Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO LVII
CAMACHO era homem político. Formado em direito em 1844, pela
Faculdade do Recife, voltara para a província natal, onde
começou a advogar; mas a advocacia era um pretexto. Já
na academia, escrevera um jornal político, sem partido definido,
mas com muitas idéias colhidas aqui e ali, e expostas em
estilo meio magro e meio inchado. Pessoa que recolheu esses primeiros
frutos de Camacho fez um índice dos seus princípios
e aspirações- ordem pela liberdade, liberdade pela
ordem;-a autoridade não pode abusar da lei, sem esbofetear-se
a si própria;- a vida dos princípios é a necessidade
moral das nações novas como das nações
velhas;- dai-me boa política, dar-vos-ei boas finanças
(Barão Louis);-mergulhemos no Jordão constitucional;-dai
passagem aos valentes, homens do poder; eles serão os vossos
sustentáculos, etc., etc.
Na província
natal, essa ordem de idéias teve de ceder a outras e o mesmo
se pode dizer do estilo. Fundou ali um jornal; mas, sendo a política
local menos abstrata, Camacho aparou as asas e desceu às
nomeações de delegados, às obras provinciais,
às gratificações, à luta com a folha
adversa, e aos nomes próprios e impróprios. A adjetivação
exigiu grande apuro. Nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso,
foram os termos obrigados, enquanto atacou o governo; mas, logo
que, por uma mudança de presidente, passou a defendê-lo,
as qualificações mudaram tambémenérgico,
ilustrado, justiceiro, fiel aos princípios, verdadeira glória
da administração, etc., etc. Esse tiroteio durou três
anos. No fim deles, a paixão política dominava a alma
do jovem bacharel.
Membro da assembléia
provincial, logo depois da Câmara dos Deputados, presidente
de uma província de segunda ordem, onde por natural mudança
do destino, leu nas folhas da oposição todos os nomes
que escrevera outrora, nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso,
Camacho teve dias grandes e pequenos, andou fora e dentro da Câmara,
orou, escreveu, lutou constantemente. Acabou por vir morar na capital
do Império. Deputado da conciliação dos partidos
viu governar o Marquês de Paraná, e instou por algumas
nomeações em que foi atendido; mas, se é certo
que o marquês lhe pedia conselhos, e usava confiar-lhe os
planos que trazia, ninguém podia afirmá-lo, porque
ele, em se tratando da própria consideração,
mentia sem dificuldade.
O que se pode
crer é que queria ser ministro, e trabalhou por obtê-lo.
Agregou-se a vários grupos, segundo lhe parecia acertado;
na Câmara discorria largamente sobre matérias de administração,
acumulava algarismos, artigos de legislação, pedaços
de relatório, trechos de autores franceses, embora mal traduzidos.
Mas, entre a espiga e a mão, está o muro de que fala
o poeta; e por mais que o nosso homem estendesse a mão do
seu desejo para colhê-la, a espiga lá ficava do lado
oposto, donde a arrancavam outras mãos, mais ou menos sôfregas,
ou até descuidadas.
Há solteirões
na política. Camacho ia entrando nessa categoria melancólica,
em que todos os sonhos nupciais se evaporam com o tempo; mas não
tinha a superioridade de abandoná-la. Ninguém que
organizasse um gabinete se atrevia, ainda que o desejasse, a dar-lhe
uma pasta. Camacho ia-se sentindo cair; para simular influência,
tratava familiarmente os poderosos do dia. contava em voz alta as
visitas aos ministros e a outras dignidades do Estado.
Não
lhe faltava que comer. A família era pequena; mulher, uma
filha, que ia nos dezoito anos, um afilhado de nove, e para isso
dava advocacia. Mas trazia a política no sangue; não
lia, não cuidava em outra cousa. De literatura, ciências
naturais, história, filosofia, artes, não se preocupava
absolutamente nada. Também não conhecia grandes cousas
de direito; guardava algum do que lhe dera a academia, mais a legislação
posterior e práticas forenses. Com isso ia arrazoando e ganhando.
CAPÍTULO LVIII
DIAS ANTES, indo passar a noite em casa de um conselheiro, viu ali
Rubião. Falava-se da chamada dos conservadores ao poder,
e da dissolução da Câmara. Rubião assistira
à reunião em que o Ministério ltaboraí
pediu os orçamentos. Tremia ainda ao contar as suas impressões,
descrevia a Câmara, tribunas, galerias cheias que não
cabia um alfinete, o discurso de Jos Bonifácio, a moção,
a votação. . . Toda essa narrativa nascia de uma alma
simples; era claro. A desordem dos gestos, o calor da palavra tinham
a eloqüência da sinceridade. Camacho escutava-o atento.
Teve modo de o levar a um canto da janela e fazer-lhe considerações
graves sobre a situação. Rubião opinava de
cabeça, ou por palavras soltas e aprobatórias.
-Os conservadores
não se demoram no poder, disse-lhe finalmente Camacho.
-Não?
-Não;
eles não querem a guerra, e têm de cair por força.
Veja como andei bem no programa da folha.
- Que folha?
- Conversaremos
depois.
No dia seguinte,
almoçaram no Hotel de la Bourse, a convite de Camacho. Este
referiu ao outro que fundara, meses antes, uma folha com o único
programa de continuar a guerra a todo transe... Andava muito acesa
a dissenção entre liberais; pareceu-lhe que o melhor
modo de servir ao próprio partido era dar-lhe um terreno
neutro e nacional.
-E isto agora
serve-nos, concluiu ele, porque o governo inclina-se à paz.
Já amanhã sai um artigo meu, furibundo.
Rubião
ouvia tudo, quase sem tirar os olhos do outro, comendo rapidamente,
nos intervalos em que o próprio Camacho inclinava a cabeça
ao prato. Folgava de ver-se confidente político; e, para
dizer tudo, a idéia de entrar em luta para colher alguma
cousa depois, um lugar na Câmara, por exemplo, espanejou as
asas de ouro no cérebro do nosso amigo. Camacho não
lhe disse mais nada; procurou-o no dia seguinte, e não o
achou. Agora, pouco depois de entrar, vinha o Palha interrompê-los.
CAPÍTULO LIX
-SIM, MAS EU preciso ir a Minas, teimou Rubião.
-Para quê?
perguntou Camacho.
Palha fez-lhe
igual pergunta. Para que iria a Minas, salvo se era negócio
de pouco tempo. Ou já estava aborrecido da Corte?
-Não,
aborrecido não estou; ao contrário...
Ao contrário,
gostava muito dela; mas a terra natal,-por menos bonita que seja,-um
lugarejo,-dá saudades à gente;-ainda mais quando a
pessoa veio de lá homem. Queria ver Barbacena. Barbacena
era a primeira terra do mundo. Durante alguns minutos, Rubião
pôde subtrair-se à ação dos outros. Tinha
a terra natal em si mesmoambições, vaidades da rua,
prazeres efêmeros, tudo cedia ao mineiro saudoso da província.
Se a alma dele foi alguma vez dissimulada, e escutou a voz do interesse,
agora era a simples alma de um homem arrependido do gozo, e mal
acomodado na própria riqueza
Palha e Camacho
olharam um para o outro. . . Oh! esse olhar foi como um bilhete
de visita trocado entre as duas consciências. Nenhuma disse
o seu segredo, mas viram os nomes no cartão, e cumprimentaram-se.
Sim, era preciso impedir que o Rubião saísse; Minas
podia retê-lo. Concordaram que lá fosse; mas depois,-alguns
meses depois;-e talvez o Palha fosse também. Nunca vira Minas;
seria excelente ocasião.
-O senhor?
perguntou Rubião.
-Sim, eu; há
muito que desejo ir a Minas e a São Paulo. Olhe, há
mais de um ano que estivemos vai não vai... Sofia companheira
para estas viagens. Lembra-se quando nos encontramos no trem da
estrada de ferro?... Vínhamos de Vassouras; mas este projeto
de Minas nunca nos deixou. Iremos os três.
Rubião
agarrou-se às eleições próximas; mas
aqui interveio Camacho, afirmando que não era preciso, que
a serpente devia ser esmagada cá mesmo na capital; não
faltaria tempo depois para ir matar saudades e receber a recompensa.
Rubião agitou-se no canapé. A recompensa era, com
certeza, o diploma de deputado. Visão magnífica, ambição,
que nunca teve, quando era um pobre-diabo... Ei-la que o toma, que
lhe aguça todos os apetites de grandeza e de glória
Entretanto, ainda insistiu por poucos dias de viagem, e, para ser
exato, devo jurar que o fez sem desejo de que lhe aceitassem a proposta.
A lua estava
então brilhante; a enseada, vista pelas janelas, apresentava
aquele aspecto sedutor que nenhum carioca pode crer que exista em
outra parte do mundo. A figura de Sofia passou ao longe, na encosta
do morro, e diluiu-se no luar; a última sessão da
Câmara, tumultuosa, ressoou aos ouvidos de Rubião...
Camacho foi até à janela e voltou logo.
-Mas quantos
dias? perguntou ele.
-Isso é
que não sei, mas poucos.
-Em todo o
caso, amanhã conversaremos.
Camacho despediu-se.
Palha ficou ainda alguns instantes, para dizer-lhe que seria esquisito
voltar a Minas, sem que eles liquidassem as contas... Rubião
interrompeu-o. Contas? Quem lhe pedia contas?
-Bem se vê
que o senhor não é homem de comércio, redargüiu
Cristiano.
-Não
sou, é verdade; mas as contas pagam-se quando se pode. Entre
nós, tem sido isto. Ou, quem sabe? Seja franco; precisa de
algum dinheiro?
-Não,
não preciso. Obrigado. Tenho que propor um negócio,
mas há de ser mais demoradamente. Vim vê-lo para não
botar anúncios nos jornais"Desapareceu um amigo, por
nome Rubião, que tem um cachorro..."
Rubião
gostou da facécia. Palha saiu e ele foi acompanhá-lo
até a esquina da Rua Marquês de Abrantes. Ao despedir-se
prometeu visitá-lo em Santa Teresa, antes de ir a Minas.
CAPÍTULO
LX
POBRE MINAS!
Rubião voltou para casa, sozinho, a passo lento, pensando
no modo de lá não ir agora. E as palavras dos dous
andavam-lhe no cérebro, como peixinhos de ouro em globo de
vidro, abaixo, acima, rutilantes"aqui é que se deve
esmagar a cabeça da cobra"; -"Sofia é companheira
para estas viagens". Pobre Minas!
No dia seguinte
recebeu um jornal que nunca vira antes, a Atalaia. 0 artigo editorial
desancava o ministério; a conclusão, porém,
estendia-se a todos os partidos e à nação inteira-Mergulhemos
no Jordão constitucional. Rubião achou-o excelente;
tratou de ver onde se imprimia a folha para assiná-la. Era
na Rua da Ajuda; lá foi, logo que saiu de casa, lá
soube que o redator era o Dr. Camacho. Correu ao escritório
dele.
Mas, em caminho,
na mesma rua
-Deolindo!
Deolindo! bradou angustiadamente uma voz de mulher à porta
de uma colchoaria.
Rubião
ouviu o grito, voltou-se, viu o que era. Era um carro que descia
e uma criança de três ou quatro anos que atravessava
a rua. Os cavalos vinham quase em cima dela, por mais que o cocheiro
os sofreasse. Rubião atirou-se aos cavalos e arrancou o menino
ao perigo. A mãe, quando o recebeu das mãos do Rubião,
não podia falar; estava pálida, trêmula. Algumas
pessoas puseram-se a altercar com o cocheiro, mas um homem calvo,
que vinha dentro, ordenou-lhe que fosse andando. O cocheiro obedeceu.
Assim, quando o pai, que estava no interior da colchoaria, veio
fora, já o carro dobrava a esquina de São José.
-Ia quase morrendo,
disse a mãe. Se não fosse este senhor, não
sei o que seria do meu pobre filho.
Era uma novidade
no quarteirão. Vizinhos entravam a ver o que sucedera ao
pequeno; na rua, crianças e moleques espiavam pasmados. A
criança tinha apenas um arranhão no ombro esquerdo,
produzido pela queda.
-Não
foi nada, disse Rubião; em todo caso, não deixem o
menino sair à rua; é muito pequenino.
-Obrigado,
acudiu o pai; mas onde está o seu chapéu?
Rubião
advertiu então que perdera o chapéu. Um rapazinho
esfarrapado, que o apanhara, estava à porta da colchoaria,
aguardando a ocasião de restituí-lo. Rubião
deu-lhe uns cobres em recompensa, cousa em que o rapazinho não
cuidara, ao ir apanhar o chapéu Não o apanhou senão
para ter uma parte na glória e nos serviços. Entretanto,
aceitou os cobres, com prazer; foi talvez a primeira idéia
que lhe deram da venalidade das ações.
-Mas espere,
tornou o colchoeiro, o senhor feriu-se?
Com efeito,
a mão do nosso amigo tinha sangue, um ferimento na palma,
cousa pequena; só agora começava a senti-lo. A mãe
do pequeno correu a buscar uma bacia e uma toalha, apesar de dizer
o Rubião que não era nada, que não valia a
pena. Veio a água; enquanto ele lavava a mão, o colchoeiro
correu à farmácia próxima, e trouxe um pouco
de arnica. Rubião curou-se, atou o lenço na mão;
a mulher do colchoeiro escovou-lhe o chapéu; e, quando ele
saiu, um e outro agradeceram-lhe muito o benefício da salvação
do filho. A outra gente, que estava à porta e na calçada,
fez-lhe alas.
CAPÍTULO
LXI
-QUE É QUE TEM aí na mão? inquiriu Camacho,
logo que Rubião entrou no escritório.
Rubião
narrou o incidente da Rua da Ajuda. O advogado fez-lhe muitas perguntas
sobre a criança, os pais, o número da casa; mas, o
próprio Rubião pôs termo às respostas.
-Não
sabe, ao menos, o nome do pequeno?
-Ouvi chamar
Deolindo. Vamos ao que importa. Venho assinar a sua folha; recebi
um número, e quero contribuir para...
Camacho acudiu que não precisava de assinaturas. Em assinaturas
a folha ia bem. O que ela precisava era de material tipográfico
e desenvolvimento no texto; ampliar a matéria, pôr-lhe
mais noticiário variedades, tradução de algum
romance para o folhetim, movimento do porto, da praça, etc.
Tinha anúncios, como viu.
-Sim, senhor.
-Estou com
o capital quase subscrito. Bastam dez pessoas, e lá somos
oito; eu e mais sete. Faltam dous. Com mais duas pessoas está
completo o capital.
-Quanto será?
pensou Rubião.
Camacho batia
com um canivete na beira da escrivaninha, calado olhando às
furtadelas para o outro. Rubião passou uma vista à
sala, poucos móveis, alguns autos sobre um tamborete ao pé
do advogado, estante com livros, Lobão, Pereira e Sousa,
Dalloz, Ordenações do Reino, um retrato na parede,
diante da escrivaninha.
-Conhece? disse
Camacho apontando para o retrato.
-Não,
senhor.
-Veja se conhece.
-Não
posso saber. Nunes Machado?
-Não, acudiu o ex-deputado dando à cara um ar pesaroso.
Não pude obter um bom retrato dele. Vendem-se aí umas
litografias que me não parecem boas. Não, aquele é
o marquês.
-De Barbacena?
-Não,
de Paraná; é o grande marquês, meu particular
amigo. Tentou conciliar os partidos, e foi por isso que me achei
com ele. Morreu cedo; a obra não pôde ir adiante. Hoje,
se ele a quisesse, ter-me-ia contra si. Não! nada de conciliações;
guerra de morte. Havemos de destruí-los; leia a Atalaia,
meu bom companheiro de lutas; recebe-la-á em casa...
-Não,
senhor.
-Por que não?
Rubião
baixou os olhos diante do nariz interrogativo do Camacho. -Não,
senhor; sou firme, desejo ajudar os amigos. Receber a folha de graça..
.
-Mas, se já
lhe disse que de assinaturas vamos bem, retorquiu Camacho.
-Sim, senhor,
mas não disse também que faltam duas pessoas para
o capital?
-Duas, sim;
temos oito.
-Quanto é
o capital?
-O capital
é de cinqüenta contos; cinco por pessoa.
-Pois entro
com cinco.
Camacho agradeceu-lho
em nome das idéias. Tinha intenção de convidá-lo
para entrar com eles; era um direito adquirido pela convicção,
pela fidelidade, pelo amor aos negócios públicos do
seu recente amigo. Uma vez que espontaneamente se alistou, pedia-lhe
que o desculpasse. Mostrou-lhe a lista dos outros; Camacho era o
primeiro, entrava com a folha, o material existente, as assinaturas,
e o trabalho hercúleo... Ia a emendar-se, mas repetiu corajosamentetrabalho
hercúleo. Podia dizer que o era, sem deslustre, nem mentira;
esganou cobras, em criança. Já agora era um vício;
gostava da luta, morreria nela, envolvido na bandeira...
CAPÍTULO LXII
RUBIÃO despediu-se. No corredor passou por ele uma senhora
alta, vestida de preto, com um arruído de seda e vidrilhos.
Indo a descer a escada, ouviu a voz do Camacho, mais alta do que
até então-Oh! senhora baronesa!
No primeiro
degrau parou. A voz argentina da senhora começou a dizer
as primeiras palavras; era uma demanda. Baronesa! E o nosso Rubião
ia descendo a custo, de manso, para não parecer que ficara
ouvindo. O ar metia-lhe pelo nariz acima um aroma fino e raro, cousa
de tontear, o aroma deixado por ela. Baronesa! Chegou à porta
da rua; viu parado um coupé; o lacaio, em pé, na calçada,
o cocheiro na almofada, olhando; fardados ambos... Que novidade
podia haver em tudo isso? Nenhuma. Uma senhora titular cheirosa
e rica, talvez demandista para matar o tédio. Mas o caso
particular é que ele, Rubião, sem saber por que, e
apesar do seu próprio luxo, sentia-se o mesmo antigo professor
de Barbacena.
CAPÍTULO LXIII
NA RUA, encontrou
Sofia com uma senhora idosa e outra moça. Não teve
olhos para ver bem as feições destas; todo ele foi
pouco para Sofia. Falaram-se acanhadamente, dous minutos apenas,
e seguiram o seu caminho. Rubião parou adiante, e olhou para
trás; mas as três senhoras iam andando sem voltar a
cabeça. Depois do jantar, consigo
"Irei
lá hoje?"
Reflexionou
muito sem adiantar nada. Ora que sim, ora que não. Achara-lhe
um modo esquisito; mas lembrava-se que sorriu,- pouco, mas sorriu.
Pôs o caso à sorte. Se o primeiro carro que passasse
viesse da direita, iria; se viesse da esquerda, não. E deixou-se
estar na sala, no pouf central, olhando. Veio logo um tílburi
da esquerda. Estava dito; não ia a Santa Teresa. Mas aqui
a consciência reagiu; queria os próprios termos da
propostaum carro. Tílburi não era carro. Devia ser
o que vulgarmente se chama carro, uma caleça inteira ou meia,
ou ainda uma vitória. Daí a pouco vieram chegando
da direita muitas caleças, que voltavam de um enterro. Foi.
CAPÍTULO LXIV
SOFIA DEU-LHE A MÃO gentilmente, sem sombra de rancor. As
duas senhoras do passeio estavam com ela, em trajes caseiros, apresentou-as.
A moça era prima, a velha era tia,-aquela tia da roça,
autora da carta que Sofia recebeu no jardim das mãos do carteiro
que logo depois deu uma queda. A tia chamava-se D. Maria Augusta;
tinha uma fazendola, alguns escravos e dívidas, que lhe deixara
o marido, além das saudades. A filha era Maria Benedita,-nome
que a vexava, por ser de velha, dizia ela; mas a mãe retorquia-lhe
que as velhas foram algum dia moças e meninas, e que os nomes
adequados às pessoas eram imaginações de poetas
e contadores de histórias. Maria Benedita era o nome da avó
dela, afilhada de Luís de Vasconcelos, o vice-rei. Que queria
mais?
Contaram isto
ao Rubião, sem que ela se vexasse. Sofia, ou por atenuar
o caso, ou por outro motivo, acrescentou que os mais feios nomes
eram lindos, segundo a pessoa. Maria Benedita era lindíssimo
-Não
lhe parece? concluiu voltando-se para Rubião.
-Deixa de caçoada,
prima! acudiu Maria Benedita, rindo.
Podemos crer que a velha nem Rubião entenderam o dito,- a
velha, porque começava a cochilar, - Rubião porque
afagava um cãozinho que tinham dado a Sofia, pequeno, delgado,
leve, buliçoso olhos negros, com um guizo ao pescoço.
Mas, insistindo a dona da casa, ele respondeu que sim, sem saber
o que era. Maria Benedita deu um muxoxo. Em verdade, não
era uma beleza; não lhe pedissem olhos que fascinam, nem
dessas bocas que segredam alguma cousa, ainda caladas; era natural,
sem acanho de roceira; e tinha um donaire particular, que corrigia
as incoerências do vestido.
Nascera na
roça e gostava da roça. A roça era perto, Iguaçu.
De longe em longe vinha à cidade, passar alguns dias; mas,
ao cabo dos dous primeiros, já estava ansiosa por tornar
a casa. A educação foi sumárialer, escrever,
doutrina e algumas obras de agulha. Nos últimos tempos (ia
em dezenove anos), Sofia apertou com ela para aprender piano; a
tia consentiu; Maria Benedita veio para a casa da prima, e ali esteve
uns dezoito dias. Não pôde mais; doeram-lhe as saudades
da mãe e voltou para a roça, deixando consternado
o professor, que anunciou nela, desde os primeiros dias, um grande
talento musical.
-Oh! sem dúvida,
um grande talento!
Maria Benedita
riu-se quando a prima lhe contou isto, e nunca mais pôde ver
a sério o homem. Às vezes, no meio de uma lição,
deitava a rirSofia contraía as sobrancelhas, a modo de ralho,
e o pobre homem perguntava o que era, e de si mesmo explicava que
havia de ser alguma lembrança de moça, e continuava
a lição. Nem piano nem francês,-outra lacuna,
que Sofia mal podia desculpar. D. Maria Augusta não compreendia
a consternação da sobrinha. Para que francês!
A sobrinha dizia-lhe que era indispensável para conversar,
para ir às lojas, para ler um romance. . .
-Sempre fui
feliz sem francês, respondia a velha; e os meia-línguas
da roça são a mesma cousa; não vivem pior que
os crioulos.
Um dia acrescentou
-Nem por isso
lhe hão de faltar noivos. Pode casar, já lhe disse
que pode casar quando quiser, que eu também casei; e at deixar-me
na roça, sozinha, morrer como uma besta velha...
-Mamãe!
-Não
tenha pena, é só aparecer o noivo. Em aparecendo vá
com ele, e deixe-me ficar. Olha Maria José o que fez comigo?
Vive lá pelo Ceará.
-Mas se o marido
é juiz de direito, ponderava Sofia.
-Torto que seja! Para mim é a mesma cousa. Cá fica
o frangalho da velha. Casa, Maria Benedita, casa depressa; eu morrerei
com Deus. Não terei filhos, mas terei Nossa Senhora, que
é mãe de todos. Casa, anda, casa!
Toda essa rabugem
era cálculo; tinha em mira arredar a filha do matrimônio,
excitando-lhe o terror e a piedade. Quando menos, retardar-lho.
Não creio que revelasse esse pecado ao professor, nem que
chegasse a entendê-loera obra de um egoísmo idoso e
melindroso. D. Maria Augusta fora longamente querida; a. mãe
era douda por ela, o marido amou-a até o último dia
com a mesma intensidade. Mortos ambos, todas as suas saudades filiais
e matrimoniais foram postas na cabeça das duas filhas.
Uma fugira-lhe,
casando. Ameaçada da solidão, se a outra casasse também,
D. Maria Augusta fazia tudo o que podia por evitar o desastre.
CAPÍTULO
LXV
CURTA FOI A
VISITA de Rubião. Às nove horas levantou-se ele discretamente,
esperando qualquer palavra de Sofia, um pedido para que ficasse
ainda algum tempo, que esperasse o marido que já vinha um
espanto que fosseJá! mas nem isso. Sofia estendeu-lhe a mão,
em que ele mal pôde tocar. Contudo, a moça, durante
a visita, mostrou-se tão natural, tão sem azedume...
Não teve seguramente os olhos longos e loquazes, como dantes;
parecia até que não houvera nada nem bem nem mal,
nem morangos, nem lua. Rubião tremia, não achava palavras,
ela achava todas as que queria, e se era preciso olhar para ele,
fazia-o direitamente, tranqüilamente.
-Lembranças
ao nosso Palha, murmurou ele de chapéu e bengala na mão.
-Obrigada!
Foi fazer uma visita; parece que ouço passos; há de
ser ele.
Não
era ele, era Carlos Maria. Rubião ficou espantado de o ver
ali, mas achou logo que a presença da fazendeira e da filha
explicaria tudo; podia ser até que fossem aparentados.
-Ia saindo,
quando o senhor entrou, disse-lhe Rubião depois de o ver
sentado ao pé de D. Maria Augusta.
-Ah! respondeu
o outro, olhando para o retrato de Sofia.
Sofia foi até
à porta despedir-se do Rubião; disse-lhe que o marido
ficaria com pena de não estar em casa; mas que a visita era
imperiosa. Negócios... Iria pedir-lhe desculpa.
-Que desculpa?
acudiu Rubião.
Parece que
quis dizer ainda alguma cousa; mas o aperto de mão de Sofia
e a reverência que esta lhe fez deram-lhe o sinal de despedida.
Rubião inclinou-se, atravessou o jardim, ouvindo a voz de
Carlos Maria, na sala
-Vou denunciar
seu marido, minha senhora; é homem de muito mau gosto.
Rubião
parou.
-Por quê?
disse Sofia.
-Tem este seu
retrato na sala, continuou Carlos Maria; a senhora é muito
mais bela, infinitamente mais bela que a pintura. Comparem, minhas
senhoras.