Quincas Borba
Machado de Assis
CAPÍTULO CXX
No Domingo seguinte, D. Fernanda foi à igreja de Santo Antônio
dos Pobres. Acabada a missa, viu surgir do movimento dos fiéis
que se cumprimentavam entre si, ou saudavam o altar, nada menos
que o primo, erecto, risonho, gravemente trajado, estendendo-lhe
a mão.
-Veio também
à missa? perguntou espantada.
-Vim.
-Vem sempre?
-Nem sempre,
muitas vezes.
-Francamente,
não esperava tanta devoção em você. Os
homens são, em geral, uns ímpios. Teófilo não
pisa na igreja, a não ser para batizar os filhos. Você
então é religioso?
-Não
posso responder com certeza; mas tenho horror à banalidade.
que é dizer mal da religião. E basta; vim à
missa, não vim confessar-me; agora vou conduzi-la a casa,
e, se me oferecer almoço, almoçarei com vocês.
Salvo se quiserem vir almoçar comigo; é nesta rua,
como sabe.
-Iria eu só,
se pudesse ser. para lhe dar uma notícia muito comprida.
-Vamos então
devagar, disse Carlos Maria à porta da igreja, oferecendo-lhe
o braço. E dous passos adiante-Notícia importante?
-Importante
e deliciosa.
-Querem ver
que Deus, sempre misericordioso, vai levar para si o nosso querido
Teófilo, deixando aqui ao desamparo a mais gentil de todas
as viúvas. . . Não precisa fazer essa cara, prima;
deixe estar o braço. Vamos à notícia. Chegou
a moça de Pelotas, aposto?
-Não
direi o que é, se você me não jurar ouvir seriamente.
-Seriamente.
D. Fernanda
confessou-lhe que hesitava em casá-lo com a patrícia
de Pelotas; não queria remorsos; descobrira aqui alguém
que tinha ao primo um imenso amor. Carlos Maria sorriu, iniciou
um gracejo, mas a notícia esporeou-lhe o espírito.
Imenso amor? Imenso amor, paixão violenta, confirmou a prima,
acrescentando que talvez a definição já não
coubesse bem ao atual sentimento da pessoa. Agora era uma adoração
quieta e calada. Tinha chorado por ele noites e noites, enquanto
as esperanças lhe duraram... E D. Fernanda foi assim repetindo
a confidência de Maria Benedita. Restava só o nome;
Carlos Maria quis sabê-lo, ela negou-lho. Não podia
revelá-lo. Para que dar-lhe o gosto de saber quem era que
o adorava, se não corria ao encontro da alma dela? Melhor
era deixá-lo no mistério. Já não chorava
agora; modesta e desambiciosa, perdera as esperanças de ser
amada, e com o tempo ficou apenas uma devota, mas uma devota sem-par,
que nem sequer esperava ser ouvida ou agraciada um dia por um olhar
benévolo do seu deus querido.
-Prima, você...
-Eu quê?...
Carlos Maria
concluiu dizendo que a advogada era digna da causa. Realmente, se
essa moça o adorava a tal ponto, era justo e natural que
a prima se interessasse por ela com tanto calor. Mas por que r,
dizer o nome?
-Agora não
digo; pode ser que algum dia. . . Mas, você compreende que
me custaria muito casá-lo com a minha patrícia, sabendo
que outra pessoa o ama tanto. E daí bem pode ser que esta
de cá não padeça muito, se o vir casado. Sim,
senhor, parece absurdo, mas e preciso conhecê-la; digo que,
uma vez que você seja feliz, é capaz de abençoar
a bela rival.
-Já
não é romantismo, é misticismo, redargüiu
Carlos Maria de pois de alguns passos, com os olhos no chão.
Não está nas cordas do nosso tempo. Tem alguma prova
de semelhante estado da alma.
-Tenho... A
sua casa é aquela, não? perguntou D. Fernanda parando.
-É.
-Bonito prédio,
e sólido.
-Muito sólido.
-Uma, duas,
três, quatro. . . Sete janelas. O salão vai de ponta
a ponta? Bem bom para um baile.
E andando
-Eu, se tivesse
aqui uma casa maior que a minha, daria um grande baile, antes de
voltar para o Rio Grande. Gosto de festas Os meus dous filhos não
me dão grande trabalho. A propósito, ande com vontade
de meter o Lopo no colégio; onde acharei um bom colégio?
Carlos Maria
pensava na devota incógnita. Estava longe, muito longe do
ensino e seus estabelecimentos. Que bom que era sentir-se um deus
adorado, e adorado à maneira evangélica, metida a
devota no aposento, fechada a porta, em secreto, não nas
sinagogas, à vista de todos. "E teu pai que vê
o que se passa em secreto te dará a paga" Oh! ele daria
a paga, se soubesse quem era. Casada, seria? Não, não
podia ser. não iria confessá-lo a ninguém;
viúva ou solteira, antes solteira. Cheirava-lhe a solteira.
Em que aposento se fechava para rezar, para evocá-lo, chorá-lo
e abençoá-lo? Já nem teimava pelo nome; mas
o aposento, ao menos.
-Onde acharei
um bom colégio? repetiu D. Fernanda.
-Colégio?
Não sei; estou pensando na desconhecida. Compreende bem que
uma pessoa que me adora, em silêncio, sem esperanças,
é objeto de alguma atenção. Alta ou baixa?
-Maria Benedita.
Carlos Maria
estacou o passo.
-Aquela moça?...
Não é possível. Tenho-lhe falado muitas vezes,
e nunca descobri nada. Achei-a sempre fria. Há de ser engano
Ouviu-lhe o meu nome?
- Não,
por mais que lhe pedisse. Confessou o milagre, sem nomear o santo,
mas que milagre! Gabe-se de ser adorado como ninguém... De
quem é aquela casa?
-Você
costuma exagerar as cousas, prima, pode não ser tanto. Adorado
como ninguém? E de que modo soube que era eu?
-Teófilo
foi o primeiro que descobriu- ela, dizendo-se-lhe isto ficou como
uma pitanga. Negou-o ainda depois, comigo; e desde esse dia não
voltou lá a casa.
Tal foi o início
dos amores. Carlos Maria folgou de se ver assim amado em silêncio,
e toda a prevenção se converteu em simpatia. Começou
a vê-la, saboreou a confusão da moça, os medos,
a alegria, a modéstia, as atitudes quase implorativas, um
composto de atos e sentimentos que eram a apoteose do homem amado.
Tal foi o início, tal o desfecho. Assim os vimos, naquela
noite dos anos de D. Sofia, a quem ele dissera antes cousas tão
doces. São assim os homens; as águas que passam, e
os ventos que rugem não são outra cousa.
CAPÍTULO CXXI
"BEM, VAI CASAR, tanto melhor! pensou Rubião.
Entre aquela
noite e o dia do casamento, Rubião apanhou no ar algumas
olhadas de Sofia, suspeitas de tentação; Carlos Maria,
se lhe correspondeu, foi antes por polidez que outra cousa. Rubião
concluiu que o caso era fortuito; lembrava-se ainda da lágrima
de Sofia, na noite dos anos, quando lhe explicou a história
da carta.
Oh! boa lágrima
inesperada! Tu, que bastaste a persuadir um homem, podes não
ser explicável a outros, e assim vai o mundo. Que importa
que os olhos não fossem costumados ao choro, nem que a noite
parecesse exaltar sentimentos mui diversos da melancolia? Rubião
a viu cair; ainda agora a vê de memória. Mas a confiança
de Rubião não vinha só da lágrima, vinha
também da presente Sofia, que nunca fora tão solícita
nem tão dada com ele. Parecia arrependida de todo o mal causado,
prestes a saná-lo, ou por afeição tardia, ou
pelo próprio malogro da primeira aventura. Há delitos
virtuais, que dormem. Há óperas remissas na cabeça
de um maestro, que só esperam os primeiros compassos da inspiração.
CAPÍTULO CXXII
"AINDA BEM que se casa!" repetiu o Rubião.
Não
se demorou o casamentotrês semanas. Na manhã do dia
aprazado. Carlos Maria abriu os olhos com algum espanto. Era ele
mesmo que ia casar? Não havia dúvida; mirou-se ao
espelho, era ele. Relembrou os últimos dias, a marcha rápida
dos sucessos, a realidade da afeição que tinha à
noiva, e, enfim, a felicidade pura que lhe ia dar. Esta derradeira
idéia enchia-o de grande e rara satisfação.
Ia-as ruminando inda, a cavalo, no passeio habitual da manhã;
desta vez escolhera o bairro do Engenho Velho.
Posto se achasse
costumado aos olhos admirativos, via agora em toda a gente um aspecto
parecido com a notícia de que ele ia casar. As casuarinas
de uma chácara, quietas antes que ele passasse por elas,
disseram-lhe cousas mui particulares, que os levianos atribuiriam
à aragem que passava também, mas que os sapientes
reconheceriam ser nada menos que a linguagem nupcial das casuarinas.
Pássaros saltavam de um lado para outro, pipilando um madrigal.
Um casal de borboletas,-que os japões têm por símbolo
da fidelidade, por observarem que, se pousam de flor em flor, andam
quase sempre aos pares,-um casal delas acompanhou por muito tempo
o passo do cavalo, indo pela cerca de uma chácara que beirava
o caminho volteando aqui e ali, lépidas e amarelas. De envolta
com isto, um ar fresco, céu azul, caras alegres de homens
montados em burros, pescoços estendidos pela janela fora
das diligências, para vê-lo e ao seu garbo de noivo.
Certo, era difícil crer que todos aqueles gestos s atitudes
da gente, dos bichos e das árvores, exprimissem outro sentimento
que não fosse a homenagem nupcial da natureza.
As borboletas
perderam-se em uma das moitas mais densas da cerca. Seguiu-se outra
chácara, despida de árvores, portão aberto
e ao fundo, fronteando com o portão, uma casa velha, que
encarquilhava os olhos sob a forma de cinco janelas de peitoril,
cansadas de perder moradores. Também elas tinham visto bodas
e festins; o século ainda as achou verdes de novidade e de
esperança.
Não
cuideis que esse aspecto contristou a alma do cavaleiro. Ao contrário,
ele possuía o dom particular de remoçar as ruínas
e viver da vida primitiva das cousas. Gostou até de ver a
casa velhusca desbotada, em contraste com as borboletas tão
vivas de há pouco arou o cavalo; evocou as mulheres que por
ali entraram, outras galas, outros rostos, outras maneiras. Porventura
as próprias sombras das pessoas felizes e extintas vinham
agora cumprimentá-lo também, dizendo-lhe pela boca
invisível todos os nomes sublimes que pensavam dele. Chegou
a ouvi-las e sorrir. Mas uma voz estrídula veio mesclar-se
ao concerto;-um papagaio, em gaiola pendente da parede externa da
casa"Papagaio real, para Portugal; quem passa? Currupá,
papá. Grrr. . . Grrr. . ." As sombras fugiram, o cavalo
foi andando, Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o
macaco, duas contrafações da pessoa humana, dizia
ele.
"A felicidade
que eu lhe der será assim também interrompida?"
reflexionou andando.
Cambaxirras
voaram de um para outro lado da rua, e pousaram cantando a sua língua
própria; foi uma reparação. Essa língua
sem palavras era inteligível, dizia uma porção
de cousas claras e belas. Carlos Maria chegou a ver naquilo um símbolo
de si mesmo. Quando a mulher, aturdida dos papagaios do mundo, viesse
caindo de fastio a ele a faria erguer aos trilos da passarada divina,
que trazia em si idéias de ouro, ditas por uma voz de ouro.
Oh! como a tornaria feliz! Já a antevia ajoelhada, com os
braços postos nos seus joelhos, a cabeça nas mãos
e os olhos nele, gratos, devotos, amorosos, tôda implorativa,
toda nada.
CAPÍTULO CXXIII
ORA BEM, aquele quadro, na mesma hora em que aparecia aos olhos
da imaginação do noivo, reproduzia-se no espírito
da noiva, tal qual.
Maria Benedita,
posta à janela, fitando as ondas que se quebravam ao longe
e na praia, via-se a si mesma, ajoelhada aos pés do marido,
quieta, contrita, como à mesa da comunhão para receber
a hóstia da felicidade. E dizia consigo"Oh! como ele
me fará feliz!" Frase e pensamento eram outros, mas
a atitude e a hora eram as mesmas.
CAPÍTULO CXXIV
CASARAM-SE;
três meses depois foram para a Europa. Ao despedir-se deles,
D. Fernanda estava tão alegre como se viesse recebê-los
de volta; não chorava. O prazer de os ver felizes era maior
que o desgosto da separação.
-Você
vai contente? perguntou a Maria Benedita, pela última vez,
junto à amurada do paquete.
-Oh! muito!
A alma de D.
Fernanda debruçou-se-lhe dos olhos, fresca, ingênua,
cantando um trecho italiano,-porque a soberba guasca preferia a
música italiana,-talvez esta ária da LuciaÓ
bell'alma innamorata. Ou este pedaço do Barbeiro
Ecco ridente
in cielo
Spunta la bela
aurora.
CAPÍTULO CXXV
SOFIA não foi a bordo, adoeceu e mandou o marido. Não
vão crer que era pesar nem dor; por ocasião do casamento,
houve-se com grande discrição, cuidou do enxoval da
noiva e despediu-se dela com muitos beijos chorados. Mas ir a bordo
pareceu-lhe vergonha. Adoeceu; e, para não desmentir do pretexto,
deixou-se estar no quarto. Pegou de um romance recente; fora-lhe
dado pelo Rubião. Outras cousas ali lhe lembravam o mesmo
homem, tetéias de toda a sorte, sem contar jóias guardadas.
Finalmente, uma singular palavra que lhe ouvira, na noite do casamento
da prima, até essa veio ali para o inventário das
recordações do nosso amigo.
-A senhora
é já a rainha de todas, disse-lhe ele em voz baixa;
espere que ainda a farei imperatriz.
Sofia não
pôde entender esta frase enigmática. Quis supor que
era uma aliciação de grandeza para torná-la
sua amante; mas excluiu tal intenção por demasiado
vaidosa. Rubião, posto não fosse agora o mesmo homem
encolhido e tímido de outros tempos, não se mostrava
tão cheio de si que lhe pudesse atribuir tão alta
presunção. Mas que era então a frase? Talvez
um modo figurado de dizer que a amaria ainda mais. Sofia acreditava
possível tudo. Não lhe faltavam galanteios, chegou
a ouvir aquela declaração de Carlos Maria, provavelmente
ouvira outras, a que deu somente a atenção da vaidade.
E todas passaram; Rubião é que persistia. Tinha pausas,
filhas de suspeitas; mas as suspeitas iam como vinham.
"Ele merece
ser amado", leu Sofia na página aberta do romance, quando
ia continuar a leitura; fechou o livro, fechou os olhos, e perdeu-se
em si mesma. A escrava que entrou daí a pouco, trazendo-lhe
um caldo, supôs que a senhora dormia e retirou-se pé
ante pé.
CAPÍTULO CXXVI
ENTRETANTO, Rubião e Palha desciam do paquete para a lancha
e tornavam ao cais Pharoux. Vinham cuidosos e calados. Palha foi
o primeiro que abriu a boca
-Ando há
tempos para dizer-lhe uma cousa importante, Rubião.
CAPÍTULO
CXXVII
RUBIÃO
ACORDOU. Era a primeira vez que ia a um paquete. Voltava com a alma
cheia dos rumores de bordo, a lufa-lufa das gentes que entravam
e saíam, nacionais, estrangeiros, estes de vária casta,
franceses, ingleses, alemães, argentinos, italianos, uma
confusão de línguas, um cafarnaum de chapéus,
de malas, cordoalha, sofás, binóculos a tiracolo,
homens que desciam ou subiam por escadas par dentro do navio, mulheres
chorosas, outras curiosas, outras cheias de riso, e muitas que traziam
de terra flores ou frutas,-tudo aspectos novos. Ao longe, a barra
por onde tinha de ir o paquete. Para lá da barra, o mar imenso,
o céu fechado e a solidão. Rubião renovou os
sonhos do mundo antigo, criou uma Atlântida, sem nada saber
da tradição. Não tendo noções
de geografia, formava uma idéia confusa dos outros países,
e a imaginação rodeava-os de um nimbo misterioso.
Como não lhe custava viajar assim navegou de cor algum tempo,
naquele vapor alto e comprido, sem enjôo, sem vagas, sem ventos,
sem nuvens.
CAPÍTULO CXXVIII
-A MIM? perguntou Rubião depois de alguns segundos.
-A você,
confirmou o Palha. Devia tê-la dito há mais tempo,
mas estas histórias de casamento, de comissão das
Alagoas, etc., atrapalharam-me, e não tive ocasião;
agora, porém, antes do almoço... Você almoça
comigo.
-Sim, mas que
é?
- Uma cousa
importante.
Dizendo isto,
tirou um cigarro, abriu-o, desfiou o fumo com os dedos, enrolou
a palha outra vez, e riscou um fósforo, mas o vento apagou
o fósforo. Então pediu ao Rubião que lhe fizesse
o favor de segurar o chapéu, para poder acender outro. Rubião
obedeceu impaciente. Bem pode ser que o sócio, esticando
a espera, quisesse justamente fazer-lhe crer que se tratava de um
terremoto; a realidade viria a ser um benefício. Puxadas
duas fumaças
-Estou com
meu plano de liquidar o negócio; convidaram-me aí
para uma casa bancária, lugar de diretor, e creio que aceito.
Rubião
respirou.
-Pois sim;
liquidar já?
-Não,
lá para o fim do ano que vem.
-E é
preciso liquidar ?
-Cá
para mim, é. Se a história do banco não fosse
segura, não me animaria a perder o certo pelo duvidoso; mas
seguríssima.
-Então
no fim do ano que vem soltamos os laços que nos prendem .
. .
Palha tossiu.
-Não,
antes, no fim deste ano.
Rubião
não entendeu; mas o sócio explicou-lhe que era útil
desligarem já a sociedade, a fim de que ele sozinho liquidasse
a casa. O banco podia organizar-se mais cedo ou mais tarde; e para
que sujeitar o outro às exigências da ocasião?
Demais, o Dr. Camacho afirmava que, em breve, Rubião estaria
na Câmara, e que a queda do ministério era certa.
-Seja o que
for, concluiu; é sempre melhor desligarmos a sociedade com
tempo. Você não vive do comércio; entrou com
o capital necessário ao negócio,-como podia dá-lo
a outro ou guardá-lo.
-Pois sim,
não tenho dúvida, concordou o Rubião.
E depois de
alguns instantes
-Mas diga-me
uma cousa, essa proposta traz algum motivo oculto? é rompimento
de pessoas, de amizade... Seja franco, diga tudo .
-Que caraminhola
é essa? redargüiu o Palha. Separação de
amizade, de pessoas... Mas você está tonto. Isto é
do balanço do mar. Pois eu, que tenho trabalhado tanto por
você, eu que o faço amigo dos meus amigos, que o trato
como um parente, como um irmão, havia de brigar à
toa? Aquele mesmo casamento de Maria Benedita com o Carlos Maria
devia ser com você, bem sabe, se não fosse a sua recusa.
A gente pode romper um laço sem romper os outros. O contrário
seria despropósito. Então todos os amigos de sociedade
ou de família são sócios de comércio?
E os que não forem comerciantes?
Rubião
achou excelente a razão, e quis abraçar o Palha. Este
apertou-lhe a mão satisfeitíssimo; ia ver-se livre
de um sócio, cuia prodigalidade crescente podia trazer-lhe
algum perigo. A casa estava sólida; era fácil entregar
ao Rubião a parte que lhe pertencesse, menos as dívidas
pessoais e anteriores. Restavam ainda algumas daquelas que o Palha
confessou à mulher, na noite de Santa Teresa, cap. L. Pouco
tinha pago; geralmente era o Rubião que abanava as orelhas
ao assunto. Um dia, o Palha, querendo dar-lhe à força
algum dinheiro, repetiu o velho provérbio"Paga o que
deves, vê o que te fica". Mas o Rubião, gracejando
-Pois não
pagues, e vê se te não fica ainda mais.
-É boa!
redargüiu o Palha rindo e guardando o dinheiro no bolso.
CAPÍTULO CXXIX
NÃO HAVIA BANCO, nem lugar de diretor, nem liquidação;
mas como justificaria o Palha a proposta de separação,
dizendo a pura verdade? Daí a invenção, tanto
mais pronta, quanto o Palha tinha amor aos bancos, e morria por
um. A carreira daquele homem era cada vez mais próspera e
vistosa. O negócio corria-lhe largo; um dos motivos da separação
era justamente não ter que dividir com outros os lucros futuros.
Palha, além do mais, possuía ações de
toda a parte, apólices de ouro do empréstimo Itaboraí,
e fizera uns dous fornecimentos para a guerra, de sociedade com
um poderoso, nos quais ganhou muito. Já trazia apalavrado
um arquiteto para lhe construir um palacete. Vagamente pensava em
baronia.
CAPÍTULO CXXX
-QUEM DRIA que a gente do Palha nos trataria deste modo? Já
não valemos nada. Escusa de os defender...
-Não
defendo, estou explicando; há de ter havido confusão
-Fazer anos,
casar a prima, e nem um triste convite ao major, ao grande major,
ao impagável major, ao velho amigo major. Eram os nomes que
me davam; eu era impagável, amigo velho, grande outros nomes.
Agora, nada, nem um triste convite, um recado de boca, ao menos,
por um moleque"Nhanhã faz anos, ou casa prima, diz que
a casa está às suas ordens, e que vão com luxo.
Não iríamos; luxo não é para nós.
Mas era alguma cousa, era recado, um moleque, ao impagável
major...
-Papai!
Rubião,
vendo a intervenção de D. Tonica, animou-se a defender
longamente a família Palha. Era em casa do major, não
já na Rua Dous de Dezembro, mas na dos Barbonos, modesto
sobradinho. Rubião passava, ele estava à janela, e
chamou-o. D. Tonica não teve tempo de sair da sala, para
dar, ao menos, uma vista d'olhos ao espelho; mal pôde passar
a mão pelo cabelo, compor o laço de fita ao pescoço
e descer o vestido para cobrir os sapatos, que não eram novos.
-Digo-lhe que
pode ter havido confusão, insistiu Rubião; tudo anda
por lá muito atrapalhado com esta comissão das Alagoas.
- Lembra bem,
interrompeu o Major Siqueira; por que não meteram minha filha
na comissão das Alagoas? Qual! Há já muito
que reparo nisto; antigamente não se fazia festa sem nós.
Nós éramos a alma de tudo. De certo tempo para cá
começou a mudança; entraram a receber-nos friamente,
e o marido, se pode esquivar-se, não me cumprimenta. Isto
começou há tempos ; mas antes disso sem nós
é que não se fazia nada. Que está o senhor
a falar de confusão? Pois se na véspera dos anos dela,
já desconfiando que não nos convidariam, fui ter com
ele ao armazém. Poucas palavras, disfarçava Afinal
disse-lhe assim"Ontem, lá em casa, eu e Tonica estivemos
discutindo sobre a data dos anos de D. Sofia; ela dizia que tinha
passado, eu disse que não, que era hoje ou amanhã."
Não me respondeu, fingiu que estava absorvido em uma conta,
chamou o guarda-livros, e pediu explicações. Eu entendi
o bicho, e repeti a história fez a mesma cousa. Saí.
Ora o Palha, um pé-rapado! Já o envergonho. Antigamentemajor,
um brinde. Eu fazia muitos brindes, tinha certo desembaraço.
Jogávamos o voltarete. Agora está nas grandezas; anda
com gente fina. Ah! vaidades deste mundo! Pois não vi outro
dia a mulher dele, num coupé, com outra? A Sofia de coupé!
Fingiu que me não via, mas arranjou os olhos de modo que
percebesse se eu a via, se a admirava. Vaidades desta vida! Quem
nunca comeu azeite, quando come se lambuza.
-Perdão,
mas os trabalhos da comissão exigem certo aparato
-Sim, acudiu
Siqueira, é por isso que minha filha não entrou na
comissão; é para não estragar as carruagens.
..
-Demais, o
coupé podia ser da outra senhora que ia com ela.
O major deu
dous passos, com as mãos atrás, e parou diante de
Rubião.
- Da outra...
ou do Padre Mendes. Como vai o padre? Boa vida, naturalmente.
-Mas, papai,
pode não haver nada, interrompeu D. Tonica. Ela sempre me
trata bem, e quando estive doente no mês passado, mandou saber
pelo moleque, duas vezes.
-Pelo moleque!
bradou o pai. Pelo moleque! Grande favor! "Moleque, vai ali
à casa daquele reformado e pergunta-lhe se a filha tem passado
melhor; não vou, porque estou lustrando as unhas!" Grande
favor! Tu não lustras as unhas! tu trabalhas! tu és
digna filha minha! pobre, mas honesta!
Aqui o major
chorou, mas suspendeu de repente as lagrimas. A filha, comovida,
sentiu-se também vexada. Certo, a casa dizia a pobreza da
família, poucas cadeiras, uma mesa redonda velha, um canapé
gasto; nas paredes duas litografias encaixilhadas e em pinho pintado
de preto, uma era o retrato do major em 1857, a outra representava
o Veronês em Veneza, comprado na Rua do Senhor dos Passos.
Mas o trabalho da filha transparecia em tudo; os móveis reluziam
de asseio, a mesa tinha um pano de crivo, feito por ela, o canapé
uma almofada. E era falso que D. Tonica não lustrasse as
unhas; não teria o pó nem a camurça, mas acudia-lhes
com um retalho de pano todas as manhãs.