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Poemas
Fagundes Varela

 


NO ERMO

Salve! erguidas cordilheiras,
Brenhas, rochas altaneiras,
Donde as alvas cachoeiras
Se arrojam troando os ares!
Folhas que rangem caindo,
Feras que passam rugindo,
Gênios que dormem sorrindo
No fresco chão dos palmares!

Salve! florestas sombrias,
Onde as rijas ventanias
Acordam mil harmonias
Na doce quadra estival!
Rolas gentis que suspiram,
Louras abelhas que giram
Sobre as flores que transpiram
No seio do taquaral!

Salve! esplêndida espessura,
Mares de sombra e verdura
Donde a brisa etérea e pura
Faz brotar a inspiração,
Quando à luz dos vaga-lumes,
Da mariposa aos cardumes
Se casam moles queixumes
Dos filhos da solidão!

Ah! que eu não possa me afastar das turbas,
Curar a febre que meu ser consome,
E entre alegrias me atirar cantando
Nas secas folhas do sertão sem nome...

Ah! que eu não possa desprender aos ermos
O fogo ardente que meu crânio encerra,
Gastar os dias entre Deus e os gênios
Nas matas virgens da cabrália terra!

Eu não detesto nem maldigo a vida,
Nem do despeito me remorde a chaga;
Mas ai! sou pobre, pequenino e débil,
E sobre a estrada o viajor me esmaga!

Fere-me os olhos o clarão do mundo,
Rasgam-me o seio prematuras dores,
E à mágoa insana que me enluta as noites
Declino à campa na estação das flores!

E há tanto encanto nos desertos vastos,
Tanta beleza do sertão na sombra,
Tanta harmonia no correr do rio,
Tanta doçura na campestre alfombra,

Que inda pudera se alentar de novo
E entre delícias flutuar minh'alma,
Fanada planta que mendiga apenas
O orvalho, a noite, a viração e a calma!

Abre-me os braços, ó fada,
Fada do ermo profundo,
Onde o bulício do mundo
Não ousa sequer bater!
Oh! quero tudo esquecer,

Tudo o que aos homens seduz,
Beber uma nova vida
E a fronte elevar ungida
De santas crenças à luz!
Glória, futuro... o que valem
Futuro e glórias de pó...

Sem gratos sonhos que embalem
O triste descrido e só?
De que serve o ouro, a fama,
Um nome - pálida chama!
Quando à noite junto à cama
Só há martírios e dores?
Quando a aurora é sem belezas,
Cheias de espinhos as devesas,
E a tarde só tem tristezas
Em vez de cantos e flores!

VERSOS SOLTOS
Ao General Juarez
Juarez! Juarez! Quando as idades,
Fachos de luz que a tirania espancam,
Passarem desvendando sobre a terra
As verdades que a sombra escurecia;
Quando soar no firmamento esplêndido
O julgamento eterno;
Então banhado do prestígio santo
Das tradições que as epopéias criam,
Grande como um mistério do passado,
Será teu nome a mágica palavra
Que o mundo falará lembrando as glórias
Da raça mexicana!
Quem se atreve a medir-te face a face?
Quem teu vôo acompanha nas alturas,
Condor soberbo que da luz nas ondas
Sacode o orvalho das possantes asas,
E lança um grito de desprezo infindo
Aos milhafres rasteiros?
Que destemido caçador dos ermos
Irá te cativar, ave sublime,
Nessas costas bravias e tremendas
Onde o Grande Oceano atira as vagas
E os vendavais sem peias atordoam
O espaço de rugidos?
Que sicário real, nas matas virgens,
Amplas, sem marcos, sem batismo e data,
Te apanhará, jaguar das soledades?...
Ah! tu espreitas os vulcões que dormem!
Quando a cratera encher-se, à luz vermelha
Rebentarás nas praças!
Trarás contigo os raios da tormenta!
Da tormenta serás o sopro ardente!
Mas a tormenta passará de novo
E o golfo mexicano iluminado
Refletirá teu vulto gigantesco.
O'águia do porvir!
Teu nome está gravado nos desertos
Onde pés de mortal jamais pisaram!
Quando pudessem deslembrá-lo os homens,
As selvas despiriam-se de folhas,
Para arrojá-las do tufão nas asas
As multidões ingratas!
Como as de um livro imenso elas compõem
Teu poema sublime, a pluma eterna
Do invisível destino, e não rasteira,
Mísera pena de mundano bardo,
Nelas traçou as indeléveis cifras
De teu nome imortal!

Os pastores de Puebla e de Xalisco,
As morenas donzelas de Bergara
Cantam teus feitos junto ao lar tranqüilo
Nas noites perfumadas e risonhas
Da terra americana. Os viajantes,
Que os desertos percorrem, pensativos
Param no cimo das erguidas serras,
Medem com a vista o descampado imenso,
E murmuram fitando os horizontes
Vastos, perdidos num lençol de névoas:
Juarez! Juarez! em toda a parte
Teu espírito vaga!...

Falam de ti as fontes e as montanhas,
As ervinhas do campo e os passarinhos
Que, abrindo as asas no azulado céu,
Como um bando de sonhos esvoaçam.
Mas esse nome que ameniza o canto
Do torvo montanhês, e mais suave
Que um suspiro de amor, parte dos lábios
Da virgem sonhadora das campinas,
Faz tremer o tirano que repousa
Nos macios coxins do leito de ouro,
Como o brado do arcanjo no infinito
Ao fenecer dos mundos!

Deixa que as turbas de terror escravas
Junto de falso trono se ajoelhem!
Os brindes e os folguedos continuam...
Mas a mão invisível do destino
Na sala do banquete austera escreve
O aresto irrevogável!

SETE DE SETEMBRO
Quando o gênio de Deus em santo arrojo
Batendo as sombras atirou no espaço
A hipérbole da luz,
E a matéria disforme que boiava
Sem destino e sem rumo, abriu a senda
Que à perfeição conduz;

Os querubins calaram-se escutando
A ode universal que retumbava
Aos pés do Criador;
E a natureza virgem dilatou-se,
E os mundos abalaram-se rugindo:
- Somos livres, Senhor!

As gerações ergueram-se no tempo:
De cada idéia levantou-se um povo,
De cada povo a lei!...
As eras sucederam-se confusas;
Mas o canto divino orientava
Das multidões a grei.

E ora entre névoas, ora entre fulgores,
Como a lua formosa em céu nublado,
A liberdade andava,
E a cada passo a trânsfuga celeste
Um rasto imenso de grilhões partidos
Como o raio deixava!...

Mas tu, risonha plaga americana,
Ilha de amor nos mares do mistério,
Dormias a sorrir,
Tão linda como o cisne de alvas penas,
Tão pura como a virgem balouçada
Nos sonhos do porvir!

Do vulto horrendo do voraz abutre
A sombra intensa não toldou-te as faces,
Nem manchou-te, é mentira!
Anjo de asas de luz! não foste escrava!
Criança! inda era cedo, o canto eterno
Dormia-te na lira!

Dormia! mas o hábito de Deus
Rugia-te nas fibras, inflamado
Como o vulcão no mar!
As nações esperavam-te ansiosas,
E no forum dos povos avultava
Vazio o teu lugar!

Apareceste enfim, mas não liberta,
Que nunca foste escrava, apenas débil,
Sem forças, vacilante;
Se assim não é, onde estarão teus ferros?
Onde o pó das prisões que derribaste?
Onde o jugo infamante?

É neste altar de esplêndido futuro,
Berço de outrora, trono do presente,
Que beijamos-te as plantas,
E ao perfume do incenso, ao som dos hinos,
Adoramos em ti, da liberdade
As glórias sacrossantas.

Filha augusta de Deus! Rosa banhada
Da Redenção nas lágrimas ardentes!
Mãe das raças opressas!
Pomba sagrada que rompendo as nuvens
Trazes ao lenho errante o verde ramo
Ungido de promessas;

Liberdade gentil, mil vezes salve!
Salve! sem peias devassando os ares,
Espancando os bulcões!
Salve! nos paços de opulentos sátrapas!
Salve! na choça humilde do operário!
Salve até nas prisões!

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