´ POEMAS ESCOLHIDOS
Cláudio Manoel da Costa
CANTATAS
O PASTOR DIVINO
CANTATA I
Fé, Esperança
Fé. Onde, Enigma adorado,
Onde guias perplexo,
Confuso, e pensativo
Da minha idéia o vacilante curso?
Esp. Que sombras,
que portentos
Encobres a meus olhos,
Ó ignorado arcano,
Que lá dessa distância
Inspiras de teu raio esforço ativo?
Fé. Eu
vejo, que rompendo
Da noite o manto escuro
Vem cintilando a chama,
Que sobre o mundo todo a luz derrama.
Esp. Eu vejo,
que do Oriente
A luminosa estrela,
Que os passos encaminha,
Quase a buscar a terra se avizinha.
Coro
Chegai, pastores,
Vinde contentes;
Que o novo sol
Já resplandece.
Oh que glória, que dita, que gosto
Nestes campos se vê respirar!
Fé. É
esta a flor mimosa,
Que da Vara bendita,
Venturosa, jucunda,
Da raiz de Jessé brota fecunda!
Esp. É
este o pastor belo,
Que o rebanho espalhado
Vem acaso buscar! É este aquele,
Que por montes, e vales
Conduz a tenra ovelha,
E mais que a própria vida,
Ama o rebanho seu! É este aquele,
Que as ovelhas conhece e a seu preceito
Obedecendo belas,
Também o seu Pastor conhecem elas!
Fé. Eu
o tinha alcançado,
De enigmáticas sombras na figura,
Unigênito Filho
Do Eterno Criador. O Filho amado
De Abrão o testifica;
Esp. Jacó
o compreende, Abel o explica.
Ambas. Brandas
ninfas, que no centro
Habitais dessa corrente,
Vinde ao novo sol nascente
Vosso obséquio tributar.
Fé. Já
do monte descendo
Vem o pobre pastor: de brancas flores,
Ou já grinaldas, ou coroas tece,
E ao novo Deus contente as oferece.
Esp. Já
de lírios, e rosas,
Pela glória, que alcança,
Animada a Esperança se coroa;
E alegres hinos de prazer entoa.
Coro
Chegai, pastores,
Vinde contentes;
Que o novo sol
Já resplandece.
Oh que glória, que dita, que gosto
Nestes campos se vê respirar!
Fé. Aquele
tenro,
Cordeiro amado,
Sacrificado
Por nosso amor,
Esp. Sobre seus
ombros
Conduz aceso
O duro peso
Do pecador.
Fé. Nascido
infante
Ao mundo aflito
Nosso delito
Paga em amor.
Esp. Oh recompensa
Do bem perdido!
Oh do gemido
Prêmio maior!
Ambas. Vem,
Pastor belo;
Vem a meus braços;
Vem; que teus passos
Seguindo vou.
Fé. Mas
ah! Que de prazer, e de alegria
Respirar posso apenas. Todo o campo
Florescente se vê. Estão cobertos
Os claros horizontes
De nova luz, de novo sol os montes.
Esp. Melhor
luz não espere
Ver o mundo jamais. Concorram todos
A este luminoso
Assento; aonde habita
Aquele sol, que a vida ressuscita.
Fé. Vem,
sol peregrino,
De nós suspirado;
Esp. Vem, Filho
adorado
De Deus imortal.
Coro
Chegai, pastores,
Vinde contentes;
Que o novo sol
Já resplandece.
Oh que glória, que dita, que gosto
Nestes campos se vê respirar!
GALATÉIA
CANTATA III
Galatéia, Ácis
Ácis.
Galatéia adorada,
Mais cândida e mais bela,
Que a neve congelada,
Que a clara luz da matutina estrela;
Mais, do que o Sol, formosa;
Não digo lírio já, não digo rosa.
Gal. Ácis
idolatrado,
Pastor mais peregrino,
Que quanto ostenta o prado,
Quanto banha d'Aurora o humor divino;
Pois junto às tuas cores
Não tem o prado cor, não têm as flores.
Ácis.
Ácis é, quem saudoso
Corre desta ribeira
Todo o campo espaçoso,
Buscando, ó bela Ninfa, a lisonjeira,
Doce vista, que tanto
De Amor ateia o suspirado encanto.
Gal. Desde o
azul império,
Que rege o áureo Tridente,
Por todo este hemisfério,
Galatéia te busca impaciente;
E amante nos seus braços
Te prepara de amor gostosos laços.
Ácis.
Vem ouvir-me um instante;
Que em mim tudo é ternura.
Do bárbaro Gigante
Não temas, não a pálida figura:
Que o tem seu triste fado,
Tanto como infeliz, desenganado.
Vem, ó
Ninfa ditosa,
Vem, vem;
Que em ti Amor guarda
Todo o meu bem.
Gal. Oh! Firam
teus ouvidos
Meus saudosos clamores;
Mereçam meus gemidos
Mover a sem-razão dos teus rigores;
Já que tão docemente
Sempre ao meu coração estás presente.
Vem, ó
Pastor querido,
Vem, vem;
Que em ti Amor guarda
Todo o meu bem.
ODE
A MÍLTON
I
Contigo me entretenho,
Contigo passo a noite, e passo o dia,
E cheia a fantasia
Das imagens, ó Mílton, do teu canto,
Contigo desço às Regiões do espanto,
Contigo me remonto a imensa altura,
Que banha de seu rosto a formosura.
II
Tamisa, que nos deste
Dentro do seio teu alto engenho,
Que o sagrado desenho
Do divino Poema lhe inspiraste,
Como o cofre dos males derramaste
Sobre a sua fortuna? Como ao Fado
O trazes desde o berço abandonado?
III
Não basta além da Pátria
Peregrino vagar estranhas terras,
No horror das civis guerras
Ensangüentar o braço às Musas dado,
Da torpe, e vil pobreza inda vexado
Queres que gema, e conte em baixo preço
De seus estudos o cansado excesso?
IV
Sim, esta é a ventura,
Estas as murtas, e as grinaldas de oiro
Que ao século vindoiro
Hão de levar os que de Aônia bebem:
Fortuna, os teus tesoiros só recebem
Bastardas Gentes, que da tenra infância
Afagou nos seus braços a ignorância.
V
Tu o sabes, ó Tejo,
O teu grande Camões o geme, e chora;
Nem mais risonha aurora
No Apenino esclarece ao nobre Tasso:
De porta em porta vagarosa, e lasso,
Mendigando o cantor da Grega gente,
O peso infausto da miséria sente.
VI
Nega-lhes muito embora
Deusa inconstante as vãs riquezas; tudo
Entre o silêncio mudo
Dos tempos jazerá; a ilustre glória,
Que os nomes encomenda a larga história
Livre de naufragar nesta mudança
Os guarda. e zela na imortal lembrança.
VII
Por ela te contemplo
Calcar, ó Mílton, da desgraça o colo;
Desde o gelado Pólo
Teu nome vencedor a nós se estende,
Em nobre fogo o coração acende,
Quando nos abres a feliz estrada
Da Epopéia jamais de alguns trilhada.
VIII
A nunca ouvida língua
Das eternas celestes criaturas,
As suaves ternuras
As castas expressões dos Pais primeiros,
De incorpóreas substâncias os Guerreiros
Combates no Aquilon! tudo imagino;
Tudo é grande, ó bom Deus, tudo é divino.
IX
Voa do Estígio Lago,
Ó Espírito rebelde: um frio gelo
Me deixa apenas vê-lo!
Tenta a Equinocial, vaga os abismos,
Que horror! Entre funestos paroxismos
Talvez chego a temer, que o Monstro possa
Cantar os loiros da tragédia nossa.
X
Ah não: oiça-se o brado
Da Épica Trombeta: o rapto admiro,
E já no dúbio giro
Longe de me aterrar o Dragão fero,
Arrancadas montanhas ver espero
Do Trono de Sião, vingada a injúria,
Confunde-te, oh soberbo, e rende a fúria.
XI
Estranhas maravilhas
De algum gênio mortal jamais tentadas!
Idéias animadas
Na mais nova, mais rara fantasia!
Se Mílton pela mão nos leva, e guia,
Cesse do bem perdido a fatal ânsia,
Esta é de Eden a milagrosa estância.
XII
Musas, vós que educastes
Alma tão grande, e que a gostar lhe destes
As doçuras celestes
Do néctar, e da ambrósia, um novo loiro
Vinde tecer-lhe; e junto ao Busto de oiro
Mandai gravar este Epitáfio breve:
Mílton morreu: seja-lhe a terra leve.
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