Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO LXVI
"COMO
ELE DIZ aquelas cousas tão naturalmente! pensou Rubião,
em casa, relembrando as palavras de Carlos Maria. Desfazer no retrato
só para elogiar a pessoa! Note-se que o retrato é
muito parecido."
CAPÍTULO LXVII
DE MANHÃ, na cama, teve um sobressalto. O primeiro jornal
que abriu foi a Atalaia. Leu o artigo editorial, uma correspondência
e algumas notícias. De repente, deu com o seu nome.
-Que é
isto? Era o seu próprio nome impresso, rutilante, multiplicado,
nada menos que uma notícia do caso da Rua da Ajuda. Depois
do sobressalto, aborrecimento. Que diacho de idéia aquela
de imprimir um fato particular, contado em confiança? Não
quis ler nada; desde que percebeu o que era deitou a folha ao chão,
e pegou em outra. Infelizmente, perdera a serenidade, lia por alto,
pulava algumas linhas, não entendia outras, ou dava por si
no fim de uma coluna sem saber como viera escorregando até
ali.
Ao levantar-se,
sentou-se na poltrona, ao pé da cama, e pegou da Atalaia.
Lançou os olhos pela notíciaera mais de uma coluna.
Coluna e tanto para cousa tão diminuta! pensou consigo. E
a fim de ver como é que Camacho enchera o papel, leu tudo,
um pouso às pressas, vexado dos adjetivos e da descrição
dramática do caso.
-Foi bem feito!
disse em voz alta. Quem me mandou ser linguarudo?
Passou ao banho,
vestiu-se, penteou-se, sem esquecer a bisbilhotice da folha, acanhado
com a publicação de um negócio, que ele reputava
mínimo, e ainda mais pelo encarecimento que lhe dera o escritor,
como se tratasse de dizer bem ou mal em política. Ao café,
pegou novamente na folha, para ler outras cousas, nomeações
do governo, um assassinato em Garanhuns, meteorologia, até
que a vista desastrada foi cair na notícia, e leu-a então
com pausa. Aqui confessou Rubião que bem podia crer na sinceridade
do escritor. O entusiasmo da linguagem explicava-se pela impressão
que lhe ficou do fato; tal foi ela que lhe não permitiu ser
mais sóbrio. Naturalmente é o que foi. Rubião
recordou a sua entrada no escritório do Camacho, o modo por
que falou; e daí tornou atrás, ao próprio ato.
Estirado no gabinete, evocou a cenao menino, o carro, os cavalos,
o grito, o salto que deu, levado de um ímpeto irresistível.
- Agora mesmo não podia explicar o negócio; foi como
se lhe tivesse passado uma sombra pelos olhos. . . Atirou-se à
criança, e aos cavalos, cego e surdo, sem atender ao próprio
risco... E podia ficar ali, embaixo dos animais, esmagado pelas
rodas, morto ou ferido; ferido que fosse. . . Podia ou não
podia? Era impossível negar que a situação
foi grave... A prova é que os pais e a vizinhança.
. .
Rubião
interrompeu as reflexões para ler ainda a notícia.
Que era bem escrita, era. Trechos havia que releu com muita satisfação.
O diabo do homem parecia ter assistido à cena. Que narração!
que viveza de estilo! Alguns pontos estavam acrescentados,-confusão
de memória,-mas o acréscimo não ficava mal.
E certo orgulho que lhe notou ao repetir-lhe o nome? "O nosso
amigo, o nosso distintíssimo amigo, o nosso valente amigo..."
Ao almoço,
riu-se de si mesmo; achou-se mortificado em demasia. Afinal, que
tinha que o outro desse aos seus leitores uma notícia que
era verdadeira, que era interessante, dramática,-e seguramente,-
não vulgar? Saindo, recebeu alguns cumprimentos; Freitas
chamou-lhe S. Vicente de Paula. E o nosso amigo sorria, agradecia,
diminuía-se, não era nada
-Nada? replicou
alguém. Dê-me muitos desses nadas. Salvar uma criança
com risco da própria vida...
Rubião
ia concordando, ouvindo, sorrindo; contava a cena a alguns curiosos,
que a queriam da própria boca do autor. Certos ouvintes respondiam
com proezas suas,- um que salvara uma lei um homem, outro uma menina,
prestes a afogar-se no Boqueirão do Passeio, estando a tomar
banho. Vinham também suicídios malogrados, por intervenção
do ouvinte, que tomou a pistola ao infeliz. e fê-lo jurar.
. . Cada gloriazinha oculta picava o ovo, e punha a cabeça
de fora, olho aberto, sem penas, em volta da glória máxima
do Rubião. Também teve invejosos, alguns que nem o
conheciam, só por ouvi-lo louvar em voz alta. Rubião
foi agradecer a notícia ao Camacho, não sem alguma
censura pelo abuso de confiança, mas uma censura mole, ao
canto da boca. Dali foi comprar uns tantos exemplares da folha para
os amigos de Barbacena. Nenhuma outra transcreveu a notícia;
ele, a conselho do Freitas, fê-la reimprimir nos a-pedidos
do Jornal do Comércio, interlinhada.
CAPÍTULO LXVIII
MARIA BENEDITA consentiu finalmente em aprender francês e
piano. Durante quatro dias a prima teimou com ela, a todas as horas,
de tal arte e maneira, que a mãe da moça resolveu
apressar a volta à fazenda, para evitar que ela acabasse
aceitando. A filha resistiu muito; respondia que eram cousas supérfluas,
que moça de roça não precisa de prendas da
cidade. Uma noite, porém, estando ali Carlos Maria, pediu-lhe
este que tocasse alguma cousa, Maria Benedita fez-se vermelha. Sofia
acudiu com uma mentira
-Não
lhe peça isso; ainda não tocou depois que veio. Diz
que agora só toca para os roceiros.
-Pois faça
de conta que somos roceiros, insistiu o moço.
Mas passou
logo a outra cousa, ao baile da baronesa do Piauí (a mesma
que o nosso amigo Rubião encontrou no escritório do
Camacho), um baile esplêndido, oh! esplêndido! A baronesa
prezava-o muito, disse ele. No dia seguinte, Maria Benedita
declarou à
prima que estava pronta a aprender piano e francês, rabeca
e até russo, se quisesse. A dificuldade era vencer a mãe.
Esta, quando soube da resolução da filha, pôs
as mãos na cabeça. Que francês? que piano? Bradou
que não, ou então que deixasse de ser sua filha; podia
ficar, tocar, cantar, falar cabinda ou a língua do diabo
que os levasse a todos. Palha é que a persuadiu finalmente;
disse-lhe que, por mais supérfluas que lhe parecessem aquelas
prendas, eram o mínimo dos adornos de uma educação
de sala.
- Mas eu criei
minha filha na roça e para a roça, interrompeu a tia.
-Para a roça?
Quem sabe lá para que cria os filhos? Meu pai destinava-me
a padre; é por isso que arranho algum latim. A senhora não
há de viver sempre; os seus negócios andam atrapalhados.
Pode acontecer, que Maria Benedita fique ao desamparo... Ao desamparo,
não digo; enquanto vivermos somos todos uma só pessoa.
Mas não é melhor prevenir? Podia ser até que,
se lhe faltássemos todos. ela vivesse à larga, só
com ensinar francês e piano. Basta que os saiba para estar
em condições melhores. É bonita, como a senhora
foi no seu tempo; e possui raras qualidades morais. Pode achar marido
rico. Sabe a senhora se já tenho alguém em vista,
pessoa séria?
-Sim? Então
ela vai aprender francês, piano e namoro?
-Que namoro?
Refiro-me a um pensamento íntimo, a um plano que me parece
adequado à felicidade dela e de sua mãe. . . Pois
eu havia... Ora, tia Augusta!
Palha mostrou-se
tão mortificado, que a tia deixou o tom áspero pelo
tom seco. Resistiu ainda; mas a noite deu-lhe bons conselhos. O
estado dos seus negócios, e a possibilidade de um genro abastado
fizeram mais que outras razões. Os melhores genros da roça
aliavam-se a outras fazendas, a famílias de representação
e riqueza segura. Dous dias depois acharam um modus vivendi. Maria
Benedita ficaria com a prima; iriam de quando em quando à
roça, e a tia também viria à capital, para
vê-las. Palha chegou a dizer que, logo que o estado da praça
o permitisse, arranjaria meio de liquidar-lhe os negócios
e transportá-la para aqui. Mas a isto a boa senhora abanou
a cabeça.
Não
se pense que tudo isso foi tão fácil como aí
fica escrito. Na prática, vieram os óbices, amofinações,
saudades, rebeliões de Maria Benedita. Dezoito dias depois
da volta da mãe à fazenda, quis ir visitá-la,
e a prima acompanhou-a; estiveram lá uma semana. A mãe,
dous meses depois, veio passar uns dias aqui. Sofia acostumava habilmente
a prima às distrações da cidade, teatros, visitas,
passeios, reuniões em casa, vestidos novos, chapéus
lindos, jóias. Maria Benedita era mulher, posto que mulher
esquisita, gostou de tais cousas, mas tinha para si que, logo que
quisesse, podia arrebentar todos esses liames, e andar para a roça.
A roça vinha ter com ela, às vezes, em sonho ou simples
devaneio. Depois dos primeiros saraus, quando voltava para casa,
não eram as sensações da noite que lhe enchiam
a alma, eram as saudades de Iguaçu. Cresciam-lhe mais a certas
horas do dia, quando a quietação da casa e da rua
era completa. Então batia as asas para a varanda da velha
casa, onde bebia café, ao pé da mãe; pensava
na escravaria, nos móveis antigos, nas botinas chinelas que
lhe mandara o padrinho, um fazendeiro rico de S. João d'EI-Rei,-
e que lá ficaram em casa. Sofia não consentiu que
ela as trouxesse.
Os mestres
de francês e piano eram homens sabedores do ofício.
Sofia teve modo de dizer-lhes em particular que a prima vexava-se
de aprender tão tarde, e pediu-lhes que não falassem
nunca de tal discípula. Prometeram que sim; o de piano apenas
referiu o pedido a alguns colegas d'arte, que lhe acharam graça,
e contaram outras anedotas da clientela. O certo é que Maria
Benedita aprendia com singular facilidade, estudava com afinco,
quase todas as horas, a tal ponto que a mesma prima julgava acertado
interrompê-la.
-Descansa,
filha de Deus!
-Deixa recobrar
o tempo perdido, respondia ela rindo.
Então
Sofia inventava passeios, à toa, para fazê-la descansar.
Ora um bairro, ora outro. Em certas ruas, Maria Benedita não
perdia tempolia as tabuletas francesas, e perguntava pelos substantivos
novos que a prima, algumas vezes, não sabia dizer o que eram,
tão estritamente adequado era o seu vocabulário às
cousas do vestido, da sala e do galanteio.
Mas não
era só nessas disciplinas que Maria Benedita fazia progressos
rápidos. A pessoa ajustara-se ao meio, mais depressa do que
fariam crer o gosto natural e a vida da roça. Já competia
com a outra, embora houvesse nesta um desgarre, e não sei
que expressão particular que, para assim dizer, dava cor
a todas as linhas e gestos da figura. Não obstante essa diferença,
certo que a outra era vista e notada ao pé dela, de tal jeito
que Sofia, que começara por louvá-la em toda a parte,
não a deslouvava agora, mas ouvia calada as admirações.
Falava bem;-mas, quando calava, era por muito tempo; dizia que eram
os seus "calundus". Contradançava sem vida, que
é a perfeição desse gênero de recreio;
gostava muito de ver polcar e valsar. Sofia, imaginando que era
por medo que a prima não valsava nem polcava, quis dar-lhe
algumas lições em casa, sozinhas, com o marido ao
piano; mas a prima recusava sempre.
-Isso é
ainda um bocadinho de casca da roça, disse-lhe uma vez Sofia.
Maria Benedita
sorriu de um modo tão particular, que a outra não
insistiu. Não foi riso de vexame, nem de despeito, nem de
desdém. Desdém, por quê? Contudo, é certo
que o riso parecia vir de cima. Não menos o é que
Sofia polcava e valsava com ardor, e ninguém se pendurava
melhor do ombro do parceiro; Carlos Maria, que era raro dançar,
só valsava com Sofia,- dous ou três giros, dizia ele;-
Maria Benedita contou uma noite quinze minutos.
CAPÍTULO LXIX
OS QUINZE MINUTOS foram contados no relógio do Rubião,
que estava ao pé da Maria Benedita, e a quem ela perguntou
duas vezes que horas eram, no princípio e no fim da valsa.
A própria moça inclinou-se para ver bem o ponteiro
dos minutos.
-Está
com sono? perguntou Rubião.
Maria Benedita
olhou para ele de soslaio. Viu-lhe o rosto plácido sem intenção
nem riso.
-Não,
respondeu; digo-lhe até que estou com medo que prima Sofia
se lembre de ir cedo para casa.
-Não vai cedo. Já acabou a desculpa de Santa Teresa,
por causa da subida. A casa fica perto daqui.
De fato, as
duas moravam agora na Praia do Flamengo, e o baile era na Rua dos
Arcos.
É de
saber que tinham decorrido oito meses desde o princípio do
capítulo anterior, e muita cousa estava mudada. Rubião
sócio do marido de Sofia, em uma casa de importação,
à Rua da Alfândega, sob a firma Palha e Compª.
Era o negócio que este ia propor-lhe, naquela noite, em que
achou o Dr. Camacho na casa de Botafogo Apesar de fácil,
Rubião recuou algum tempo. Pediam-lhe uns bons pares de contos
de réis, não entendia de comércio, não
lhe tinha inclinação. Demais, os gastos particulares
eram já grandes; o capital precisava do regímen do
bom juro e alguma poupança, a ver se recobrava as cores e
as carnes primitivas. O regímen que lhe indicavam não
era claro; Rubião não podia compreender os algarismos
do Palha, cálculos de lucros, tabelas de preço, direitos
da alfândega, nada; mas, a linguagem falada supria a escrita.
Palha dizia cousas extraordinárias, aconselhava ao amigo
que aproveitasse a ocasião para por o dinheiro a caminho,
multiplicá-lo. Se tinha medo, era diferente; ele, Palha,
faria o negócio com John Roberts, sócio que lei da
Casa Wilkinson, fundada em 1844, cujo chefe voltou para a Inglaterra,
e era agora membro do Parlamento.
Rubião
não cedeu logo; pediu prazo, cinco dias. Consigo era mais
livre mas desta vez a liberdade só servia para atordoá-lo.
Computou os dinheiros despendidos, avaliou os rombos feitos no cabedal,
que lhe deixara o filósofo. Quincas Borba, que estava com
ele no gabinete, deitado, levantou casualmente a cabeça e
fitou-o. Rubião estremeceu; a suposição de
que naquele Quincas Borba podia estar a alma do outro nunca se lhe
varreu inteiramente do cérebro. Desta vez chegou a ver-lhe
um tom de censura nos olhos; riu-se, era tolice; cachorro não
podia ser homem. Insensivelmente, porém, abaixou a mão
e coçou as orelhas ao animal, para captá-lo.
Atrás
dos motivos de recusa vieram outros contrários. E se o negócio
rendesse? Se realmente lhe multiplicasse o que tinha? Acrescia que
a posição era respeitável, e podia trazer-lhe
vantagens na eleição, quando houvesse de propor-se
ao Parlamento, como o velho chefe da Casa Wilkinson. Outra razão
mais forte ainda era o receio de magoar o Palha, de parecer que
lhe não confiava dinheiros, quando era certo que, dias antes,
recebera parte da dívida antiga, e a outra parte restante
devia ser-lhe restituída dentro de dous meses.
Nenhum desses
motivos era pretexto de outro; vinham de si mesmos. Sofia só
apareceu no fim, sem deixar de estar nele, desde o princípio,
idéia latente, inconsciente, uma das cousas últimas
do ato, e a única dissimulada. Rubião abanou a cabeça
para expedi-la, e levantou-se. Sofia (dona astuta!) recolheu-se
à inconsciência do homem, respeitosa da liberdade moral,
e deixou-o resolver por si mesmo que entraria de sócio com
o marido, mediante certas cláusulas de segurança.
Foi assim que se fez a sociedade comercial; assim é que Rubião
legalizou a assiduidade das suas visitas.
-Senhor Rubião,
disse Maria Benedita depois de alguns segundos de silêncio,
não lhe parece que minha prima é bem bonita?
-Não
desfazendo na senhora, acho.
-Bonita e bem
feita
Rubião
aceitou o complemento. Um e outro acompanharam com os olhos o par
de valsistas, que passeava ao longo do salão. Sofia estava
magnífica. Trajava de azul escuro, mui decotada, -pelas razões
ditas no capítulo XXXV; os braços nus, cheios, com
uns tons de ouro claro, ajustavam-se às espáduas e
aos seios, tão acostumados ao gás do salão.
Diadema de pérolas feitiças, tão bem acabadas,
que iam de par com as duas pérolas naturais, que lhe ornavam
as orelhas, e que Rubião lhe dera um dia.
Ao lado dela,
Carlos Maria não ficava mal. Era um rapaz galhardo, como
sabemos, e trazia os mesmos olhos plácidos do almoço
do Rubião. Não tinha as maneiras súbditas,
nem as curvas reverentes dos outros rapazes; exprimia-se com a graça
de um rei benévolo Entretanto, se, à primeira vista,
parecia fazer apenas um obséquio àquela senhora, não
é menos certo que ia desvanecido, por trazer ao lado a mais
esbelta mulher da noite. Os dous sentimentos não se contradiziam;
fundiam-se ambos na adoração que este moço
tinha de si mesmo. Assim, o contacto de Sofia era para ele como
a prosternação de uma devota. Não se admirava
de nada. Se um dia acordasse imperador, só se admiraria da
demora do ministério em vir cumprimentá-lo.
-Vou descansar
um pouco, disse Sofia.
-Está
cansada ou... aborrecida? perguntou-lhe o braceiro
-Oh! cansada
apenas!
Carlos Maria,
arrependido de haver suposto a outra hipótese, deu se pressa
em eliminá-la.
-Sim, creio;
por que é que estaria aborrecida? Mas eu afirmo que é
capaz de fazer-me o sacrifício de passear ainda algum tempo.
Cinco minutos?
-Cinco minutos.
-Nem mais um
que seja? Pela minha parte passearia a eternidade.
Sofia abaixou
a cabeça.
-Com a senhora,
note bem.
Sofia deixou-se
ir com os olhos no chão, sem contestar, sem concordar, sem
agradecer, ao menos. Podia não ser mais que uma galanteria,
e as galanterias é de uso que se agradeçam. Já
lhe tinha ouvido outrora palavras análogas, dando-lhe a primazia
entre as mulheres deste mundo. Deixou de as ouvir durante seis meses,-quatro
que ele gastou em Petrópolis, dous em que lhe não
apareceu. Ultimamente é que tornou a freqüentar a casa,
a dizer-lhe finezas daquelas ora em particular, ora à vista
de toda a gente. Deixou-se ir; e ambos foram andando calados, calados,
calados,-até que ele rompeu o silêncio, notando-lhe
que o mar defronte da casa dela batia com muita força, na
noite anterior.
-Passou lá?
perguntou Sofia.
-Estive lá; ia pelo Catete, já tarde, e lembrou-me
descer à Praia do Flamengo. A noite era clara; fiquei cerca
de uma hora, entre o mar e a sua casa. A senhora aposto que nem
sonhava comigo? Entretanto, eu quase que ouvia a sua respiração.
Sofia tentou
sorrir; ele continuou
-O mar batia
com força, é verdade, mas o meu coração
não batia menos rijamente--com esta diferença que
o mar estúpido, bate sem saber por que, e o meu coração
sabe que batia pela senhora
-Oh! murmurou
Sofia.
Com espanto?
Com indignação? Com medo? São muitas perguntas
a um tempo. Estou que a própria dama não poderia responder
exatamente, tal foi o abalo que lhe trouxe a declaração
do moço. Em todo caso, não foi com incredulidade.
Não posso dizer mais senão que a exclamação
saiu tão frouxa, tão abafada que ele mal pôde
ouvi-la. Pela sua parte, Carlos Maria disfarçou bem, ante
os olhos de toda a sala; nem antes, nem durante, nem depois das
palavras mostrou no rosto a menor comoção; tinha até
umas sombras de riso cáustico, um riso de seu uso, quando
mofava de alguém, parecia ter dito um epigrama. Contudo,
mais de um olho de mulher espreitava a alma de Sofia, estudava o
gesto da moça, tal ou qual acanhado, e as pálpebras
teimosamente caídas.
-A senhora
está perturbada, disse ele; disfarce com o leque.
Sofia maquinalmente
entrou a abanar-se e levantou os olhos. Viu que muitos outros a
fitavam, e empalideceu. Os minutos iam correndo, com a mesma brevidade
dos anos; os primeiros cinco e os segundos iam longe; estavam no
décimo terceiro, atrás deste iam apontando as asas
de outro, e mais outro. Sofia disse ao braceiro que queria sentar-se.
-Vou deixá-la
e retiro-me.
-Não,
disse ela precipitadamente.
Depois, emendou-se
-O baile está
bonito.
-Está,
mas eu quero levar comigo a melhor recordação da noite.
Qualquer outra palavra que ouça agora será como o
coaxar das rãs depois do canto de um lindo pássaro,
um dos seus pássaros lá de casa. Onde quer que a deixe?
-Ao lado de
minha prima.
CAPÍTULO LXX
RUBIÃO
cedeu a cadeira, e acompanhou Carlos Maria, que atravessou a sala,
e foi até o gabinete da entrada, onde estavam os sobretudos
e uns dez homens conversando. Antes que o rapaz entrasse no gabinete,
Rubião pegou-lhe do braço, familiarmente, para lhe
perguntar alguma cousa,-fosse o que fosse,-mas, em verdade, para
retê-lo consigo, e procurar sondá-lo. Começava
a crer possível ou real uma idéia que o atormentava
desde muitos dias. Agora, a conversação dilatada,
os modos dela...
Carlos Maria
não tinha notícia da longa paixão do mineiro,
guardada, mortificada, não se podendo confessar a ninguém,
- esperando os benefícios do acaso,-contentando-se de pouco,
da simples vista da pessoa, dormindo mal as noites, dando dinheiro
para as operações mercantis... Que ele não
tinha ciúmes do marido. Nunca a intimidade do casal lhe excitara
os ódios contra o legítimo senhor. E lá iam
meses e meses, sem alteração do sentimento, nem morte
da esperança. Mas a possibilidade de um rival de fora veio
atordoá-lo; aqui é que o ciúme trouxe ao nosso
amigo uma dentada de sangue.
-Que é?
disse Carlos Maria voltando-se.
Ao mesmo tempo
entrou no gabinete, onde os dez homens, trata-vam de política,
porque este baile,-ia-me esquecendo dizê-lo,- era dado cm
casa de Camacho, a propósito dos anos da mulher. Quando os
dous ali entraram, a conversação era geral, o assunto
o mesmo, e todos falavam para todos,-um turbilhão de ditos,
de pareceres, de afirmações diversas... Um, que era
doutrinário, conseguiu dominar os outros, que se calaram
por instantes, fumando.
-Podem fazer
tudo, disse o doutrinário, mas a punição moral
é certa. As dívidas dos partidos pagam-se com juros
até o último real; e até a última geração.
Princípios não morrem; os partidos que o esquecem
expiram no lodo e na ignomínia.
Outro, meio
calvo, não acreditava na punição moral, e dizia
por que; mas um terceiro aludiu à demissão de uns
coletores, e os espíritos, meio tontos com a doutrina, tomaram
pé. Os coletores não tinham outra culpa, além
da opinião; e nem ao menos se podia defender o ato com o
merecimento dos substitutos. Um destes trazia às costas um
desfalque, outro era cunhado de um tal Marques que dera um tiro
de garrucha no delegado, em S. José dos Campos. . . E o novos
tenentes-coronéis? Verdadeiros réus de polícia.
-Já
se vai embora? perguntou Rubião ao moço, quando o
viu tirar o sobretudo dentre os outros.
-Já;
estou com sono. Ajude-me a enfiar esta manga. Estou com sono.
-Mas ainda
é cedo; fique. O nosso Camacho não deseja que os rapazes
saiam; quem é que há de dançar com as moças?
Carlos Maria
replicou sorrindo que era pouco dado a danças. Valsara com
D. Sofia, por ser mestra no ofício; senão, nem isso.
Estava com sono; preferia a cama à orquestra. E estendeu-lhe
a mão com benignidade; Rubião apertou-lha, meio incerto.
Não
sabia que pensasse. O fato de sair, de a deixar no baile, em vez
de esperar para acompanhá-la à carruagem, como de
outras vezes. . . Podia ser engano dele. . . E pensava, recordava
a noite de Santa Teresa, quando ele ousou declarar à moça
o que sentia pegando-lhe na bela mão delicada... O major
interrompera-os; mas por que não insistiu ele mais tarde?
Nem ela o maltratou, nem o marido percebera cousa nenhuma. . . Aqui
voltava a idéia do possível rival; é certo
que se retirara com sono, mas os modos dela. . . Rubião ia
à porta do salão, para ver Sofia, depois chegava-se
a um canto ou à mesa do voltarete, inquieto, aborrecido.
CAPÍTULO
LXXI
EM CASA, ao
despentear-se, Sofia falou daquele sarau como de uma cousa enfadonha.
Bocejava, doíam-lhe as pernas. Palha discordava; era má
disposição dela. Se Ihe doíam as pernas é
porque dançara muito. Ao que retorquiu a mulher que, se não
dançasse, teria morrido de tédio. E ia tirando os
grampos, deitando-os num vaso de cristal os cabelos caíam-lhe
aos poucos sobre os ombros, mal cobertos peia camisola de cambraia.
Palha, por trás dela, disse-lhe que o Carlos Maria valsava
muito bem. Sofia estremeceu; fitou-o no espelho, o rosto era plácido.
Concordou que não valsava mal.
-Não
senhora, valsa muito bem.
-Você
louva os outros porque sabe que ninguém é capaz de
o desbancar. Anda, meu vaidoso, já te conheço.
Palha estendendo
a mão e pegando-lhe no queixo, obrigou-a olhar para ele.
Vaidoso por quê? por que é que ele era vaidoso?
-Ai, gemeu
Sofia; não me machuques.
Palha beijou-lhe
a espádua; ela sorriu, sem tédio, sem dor de cabeça,
ao contrário daquela noite de Santa Teresa, em que relatou
ao marido os atrevimentos do Rubião. É que os morros
serão doentios, e as praias saudáveis.
No dia seguinte,
Sofia acordou cedo, ao som dos trilos da passarada de casa, que
parecia dar-lhe um recado de alguém. Deixou-se estar na cama,
e fechou os olhos para ver melhor.
Ver melhor
o quê? Não, seguramente, os morros doentios. A praia
era outra cousa. Posta à janela, dali a meia hora, Sofia
contemplava as ondas que vinham morrer defronte, e, ao longe, as
que se levan-tavam e desfaziam à entrada da barra. A imaginosa
dama pergun-tava a si mesma se aquilo era a valsa das águas,
e deixava-se ir por essa torrente abaixo, sem velas nem remos. Deu
consigo olhando para a rua, ao pé do mar, como procurando
os sinais do homem que ali estivera, na antevéspera, alta
noite. . . Não juro, mas cuido que achou os sinais. Ao menos,
é certo que cotejou o achado com o texto da conversação
"A noite
era clara; fiquei cerca de uma hora, entre o mar e a sua casa. A
senhora aposto que nem sonhava comigo? Entretanto, eu quase que
ouvia a sua respiração. O mar batia com força,
é verdade, mas o meu coração não batia
menos rijamente; com esta diferença que o mar é estúpido,
bate sem saber por que, e o meu coração sabe que batia
pela senhora."
Sofia teve
um calafrio, procurou esquecer o texto, mas o texto ia-se repetindo"A
noite era clara..."