caretas.
-De caretas?
Seguramente que não. Nem de papões verdadeiros, se
os há. Cá os espero! Que se acautelem no dia em que
subirmos! Hão de pagar tudo. Ouça-me este conselhoem
política, não se per doa nem se esquece nada. Quem
fez uma, paga; creia que a vingança é um prazer, continuou
sorrindo- há muita delícia. .. Enfim, conta dos os
males e os bens da política, os bens ainda são superiores.
Há ingratos, mas os ingratos demitem-se, prendem-se, perseguem-se
Rubião
ouvia subjugado. Camacho impunha; faiscavam-lhe os olhos. Os anátemas
brotavam-lhe como da boca de Isaías, as palmas do triunfo
verdejavam-lhe nas mãos. Cada gesto parecia um princípios.
Quando abria os braços, ferindo o ar, era como se desdobrasse
um programa inteiro. Ia-se embriagando de esperanças, e tinha
o vinho alegre. De uma vez, parou diante de Rubião
-Vamos lá,
deputado; ensaie um discurso, pedindo o encerra mento da discussãoSr.
Presidente... Vamos, diga comigoSr. Presidente... peço a
V. Ex.a...
Rubião
interrompeu-o, erguendo-se; teve uma espécie de vertigem.
Via-se na Câmara, entrando para prestar juramento, todos os
deputados de pé; e teve um calafrio. O passo era difícil.
Contudo, atravessou a sala, subiu à mesa da presidência,
prestou o juramento de estilo... Talvez a voz lhe fraqueasse na
ocasião...
CAPÍTULO CI
FOI NESSE ESTADO que o veio achar a notícia da morte do Freitas
Chorou uma lágrima às escondidas; tomou a si custear
as despesas do enterro, e acompanhou o defunto, na tarde seguinte,
ao cemitério A velha mãe do finado, quando o viu entrar
na sala, quis ajoelhar-se aos pés dele; Rubião abraçou-a
a tempo de impedir-lhe o gesto. Esse ato do nosso amigo fez grande
impressão nos convidados. Um deles veio apertar-lhe a mão;
depois a um canto, baixinho, contou-lhe a injustiça da demissão
que recebera, dias antes; demissão acintosa, por causa de
intrigas...
-Imagine V.
Ex.a que aquilo é (com perdão da palavra) um covil
de patifes...
Chegou a hora
de sair o enterro; as despedidas da mãe foram dolorosas;
beijos, soluços, exclamações, tudo de mistura,
e lancinante. As mulheres não conseguiram arrancá-la
dali- foram precisos dous homens e o emprego de força; ela
gritava e teimava por tornar ao cadávermeu filho! meu pobre
filho!
-Um escândalo!
insistia o demitido. O próprio ministro dizem que não
gostou do ato; mas V. Ex.a sabe, para não desmoralizar o
diretor . . .
-Pan... pan...
pan... soavam os martelos surdamente, pregando o caixão.
Rubião
acedeu ao pedido que lhe faziam de pegar em uma das argolas, e deixou
o demitido. Fora, alguma gente parada; os vizinhos, às janelas,
debruçavam-se uns sobre os outros, com os olhos cheios daquela
curiosidade que a morte inspira aos vivos. Ao demais, havia o coupé
do Rubião, que se destacava das caleças velhas Já
se falava muito daquele amigo do finado, e a presença confirmou
a notícia. O defunto era agora apreciado com certa consideração.
No cemitério,
não se contentou Rubião com deitar a pá de
terra, ato em que foi primeiro, por solicitação de
todos- esperou que os coveiros enchessem a cova com as suas grandes
pás do ofício. Tinha os olhos úmidos; acabou,
saiu, ladeado pelos outros, e, à porta, com uma só
chapelada para a direita e para a esquerda, saudou a todas as cabeças
descobertas e curvas. Ao entrar no coupé, ainda ouviu estas
palavras, a meia voz
-Parece que
é senador ou desembargador, ou cousa assim...
CAPÍTULO CII
ERA NOITE entrada. Rubião vinha por ali abaixo, recordando
o pobre-diabo que enterrara, quando, na Rua de S. Cristóvão,
cruzou com outro coupé, que levava duas ordenanças
atrás. Era um ministro que ia para o despacho imperial. Rubião
pôs a cabeça de fora, recolheu-a e ficou a ouvir os
cavalos das ordenanças, tão iguaizinhos, tão
distintos, apesar do estrépito dos outros animais. Era tal
a tensão do espírito do nosso amigo, que ainda os
ouvia, quando já a distância não permitia audiência.
Catrapus... catrapus... catrapus...
CAPÍTULO CIII
AO SÉTIMO DIA da morte de D. Maria Augusta, rezou-se a missa
de uso, em São Francisco de Paula; Rubião lá
foi, lá viu Carlos Maria. Tanto bastou para precipitar a
devolução da carta; três dias depois, meteu-a
no bolso e correu ao Flamengo. Eram duas horas da tarde. Maria Benedita
fora visitar as amigas da vizinhança, que a tinham acompanhando
nos primeiros dias de aflição; Sofia estava só,
vestida para sair.
-Mas, não
importa, disse ela convidando-o a sentar-se; fico ou saio mais tarde.
Rubião
retorquiu que a demora era curta; vinha dar-lhe um papel.
-Em todo caso,
sente-se; também se pode dar um papel sentado.
Estava tão
bonita, que ele hesitou em dizer-lhe as palavras duras que trazia
de cor. O luto ia-lhe muito bem, e o vestido parecia uma luva. Sentada,
via-se-lhe metade do pé, sapato raso, meia de seda cousas
todas que pediam misericórdia e perdão. Quanto à
espada daquela bainha,-assim chama à alma um velho autor,-parecia
não ter gume nem campanhas; era uma ingênua faca de
marfim. Rubião esteve a pique de fraquear; a primeira palavra
arrastou as outras.
-Que papel?
perguntou Sofia.
-Um papel que
suponho grave, respondeu ele contendo-se;- não se recorda
ou não sabe que perdeu uma carta?
-Não.
-Costuma escrever
cartas?
-Tenho escrito
algumas; mas, não me lembra se grave. Deixe ver.
Rubião
tinha os olhos desvairados. Não disse nem fez nada. Levan-tou-se
para sair, não saiu. Depois de alguns instantes de silêncio
e inquietação, continuou sem raiva
-Não
é segredo para a senhora que lhe quero bem. A senhora sabe
disto, e não me despede, nem me aceita, anima-me com os seus
bonitos modos. Não me esqueci ainda de Santa Teresa, nem
da nossa viagem no trem de ferro, quando vínhamos os dous
com seu marido no meio. Lembra-se? Foi a minha desgraça aquela
viagem; desde aquele dia a senhora me prendeu. A senhora é
má tem gênio de cobra; que mal lhe fiz eu? Vá
que não goste de mim; mas, podia desenganar-me logo...
-Cale-se, vem
gente, interrompeu Sofia erguendo-se também olhando para
o lado da porta.
Não
vinha ninguém; entretanto, podiam ouvi-lo, porque a voz do
Rubião ia aquecendo e crescendo. Cresceu ainda mais. Já
não pleiteava esperanças; abria e despejava a alma.
-Não
me importa que ouçam, bradou ele; podem ouvir-me; agora digo
tudo, a senhora bota-me para fora e tudo acaba. Não, não
se pode fazer sofrer assim um homem.. .
-Cale-se, pelo
amor de Deus!
-Qual Deus!
Ouça-me o resto, porque eu estou disposto a na. guardar nada...
Desatinada,
receando deveras que algum criado ouvisse, Sofia levantou a mão
e tapou-lhe a boca. Ao contacto daquela epiderme querida, Rubião
perdeu a voz. Sofia retirou a mão, e dispôs-se a deixar
a sala; mas, chegando à porta, parou. Rubião caminhara
até à janela, para convalescer da explosão.
CAPÍTULO CIV
SOFIA, depois
de estar alguns segundos à escuta, tornou à sala,
e foi sentar-se com grande rumor de saias, na otomana de cetim azul,
compra de poucos dias. Rubião voltou-se, e deu com ela, abanando
repreensivamente a cabeça. Antes que ele falasse, Sofia pôs
o dedo na boca, pedindo-lhe silêncio; depois chamou com a
mão; Rubião e obedeceu.
-Sente-se naquela
cadeira, disse ela; e continuou, depois de o ver sentadoTenho razão
para zangar-me com o senhor; não faço, por que sei
que e bom, e estou que é sincero, arrependa-se do que me
disse, e tudo lhe será perdoado.
Sofia bateu
com o leque no lado direito do vestido para o abaixar e compor;
depois levantou os braços sacudindo as pulseiras de vidro
preto; finalmente, pousou-os sobre os joelhos, e, abrindo e fechando
as varetas do leque, aguardou a resposta. Ao contrário do
que esperava, Rubião abanou a cabeça negativamente.
-Não
tenho de que me arrepender, disse ele; e prefiro que me não
perdoe. A senhora ficará cá dentro, quer queira, quer
não; podia mentir, mas que é que rende a mentira?
A senhora é que não tem sido sincera comigo, porque
me tem enganado...
Sofia retesou
o busto.
- ...Não
se zangue; não desejo ofendê-la; mas, deixe-me dizer
que a senhora é que me tem enganado, e muito, e sem compaixão.
Que ame a seu marido, vá; perdoava-lhe; mas que...
- Mas quê?
repetiu ela espantada.
Rubião
meteu a mão no bolso, tirou a carta, e entregou-lha. Sofia,
ao ler o nome de Carlos Maria, ficou sem pinga de sangue; ele viu-lhe
a palidez. Dominando-se logo, perguntou o que era, que queria dizer
essa carta.
-A letra é
sua.
-É minha.
Mas que diria eu aqui dentro? continuou tranqüila. Quem lhe
deu isto?
Rubião
quis referir o achado; mas entendeu ter alcançado o bastante;
cortejou-a para sair.
-Perdão,
disse ela, abra o senhor mesmo a carta.
-Não
tenho mais nada a fazer aqui.
-Fique, abra
a carta, aqui a tem; leia tudo, dizia a moça pegando-lhe
na manga; mas, Rubião puxou violentamente o braço,
foi buscar o chapéu, e saiu. Sofia, com medo dos criados,
deixou-se ficar na sala.
CAPÍTULO
CV
TÃO
NERVOSA esteve durante os primeiros instantes, que não cuidou
da carta. Afinal, virou-a de um lado para outro, sem adivinhar o
conteúdo; mas, pouco a pouso, já senhora de si, lembrou-se
que devia ser a circular da comissão das Alagoas.
Rasgou a sobrecartaera
a circular. Como é que semelhante papel fora ter às
mãos dele? E donde lhe vinha a suspeita? De si mesmo ou de
fora? Correria algum boato? Foi ter com o criado que levara a circular
a Carlos Maria e perguntou-lhe se a entregara. Soube que não.
Quando o criado chegou à Rua dos Inválidos, não
achou o papel no bolso, e, com medo, não dissera nada à
ama.
Sofia tornou
à sala, disposta a não sair. Recolheu a carta e a
sobrecarta, para mostrá-las a Rubião, a fim de que
ele visse bem que não era nada; mas, provavelmente, suporia
a substituição do papel. Maldito homem! murmurou.
E começou a andar à toa.
Uma revoada
de memórias entrou na alma de Sofia. A imagem de Carlos Maria
veio postar-se ante ela, com os seus grandes olhos de espectro querido
e aborrecido. Sofia quis arredá-lo, mas não pôde;
ele acompanhava-a de um lado para outro, sem perder o tom esbelto
e másculo, sem o ar de riso sublime. Às vezes, via-o
inclinar-se, articulando as mesmas palavras de certa noite de baile,
que lhe custaram a ela horas de insônia, dias de esperança,
até que se perderam na irrealidade. Nunca Sofia compreendera
o malogro daquela aven-tura. O homem parecia querer-lhe deveras,
e ninguém o obrigava a declará-lo tão atrevidamente,
nem a passar-lhe pelas janelas, alta noite, segundo lhe ouviu. Recordou
ainda outros encontros, palavras furtadas, olhos cálidos
e compridos, e não chegava a entender que toda essa paixão
acabasse em nada. Provavelmente, não haveria nenhuma; puro
galanteio;-quando muito, um modo de apurar as suas forcas atrativas...
Natureza de pelintra, de cínico, de fútil.
Que lhe importava
o mistério? Era um sujeito fútil. Cresceu-lhe o nojo
e o desdém. Chegou a rir-se dele; podia encará-lo
sem remorsos. E foi andando por ali fora, vingando-se do bobo,-chamava-lhe
bobo,-e fitando no ar os olhos de imaculada. Em verdade, era ocupar-se
demais com tal assunto; começou a maldizer do Rubião
que evocara semelhante homem do esquecimento, por causa daquela
triste circular... Depois, tornou às primeiras lembranças,
às palavras de Carlos Maria. Se todos a achavam bela, por
que não o acharia ele, que lho disse? Talvez o tivesse a
seus pés, se não se houvesse mostrado tão agradecida,
tão rasteira...
De repente,
a criada, que estava na outra sala, ouvindo rumor de alguma cousa
que se quebrava, correu à de visitas, e viu a ama, sozinha,
de pé.
-Não
é nada, disse-lhe esta.
-Pareceu-me
que ouvi...
-Foi aquele
boneco que caiu; apanhe os cacos.
-O chinês!
exclamou a criada.
De feito, era
um mandarim de porcelana, pobre-diabo que estava muito quieto, em
cima de uma estante. Sofia achou-se com ele entre os dedos, sem
saber como, nem desde quando; ao cuidar na sua voluntária
humilhação, teve um impulso, -parece que raiva de
si mesma,-e deu com o boneco em terra. Pobre mandarim! não
lhe valeu ser de porcelana; não lhe valeu sequer ser dado
pelo Palha.
-Mas, minha
ama, como é que o chinês...
-Vá-se
embora!
Sofia recordou
todo o seu proceder diante de Carlos Maria, as aquiescências
fáceis, os perdões antecipados, os olhos com que o
buscava, os apertos de mão tão fortes... Era isso;
tinha-se-lhe lançado aos pés. Depois, o sentimento
foi mudando. Apesar de tudo, era natural que ele gostasse dela,
e a conformidade moral de ambos não traria o abandono de
um. Talvez a culpa fosse outra. Escavou razões possíveis,
algum gesto duro e frio, alguma falta de atenção para
com ele; lembrou-se que, uma vez, por medo de o receber sozinha,
mandou dizer que não estava em casa. Sim, podia ser isso.
Carlos Maria era orgulhoso; a menor desfeita pungia-o. Soube que
era mentira...Essa era a culpa.
CAPÍTULO CVI
...OU, MAIS PROPRIAMENTE, capítulo em que o leitor, desorientado,
não pode combinar as tristezas de Sofia com a anedota do
cocheiro. E pergunta confuso-Então a entrevista da Rua da
Harmonia Sofia, Carlos Maria, esse chocalho de rimas sonoras e delinqüentes
é tudo calúnia? Calúnia do leitor e do Rubião,
não do pobre cocheiro que não proferiu nomes, não
chegou sequer a contar uma anedota verdadeira. É o que terias
visto, se lesses com pausa. Sim, desgraçado adverte bem que
era inverossímil que um homem, indo a uma aventura daquelas,
fizesse parar o tílburi diante da casa pactuada. Seria pôr
uma testemunha ao crime. Há entre o céu e a terra
muitas mais ruas do que sonha a tua filosofia,-ruas transversais,
onde o tilburi podia ficar esperando.
-Bem; o cocheiro
não soube compor. Mas que interesse tinha em inventar a anedota?
Conduzira Rubião
a uma casa, onde o nosso amigo ficou quase duas horas, sem o despedir;
viu-o sair, entrar no tílburi, descer logo e vir a pé,
ordenando-lhe que o acompanhasse. Concluiu que era ótimo
freguês; mas, ainda assim não se lembrou de inventar
nada. Passou, porém, uma senhora com um menino,-a da Rua
da Saúde, -e Rubião quedou-se a olhar para ela com
vistas de amor e melancolia. Aqui é que o cocheiro o teve
por lassivo, além de pródigo, e encomendou-lhe as
suas prendas. Se falou em Rua da Harmonia foi por sugestão
do bairro donde vinham; e, se disse que trouxera um moço
da Rua dos Inválidos, é que naturalmente transportara
de lá algum, na véspera,-talvez o próprio Carlos
Maria,-ou porque lá morasse, ou porque lá tivesse
a cocheira,-qualquer outra circunstância que lhe ajudou a
invenção, como as reminiscências do dia servem
de matéria aos sonhos da noite. Nem todos os cocheiros são
imaginativos. Já é muito concertar farrapos da realidade.
Resta só
a coincidência de morar na Rua da Harmonia uma das costureiras
do luto. Aqui, sim, parece um propósito do acaso. Mas a culpa
é da costureira- não lhe faltaria casa mais para o
centro da cidade, se quisesse deixar a agulha e o marido. Ao contrário
disso, ama-os sobre todas as cousas deste mundo. Não era
razão para que eu cortasse o episódio, ou interrompesse
o livro.