Poemas
Fagundes Varela
A FLOR DO
MARACUJÁ
Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!
Pelo jasmim,
pelo goivo,
Pelo agreste manacá,
Pelas gotas de sereno
Nas folhas do gravatá,
Pela coroa de espinhos
Da flor do maracujá!
Pelas tranças
de mãe-dágua
Que junto da fonte está,
Pelos colibris que brincam
Nas alvas plumas do ubá,
Pelos cravos desenhados
Na flor do maracujá!
Pelas azuis
borboletas
Que descem do Panamá,
Pelos tesouros ocultos
Nas minas do Sincorá,
Pelas chagas roxeadas
Da flor do maracujá!
Pelo mar, pelo
deserto,
Pelas montanhas, sinhá!
Pelas florestas imensas,
Que falam de Jeová!
Pela lança ensangüentada
Da flor do maracujá!
Por tudo o que
o céu revela,
Por tudo o que a terra dá
Eu te juro que minh'alma
De tua alma escrava está!...
Guarda contigo este emblema
Da flor do maracujá!
Não se
enojem teus ouvidos
De tantas rimas em - á -
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos, ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!
A ROÇA
O balanço da rede, o bom fogo
Sob um teto de humilde sapé;
A palestra, os lundus, a viola,
O cigarro, a modinha, o café;
Um robusto alazão,
mais ligeiro
Do que o vento que vem do sertão,
Negras crinas, olhar de tormenta,
Pés que apenas rastejam no chão;
E depois um
sorrir de roceira,
Meigos gestos, requebros de amor,
Seios nus, braços nus, tranças soltas,
Moles falas, idade de flor;
Beijos dados
sem medo ao ar livre,
Risos francos, alegres serões,
Mil brinquedos no campo ao sol posto,
Ao surgir da manhã mil canções:
Eis a vida nas
vastas planícies
Ou nos montes da terra da Cruz:
Sobre o solo só flores e glórias,
Sob o céu só magia e só luz.
Belos ermos,
risonhos desertos,
Livres serras, extensos marnéis,
Onde muge o novilho anafado,
Onde nitrem fogosos corcéis...
Onde a infância
passei descuidoso.
Onde tantos idílios sonhei,
Onde ao som dos pandeiros ruidosos
Tantas danças da roça dancei...
Onde a viva
e gentil mocidade
Num contínuo folgar consumi,
Como longe avultais no passado!
Como longe vos vejo daqui!
Se eu tivesse
por livro as florestas,
Se eu tivesse por mestre a amplidão,
Por amigos as plantas e as aves,
Uma flecha e um cocar por brasão;
Não manchara
minh'alma inspirada,
Não gastara meu próprio vigor,
Não cobrira de lama e de escárnios
Meus lauréis de poeta e cantor!
Voto horror
às grandezas do mundo,
Mar coberto de horríveis parcéis,
Vejo as pompas e galas da vida
De um cendal de poeira através.
Ah! nem creio
na humana ciência,
Triste acervo de enganos fatais,
O clarão do saber verdadeiro
Não fulgura aos olhares mortais!
Mas um gênio
impiedoso me arrasta,
Me arremessa do vulgo ao vaivém,
E eu soluço nas sombras olhando
Minhas serras queridas além!
A CRIANÇA
É menos bela a aurora,
A neve é menos pura
Que uma criança loura
No berço adormecida!
Seus lábios inocentes,
Meu Deus, inda respiram
Os lânguidos aromas
Das flores de outra vida!
O anjo de asas
brancas
Que lhe protege o sono
Nem uma nódoa enxerga
Naquela alma divina!
Nunca sacode as plumas
Para voltar às nuvens,
Nem triste afasta ao vê-la
A face peregrina!
No seio da criança
Não há serpes ocultas,
Nem pérfido veneno,
Nem devorantes lumes.
Tudo é candura e festas!
Sua sublime essência
Parece um vaso de ouro
Repleto de perfumes!
E ela cresce,
os vícios
Os passos lhe acompanham,
Seu anjo de asas brancas
Pranteia ou torna ao céu.
O cálice brilhante
Transborda de absinto,
E a vida corre envolta
Num tenebroso véu!
Depois ela envelhece.
Fogem os róseos sonhos,
O astro da esperança
Do espaço azul se escoa...
Pende-lhe ao
seio a fronte
Coberta de geadas,
E a mão rugosa e trêmula
Levanta-se e abençoa!
Homens! O infante
e o velho
São dois sagrados seres,
Um deixa o céu apenas,
O outro ao céu se volta,
Um cerra as asas débeis
E adora a divindade...
O outro a Deus adora
E as asas níveas solta!
Do querubim
que dorme
Na face alva e rosada
O traço existe ainda
Dos beijos dos anjinhos,
Assim como na fronte
Do velho brilha e fulge
A luz que do infinito
Aponta-lhe os caminhos!
Nestas infaustas
eras,
Quando a família humana
Quebra sem dó, sem crenças,
O altar e o ataúde,
Nos olhos da criança
Creiamos na inocência,
E nos cabelos brancos
Saudemos a virtude!
EXPIAÇÃO
Quando cansada da vigília insana
Declino a fronte num dormir profundo,
Por que teu nome vem ferir-me o ouvido,
Lembrar-me o tempo que passei no mundo?
Por que teu
vulto se levanta airoso,
Ébrio de almejos de volúpia infinda?
E as formas nuas, e ofegante o peito,
No meu retiro vens tentar-me ainda?
Por que me falas
de venturas longas?
Por que me apontas um porvir de amores?
E o lume pedes à fogueira extinta?
Doces perfumes a polutas flores?
Não basta
ainda essa ignóbil farsa,
Páginas negras que a teus pés compus?
Nem estas fundas, perenais angústias,
Dias sem crenças e serões sem luz?
Não basta
o quadro de meus verdes anos,
Manchado, roto, abandonado ao pó?
Nem este exílio, do rumor no centro,
Onde pranteio desprezado e só?
Ah! Não
me lembres do passado as cenas!
Nem essa jura desprendida a esmo!
Guardaste a tua? A quantos outros, dize,
A quantos outros não fizeste o mesmo?
A quantos outros,
inda os lábios quentes
De ardentes beijos que eu te dera então,
Não apertaste no vazio peito
Entre promessas de eternal paixão?
Oh! Fui um doido
que segui teus passos!
Que dei-te, em versos, da beleza a palma!
Mas tudo foi-se! e esse passado negro
Por que sem pena me despertas nalma?
Deixa-me agora
repousar tranqüilo!
Deixa-me agora descansar em paz!...
Ai! com teus risos de infernal encanto
Em meu retiro não me tentes mais!