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´ POEMAS ESCOLHIDOS
Cláudio Manoel da Costa


EPÍSTOLA

FILENO A ALGANO
EPÍSTOLA II

Depois, Algano amado,
Que por mais verde, e plácido terreno,
Deixaste o sítio ameno,
Onde alegre pascia o manso gado,
Tomou minha saudade
Triste posse no horror da soledade.

De todos os pastores
Foi mui sentida a tua ausência dura:
Que o bem de uma ventura
Se se perde, inda os mesmos moradores
Da choça, que os abriga,
Sabem sentir: oh quanto a dor obriga!

Pouco importa a cultura,
E agudeza maior do pensamento:
Que a força do tormento
Sobre a mesma rudeza o estrago apura;
E quem melhor discorre,
É, quem buscando alívio, menos morre.

Talvez mais lisonjeia
Esta no meu pesar néscia jactância;
Por ser minha ignorância
Alimento, em que a mágoa mais se ateia:
Que a ser mais entendido,
Não fora o meu tormento tão crescido.

Não somente o efeito
De tão ingrato mal em nós sentimos;
Mas, se bem advertimos,
Tudo ao grande pesar ficou sujeito:
Que fez a ausência tua
A saudade em nós razão comua.

O rio, que algum dia
Líquida habitação das ninfas era,
A cor, que a primavera
Nestes frondosos álamos vestia,
Tudo perde o seu brio:
Não tem o álamo cor, ninfas o rio.

Não se ouvem já sonoras,
(Quando argüindo o adúltero condena),
Queixas da filomena;
E até do tempo as carregadas horas
Correm mais dilatadas;
E parece, que a dor as faz pesadas.

É tudo horror; é tudo
Uma pálida imagem da tristeza.
Habita esta aspereza
O fúnebre silêncio, o assombro mudo:
Que tanto pode, tanto
De tua ausência o mísero quebranto.

Ah meu Algano caro,
Doce consolação do campo ameno!
O teu triste Fileno
Busca debalde alívio: que o reparo
Da saudade está posto
Na imagem só de teu alegre rosto:

Não só o seu alento,
Porém inda dos campos a alegria,
A clara luz do dia,
Das aves o canoro, e doce acento,
E quanto tem mudado
Da tua ausência o desumano estado.

Apressa, apressa o passo,
Com que hoje alegras as regiões do Tejo;
Rompe já o embaraço,
Que se interpõe à vista do desejo:
E possa alegre ver-te,
Algano meu, quem sabe merecer-te.

ROMANCES

L I S E
ROMANCE I

Pescadores do Mondego,
Que girais por essa praia,
Se vós enganais o peixe,
Também Lise vos engana.

Vós ambos sois pescadores;
Mas com diferença tanta,
Vós ao peixe armais com redes,
Ela co'olhos vos arma.

Vós rompeis o mar undoso:
Para assegurar a caça;
Ela aqui no porto espera,
Para lograr a filada.

Vós dissimulais o enredo,
Fingindo no anzol a traça;
Ela vos expõe patentes
As redes, com que vos mata.

Vós perdeis a noite, e dia
Em contínua vigilância;
Ela em um só breve instante
Consegue a presa mais alta.

Guardai-vos, pois, pescadores,
Dos olhos dessa tirana;
Que para troféus de Lise
Despojos de Alcemo bastam.

Enquanto as ondas ligeiras
Desta corrente tão clara
Inundarem mansamente
Estes álamos, que banham;

Eu espero, que a memória
O conserve nestas águas,
Por padrão dos desenganos,
Por triunfo de uma ingrata.

E na frondosa ribeira
Deste rio, triste a alma
Girará sempre avisando,
Quem lhe soube ser tão falsa.


ANTANDRA
ROMANCE II

Pastora do branco arminho,
Não me sejas tão ingrata:
Que quem veste de inocente,
Não se emprega em matar almas.

Deixa o gado, que conduzes;
Não o guies à montanha:
Porque em poder de uma fera,
Não pode haver segurança.

Mas ah! Que o teu privilégio,
É louco, quem não repara:
Pois suavizando o martírio,
Obrigas mais, do que matas.

Eu fugirei; eu, pastora,
Tomarei somente as armas;
E hão de conspirar comigo
Todo o campo, toda a praia

Tenras ovelhas,
Fugi de Antandra;
Que é flor fingida,
Que áspides cria, que venenos guarda.

ALTÉIA
ROMANCE III

Aquele pastor amante,
Que nas úmidas ribeiras
Deste cristalino rio
Guiava as brancas ovelhas;

Aquele, que muitas vezes
Afinando a doce avena,
Parou as ligeiras águas,
Moveu as bárbaras penhas;

Sobre uma rocha sentado
Caladamente se queixa:
Que para formar as vozes,
Teme, que o ar as perceba.

Os olhos levanta, e busca
Desde o tosco assento aquela
Distância, aonde, discorro,
Que tem a origem da pena:

E depois que esmorecidos
Da dor os olhos, na imensa
Explicação do tormento,
Sufocada a luz, se cegam;

Só às lágrimas recorre,
Deixando-se ouvir apenas
Daquelas árvores mudas,
Daquela mimosa relva.

Com torpe aborrecimento
A companhia despreza
Dos pastores, e das ninfas;
Nada quer; tudo o molesta.

Erguido sobre o penhasco
Já vê, se é grande a eminência:
Por que busque o fim da vida,
Na violência de uma queda.


Já louco se precipita;
E já se suspende: a mesma
Apetência do tormento
Maior tormento lhe ordena.

Pastores, vede a Daliso;
Vede o estado qual seja
De um pastor, que em outro tempo
Glória destes montes era:

Vede, como sem cuidado
Pastar pelos montes deixa
As ovelhas of'recidas
Às iras de qualquer fera.

Vede, como desta rama,
Que fúnebre está, suspensa
Deixou a lira, que há pouco,
Pulsava pela floresta.

Vede, como já não gosta
Da barra, dança, e carreira;
E ao pastoril exercício
De todo já se rebela.

Segundo o vulto, que neste
Rústico penedo ostenta,
Cuido, que o fizeram louco
Desprezos da bela Altéia.


ANARDA
ROMANCE IV

Aonde levas, pastora,
Essas tenras ovelhinhas?
Que para seu mal lhes basta
O seres tu, quem as guia.

Acaso vão para o vale,
Ou para a serra vizinha?
Vão acaso para o monte,
Que lá mais distante fica?

Vão porventura, pastora,
A beber as cristalinas,
Doces águas, que discorrem
Por entre estas verdes silvas?

Ah! Quem sabe, triste gado,
Onde a maior homicida
Dos corações, e das almas,
Convosco agora caminha!

Presumir, que cuidadosa
Vos conduz à serra altiva,
Imaginar, que à ribeira
Vos vai levando propícia;

Não o posso, não o posso;
Quando a conjetura avisa,
Que mal as ovelhas guarda;
Quem as almas traz perdidas.

Porém se a vossa ventura
De mais nobre se acredita,
Se podeis vencer de Anarda . . .
A condição sempre esquiva;

Ela vos conduza: os passos
Segui da minha inimiga;
Enquanto para cantá-la
Meu instrumento se afina.

Mais que Títiro suave,
Aqui sentado à sombria
Copa desta verde faia,
Chorarei as penas minhas.

Farei, com que soe o bosque
A seu nome: esta campina,
Vereis, como só de Anarda
A doce glória respira;

Essas árvores, e troncos
Concorrendo à harmonia
Do meu canto, Orfeu nos vales,
Cuidarão, que ressuscita.

Eu repetirei contente
A cantilena, que tinha
Com Alcimedon composto,
Quando no monte vivia.

Direi aquelas cadências,
Que à casca de uma cortiça
Encomendou meu cuidado,
De meu sangue com a tinta.

Pastora (se bem me lembra
Assim meu verso dizia),
Mais branca, que a mesma neve,
Mais bela, do que a bonina;

Eu sou, quem estas ribeiras,
Sou, quem estes campos pisa,
Atrás de uma alma, que roubas,
Tão presa, como rendida.

Não te peço, que ma entregues:
Porque quem ta sacrifica,
De meu voluntário culto
Faz ostentação mais fina:

Quero só, que ma não deixes,
Que a não desampares; inda
Quando de Letes saudoso
Vires a margem sombria.

Mais seguro, e mais constante,
Que aquela mimosa ninfa,
Que no côncavo das penhas,
Por lei do destino, habita.

Eco serei destas rochas,
Aonde os clamores firam
Dos corações, que se queixam,
Das almas, que se lastimam.

Assim, cândidas ovelhas,
Assim clamarei: sozinhas
Correi embora contentes
O vale, o monte, a campina.

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