Poemas
Fagundes Varela
V
Não
vês quantos passarinhos
Se cruzam no azul do céu?
Pois olha, pomba querida,
Mais vezes,
Mais vezes te adoro eu.
Não vês
quantas rosas belas
O sereno umedeceu?
Pois olha, flor de minh'alma,
Mais vezes,
Mais vezes te adoro eu.
Não vês
quantos grãos de areia
Na praia o rio estendeu?
Pois olha, cândida pérola,
Mais vezes,
Mais vezes te adoro eu.
Ave, flor, perfume,
canto,
Rainha do gênio meu,
Além da glória e dos anjos,
Mil vezes,
Mil vezes te adoro eu.
VI
És
a sultana das brasílias terras,
A rosa mais balsâmica das serras,
A mais bela palmeira dos desertos;
Tens nos olhares do infinito as festas
E a mocidade eterna das florestas
Na frescura dos lábios entreabertos.
Por que Deus
fez-te assim? Que brilho é esse
Que ora incendeia-se, ora desfalece
Nessas pupilas doidas de paixão?...
Quando as enxergo julgo nos silvados
Ver palpitar nos lírios debruçados
As borboletas negras do sertão.
O rochedo luzido,
onde a torrente
Bate alta noite rápida e fremente,
De teu preto cabelo inveja a cor...
E que aroma, meu Deus! o estio inteiro
Parece que levanta-se fagueiro,
Cheio de sombra e cânticos de amor!
Quando tu falas lembro-me da infância,
Dos vergéis de dulcíssima fragrância
Onde cantava à tarde o sabiá!...
Ai! deixa-me chorar e fala ainda,
Não, não dissipes a saudade infinda
Que nesta fronte bafejando está!
Eu tenho nalma
um pensamento escuro,
Tão tredo e fundo que o farol mais puro
Que Deus há feito espancará jamais
Debalde alívio hei procurado aflito,
Mas quando falas, teu falar bendito
Abranda-lhe os martírios infernais!
Dizem que a
essência dos mortais há vindo
De um outro mundo mais formoso e lindo
Que um santo amor as bases alimenta;
Talvez nesse outro mundo um laço estreito
A teu peito prendesse o triste peito
Que hoje sem ti nas trevas se lamenta!
És a
princesa das brasílias terras,
A rosa mais balsâmica das serras,
Do céu azul a estrela mais dileta...
Vem, não te afastes, teu sorrir divino
É belo como a aurora, e a voz um hino
Que o gênio inspira do infeliz poeta.
VII
Ah! quando
face a face te contemplo,
E me queimo na luz de teu olhar,
E no mar de tu'alma afogo a minha,
E escuto-te falar;
Quando bebo teu hálito mais puro
Que o bafejo inefável das esferas.
E miro os róseos lábios que aviventam
Imortais primaveras,
Tenho medo de
ti!... Sim, tenho medo
Porque pressinto as garras da loucura,
E me arrefeço aos gelos do ateísmo,
Soberba criatura!
Oh! Eu te adoro
como adoro a noite
Por alto-mar, sem luz, sem claridade,
Entre as refregas do tufão bravio
Vingando a imensidade!
Como adoro as
florestas primitivas
Que aos céus levantam perenais folhagens,
Onde se embalam nos coqueiros presas
As redes dos selvagens!
Como adoro os
desertos e as tormentas,
O mistério do abismo e a paz dos ermos,
E a poeira de mundos que prateia
A abóbada sem termos!...
Como tudo o
que é vasto, eterno e belo,
Tudo o que traz de Deus o nome escrito!
Como a vida sem fim que além me espera
No seio do infinito!
VIII
Saudades!
tenho saudades
Daqueles serros azuis,
Que à tarde o sol inundava
De louros toques de luz!
Tenho saudades dos prados,
Dos coqueiros debruçados
À margem do ribeirão,
E o dobre de Ave-Maria
Que o sino da freguesia
Lançava pela amplidão!
Oh! minha infância querida!
Oh! doce quartel da vida!
Como passaste depressa!
Se tinhas de abandonar-me,
Por que, falsária, enganar-me
Com tanta meiga promessa?
Ingrata, por que te foste?
Por que te foste, infiel?
E a taça de etéreas ditas,
As ilusões tão bonitas
Cobriste de lama e fel?
Eu era vivo
e travesso,
Tinha seis anos então,
Amava os contos de fadas
Contados junto ao fogão;
E as cantigas compassadas,
E as legendas encantadas
Das eras que lá se vão.
De minha mãe era o mimo,
De meu pai era a esperança;
Um tinha o céu, outro a glória
Em meu sorrir de criança,
Ambos das luzes viviam
Que de meus olhos partiam.
Junto do alpendre
sentado
Brincava com minha irmã,
Chamando o grupo de anjinhos
Que tiritavam sozinhos
Na cerração da manhã;
Depois, por ínvios caminhos,
Por campinas orvalhadas,
Ao som de ledas risadas
Nos lançávamos correndo...
O viandante parava
Tão descuidosos nos vendo,
O camponês nos saudava,
A serrana nos beijava
Ternas palavras dizendo.
À tarde
eram brincos, festas,
Carreiras entre as giestas,
Folguedos sobre a verdura;
Nossos pais nos contemplavam,
E seus seios palpitavam
De uma indizível ventura.
Mas ai! os anos passaram,
E com eles se apagaram
Tão lindos sonhos sonhados!
E a primavera tardia,
Que tanta flor prometia,
Só trouxe acerbos cuidados!
Inda revejo
esse dia,
Cheio de dores e prantos,
Em que tão puros encantos
Oh! sem saber os perdia!
Lembra-me ainda: era à tarde.
Morria o sol entre os montes,
Casava-se a voz das rolas
Ao burburinho das fontes;
O espaço era todo aromas,
Da mata-virgem nas comas
Pairava um grato frescor;
As criancinhas brincavam,
E as violas ressoavam
Na cabana do pastor.
Parti, parti,
mas minh'alma
Partida ficou também,
Metade ali, outra em penas
Que mais consolo não tem!
Oh! como é diverso o mundo
Daquelas serras azuis,
Daqueles vales que riem
Do sol à dourada luz!
Como diferem os homens
Daqueles rudes pastores
Que o rebanho apascentavam,
Cantando idílios de amores!
Subi aos paços dos nobres,
Fui aos casebres dos pobres,
Riqueza e miséria
vi;
Mas tudo é morno e cansado,
Tem um gesto refalsado,
Nestes lugares daqui!
Oh! Então chorei por ti,
Minha adorada mansão;
Chamei-te de meu desterro,
Os braços alcei-te em vão!
Não mais! Os anos passaram,
E com eles desbotaram!
Tantas rosas de esperança!
Do tempo nas cinzas frias
Repousam pra sempre os dias
De meu sonhar de criança!
IX
Um dia
o sol poente dourava a serrania,
As ondas suspiravam na praia mansamente,
E além nas solidões morria o som plangente
Dos sinos da cidade dobrando Ave-Maria.
Estávamos
sozinhos sentados no terraço
Que a trepadeira em flor cobria de perfumes:
Tu escutavas muda das auras os queixumes,
Eu tinha os olhos fitos na vastidão do espaço.
Então
me perguntaste com essa voz divina
Que a teu suave mando trazia-me cativo:
- Por que todo o poeta é triste e pensativo?
Por que dos outros homens não segue a mesma sina?
Era tão
lindo o céu, a tarde era tão calma...
E teu olhar brilhava tão cheio de candura,
Criança! que não viste a tempestade escura
Que estas palavras tuas me despertaram nalma!
Pois bem, hoje
que o tempo partiu de um golpe só
Sonhos da mocidade e crenças do futuro,
Na fronte do poeta não vês o selo escuro
Que faz amar as tumbas e afeiçoar-se ao pó?
X
À
luz da aurora, nos jardins da Itália
Floresce a dália de sentida cor,
Conta-lhe o vento divinais desejos
E geme aos beijos da mimosa flor.
O céu
é lindo, a fulgurante estrela
Ergue-se bela na amplidão do sul,
Pálidas nuvens do arrebol se coram,
As auras choram na lagoa azul.
Tu és
a dália dos jardins da vida,
A estrela erguida no cerúleo véu,
Tens nalma um mundo de virtudes santas,
E a terra encantas num sonhar do céu.
Basta um bafejo
na inspirada fibra
Que o seio vibra divinais encantos,
Como no templo do senhor vendado
O órgão sagrado se desfaz em cantos.
Pomba inocente,
nem sequer o indício
Do escuro vício pressentiste apenas!
Nunca manchaste na charneca impura
A doce alvura das formosas penas.