Bento Teixeira
Prosopopéia
LXXXIII
Andava
o novo Marte destruindo
Os esquadrões
soberbos Mauritanos,
Quando sem tino
algum viu ir fugindo
Os tímedos
e lassos Lusitanos.
O que de Pura
mágoa não sufrindo
Lhe diz";
- Donde vos is, homens insanos?
Que digo: homens,
estátuas sem sentido,
Pois não
sentis o bem que haveis perdido?
LXXXIV
Olhai
aquele esforço antigo e puro
Dos ínclitos
e fortes Lusitanos,
Da Pátria
e liberdade um firme muro
Verdugo de arrogantes
Mauritanos;
Exemplo singular
pera o futuro
Dictado, e resplandor
de nossos anos,
Subjeito mui
capaz, matéria digna
Da Mantuana
e Homérica Buzina.
LXXXV
Ponde
isto por espelho, por treslado,
Nesta tão
temerária e nova empresa.
Nele vereis
que tendes já manchado
De vossa descendência
a fortaleza.
À batalha
tornai com peito ousado,
Militai sem
receo, nem fraqueza,
Olhai que o
torpe medo é Crocodilo
Que custuma,
a quem foge, persegui-lo.
LXXXVI
E
se o dito a tornar vos não compele,
Vede donde deixais
o Rei sublime?
Que conta haveis
de dar ao Reino dele?
Que desculpa
terá, tão grave crime?
Quem haverá
que por traição não sele
Um mal que tanto
mal no mundo imprime?
Tornai, tornai,
invictos Portugueses,
Cerceai malhas
e fendei arneses.
LXXXVII
"Assim
dirá: mas eles sem respeito
À honra
e ser de seus antepassados
Com pálido
temor no frio peito,
Irão
per várias partes derramados.
Duarte, vendo
neles tal defeito,
Lhe dirá":
- Corações efeminados,
Lá contareis
aos vivos o que vistes,
Porque eu direi
aos mortos que fugistes.
LXXXVIII
"Neste
passo carrega a Maura força
Sobre o Barão
insigne e velicoso;
Ele, onde vê
mais força, ali se esforça,
Mostrando-se
no fim mais animoso.
Mas o fado,
que quer que a razão torça.
O caminho mais
recto e proveitoso,
Fará
que num momento abreviado
Seja captivo,
preso e mal tratado.
LXXXIX
Eis
ambos os irmãos em captiveiro.
De Peitos tão
protervos e obstinados,
Por cópia
inumerável de dinheiro
Serão
(segundo vejo) resgatados.
Mas o resgate
e preço verdadeiro,
Por quem os
homens foram libertados,
Chamará
neste tempo o grão Duarte,
Pera no claro
Olimpo lhe dar parte.
XC
Ó
Alma tão ditosa como pura,
Parte a gozar
dos dotes dessa glória,
Donde terás
a vida tão segura,
Quanto tem de
mudança a transitória!
Goza lá
dessa luz que sempre dura;
No mundo gozarás
da larga história,
Ficando no lustroso
e rico Templo
Da Ninfa Gigantea
por exemplo.
XCI
Mas,
enquanto te dão a sepultura,
Contemplo a
tua Olinda celebrada,
Cuberta de fúnebre
vestidura,
Inculta, sem
feição, descabelada.
Quero-a deixar
chorar morte tão dura
'Té que
seja de Jorge consolada,
Que por ti na
Ulissea fica em pranto,
Em quanto me
disponho a novo Canto.
XCII
Não
mais, esprito meu, que estou cansado,
Deste difuso,
largo e triste Canto,
Que o mais será
de mim depois cantado
Per tal modo,
que cause ao mundo espanto.
Já no
balcão do Ceo o seu toucado
Solta Vênus,
mostrando o rosto Sancto;
Eu tenho respondido
co mandado
Que mandaste
Neptuno sublimado".
XCIII
Assim
diz; e com alta Majestade
O Rei do Salso
Reino, ali falando,
Diz: - Em satisfação
da tempestade
Que mandei a
Albuquerque venerando,
Pretendo que
a mortal Posteridade
Com Himnos o
ande sempre sublimando,
Quando vir que
por ti o foi primeiro,
Com fatídico
esprito verdadeiro.
EPÍLOGO
XCIV
Aqui
deu [fim] a tudo, e brevemente
Entra no Carro
[de] Cristal lustroso;
Após
dele a demais Cerúlea gente
Cortando a vea
vai do Reino acoso.
Eu que a tal
espetáculo presente
Estive, quis
em Verso numeroso
Escrevê-lo
por ver que assim convinha
Pera mais Perfeição
da Musa minha.
-FIM-
Soneto per
ecos, ao mesmo Senhor Jorge d'Albuquerque Coelho
Gran Jorge,
por su ser llamado - Amado,
Querer mi Verso
celebrarte, - Arte
Ni cuanto el
Cielo acá reparte, - Parte
Menor, dirán,
de tu sagrado - Grado;
Por lo que has
con valor sobrado - Obrado,
Se ocupa siempre
en sublimarte - Marte,
Y para en algo
acomodarte, - Darte
Quiso tan alto
y recuestado - Estado;
Tu eres la gloria
y la columna, - Luna
De Lusitania
y refulgente - Gente,
Por quien llamarse
venturosa - Osa;
Y el Cielo que
tal don consiente, - Siente
Que te dio por
suerte oportuna - Una
Señora
excelsa y grandiosa - Diosa.
LAVS DEO
Texto proveniente
de:
Núcleo de Pesquisas em Informática, Literatura e Lingüística
<http://www.cce.ufsc.br/~alckmar/literatura/literat.html>
Universidade Federal de Santa Catarina