Poemas
Fagundes Varela
AS SELVAS
Selvas do Novo Mundo, amplos zimbórios,
Mares de sombra e ondas de verdura,
Povo de Atlantes soberano e mudo
Em cujos mantos o tufão murmura.
Salve! minh'alma
vos procura embalde,
Embalde triste vos estendo os braços...
Cercam-me o corpo rebatidos muros,
Prendem-me as plantas enredados laços!...
Pátria
da liberdade! antros profundos!
Vastos palácios! eternais castelos!
Mandai-me os gênios das sombrias grutas
De meus grilhões espedaçar os elos!...
Ah! que eu não
possa me esquivar dos homens,
Matar a febre que meu ser consome,
E entre alegrias me arrojar cantando
Nas secas folhas do sertão sem nome!
Ah! que eu não
possa desprender aos ermos
O fogo ardente que meu crânio encerra,
Gastar os dias entre o espaço e Deus
Nas matas virgens da colúmbia terra!
Eu não
detesto nem maldigo a vida,
Nem do despeito me remorde a chaga,
Mas ah! sou pobre, pequenino e débil
E sobre a estrada o viajor me esmaga!
Que faço
triste no rumor das praças?
Que busco pasmo nos salões dourados?
Verme do lodo me desprezam todos,
O pobre e os grandes de esplendor cercados!
Fere-me os olhos
o clarão do mundo,
Rasgam-me o seio prematuras dores,
E à mágoa insana que me enluta as noites,
Declino à campa na estação das flores.
E há
tanto encanto nas florestas virgens,
Tanta beleza do sertão na sombra,
Tanta harmonia no correr do rio,
Tanta delícia na campestre alfombra...
Que inda pudera
reviver de novo,
E entre venturas flutuar minh'alma,
Fanada planta que mendiga apenas
A noite, o orvalho, a viração e a calma!
À
LUCÍLIA
Se eu pudesse ao luar, Lucília bela,
Queimar-te a fronte de insensatos beijos,
Dobrar-te ao colo, minha flor singela,
Ao fogo insano de eternais desejos;
Ai! se eu pudesse
de minh'alma aos elos
Prender tu'alma enfebrecida e cálida,
Erguer na vida os festivais castelos
Que tantas noites planejaste, pálida;
Ai! se eu pudesse
nos teus olhos turvos
Beber a vida da volúpia ao véu,
Bem como os juncos sobre as ondas curvos
A chuva bebem que derrama o céu,
Talvez que as
mágoas que meu peito ralam
Em cinzas frias se perdessem logo,
Como as violas que ao verão trescalam
Somem-se aos raios de celeste fogo!
Oh! vem Lucília!
é tão formosa a aurora
Quando uma fada lhe batiza o alvor,
E a madressilva, que ao frescor vapora
Os ares peja de lascivo amor...
Sou moço
ainda; de meu seio aos ermos
Posso-te louco arrebatar comigo...
De um mundo novo na solidão sem termos
Deitar-te à sombra de amoroso abrigo!
Tenho um dilúvio
de ilusões na fronte,
Um mundo inteiro de esperanças n'alma,
Ergue-te acima de azulado monte,
Terás dos gênios do infinito a palma!...
CHILDE-HAROLD
(Sobre uma página de Byron)
Não te rias assim, oh! não te rias,
Basta de sonhos, de ilusões fatais!
Minh'alma é nua, e do porvir às luzes
Meus roxos lábios sorrirão jamais!
Que pesar me
consome? ah! não procures
Erguer a lousa de um pesar profundo,
Nem apalpares a matéria lívida,
E a lama impura que pernoita ao fundo!
Não são
as flores da ambição pisadas,
Não é a estrela de um porvir perdida...
Que esta cabeça coroou de sombras
E a tumba inclina ao despontar da vida!
É este
enojo perenal, contínuo,
Que em toda a parte me acompanha os passos,
E ao dia incende-me as artérias quentes,
Me aperta à noite nos mirrados braços!
São estas
larvas de martírio e dores
Sócias constantes do judeu maldito!
Em cuja testa, dos tufões crestada,
Labéu de fogo cintilava escrito!
Quem de si mesmo
desterrar-se pode?
Quem pode a idéia aniquilar que o mata?
Quem pode altivo esmigalhar o espelho
Que a torva imagem de Satã retrata?
Quantos encontram
inefáveis gozos
Nesses prazeres, para mim tormentos!
Quantos nos mares onde a morte enxergo
Abrem as velas do baixel aos ventos!
O meu destino
é vaguear e sempre!
Sempre fugindo funeral lembrança...
Férreo estilete que me rasga os músculos,
Voz dos abismos que me brada: - Avança!
Que pesar me
consome? ai! não mais tentes,
Espera a lousa de um pesar profundo,
Somente a morte encontrarás nas bordas,
E o inferno inteiro a praguejar no fundo!
O SABIÁ
(Cançoneta)
Oh! meu sabiá formoso,
Sonoroso,
Já desponta a madrugada,
Desabrocha a linda rosa
Donairosa,
Sobre a campina orvalhada.
Manso o regato
murmura
Na verdura
Descrevendo giros mil,
Some-se a estrela brilhante,
Vacilante,
No horizonte cor de anil.
Ergue-te, oh!
meu passarinho,
De teu ninho,
Vem gozar da madrugada...
Modula teu terno canto,
Doce encanto
De minh'alma amargurada.
Vem junto à
minha janela,
Sobre a bela
Verdejante laranjeira,
Beber o eflúvio das flores,
Teus amores,
Nas asas de aura fagueira.
Desprende a
voz adorada,
Namorada,
Poeta da solidão,
Ah! vem lançar com encanto
Mais um canto,
No livro da criação!
Oh! meu sabiá
formoso,
Sonoroso,
Já desponta a madrugada...
Deixa teu ninho altaneiro,
Vem ligeiro
Saudar a luz da alvorada.
ESTÂNCIAS
Quando à tardinha rumorejam brisas
Roubando o aroma das agrestes flores,
E doce e grave, nas viçosas matas,
Mais triste canto o sabiá desata,
Eu lembro-me de ti!
* * *
Eu lembro-me
de ti, por que tu'alma
É o sol de minh'alma e de meu gênio;
E neste exílio que infernal me cerca,
Mísera planta, desfaleço e morro
Ao frio toque de hibernal geada!
* * *
Quando das franjas
do Ocidente róseo
Um raio ainda me clareia o cárcere,
E um tom suave de tristeza e luzes
Mistura o dia à palidez da noite,
Eu lembro-me de ti!
* * *
Eu lembro-me
de ti, porque teu seio
Guarda um tesouro de piedade santa,
E nesse instante que o pesar duplica
Faltam-me as vozes de teus lábios meigos
E o doce orvalho de amorosos olhos!
* * *
Quando nas bordas
de meu leito escuro
Fatais espectros de pavor se cruzam,
E exausto, e lívido, eu procuro embalde
O grato sono que meus olhos deixa,
Eu lembro-me de ti!
* * *
Eu lembro-me
de ti, porque saudosa
Sonho-te a imagem soluçando ao longe,
E a fronte curva, e umedecidas pálpebras,
Meu nome dizes ao tufão que passa,
À brisa doida que te morde as tranças!
* * *
Quando meu corpo
se debate em febre,
E a lava ardente nas artérias corre...
Quando cruenta, de funéreos risos,
Pressinto a morte levantar-se perto,
Eu lembro-me de ti!
* * *
Eu lembro-me
de ti que és minha vida,
Último alívio neste mundo insano,
Anjo da guarda que à minh'alma aflita
Pudera as trevas espancar com as asas,
Lavar-lhe as manchas num Jordão de lágrimas!
* * *
Ai! tudo os
homens entre nós quebraram:
A paz, o riso, as esperanças áureas;
Mas de teu peito me arrancar não podem,
Nem a minh'alma desprender da tua!...
Eu lembro-me de ti!...
O MAR
Sacode as vagas de teu dorso imenso,
Oh! profundo oceano! Ergue-as altivas
Com seus frígios barretes! Em vão tentam
Lutar contigo temerárias frotas,
Traçar-te raias a vaidade humana!
Tu és eterno e vasto como o espaço,
Livre como a vontade onipotente.
Régio
manto do globo! povo infindo
De soberbos Titães! gênio da força,
Salve três vezes!... Das espáduas amplas
Derribas todo o jugo que te oprime,
Tragas gigantes de carvalho e cedro,
E a fronte erguendo majestosa e bela
Diademas de pérolas atiras
Às estrelas do céu, e ao mundo cospes
A férvida saliva em desafio!
Quantos impérios
celebrados, fortes
Não floresceram de teu trono às bases
Sublime potestade! e onde estão eles?
O que é feito de Roma, Assíria e Grécia,
Cartago, a valorosa? As vagas tuas
Lambiam-lhes os muros, quer nos tempos
De paz e de bonança, quer na quadra
Em que chuvas de setas se cruzavam
À face torva das hostis falanges!
Tudo esb'roou-se, se desfez em cinzas,
Sumiu-se como os traços que o romeiro
Deixa de Núbia na revolta areia!
Só tu, oh! mar, sem termos, imutável
Como o quadrante lúgubre do tempo,
Ruges, palpitas sem grilhões nem peias!
Nunca na face
desse azul sombrio,
Onde tranqüilas, ao chorar das brisas,
Poesias do céu, flores do éter,
As estrelas se miram namoradas...
Nunca o fogo e a lava, a guerra e a morte,
A armada dos tiranos há deixado
Um vestígio sequer de seus destroços!
Tal como à tarde do primeiro dia
Que ao orbe clareou, hoje te ostentas
Na tua majestade horrenda e bela!
Espelho glorioso onde entre fogos
Se mostra onipotente, nas tormentas
A face do Senhor! Monstro sublime
Cujas garras de ferro o globo abraçam...
Até que um dia, quem o sabe? exausto
Lance o último alento! ah! no teu seio
Talvez tremendo espírito se agite,
Misto sombrio de paixões sem freios,
Cuja expressão vislumbra-te no rosto,
Ora hediondo de compressos músculos,
Ora suave como o louro infante
Sobre o seio materno, ora cruento
Gotejando suor, escuma e raiva!
Níobe
eterna! de teu ventre túmido
Os monstros dos abismos rebentaram,
Em cujo dorso de argentadas conchas
Os raios das estrelas resvalavam:
De teu lodo fecundo, inextinguível,
Brotaram continentes cujas grimpas
Iam bater na abóbada cerúlea;
Teus paços de coral e de esmeraldas
Encerravam princesas vaporosas,
Louras ondinas, encantados gênios,
Soberbas divindades! Entretanto
Viste tudo cair! riscada a Atlântida
Da face do universo, os brônzeos deuses
Desterrados pra sempre, e só restou-te
Uma voz gemedora que chorava:
- Já não vive o Deus Pã! oh! Pã é
morto!
Oceano sem fundo!
vagas túmidas
Abismo de mistério, ah! desde a infância
Preso na teia da atração divina
Eu vos busquei sedento! sobre as praias,
Curvas como os alfanjes dos eunucos,
Eu me perdia nos dourados dias
Da santa primavera, ouvindo os brados
Dos marinhos corcéis, molhando as plantas
Na gaze salitrosa que envolvia
A areia cintilante! após mais tarde
Sentava-me no cimo dos rochedos,
Suspirando de amor aos verdes olhos,
Aos moles braços que do salso leito
Erguiam-se tão meigos e adorados!...
Amo-te ainda,
oh! mar! amo-te muito,
Mas não tranqüilo umedecendo a proa
Da gôndola lasciva, nem chorando
às carícias da lua! Amo-te horrível,
Arrogante e soberbo, repelindo
Os furacões que roçam-te nas crinas,
Quebrando a asa de fogo que das nuvens
Procura te domar, batendo a terra
Com teus flancos robustos, levantando
Triunfante e feroz no tredo espaço
A cabeça estrelada de ardentias!
Amo-te assim,
oh! mar, porque minh'alma
Vê-te imenso e potente, desdenhoso
Rindo às quimeras da cobiça humana!
Amo-te assim! ditoso no teu seio
Zombo do mundo que meu ser esmaga,
Sou livre como as vagas que me cercam
E só a tempestade e a Deus respeito.
Salve, oceano onipotente e eterno!
Santo espelho de Deus, três vezes salve!