Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO XVI
-QUINCAS BORBA!
Quincas Borba! eh! Quincas Borba! bradou entrando em casa.
Nada de cachorro.
Só então é que ele se lembrou de havê-lo
mandado dar à comadre Angélica. Correu à casa
da comadre, que era distante. De caminho acudiram-lhe todas as idéias
feias, algumas extraordinárias. Uma idéia feia é
que o cão tivesse fugido. Outra extraordinária é
que algum inimigo, sabedor da cláusula e do presente, fosse
ter com a comadre, roubasse o cachorro, e o escondesse ou matasse.
Neste caso, a herança. . . Passou-lhe uma nuvem pelos olhos;
depois começou a ver mais claro.
"Não
conheço negócios de justiça, pensava ele, mas
parece que não tenho nada com isso. A cláusula supõe
o cão vivo ou em casa; mas se ele fugir ou morrer, não
se há de inventar um cão; logo, a intenção
principal... Mas são capazes de fazer chicana os meus inimigos.
Não cumprida a cláusula..."
Aqui a testa
e as costas das mãos do nosso amigo ficaram em água.
Outra nuvem pelos olhos. E o coração batia-lhe rápido,
rápido. A cláusula começava a parecer-lhe extravagante.
Rubião pegava-se com os santos, prometia missas, dez missas.
. . Mas lá estava a casa da comadre. Rubião picou
o passo; viu alguém; era ela? era, era ela, encostada à
porta e rindo.
-Que figura
que o senhor vem fazendo, meu compadre? Meio tonto, jogando com
os braços.
CAPÍTULO
XVII
-SINHÁ COMADRE, O cachorro? perguntou Rubião com indiferença,
mas pálido.
-Entre, e abanque-se,
respondeu ela. Que cachorro?
-Que cachorro?
tornou Rubião cada vez mais pálido. O que lhe mandei.
Pois não se lembra que lhe mandei um cachorro para ficar
aqui alguns dias, descansando, a ver se. . . em suma, um animal
de muita estimação. Não é meu. Veio
para... Mas não se lembra?
-Ah! não
me fale nesse bicho! respondeu ela precipitando as palavras.
Era pequena,
tremia por qualquer cousa, e quando se apaixonava engrossavam-lhe
as veias do pescoço. Repetiu que lhe não falasse no
bicho.
-Mas que lhe
fez ele, sinhá comadre?
-Que me fez?
Que é que me faria o pobre animal? Não come nada,
não bebe, chora que parece gente, e anda só com o
olho para fora, a ver se foge.
Rubião
respirou. Ela continuou a dizer os enfadamentos do cachorro; ele
ansioso, queria vê-lo.
-Está
lá no fundo, no cercado grande, está sozinho para
que os outros não bulam com ele. Mas o compadre vem buscá-lo?
Não foi isso o que disseram. Pareceu-me ouvir que era para
mim, que era dado.
-Daria cinco
ou seis, se pudesse, respondeu Rubião. Este não posso;
sou apenas depositário. Mas deixe estar, prometo-lhe um filho.
Creia que o recado veio torto.
Rubião
ia andando; a comadre, em vez de o guiar, acompanhava-o. Lá
estava o cão, dentro do cercado, deitado a distância
de um alguidar de comida. Cães, aves, saltavam de todos os
lados, cá fora; a um lado havia um galinheiro, mais longe
porcos; mais longe ainda, uma vaca deitada, sonolenta, com duas
galinhas ao pé, que lhe picavam a barriga, arrancando carrapato.
-Olhe o meu
pavão! dizia a comadre.
Mas Rubião
tinha os olhos no Quincas Borba, que farejava impaciente, e que
se atirou para ele, logo que um moleque abriu a porta do cercado.
Foi uma cena de delírio; o cachorro pagava as carícias
do Rubião, latindo, pulando, beijando-lhe as mãos.
-Meu Deus!
que amizade!
-Não
imagina, sinhá comadre. Adeus, prometo-lhe um filho.
CAPÍTULO
XVIII
RUBIÃO
e o cachorro, entrando em casa, sentiram, ouviram a pessoa e as
vozes do finado amigo. Enquanto o cachorro farejava por toda a parte,
Rubião foi sentar-se na cadeira, onde estivera quando Quircas
Borba referiu a morte da avó com explicações
científicas. A memória dele recompôs, ainda
que de embrulho e esgarçadamente, os argumentos do filósofo.
Pela primeira vez, atentou bem na alegoria das tribos famintas e
compreendeu a conclusão"Ao vencedor, as batatas!"
Ouviu distintamente a voz roufenha do finado expor a situação
das tribos, a luta e a razão da luta, o extermínio
de uma e a vitória da outra, e murmurou baixinho
-Ao vencedor,
as batatas!
Tão
simples! tão claro! Olhou para as calças de brim surrado
e o rodaque cerzido, e notou que até há pouco fora,
por assim dizer, um exterminado, uma bolha; mas que ora não,
era um vencedor. Não havia dúvida; as batatas fizeram-se
para a tribo que elimina a outra, a fim de transpor a montanha e
ir às batatas do outro lado. Justamente o seu caso. Ia descer
de Barbacena para arrancar e comer as batatas da capital. Cumpria-lhe
ser duro e implacável, era poderoso e forte. E levantando-se
de golpe, alvoroçado, ergueu os braços exclamando
-Ao vencedor,
as batatas!
Gostava da
fórmula, achava-a engenhosa, compendiosa e eloqüente,
além de verdadeira e profunda. Ideou as batatas em suas várias
formas, classificou-as pelo sabor, pelo aspecto, pelo poder nutritivo,
fartou-se antemão do banquete da vida. Era tempo de acabar
com as raízes pobres e secas, que apenas enganavam o estômago,
triste comida de longos anos; agora o farto, o sólido, o
perpétuo, comer até morrer, e morrer em colchas de
seda, que é melhor que trapos. E voltava à afirmação
de ser duro e implacável, e à fórmula da alegoria.
Chegou a compor de cabeça um sinete para seu uso, com este
lema AO VENCEDOR AS BATATAS. Esqueceu o projeto do sinete; mas a
fórmula viveu no espírito de Rubião, por alguns
dias-Ao vencedor as batatas! Não a compreenderia antes do
testamento; ao contrário, vimos que a achou obscura e sem
explicação. Tão certo é que a paisagem
depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote
é ter-lhe o cabo na mão.
CAPÍTULO
XIX
NÃO
ESQUEÇA dizer que Rubião tomou a si mandar dizer uma
missa por alma do finado, embora soubesse ou pressentisse que ele
não era católico. Quincas Borba não dizia pulhices
a respeito de padres, nem desconceituava doutrinas católicas;
mas não falava nem da Igreja nem dos seus servos. Por outro
lado, a veneração de Humanitas fazia desconfiar ao
herdeiro que essa era a religião do testador. Não
obstante, mandou dizer a missa, considerando que não era
ato da vontade do morto, mas prece de vivos; considerou mais que
seria um escândalo na cidade, se ele, nomeado herdeiro pelo
defunto, deixasse de dar ao seu protetor os sufrágios que
não se negam aos mais miseráveis e avaros deste mundo.
Se algumas
pessoas deixaram de comparecer, para não assistir à
glória do Rubião, muitas outras foram,-e não
da ralé,-as quais viram a compunção verdadeira
do antigo mestre de meninos.
CAPÍTULO
XX
REGULADOS os
preliminares para a liquidação da herança,
Rubião tratou de vir ao Rio de Janeiro, onde se fixaria,
logo que tudo estivesse acabado. Havia que fazer em ambas as cidades;
mas as cousas prometiam correr depressa.
CAPÍTULO
XXI
NA ESTAÇÃO
de Vassouras, entraram no trem Sofia e o marido, Cristiano de Almeida
e Palha. Este era um rapagão de trinta e dous anos; ela ia
entre vinte e sete e vinte e oito. Vieram sentar-se nos dous bancos
fronteiros ao do Rubião, acomodaram as cestinhas e embrulhos
de lembranças que traziam de Vassouras, onde tinham ido passar
uma semana; abotoaram o guarda-pó, trocaram algumas palavras,
baixo.
Depois que o trem continuou a andar, foi que o Palha reparou na
pessoa do Rubião, cujo rosto, entre tanta gente carrancuda
ou aborrecida, era o único plácido e satisfeito. Cristiano
foi o primeiro que travou conversa, dizendo-lhe que as viagens de
estrada de ferro cansavam muito, ao que Rubião respondeu
que sim; para quem estava acostumado a costa de burro, acrescentou,
a estrada de ferro cansava e não tinha graça; não
se podia negar, porém, que era um progresso . . .
-Decerto, concordou
o Palha. Progresso e grande.
-O senhor é
lavrador?
-Não,
senhor.
- Mora na cidade?
-De Vassouras?
Não; viemos aqui passar uma semana. Moro mesmo na Corte.
Não teria jeito para lavrador, conquanto ache que é
uma posição boa e honrada.
Da lavoura passaram ao gado, à escravatura e à política.
Cristiano Palha maldisse o governo, que introduzira na fala do trono
uma palavra relativa à propriedade servil; mas, com grande
espanto seus Rubião não acudiu à indignação.
Era plano deste vender os escravos que o testador lhe deixara, exceto
um pajem; se alguma cousa perdesse, o resto da herança cobriria
o desfalque. Demais, a fala do trono, que ele também lera,
mandava respeitar a propriedade atual Que lhe importavam escravos
futuros, se os não compraria? O pajem ia ser forro, logo
que ele entrasse na posse dos bens. Palha desconversou, e passou
à política, às câmaras, à guerra
do Paraguai, tudo assuntos gerais, ao que Rubião atendia,
mais ou menos. Sofia escutava apenas; movia tão-somente os
olhos, que sabia bonitos, fitando-os ora no marido, ora no interlocutor.
-Vai ficar
na Corte ou volta para Barbacena? perguntou o Palha no fim de vinte
minutos de conversação.
- Meu desejo
é ficar, e fico mesmo, acudiu Rubião, estou cansado
da província; quero gozar a vida. Pode ser até que
vá à Europa, mas não sei ainda.
Os olhos do
Palha brilharam instantaneamente.
-Faz muito
bem; eu faria o mesmo, se pudesse; por agora, não posso.
Provavelmente, já lá foi?
-Nunca fui.
É por isso que tive cá umas idéias, ao sair
de Barbacena; ora adeus! é preciso a gente tirar a morrinha
do corpo. Não sei ainda quando será; mas hei de ...
-Tem razão.
Dizem que há lá muita cousa esplêndida; não
admira, são mais velhos que nós; mas lá chegaremos;
e há cousas em que estamos a par deles, e até acima.
A nossa Corte, não digo que possa competir com Paris ou Londres,
mas é bonita, verá...
- Já
vi.
-Já?
-Há
muitos anos.
-Há
de achá-la melhor- tem feito progressos rápidos. Depois,
quando for à Europa...
-A senhora
já foi à Europa? interrompeu Rubião, dirigindo-se
a Sofia.
-Não,
senhor.
-Esqueceu-me
apresentar-lhe minha mulher, acudiu Cristiano. Rubião inclinou-se
respeitosamente; e, voltando-se para o marido, disse-lhe sorrindo
-Mas não
me apresenta a mim?
Palha sorriu
também; entendeu que nenhum deles sabia o nome um do outro,
e deu-se pressa em dizer o seu.
-Cristiano
de Almeida e Palha.
-Pedro Rubião
de Alvarenga; mas Rubião é como todos me chamam.
A troca dos
nomes pô-los ainda mais a gosto. Sofia não interveio,
porém, na conversa; afrouxou a rédea aos olhos, que
se deixaram ir ao sabor de si mesmos. Rubião falava, risonho,
e ouvia atento as palavras do Palha, agradecido da amizade com que
o tratava um moco que ele nunca tinha visto. Chegou a dizer-lhe
que bem podiam ir juntos à Europa.
-Oh! eu não
poderei ir nestes primeiros anos, respondeu o Palha.
-Também
não digo já; eu não irei tão cedo. O
desejo que me deu, quando saí de Barbacena, foi simples desejo,
sem prazo; irei, não há dúvida, mas lá
para diante, quando Deus quiser.
Palha acudiu,
rápido
-Ah! eu, quando
digo que só daqui a anos, acrescento também que a
vontade de Deus pode ordenar o contrário. Quem sabe se daqui
a meses? A Divina Providência é que manda o melhor.
O gesto que
acompanhou estas palavras era convicto e pio; mas nem Sofia o viu
(olhava para os pés), nem o próprio Rubião
escutou as últimas palavras. O nosso amigo estava morto por
dizer a causa que o trazia à capital. Tinha a boca cheia
da confidência, prestes a entorná-la no ouvido do companheiro
de viagem ,- e só por um resto de escrúpulo, já
frouxo, é que ainda a retinha. E por que retê-la, se
não era crime, e ia ser caso público?
-Tenho de cuidar
primeiro de um inventário, murmurou finalmente.
-O senhor seu
pai?
-Não,
um amigo. Um grande amigo, que se lembrou de fazer-me seu herdeiro
universal.
-Ah!
-Universal.
Creia que há amigos neste mundo; como aquele, poucos. Aquilo
era ouro. E que cabeça! que inteligência! que instrução!
Viveu doente os últimos tempos, donde lhe veio alguma impertinência,
alguns caprichos. Sabe, não? rico e doente, sem família,
tinha naturalmente exigências. . . Mas ouro puro, ouro de
lei. Aquilo quando estimava, estimava de uma vez. Éramos
amigos, e não me disse nada. Vai um dia. quando morreu, abriu-se
o testamento, e achei-me com tudo. É verdade. Herdeiro universal!
Olhe que não há uma deixa no testamento para outra
pessoa. Também não tinha parente. O único parente
que teria, seria eu, se ele chegasse a casar com uma irmã
minha, que morreu, coitada! Fiquei só amigo, mas, ele soube
ser amigo, não acha?
-Seguramente,
afirmou o Palha.
Já os
olhos deste não brilhavam, refletiam profundamente. Rubião
metera-se por um mato cerrado, onde lhe cantavam todos os passarinhos
da fortuna; regalava-se em falar da herança; confessou que
não sabia ainda a soma total, mas podia calcular por longe...
-O melhor é
não calcular nada, atalhou Cristiano. Nunca será menos
de cem contos?
-Upa?
-Pois daí
para cima, é esperar calado. E outra cousa...
-Creio que
não menos de trezentos...
-Outra cousa.
Não repita o seu caso a pessoas estranhas. Agradeço-lhe
a confiança que lhe mereci, mas não se exponha ao
primeiro encontro. Discrição e caras serviçais
nem sempre andam juntas.
CAPÍTULO
XXII
CHEGADOS à
estação da Corte, despediram-se quase familiarmente
Palha ofereceu a sua casa em Santa Teresa; o ex-professor ia para
a Hospedaria União, e prometeram visitar-se.
CAPÍTULO
XXIII
No DIA SEGUINTE,
estava Rubião ansioso por ter ao pé de si o recente
amigo da estrada de ferro, e determinou ir a SantaTeresa, à
tarde; mas foi o próprio Palha que o procurou logo de manhã.
Ia cumprimentá-lo, ver se estava bem ali, ou se preferia
a casa dele, que ficava no alto. Rubião não aceitou
a casa, mas aceitou o advogado, um contraparente do Palha, que este
he indicou, como um dos primeiros, apesar de muito moço.
-É aproveitá-lo,
enquanto ele não exige que lhe paguem a fama.
Rubião
fê-lo almoçar, e acompanhou-o ao escritório
do advogado, apesar dos protestos do cão, que queria ir também.
Tudo se ajustou.
-Vá
jantar logo comigo, em Santa Teresa, disse o Palha ao despedir-se.
Não tem que hesitar, lá o espero, concluiu retirando-se.
CAPÍTULO
XXIV
RUBIÃO
tinha vexame, por causa de Sofia; não sabia haver-se com
senhoras. Felizmente, lembrou-se da promessa que a si mesmo fizera
de ser forte e implacável. Foi jantar. Abençoada resolução!
Onde acharia iguais horas? Sofia era, em casa, muito melhor que
no trem de ferro. Lá vestia a capa, embora tivesse os olhos
descobertos; cá trazia à vista os olhos e o corpo,
elegantemente apertado em um vestido de cambraia, mostrando as mãos
que eram bonitas, e um princípio de braço. Demais,
aqui era a dona da casa, falava mais, desfazia-se em obséquios;
Rubião desceu meio tonto.
CAPÍTULO
XXV
JANTOU lá
muitas vezes. Era tímido e acanhado. A freqüência
atenuou a impressão dos primeiros dias. Mas trazia sempre
guardado, e mal guardado, certo fogo particular, que ele não
podia extinguir. Enquanto durou o inventário, e principalmente
a denúncia dada por alguém contra o testamento, alegando
que o Quincas Borba, por manifesta demência, não podia
testar, o nosso Rubião distraiu-se; mas a denúncia
foi destruída, e o inventário caminhou rapidamente
para a conclusão. Palha festejou o acontecimento com um jantar
em que tomaram parte, além dos três, o advogado, o
procurador e o escrivão. Sofia tinha nesse dia os mais belos
olhos do mundo.
CAPÍTULO
XXVI
"PARECE
que ela os compra em alguma fábrica misteriosa, pensou Rubião,
descendo o morro, nunca os vi como hoje."
Seguiu-se a
mudança para a casa de Botafogo, uma das herdadas foi preciso
alfaiá-la, e ainda aqui o amigo Palha prestou grandes serviços
ao Rubião, guiando-o com o gosto, com a notícia, acompanhando-o
às lojas e leilões. Às vezes, como já
sabemos, iam os três; porque há cousas, dizia graciosamente
Sofia, que só uma senhora escolhe bem. Rubião aceitava
agradecido, e demorava o mais que podia as compras, consultando
sem propósito, inventando necessidades, tudo para ter mais
tempo a moça ao pé de si. Esta deixava-se estar, falando,
explicando, demonstrando.
CAPÍTULO
XXVII
TUDO ISSO passava
agora pela cabeça do Rubião, depois do café,
no mesmo lugar em que o deixamos sentado, a olhar para longe, muito
longe. Continuava a bater com as borlas do chambre. Afinal lembrou-se
de ir ver o Quincas Borba, e soltá-lo. Era a sua obrigação
de todos os dias. Levantou-se e foi ao jardim, ao fundo.
CAPÍTULO
XXVIII
"MAS QUE
PECADO é este que me persegue? pensava ele andando. Ela é
casada, dá-se bem com o marido, o marido meu amigo, tem-me
confiança, como ninguém... Que tentações
são estas?"
Parava, e as tentações paravam também. Ele,
um Santo Antão leigo, diferençava-se do anacoreta
em amar as sugestões do Diabo, uma vez que teimassem muito.
Daí a alternação dos monólogos
"É
tão bonita! e parece querer-me tanto! Se aquilo não
é gostar, não sei o que seja gostar. Aperta-me a mão
com tanto agrado, com tanto calor. . . Não posso afastar-me;
ainda que eles me deixem, eu é que não resisto".
Quincas Borba
sentiu-lhe os passos, e começou a latir. Rubião deu-se
pressa em soltá-lo; era soltar-se a si mesmo por alguns instantes
daquela perseguição.
-Quincas Borba!
exclamou, abrindo-lhe a porta.
O cão
atirou-se fora. Que alegria! que entusiasmo! que saltos em volta
do amo! chega a lamber-lhe a mão de contente, mas Rubião
dá-lhe um tabefe, que lhe dói; ele recua um pouco,
triste, com a cauda entre as pernas, depois o senhor dá um
estalinho com os dedos, e ei-lo que volta novamente com a mesma
alegria.
- Sossega !
sossega !
Quincas Borba
vai atrás dele pelo jardim fora, contorna a casa, ora andando,
ora aos saltos. Saboreia a liberdade, mas não perde o amo
de vista. Aqui fareja, ali pára a coçar uma orelha,
acolá cata uma pulga na barriga, mas de um salto galga o
espaço e o tempo perdido, e cose-se outra vez com os calcanhares
do senhor. Parece-lhe que Rubião não pensa em outra
cousa, que anda agora de um lado para outro unicamente para fazê-lo
andar também, e recuperar o tempo em que esteve retido. Quando
Rubião estaca, ele olha para cima, à espera; naturalmente,
cuida dele; é algum projeto, saírem juntos, ou cousa
assim agradável. Não lhe lembra nunca a possibilidade
de um pontapé ou de um tabefe. Tem o sentimento da confiança,
e muito curta a memória das pancadas. Ao contrário,
os afagos ficam-lhe impressos e fixos, por mais distraídos
que sejam. Gosta de ser amado. Contenta-se de crer que o é
.
A vida ali
não é completamente boa nem completamente má.
Há um moleque que o lava todos os dias em água fria,
usança do diabo, a que ele se não acostuma. Jean,
o cozinheiro, gosta do cão, o criado espanhol não
gosta nada. Rubião passa muitas horas fora de casal; mas
não o trata mal, e consente que vá acima, que assista
ao almoço e ao jantar, que o acompanhe à sala ou ao
gabinete. Brinca às vezes com ele; fá-lo pular. Se
chegam visitas de alguma cerimônia, manda-o levar para dentro
ou para baixo e, resistindo ele sempre, o espanhol toma-o a princípio
com muita delicadeza, mas vinga-se daí a pouco, arrastando-o
por uma orelha ou por uma perna, atira-o ao longe, e fecha-lhe todas
as comunicações com a casa
- Perro del
infierno!
Machucado,
separado do amigo, Quincas Borba vai então deitar-se a um
canto, e fica ali muito tempo, calado; agita-se um pouco, até
que acha posição definitiva, e cerra os olhos. Não
dorme, recolhe as idéias, combina, relembra; a figura vaga
do finado amigo passa-lhe acaso ao longe, muito ao longe, aos pedaços,
depois mistura-se à do amigo atual, e parecem ambas uma só
pessoa; depois outras idéias...
Mas já
são muitas idéias,-são idéias demais;
em todo caso são idéias de cachorro, poeira de idéias,
- menos ainda que poeira, explicará o leitor. Mas a verdade
é que este olho que se abre de quando em quando para fixar
o espaço, tão expressivamente, parece traduzir alguma
cousa, que brilha lá dentro, lá muito ao fundo de
outra cousa que não sei como diga, para exprimir uma parte
canina, que não é a cauda nem as orelhas. Pobre língua
humana!
Afinal adormece. Então as imagens da vida brincam nele, em
sonho, vagas, recentes, farrapo daqui remendo dali. Quando acorda,
esqueceu o mal; tem em si uma expressão, que não digo
seja melancolia, para não agravar o leitor. Diz-se de uma
paisagem que é melancólica, mas não se diz
igual cousa de um cão. A razão não pode ser
outra senão que a melancolia da paisagem está em nós
mesmos, enquanto que atribuí-la ao cão é deixá-la
fora de nós. Seja o que for é alguma cousa que não
a alegria de há pouco; mas venha um ,assobio do cozinheiro,
ou um gesto do senhor, e lá vai tudo embora, os olhos brilham,
o prazer arregaça-lhe o focinho, e as pernas voam que parecem
asas.
CAPÍTULO
XXIX
RUBIAO passou
o resto da manhã alegremente. Era domingo; dous amigos vieram
almoçar com ele, um rapaz de vinte e quatro anos, que roía
as primeiras aparas dos bens da mãe, e um homem de quarenta
e quatro ou quarenta e seis, que não tinha que roer.
Carlos Maria
chamava-se o primeiro, Freitas o segundo. Rubião gostava
de ambos, mas diferentemente; não era só a idade que
o ligava mais ao Freitas, era também a índole deste
homem. Freitas elogiava tudo, saudava cada prato e cada vinho com
uma frase particular, delicada, e saía de lá com as
algibeiras cheias de charutos, provando assim que os preferia a
quaisquer outros. Tinha-lhe sido apresentado em certo armazém
da Rua Municipal, onde jantaram uma vez juntos. Contaram-lhe ali
a história do homem, a sua boa e má fortuna, mas não
entraram em particularidades. Rubião torceu o nariz; era
naturalmente algum náufrago, cuja convivência não
lhe traria nenhum prazer pessoal nem consideração
pública. Mas o Freitas atenuou logo essa primeira impressão;
era vivo, interessante, anedótico, alegre como um homem que
tivesse cinqüenta contos de renda. Como Rubião falasse
das bonitas rosas que possuía, ele pediu-lhe licença
para ir vê-lasera doudo por flores. Poucos dias depois apareceu
lá, disse que ia ver as belas rosas, eram poucos minutos,
não se incomodasse o Rubião, se tinha que fazer. Rubião,
ao contrário, gostou de ver que o homem não se esquecera
da conversação, desceu ao jardim onde ele ficara esperando,
e foi mostrar-lhe as rosas. Freitas achou-as admiráveis;
examinava-as com tal afinco que era preciso arrancá-lo de
uma roseira para levá-lo a outra. Sabia o nome de todas,
e ia apontando muitas espécies que o Rubião não
tinha nem conhecia, - apontando e descrevendo, assim e assim, deste
tamanho (indicava o tamanho abrindo e arredondando o dedo polegar
e o índex), e depois nomeava as pessoas que possuíam
bons exemplares. Mas as do Rubião eram das melhores espécies;
esta, por exemplo, era rara, e aquela também, etc. O jardineiro
ouvia-o com espanto. Tudo examinado, disse Rubião
-Venha tomar alguma cousa. Que há de ser?
Freitas contentou-se
com qualquer cousa. Chegando acima, achou a casa muito bem posta.
Examinou os bronzes, os quadros, os móveis olhou para o mar.
-Sim, senhor!
disse ele, o senhor vive como um fidalgo.
Rubião
sorriu, fidalgo, ainda por comparação, é palavra
que se ouve bem. Veio o criado espanhol com a bandeja de prata,
vários licores, e cálices, e foi um bom momento para
Rubião. Ofereceu, ele mesmo, este ou aquele licor; recomendou
afinal um que lhe deram como superior a tudo que, em tal ramo, poderia
existir no mercado Freitas sorriu incrédulo.
-Talvez seja
encarecimento, disse ele.
Tomou o primeiro
trago, saboreou-o devagar, depois segundo, depois terceiro. No fim,
pasmado, confessou que era um primor. Onde é que comprara
aquilo? Rubião respondeu que um amigo, dono de um grande
armazém de vinhos, o presenteara com uma garrafaele, porém,
gostou tanto que já encomendara três dúzias.
Não tardou que se estreitassem as relações.
E o Freitas vai ali almoçar ou jantar muitas vezes,-mais
vezes ainda do que quer ou pode,- porque é difícil
resistir a um homem tão obsequioso, tão amigo de ver
caras amigas.