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Poemas
Fagundes Varela

 


VISÕES DA NOITE

Passai, tristes fantasmas! O que é feito
Das mulheres que amei, gentis e puras?
Umas devoram negras amarguras,
Repousam outras em marmóreo leito!

Outras no encalço de fatal proveito
Buscam à noite as saturnais escuras,
Onde, empenhando as murchas formosuras,
Ao demônio do ouro rendem preito!

Todas sem mais amor! sem mais paixões!
Mais uma fibra trêmula e sentida!
Mais um leve calor nos corações!

Pálidas sombras de ilusão perdida,
Minh'alma está deserta de emoções,
Passai, passai, não me poupeis a vida!

O CANTO DOS SABIÁS
Serão de mortos anjinhos
O cantar de errantes almas,
Dos coqueirais florescentes
A brincar nas verdes palmas,
Estas notas maviosas
Que me fazem suspirar?

São os sabiás que cantam
Nas mangueiras do pomar.

Serão os gênios da tarde
Que passam sobre as campinas,
Cingido o colo de opalas
E a cabeça de neblinas,
E fogem, nas harpas de ouro
Mansamente a dedilhar?

São os sabiás que cantam...
Não vês o sol declinar?

Ou serão talvez as preces
De algum sonhador proscrito,
Que vagueia nos desertos,
Alma cheia do infinito,
Pedindo a Deus um consolo
Que o mundo não pode dar?

São os sabiás que cantam...
Como está sereno o mar!

Ou, quem sabe? As tristes sombras
De quanto amei neste mundo,
Que se elevam lacrimosas
De seu túmulo profundo,
E vêm os salmos da morte
No meu desterro entoar?

São os sabiás que cantam...
Não gostas de os escutar?

Serás tu, minha saudade?
Tu, meu tesouro de amor?
Tu que às tormentas murchaste
Da mocidade na flor?
Serás tu? Vem, sê bem-vinda
Quero-te ainda escutar!

São os sabiás que cantam
Antes da noite baixar.

Mas ah! delírio insensato!
Não és tu, sombra adorada!
Não são cânticos de anjinhos,
Nem de falange encantada,
Passando sobre as campinas
Nas harpas a dedilhar!

São os sabiás que cantam
Nas mangueiras do pomar!

O RESPLENDOR DO TRONO
Que vale a pompa e o resplendor do trono!
Triste vaidade! O alvergue de um colono
Mais encantos encerra e mais doçuras!
De calma consciência à sombra amiga
Floresce o riso e o júbilo se abriga,
Livre de enganos e visões escuras.

Quem não aspira da grandeza aos combros
Tem segura a cabeça sobre os ombros,
E a vereda conhece onde caminha;
Dorme sem medo, acorda sem pesares,
E vê, feliz, a prole junto aos lares
Vigorosa estender-se como a vinha.

Sob os dosséis dos sólios a mentira
Boceja e o corpo sensual estira
No tapete macio dos degraus...
São sempre incertos do reinante os passos!
Ame embora a verdade, ocultos laços
Prendem-o cego aos cálculos dos maus!

Oh! Ditoso mil vezes o operário!
Ama o trabalho, e o módico salário
De prantos nem de sangue está manchado!
Combates não planeja em vasta liça!
Nem das vítimas ouve da injustiça
A queixa amarga e o clamoroso brado!

Não desperta alta noite em sobressalto!
Nem dos cuidados ao cruento assalto
Sobre o ouro e o cetim geme e delira!
Qual manso arroio sobre a terra corre,
E no meio dos seus tranqüilo morre
Como a nota de um canto em branda lira!
Não invejeis as pompas das alturas!
O raio deixa os vales e as planuras,
A tempestade preza as serranias!...
Quereis saber da majestade a glória?
Lede nos régios túmulos a história
Dos soberanos de passados dias!

EM VIAGEM
A vida na cidades me enfastia,
Enoja-me o tropel das multidões,
O sopro do egoísmo e do interesse
Mata-me nalma a flor das ilusões.

Mata-me nalma a flor das ilusões
Tanta mentira, tão fingido rir,
E cheio e farto de tristeza e tédio
Rejeito as glórias de falaz porvir!

Rejeito as glórias de falaz porvir,
Galas e festas, o prazer talvez,
E busco altivo as solidões profundas
Que dormem quedas do Senhor aos pés.

Que dormem quedas do Senhor aos pés,
Ao doce brilho dos clarões astrais,
Ricas de gozos que não tem o mundo,
Pródigas sempre de beleza e paz!

A SOMBRA
Longe, longe das águas-marinhas,
Sobre vastas campinas pousada,
Sempre aos raios de um sol resplendente,
Se ostentava risonha morada.

Nas planícies que a vista não vence
Espalhadas pastavam cem reses,
Ora junto das fontes tranqüilas,
Escondidas no mato outras vezes...

Ao portão, de manhã, reunidas,
Meio ocultas no véu da neblina,
O senhor esperar pareciam
Sempre amigo da luz matutina.

E, depois que seu vulto bondoso
Da janela sorrindo as olhava,
Se afastavam contentes, pulando
Sobre a grama que o orvalho banhava.

Quando além das montanhas o dia
Apagava seu raio final,
Acudindo do amo aos clamores
Todo o gado se achava no val.

E em torno dele um círculo formando
Humildes e silentes,
Cada qual por sua vez se adiantando,
Vinham lamber o sal que apresentavam
As mãos benevolentes,
As mãos benevolentes que adoravam.
E o manso gado as falas lhe entendia
E os tenros bezerrinhos
Saltitavam trementes de alegria
A seus meigos carinhos...

Talvez sondasse nesses pobres brutos,
Sob esses pêlos ríspidos, hirsutos,
Um oculto clarão,
Raio de encarcerada inteligência,
Que a doida, pobre e mísera ciência,
Trucidando sem pena a criação,
Procura sempre, mas procura em vão.

Passaram tempos, e o vaqueiro é morto...
Da velha habitação só muros restam,
E às já despidas, murchas laranjeiras
Espinheiros entestam.

Sobre montões de pedra as lagartixas
Leves se arrastam sobre o musgo vil.
Traidoras vespas nos esteios podres
Formaram seu covil.

O sol, que outrora derramava em torno
Raios de luz, torrentes de alegria,
Hoje atira do espaço ao lar deserto
Um riso de ironia.

Não mais perfumes pelos ares giram,
Não mais os ventos suspirando passam,
Somente impuro odor, silvo de serpes
No ambiente perpassam.

Parece que ao pairar nesses lugares
Todo o seu ódio o estrago sacudira,
E o espírito do mal no chão gretado
A saliva cuspira.

Viajor, viajor, não te aproximes
Do ermo sítio que o terror marcou,
A mão de Deus talvez ardendo em iras
Pesada ali tocou.

Porém quando no ocidente
Vai baixando o orbe imortal,
As reses sempre constantes
Se ajuntam todas no val.

E nessa mesma paragem,
Onde as chamava o senhor,
Talvez do defunto à sombra
Reúnem-se ao derredor.

E mugem, mugem debalde,
Tristonhas cavando o chão,
Fitando doridos olhos
No astro rei da amplidão.

Mas o sol não as escuta,
Mas o sol caindo vai,
Imagem de um deus cruento,
Cruenta imagem de pai.

E o caminheiro, que ao longe
Das serras descendo vem,
Não passa perto das ruínas,
Procura outra senda além.

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