Bento Teixeira
Prosopopéia
LIII
Mas
seu intento não porá no fito,
Por mais que
contra mim o Ceo conjure,
Que tudo tem
em fim termo finito,
E o tempo não
há cousa que não cure.
Moverei de Neptuno
o grão districto
Pera que meu
partido mais segure,
E quero ver
no fim desta jornada
Se val a Marte
escudo, lança, espada.
LIV
"Estas
palavras tais, do cruel peito,
Soltará
dos Ciclopes o tirano,
As quais procurará
pôr em efeito,
Às cavernas
descendo do Oceano.
E com mostras
d'amor brando e aceito,
De ti, Neptuno
claro e soberano,
Alcançará
seu fim: o novo jogo,
Entrar no Reino
d'Água o Rei do fogo.
LV
Logo
da Pátria Eólia virão ventos,
Todos como esquadrão
mui bem formado,
Euro, Noto os
Marítimos assentos
Terão
com seu furor demasiado.
Fará
natura vários movimentos,
O seu Caos repetindo
já passado,
De sorte que
os varões fortes e válidos
De medo mostrarão
os rostos pálidos.
LVI
Se
Jorge d'Albuquerque soberano,
Com peito juvenil,
nunca domado,
Vencerá
da Fortuna e Mar insano
A braveza e
rigor inopinado,
Mil vezes o
Argonauta desumano,
Da sede e cruel
fome estimulado,
Urdirá
aos consortes morte dura,
Pera dar-lhes
no ventre sepultura.
LVII
E
vendo o Capitão calificado
Empresa tão
cruel e tão inica,
Per meio mui
secreto, acomodado,
Dela como convém
se certifica.
E, dô
a graça natural ornado,
Os peitos alterados
edifica,
Vencendo, com
Tuliana eloqüência,
Do modo que
direi, tanta demência."
LVIII
-
Companheiros leais, a quem no Coro
Das Musas tem
a fama entronizado,
Não deveis
ignorar, que não ignoro,
Os trabalhos
que haveis no Mar passado.
Respondestes
'te 'gora com o foro,
Devido a nosso
Luso celebrado,
Mostrando-vos
mais firmes contra a sorte
Do que ela contra
nós se mostra forte.
LIX
Vós
de Cila e Caríbdis escapando,
De mil baixos
e sirtes arenosas,
Vindes num lenho
côncavo cortando
As inquietas
ondas espumosas.
Da fome e da
sede o rigor passando,
E outras faltas
em fim dificultosas,
Convém-vos
aquirir ô a força nova,
Que o fim as
cousas examina e prova.
LX
Olhai
o grande gozo e doce glória
Que tereis quando,
postos em descanso,
Contardes esta
larga e triste história,
Junto do pátrio
lar, seguro e manso.
Que vai da batalha
a ter victória,
O que do Mar
inchado a um remanso,
Isso então
haverá de vosso estado
Aos males que
tiverdes já passado.
LXI
Per
perigos cruéis, per casos vários,
Hemos d'entrar
no porto Lusitano,
E suposto que
temos mil contrários
Que se parcialidam
com Vulcano,
De nossa parte
os meios ordinários
Não faltem,
que não falta o Soberano,
Poupai-vos pera
a próspera fortuna,
E, adversa,
não temais por importuna.
LXII
Os
heróicos feitos dos antigos
Tende vivos
e impressos na memória:
Ali vereis esforço
nos perigos,
Ali ordem na
paz, digna de glória.
Ali, com dura
morte de inimigos,
Feita imortal
a vida transitória,
Ali, no mor
quilate de fineza,
Vereis aposentada
a Fortaleza.
LXIII
Agora
escurecer quereis o raio
Destes Barões
tão claros e eminentes,
Tentando dar
princípio e dar ensaio
A cousas temerárias
e indecentes.
Imprimem neste
Peito tal desmaio
Tão graves
e terríbeis acidentes
Que a dor crescida
as forças me quebranta,
E se pega a
voz débil à garganta.
LXIV
De
que servem proezas e façanhas,
E tentar o rigor
da sorte dura?
Que aproveita
correr terras estranhas,
Pois faz um
torpe fim a fama escura?
Que mais torpe
que ver uas entranhas
Humanas dar
a humanos sepultura,
Cousa que a
natureza e lei empede,
E escassamente
às Feras só concede.
LXV
Mas
primeiro crerei que houve Gigantes
De cem mãos,
e da Mãe Terra gerados,
E Quimeras ardentes
e flamantes,
Com outros feros
monstros encantados;
Primeiro que
de peitos tão constantes
Veja sair efeitos
reprovados,
Que não
podem (falando simplesmente)
Nascer trevas
da luz resplandecente.
LXVI
E
se determinais a cega fúria
Executar de
tão feroz intento,
A mim fazei
o mal, a mim a injúria,
Fiquem livres
os mais de tal tormento.
Mas o Senhor
que assiste na alta Cúria
Um mal atalhará
tão violento,
Dando-nos brando
Mar, vento galerno,
Com que vamos
no Minho entrar paterno.
LXVII
"Tais
palavras do peito seu magnânimo
Lançará
o Albuquerque famosíssimo,
Do soldado remisso
e pusilânimo,
Fazendo com
tal práctica fortíssimo.
E assim todos
concordes, e num ânimo,
Vencerão
o furor do Mar bravíssimo,
Até que
já a Fortuna, d'enfadada,
Chegar os deixe
a Pátria desejada.