Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO
CXLV
FOI POR ESSE
TEMPO que Rubião pôs em espanto a todos os seus amigos.
Na terça-feira seguinte ao domingo do passeio (era então
janeiro de 1870) avisou a um barbeiro e cabeleireiro da Rua do Ouvidor
que o mandasse barbear à casa, no outro dia. às nove
horas da manhã. Lá foi um oficial francês, chamado
Lucien, que entrou para o gabinete de Rubião, segundo as
ordens dadas ao criado.
-Uhm!... rosnou
Quincas Borba, de cima dos joelhos do Rubião.
Lucien cumprimentou
o dono da casaeste, porém, não viu a cortesia, como
não ouvira o sinal do Quincas Borba. Estava em uma longa
cadeira de extensão, ermo do espírito, que rompera
o tecto e se perdera no ar. A quantas léguas iria? Nem condor
nem águia o poderia dizer. Em marcha para a lua,-não
via cá embaixo mais que as felicidades perenes, chovidas
sobre ele, desde o berço, onde o embalaram fadas, até
à Praia de Botafogo, aonde elas o trouxeram por um chão
de rosas e bogaris. Nenhum revés, nenhum malogro, nenhuma
pobreza;-vida plácida, cosida de gozo, com rendas de supérfluo.
Em marcha para a lua!
O barbeiro
relanceou os olhos pelo gabinete, onde fazia principal figura a
secretária, e sobre ela os dous bustos de Napoleão
e Luís Napoleão. Relativamente a este último,
havia, ainda pendentes da parede, uma gravura ou litografia representando
a Batalha de Sol ferino, e um retrato da imperatriz Eugênia.
Rubião
tinha nos pés um par de chinelas de damasco, bordadas a ouro;
na cabeça, um gorro com borla de seda preta. Na boca um riso
azul claro.
CAPÍTULO
CXLVI
-SENHOR...
Uhm! repetiu
Quincas Borba, de pé nos joelhos do senhor.
Rubião
voltou a si e deu com o barbeiro. Conhecia-o por tê-lo visto
ultimamente na loja; ergueu-se da cadeira. Quincas Borba latia como
a defendê-lo contra o intruso.
-Sossega! cala
a boca! disse-lhe Rubião; e o cachorro foi, de orelha baixa,
meter-se por trás da cesta de papéis. Durante esse
tempo, Lucien desembrulhava os seus aparelhos.
-O senhor vai
perder uma bela barba, dizia ele em francês. Conheço
pessoas que fizeram a mesma cousa, mas para servir a alguma dama.
Tenho sido confidente de homens respeitáveis...
-Justamente!
interrompeu Rubião.
Não
entendera nada; posto soubesse algum francês, mal o compreendia
lido,-como sabemos,- e não o entendia falado. Mas, fenômeno
curioso, não respondeu por impostura; ouviu as palavras,
como se fossem cumprimento ou aclamação; e, ainda
mais curioso fenômeno, respondendo-lhe em português,
cuidava falar francês.
-Justamente!
repetiu. Quero restituir a cara ao tipo anterior; é aquele.
E, como apontasse
para o busto de Napoleão III, respondeu-lhe o barbeiro pela
nossa língua
-Ah! o imperador!
Bonito busto, em verdade. Obra fina. 0 senhor comprou isto aqui
ou mandou vir de Paris? São magníficos. Lá
está o primeiro, o grande; este era um gênio. Se não
fosse a traição, oh! os traidores, vê o senhor?
os- traidores são piores que as bombas de Orsini.
-Orsini! um
coitado!
-Pagou caro.
-Pagou o que
devia. Mas não há bombas nem Orsini contra o destino
de um grande homem, continuou Rubião. Quando a fortuna de
uma nação põe na cabeça de um grande
homem a coroa imperial, não há maldades que valham...
Orsini! um bobo!
Em poucos minutos,
começou o barbeiro a deitar abaixo as barbas de Rubião,
para lhe deixar somente a pera e os bigodes de Napoleão III;
encarecia-lhe o trabalho; afirmava que era difícil compor
exatamente uma cousa como a outra. E à medida que lhe cortava
as barbas, ia-as gabando-Que lindos fios! Era um grande e honesto
sacrifício que fazia, em verdade...
-"Seu"
barbeiro, você é pernóstico, interrompeu Rubião.
Já lhe disse o que quero; ponha-me a cara como estava. Ali
tem o busto para guiá-lo.
-Sim, senhor,
cumprirei as suas ordens, e verá que semelhança vai
sair.
E zás,
zás, deu os últimos golpes às barbas de Rubião,
e começou a rapar-lhe as faces e os queixos. Durou longo
tempo a operação, o barbeiro ia tranqüilamente
rapando, comparando, dividindo os olhos entre o busto e o homem.
Às vezes, para melhor cotejá-los, recuava dous passos,
olhava-os alternadamente, inclinava-se, pedia ao homem que se virasse
de um lado ou de outro, e ia ver o lado correspondente do busto.
-Vai bem? perguntava
Rubião.
Lucien pedia-lhe
com um gesto que se calasse, e prosseguia. Recortou a pera, deixou
os bigodes, e escanhoou à vontade, lentamente, amigamente,
aborrecidamente, adivinhando com os dedos alguma pontinha imperceptível
de cabelo no queixo ou na face. As vezes Rubião, cansado
de estar a olhar para o tecto, enquanto o outro lhe aperfeiçoava
os queixos, pedia para descansar. Descansando, apalpava o rosto
e sentia pelo tacto a mudança.
-Os bigodes
é que não estão muito compridos, observava.
-Falta arranjar-lhes
as guiasaqui trago os ferrinhos para encurvá-los bem sobre
o lábio, e depois faremos as guias. Ah! eu pre6ro compor
dez trabalhos originais a uma só cópia.
Volveram ainda
dez minutos, antes que os bigodes e a pera fossem bem retocados.
Enfim, pronto, Rubião deu um salto, correu ao espelho, no
quarto, que ficava ao pé; era o outro, eram ambos, era ele
mesmo, em suma.
-Justamente!
exclamou tornando ao gabinete, onde o barbeiro, tendo arrecadado
os aparelhos, fazia festas ao Quincas Borba.
E indo à
secretária, abriu uma gaveta, tirou uma nota de vinte mil-réis,
e deu-lha.
-Não
tenho troco, disse o outro.
-Não
precisa dar troco, acudiu Rubião com um gesto soberano; tire
o que houver de pagar à casa, e o resto é seu.
CAPÍTULO
CXLVII
FICANDO SÓ,
Rubião atirou-se a uma poltrona, e viu passar muitas cousas
suntuosas. Estava em Biarritz ou Compiègne, não se
sabe bem; Compiègne, parece. Governou um grande Estado, ouviu
ministros e embaixadores, dançou, jantou,-e assim outras
ações narradas em correspondências de jornais,
que ele lera e lhe ficaram de memória. Nem os ganidos de
Quincas Borba logravam espertá-lo. Estava longe e alto. Compiègne
era no caminho da lua. Em marcha para a lua!
CAPÍTULO
CXLVIII
QUANDO DESCEU
DA LUA, ouviu os ganidos do cachorro e sentiu frio nos queixos.
Correu ao espelho e verificou que a diferença entre a cara
barbada e a cara lisa era grande mas que, assim lisa, não
Ihe ficava mal. Os comensais chegaram à mesma conclusão.
- Está
perfeitamente bem! Há muito que devia ter feito isso. Não
é que as barbas grandes lhe tirassem a nobreza do rosto;
mas, assim como está agora, tem o que tinha, e mais um tom
moderno...
-Moderno, repetiu
o anfitrião.
Fora, igual
espanto. Todos achavam sinceramente que este outro aspecto lhe ia
melhor que o anterior. Uma só pessoa, o Dr. Camacho, posto
julgasse que os bigodes e a pera ficavam muito bem ao amigo, ponderou
que era de bom aviso não alterar o rosto, verdadeiro espelho
da alma, cuja firmeza e constância devia reproduzir
-Não
é por lhe falar de mim, concluiu; mas, nunca me há
de ver a cara de outro modo. t uma necessidade moral da minha pessoa.
Minha vida, sacrificada aos princípios,-porque eu nunca tentei
conciliar princípios, mas homens,-minha vida, digo, uma imagem
fiel da minha cara, e vice-versa.
Rubião
ouvia com seriedade, e acenava de cabeça que sim, que devia
ser assim por força. Sentia-se então imperador dos
franceses incógnito, de passeio; descendo à rua, voltou
ao que era. Dante, que viu tantas cousas extraordinárias,
afirma ter assistido no inferno ao castigo de um espírito
florentino, que uma serpente de seis pés abraçou de
tal modo, e tão confundidos ficaram, que afinal já
se não podia distinguir bem se era um ente único,
se dous. Rubião era ainda dous. Não se misturavam
nele a própria pessoa com o imperador dos franceses. Revezavam-se;
chegavam a esquecer-se um do outro. Quando era só Rubião,
não passava do homem do costume Quando subia a imperador,
era só imperador. Equilibravam-se, um sem outro, ambos integrais.
CAPÍTULO
CXLIX
-QUE MUDANÇA
É ESSA? perguntou Sofia, quando ele lhe apareceu no fim da
semana.
-Vim saber
do seu joelho; está bom?
-Obrigada.
Eram duas horas
da tarde. Sofia acabava de vestir-se para sair quando a criada lhe
fora dizer que estava ali Rubião,-tão mudado de cara
que parecia outro. Desceu a vê-lo curiosa; achara-o na sala,
de pé, lendo os cartões de visita.
- Mas que mudança
é essa? repetiu ela.
Rubião,
sem nenhum sentimento imperial. respondeu que supunha ficarem-lhe
melhor os bigodes e a pera.
-Ou estou mais
feio? concluiu.
-Está
melhor, muito melhor.
E Sofia disse
consigo que talvez fosse ela a causa da mudança
Sentou-se no
sofá, e começou a enfiar os dedos nas luvas..
-Vai sair?
-Vou, mas o
carro ainda não veio.
Caiu-lhe uma
das luvas. Rubião inclinou-se para apanhá-la, ela
fez a mesma cousa, ambos pegaram na luva, e teimando em levantá-la
sucedeu que as caras encontraram-se no ar, o nariz dela bateu no
dele; e as bocas ficaram intactas para rir, como riram.
-Machuquei-a?
-Não!
eu é que lhe pergunto. ..
E riram outra
vez. Sofia calçou a luva, Rubião fitou-lhe um pé
que se mexia disfarçadamente, até que o criado veio
dizer que a carruagem chegara. Ergueram-se, e ainda uma vez riram.
CAPÍTULO
CL
TESO, DESCOBERTO,
o lacaio abriu a portinhola do coupé, quando Sofia assomou
à porta. Rubião ofereceu a mão para ajudá-la
a entrar, ela aceitou o obséquio e entrou.
-Agora, até...
Não
pôde acabar a frase; Rubião entrara após ela
e sentara-se-lhe ao lado; o lacaio fechou a portinhola, trepou à
almofada, e o carro partiu.
CAPÍTULO
CLI
TÃO
RÁPIDO FOI TUDO, que Sofia perdeu a voz e o movimento; mas,
ao cabo de alguns segundos
-Que é
isto?... Sr. Rubião, mande parar o carro.
-Parar? Mas
a senhora não me disse que ia sair e esperava por ele?
-Não
ia sair com o senhor. . . Não vê que. . . Mande parar.
. .
Desatinada,
quis ordenar ao cocheiro que parasse; mas o receio de um possível
escândalo fê-la deter-se a meio caminho. O coupé
entrara na Rua Bela da Princesa. Sofia novamente pediu a Rubião
que advertisse na inconveniência de irem assim, à vista
de Deus e de todo mundo. Rubião respeitou o escrúpulo,
e propôs que descessem as cortinas.
-Eu acho que
não faz mal que nos vejam, explicou Rubião; mas, fechando
as cortinas, ninguém nos vê. Se quer?
Sem aguardar
resposta, desceu as cortinas de um e outro lado, e ficaram os dous
a sós, porque, se de dentro podiam ver uma ou outra pessoa
que passasse, de fora ninguém os via. Sós, completamente
sós, como naquele dia em que às mesmas duas horas
da tarde, em casa dela, Rubião lhe lançou em rosto
os seus desesperos. Lá, ao menos, a moça estava livre;
aqui, dentro do carro fechado, não podia calcular as conseqüências.
Rubião,
entretanto, acomodara as pernas e não dizia nada.
CAPÍTULO
CLII
SOFIA ENCOLHERA-
SE muito ao canto. Podia ser estranheza da situação,
podia ser medo, mas era principalmente repugnância. Nunca
esse homem lhe fez sentir tanta aversão, asco, ou outra cousa
menos dura, se querem, mas que se reduzia à incompatibilidade,-como
direi que não agrave os ouvidos?a incompatibilidade da epiderme.
Onde iam os
sonhos de há poucos dias? Ao simples convite de um passeio,
a sós, à Tijuca, subiu com ele a montanha, a galope,
desmontou, ouviu palavras de adoração, e sentiu um
beijo na nuca. Onde iam essas imaginações? Onde iam
os olhos fixos e grandes, as mãos amigas e longas, os pés
inquietos, as palavras meigas e os ouvidos cheios de misericórdia?
Tudo esqueceu, tudo desapareceu, agora que ambos se achavam deveras
sós, insulados pelo carro e pelo escândalo. E os cavalos
continuavam a andar, sacudindo as patas, arrastando lentamente o
carro, pelas pedras da Rua Bela da Princesa. Que faria ela chegando
ao Catete? Iria à cidade com ele? Pensou em seguir para a
casa de alguma amiga, deixá-lo-ia dentro, diria ao cocheiro
que se fosse embora. Contaria tudo ao marido. No meio daquela agonia,
atravessaram-lhe o cérebro algumas memórias banais
o estranhas à situação, como a notícia
de um roubo de jóias lida de manhã nos jornais, a
ventania da véspera, um chapéu. Afinal fixou-se em
um só cuidado. Que lhe ia dizer o Rubião? Viu que
ele continuava a olhar para a frente, calado, com o castão
da bengala no queixo. Não lhe ficava mal a atitude, tranqüila,
séria, quase indiferente; mas então para que se meteu
no carro? Sofia quis romper o silêncio; por duas vezes moveu
nervosamente as mãos; quase que a irritou a quietação
do homem, cuja ação só podia ser explicada
pela paixão antiga e violenta. Depois, imaginou que ele próprio
estaria arrependido, e disse-lho em bons termos.
-Não
vejo que me possa arrepender de cousa nenhuma, acudiu ele, voltando-se.
Quando a senhora disse que era mau irmos assim, à vista do
público, abaixei as cortinas. Não concordei, mas obedeci
-Chegamos ao
Catete, atalhou ela; quer que o leve a casa? Não podemos
ir juntos para a cidade.
-Podemos andar
à toa.
-Como?
-A toa, os
cavalos vão andando e nós vamos conversando, sem que
nos ouçam nem adivinhem...
-Pelo amor
de Deus! não me fale assim; deixe-me, saia do carro, ou eu
saio aqui mesmo, e o senhor toma conta dele. Que que quer dizer?
Bastam poucos minutos... Olhe, já dobramos para o lado da
cidade; mande ir para Botafogo, vou deixá-lo à porta
de casa . . .
-Mas eu saí
há pouco de casa, vou para a cidade. Que mal há em
levar-me até lá? Se é para que não nos
vejam, apeio-me, em qualquer lugar, -na Praia de Santa Luzia, por
exemplo,-do lado do mar...
-O melhor é
descer aqui mesmo.
-Mas por que
não iremos até à cidade?
-Não,
não pode ser. Peço-lhe por tudo que lhe for mais sagrado!
Não faça escândalo. vamos, diga-me o que é
preciso para obter uma cousa tão simples? Quer que me ajoelhe
aqui mesmo?
Apesar da estreiteza
do espaço, ia dobrando os joelhos; mas Rubião deu-se
pressa em fazê-la sentar-se outra vez.
-Não é preciso que se ajoelhe, disse com brandura.
-Obrigada;
peço-lhe então por Deus, por sua mãe, que está
no céu...
-Deve estar
no céu, confirmou Rubião. Era uma santa senhora! As
mães são sempre boas; mas daquela, ninguém
que a conheceu poderá dizer outra cousa senão que
era uma santa. E prendada, como pousas. Que dona de casa! Hóspedes,
para ela, tanto fazia cinco como cinqüenta, era a mesma cousa,
cuidava de tudo a tempo e a hora, e criou fama. Os escravos davam-lhe
o nome de Sinhá Mãe, porque era realmente, mãe
para todos. Deve estar no céu!
-Bem, bem,
atalhou Sofia. Pois faça-me isto por amor de sua mãe;
faz?
-Isto quê?
-Apear-se aqui
mesmo.
-E ir a pé
para a cidade? Não posso. É cisma sua; ninguém
nos vê. E depois estes seus cavalos são magníficos.
Já reparou como atiram as patas, lentamente, plás...
plás... plás... plás...
Cansada de
pedir, Sofia calou-se, cruzou os braços e coseu-se ainda
mais, se era possível, ao cantinho do carro.
-Agora me lembro,
pensou ela; mando parar à porta do armazém do Cristiano;
digo-lhe o modo por que este homem se introduziu no coupé,
os pedidos que lhe fiz e as respostas que me deu. Antes isso que
fazê-lo apear misteriosamente em qualquer rua.
Entretanto,
Rubião estava quieto. De vez em quando, volvia no dedo o
anel de brilhante,-um solitário esplêndido. Não
olhava para ela, não lhe dizia nem pedia nada. Iam como um
casal de aborrecidos. Sofia começava a não entender
que razão o teria levado a entrar no carro. Necessidade de
transporte não podia ser. Vaidade, também não;
fechara as cortinas, à sua primeira queixa de publicidade.
Nenhuma palavra amorosa, uma alusão remota que fosse, a medo,
cheia de veneração e súplica. Era um inexplicável,
um monstro.
CAPÍTULO
CLIII
-SOFIA... disse
de repente Rubião; e continuou com pausa- Sofia, os dias
passam, mas nenhum homem esquece a mulher que verdadeiramente gostou
dele, ou então não merece o nome de homem. Os nossos
amores não serão esquecidos nunca,-por mim, está
claro, e estou certo que nem por ti. Tudo me deste, Sofia; a tua
própria vida correu perigo. Verdade que eu te vingaria, minha
bela. Se a vingança pode alegrar os mortos, terias o maior
prazer possível. Felizmente, o meu destino protegeu-nos,
e pudemos amar sem peias nem sangue...
A moça olhava espantada.
-Não
te espantes, continuou ele; não nos vamos separar; não,
não te falo de separação. Não me digas
que morrerias; sei que havias de chorar muitas lágrimas.
Eu não,-que não vim ao mundo para chorar,-mas nem
por isso a minha dor seria menor; ao contrário, as dores
guardadas no coração doem mais que as outras. Lágrimas
são boas porque a pessoa desabafa. Querida amiga, falo-te
assim, porque é preciso termos cautela; a nossa insaciável
paixão pode esquecer esta necessidade. Temos facilitado muito,
Sofia; como nascemos um para o outro, parece-nos que estamos casados,
e facilitamos. Ouve, querida, ouve, alma da minha alma... A vida
é bela! A vida é grande! a vida é sublime!
Contigo, porém, que nome haverá que lhe possa dar?
Lembras-te da nossa primeira entrevista?
Rubião
disse esta última palavra, querendo pegar-lhe na mão.
Sofia recuou a tempo; estava desorientada, não entendia e
tinha medo . A voz dele crescia, o cocheiro podia ouvir alguma cousa...
uma suspeita a abaloutalvez o intento de Rubião fosse justamento
fazer-se ouvir, para obrigá-la pelo terror,-ou então
para que a abocanhassem. Teve ímpeto de atirar-se a ele,
gritar que lhe acudissem, e salvar-se pelo escândalo.
Ele baixinho,
depois de curta pausa
-A mim lembra-me,
como se fosse ontem. Tu chegaste de carro, não era este;
era um carro de praça, uma caleça. Desceste medrosa,
com o véu pela cara; tremias como varas verdes... Mas os
meus braços te ampararam... O sol daquele dia devia ter parado,
como quando obedeceu a Josué... E contudo, minha flor, aquelas
horas foram compridas como diabo, não sei por que; a rigor,
deviam ser curtas. Era talvez porque a nossa paixão não
acabava mais, não acabou, nem há de acabar nunca...
Em compensação,
não vimos mais o sol; ia caindo para o outro lado das montanhas
quando minha Sofia, ainda medrosa, saiu para a rua, e pegou de outra
caleça. Outra ou a mesma? Creio que foi a mesma. Não
imaginas como fiquei; parecia tonto, beijei tudo em que havias tocado;
cheguei a beijar a soleira da porta. Creio que já te contei
isto. A soleira da porta. E estive quase a ir de rastos, beijar
os degraus da escada. . . Não o fiz, recolhi-me, fechei-me
para que se não perdesse o teu cheiro; violeta, se bem me
recordo...
Não,
não era possível que o intuito de Rubião fosse
fazer crer ao cocheiro uma aventura mentirosa. A voz era tão
sumida que Sofia mal podia escutá-la mas, se lhe custava
entender as palavras, não chegava a compreender o sentido
delas. A que vinha aquela história não sucedida? Quem
quer que a ouvisse, aceitaria tudo por verdade, tal era a nota sincera,
a meiguice dos termos e a verossimilhança dos pormenores.
E ele continuou suspirando as belas reminiscências . . .
-Mas que caçoada
é essa? atalhou finamente Sofia.
Não
lhe respondeu o nosso amigo;-tinha a imagem diante dos olhos, não
ouviu a pergunta, e foi andando. Citou-lhe um concerto de Gottschalk.
O divino pianista melodiava ao piano; eles ouviam, mas o demônio
da música levou os olhos de um para outro, e ambos esqueceram
o resto. Quando a música cessou, as palmas romperam, e eles
acordaram. Ai tristes! acordaram com o olhar do Palha em cima deles,
um olho de onça brava. Nessa noite cuidou que ele a matasse.
-Senhor Rubião...
-Napoleão,
não; chama-me Luís. Sou o teu Luís, não
é verdade, galante criatura? Teu, teu. .. Chama-me teu; o
teu Luís, o teu querido Luís. Ai, se tu soubesses
o gosto que me dás quando te ouço essas duas palavras"Meu
Luís!" Tu és a minha Sofia,-a doce, a mimosa
Sofia da minha alma. Não percamos estes momentos; vamos dizer
nomes ternos- mas, baixo, baixinho, para que os malandros da almofada
do carro não escutem. Para que há de haver cocheiros
neste mundo? Se o carro andasse por si, a gente falava à
vontade, e iria ao fim da Terra.
Já então
iam costeando o Passeio Público; Sofia não deu por
isso. olhava fixamente para Rubião; não podia ser
cálculo de perverso, nem lhe atribuía mofa. . . Delírio,
sim, é o que era; tinha a sinceridade da palavra, como pessoa
que vê ou viu realmente as coisas que relata.
"É
preciso pô-lo fora daqui", pensou a moça. E aparelhando-se
de coragem-Onde estaremos nós? perguntou-lhe. É ocasião
de separar-nos. Veja do lado de lá; onde estamos? Parece
que é o convento; estamos no Largo da Ajuda. Diga ao cocheiro
que pare; ou, se quer, pode apear-se no Largo da Carioca. Meu marido.
. .
-Vou nomeá-lo
embaixador, disse Rubião. Ou senador, se quiser. Senador
é melhor; ficam os dous aqui. Embaixador que fosse, não
consentiria que tu o acompanhasses, e as más línguas...
Tu sabes a oposição que sofro, as calúnias.
. . Ah! ruim gente! Convento da Ajuda, disseste? Que tens tu com
ele? Queres ser freira?
-Não;
digo que já passamos o convento da Ajuda. Vou deixá-lo
no Largo da Carioca. Ou vamos até o armazém de meu
marido?
Sofia tornou
a apegar-se ao segundo alvitre; não se faria suspeita ao
cocheiro, provaria melhor a sua inocência ao Palha, narrando-lhe
tudo, desde a entrada inesperada no carro até o delírio.
E que delírio era esse? Sofia pensou que o motivo podia ser
ela própria, e esta conjetura fê-la sorrir de piedade.
-Para quê?
disse Rubião. Vou apear-me aqui mesmo, é mais seguro.
Para que há de ele desconfiar de nós e maltratar-te?
Posso castigá-lo, mas sempre me ficaria o remorso do mal
que ele te causaria. Não, linda flor amiga; o vento que se
atrevesse a tocar em tua pessoa, acredita que eu mandaria pôr
fora do espaço, como um vento indigno. Tu ainda não
conheces bem o meu poder, Sofia; anda, confessa.
Como Sofia
não confessasse nada, Rubião chamou-lhe de bonita,
e ofereceu-lhe o solitário que tinha no dedo; ela, porém,
conquanto amasse as jóias e tivesse a intuição
dos solitários, recusou medrosamente a oferta.
-Compreendo
o escrúpulo, disse ele; mas não perdes por isso, porque
hás de receber outra pedra ainda mais bela, e pela mão
de teu marido. Far-te-ei duquesa. Ouviste? O título é
dado a ele, mas é que és a causa. Duque. . . Duque
de quê? Vou ver um título bonito; ou então escolhe
tu mesma, porque é para ti, não é para ele,
é para ti, minha mimosa. Não é preciso escolher
já, vai para casa e pensa. Não te vexes; manda-me
dizer o que achares mais bonito, e faço lavrar imediatamente
o decreto. Também podes fazer outra cousaescolhe, e diz-me
no nosso primeiro encontro, no lugar do costume. Quero ser o primeiro
que te chame duquesa. Querida duquesa... O decreto virá depois.
Duquesa da minha alma!
-Sim, sim,
disse ela desvairadamente, mas avisemos o cocheiro que nos leve
até a casa de Cristiano.
-Não,
apeio-me aqui... Pára! pára!
Rubião
ergueu as cortinas, e o lacaio veio abrir a portinhola. Sofia, para
tirar toda a suspeita a este, pediu novamente ao Rubião que
fosse com ela à casa do marido; disse-lhe que este precisava
falar-lhe com urgência. Rubião olhou um pouco espantado
para ela, para o lacaio e para a rua; e respondeu que não,
que iria depois.