A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo VIII
Não
abandonemos o pobre Leopoldo à sua amarga decepção.
O moço
chegara a casa mergulhado na tristeza profunda, que sobre ele derramaram
os acontecimentos da manhã. Talvez a morte de Amélia
não lhe causasse tamanho pesar, como o daquela cruel decepção
que estava presentemente curtindo.
O aleijão
excita geralmente uma invencível repugnância, repassada
de terror. A aberração da forma humana abate o orgulho
do bípede implume, fazendo-o descer abaixo do orangotango.
Ao mesmo tempo, é ameaça viva a uma das mais caras
aspirações do homem: a esperança de renascer
em outra criatura, gerada de seu ser. Se a fatalidade pesar sobre
a prole querida?
Imagine-se que
dor era a do mancebo, quando via a deformidade surgir de repente
para esmagar em seu coração a imagem da mulher amada,
da virgem de seus castos sonhos?
O contraste
sobretudo era terrível. Se Amélia fosse feia, o senão
do pé não passara de um defeito; não quebraria
a harmonia do todo. Mas Amélia era linda, e não somente
linda; tinha a beleza regular, suave e pura que se pode chamar a
melodia da forma. A desproporção grosseira de um membro
tornava-se pois, nessa estátua perfeita, uma verdadeira monstruosidade.
Era um berro no meio de uma sinfonia; era um disparate da natureza,
uma superfetação do horrível no belo. Fazia
lembrar os ídolos e fetiches do Oriente, onde a imaginação
doentia do povo reúne em uma só imagem o símbolo
dos maiores contrastes.
Nessa angústia
passou Leopoldo o resto daquele dia e os que se lhe seguiram.
"Não
amo a sua beleza material, oh, não!" pensava o mancebo.
"O que eu adoro nela é a beleza moral, a alma nobre
e pura, a criatura celeste, a luz, o anjo. Qualquer que fosse o
invólucro de seu espírito imaculado, creio que havia
de adorá-la tanto, como a adorei desde o momento em que primeiro
a vi.
Fosse ela feia
para os outros, que chamam formosura o que lhes encanta os sentidos,
para mim seria sempre bela, porque meus olhos haviam de vê-la
através de seu esplêndido sorriso. O que é o
corpo humano no fim de contas? O que é o contorno suave de
um talhe elegante, e a cútis acetinada de um rosto ou de
um colo mimoso? Um pouco de matéria a que a luz transmite
a cor, o espírito a vida. Tirem-lhe esses dois alentos, e
verão que lodo impuro e nauseante ficam sendo aquelas formas
sedutoras.
Pois luz e espírito
não eram a essência da alma de Amélia? Quando
essa alma a vestia com uma túnica resplandecente, que mulher
se lhe podia comparar em lindeza? Então não era somente
formosa, flutuava em um éter de beleza deslumbrante.
Mas ela não
é feia, é aleijada!..."
Um soluço
afogou as tristes lucubrações do mancebo. Ele repassou
outra vez na mente as circunstâncias de sua triste descoberta;
quis duvidar, combateu pertinazmente sua própria razão
que lhe apresentava a realidade, e afinal sucumbiu, curvando-se
à implacável certeza. Tinha visto uma vez, e como
essa não bastasse, o acaso lhe oferecera ocasião de
apalpar a verdade e saciar-se dela.
"Não
se admira a Vênus de Milo, uma estátua mutilada?"
dizia o mancebo relutando contra sua viva repugnância. "
Não se admira o primor da arte grega, apesar de não
restar dela mais do que uma cabeça e um torso de mulher?
Essa beleza truncada não vale a beleza aleijada? A mutilação
não repugna tanto ou mais do que a deformidade?"
A razão
de Leopoldo não o deixava embalar-se muito tempo nesse pensamento
consolador. Replicava logo, refutando vigorosamente as argúcias
do coração:
"A estátua
mutilada, que excita a admiração do mundo, não
é a cópia integral da beleza que lhe servia de tipo,
mas um fragmento apenas dessa cópia. A alma, que se extasia
na contemplação desse fragmento, recompõe o
ideal do artista. Admira-se a Vênus de Milo, como se admira
um esboço não acabado de Rafael; como se admira a
pétala de uma rosa, arrancada da corola. Mas, fosse embora
aquele primor de estatuária a reprodução exata
de uma mulher, a mutilação respeita a beleza; o aleijão
a deturpa. Se a mulher que se ama perdesse um pé, seria desgraçada;
com um pé monstruoso, é mais do que desgraçada,
é repulsiva."
Leopoldo deixava-se
convencer por estas sugestões:
"Infelizmente
assim é. Mas por que há de ser assim? A mutilação
é um fato humano; o aleijão é um fato natural.
Essa aberração do princípio criador, esse desvio
da forma primitiva indicam sem dúvida um vício na
essência do organismo. Não se tem verificado que nos
corpos malconformados de nascença habita sempre uma alma
enferma? Nos corcundas sobretudo, porque a espinha dorsal é
o tronco da inteligência. A deformidade de um membro, de um
ramo apenas, não denota eiva tão profunda do espírito,
é certo, mas revela que a alma não é nobre
e superior. Não se concebe o anjo dentro de um aleijão."
O resultado
destas cogitações era a gota de fel espremido, que
ia filtrando a pouco e pouco no coração e acabaria
por saturar todas as doces reminiscências dos últimos
dias. Leopoldo convenceu-se de que não devia amar a desconhecida:
mas, ao contrário, arrancar de sua alma os germes da paixão
nascente.
Tomando esta
resolução, o moço, que vivia muito retirado
depois de suas desgraças de família, esteve a lembrar-se
de algumas antigas relações. Veio-lhe o desejo de
cultivá-las de novo. Um instinto lhe dizia que para gastar
as primícias de um coração virgem, não
há como o atrito do mundo.
Entre as casas
que outrora freqüentava, escolheu para a primeira noite a de
D. Clementina, amiga íntima de sua irmã. Era uma senhora
já no declínio da idade e da formosura; gostava muito
de dançar, e por isso reunia constantemente em sua sala as
moças de sua amizade. Logo que se achavam presentes quatro
pares, a dona da casa dava o sinal, o marido arredava a mesa do
centro, o filho, menino de quinze anos, sentava-se ao piano e...
- Chassé-croisé!
gritava D. Clementina.
Nesta casa Leopoldo
tinha certeza, não só de ser bem recebido, como de
encontrar bastante arruído para aturdir-se e abafar uns gemidos
que sentia às vezes repercutirem no coração.
Tinham decorrido cinco dias depois da decepção; às
oito horas da noite entrou o moço na sala de D. Clementina,
que o recebeu, com surpresa, cheia de amabilidades.
Além
de estimado, acontecia que ele era justamente o quarto par. Tirado
o dono da casa, o Sr. Campos, o filho Alfredo, e três velhas,
inválidas da dança, havia na sala cinco senhoras para
dois cavalheiros; servindo uma senhora de cavalheiro, ainda faltava
metade de um par.
Quando a campainha
anunciou mais uma visita, D. Clementina, de olhos fitos na porta
da sala, dispôs-se a receber o recém-chegado com o
seu mais afável sorriso. Vendo Leopoldo, correu a ele, e,
desfolhando-lhe um ramalhete de amabilidades, trançou-lhe
o braço; antes que o moço tomasse pé na sala,
era arrebatado pela quadrilha, a compasso de galope.
Realmente ele
não podia escolher melhor. A agitação daquela
dança rápida, sem pausa; a confusão que os
pares criavam de propósito para aumentar a animação;
os risos e gracejos que provocavam os menores incidentes da quadrilha;
todo esse rumor e atropelo tinham por tal forma sacudido o espírito
de Leopoldo, que as idéias e recordações tristes
lhe caíram, como as folhas secas de uma árvore abalada
pelo vento rijo do outono.
Sentiu o coração
vazio, porém tranqüilo; o prazer vivo e cintilante daquela
reunião, apenas roçava-lhe pela superfície;
não penetrava, mas também já não transudavam-lhe
do íntimo as amarguras de que nos últimos dias se
tinha saturado.
De repente operou-se
na perspectiva da sala uma transformação inesperada.
Amélia entrara; e sua graça difundiu-se como um influxo
celeste, no meneio de seu talhe elegante, na suavidade de sua voz,
na irradiação de seus olhares.
Leopoldo embebeu-se
naquela suave aparição, como da primeira vez que a
vira, mas para percorrer em um ápice, as fases de seu amor,
e cair de novo na esmagadora decepção.
De repente aquela
estátua luminosa escureceu a seus olhos, deixando apenas
um resíduo negro: esqueleto calcinado que arrastava uma deformidade.
Debalde Amélia se ostentava no fulgor de sua beleza, toucada
pelos primeiros arrebóis do amor; debalde as ondulações
de seu corpo debuxavam formas encantadoras, e o sorriso de seus
lábios destilava uma fragrância mística de beijos
puros; os olhos de Leopoldo não viam nenhum desses encantos.
Através dos folhos do vestido roçagante, sua vista
fitava-se implacável no pé monstruoso que lhe esmagava
o coração como a pata grosseira de um animal.
Todos os encantos
dessa criatura, ele os despia de seu manto sedutor e dissecava-os
com frio rancor. A inflexão voluptuosa do talhe provinha
da resistência que opunha ao andar o enorme pé; o passo
ligeiro era um esforço supremo para disfarçar o aleijão,
o sorriso gracioso um enleio para prender os olhos estranhos, não
permitindo que eles se abaixassem até à fímbria
do vestido.
E por isso mesmo
o olhar de Leopoldo, olhar frio, cruel, inexorável, se tinha
cravado na orla da saia elegante, donde não havia forças
para arrancá-lo.
Amélia
sentiu esse olhar cruciante e estremeceu, tomada de um vago terror.
Imediatamente sentou-se, e, arranjando as dobras do vestido, procurou
disfarçar; mas em vão: o olhar do moço continuava
fito no mesmo ponto e produzia nela uma sensação incômoda.
- É D.
Amélia, filha de um negociante, chamado Sales. Não
conhece?
Estas palavras
foram dirigidas a Leopoldo por D. Clementina, que, sentando-se a
seu lado, acompanhou-lhe o olhar fito.
- Não,
minha senhora.
- Então
vou apresentá-lo.
- Obrigado,
D. Clementina; depois.
- Não
acha muito galante?
Leopoldo hesitou:
- Oh! muito!...
Viera-lhe nessa
ocasião o mesmo ímpeto que sentem de ordinário
os amantes em igual situação: o de criticar e desmerecer
nas prendas da mulher que os faz sofrer. É uma reação
natural do coração; Leopoldo, porém, julgou
indigno de si tal procedimento; tinha o direito de afastar-se, de
fugir com horror dessa mulher, mas não o de ofendê-la.
A culpa de amá-la era sua; e não dela.
Aproveitou um
momento de distração da dona da casa, para tomar o
chapéu e esquivar-se, sem que o percebessem.
Amélia,
porém, o viu; seus olhos ficaram por algum tempo presos na
porta por onde acabava o moço de sair. Quando, passado um
instante, caiu em si, ficou surpreendida. Que tinha ela com aquele
desconhecido?
Ao chegar, vendo
o rosto pálido e os olhos profundos, que tão desagradável
impressão haviam deixado em seu espírito, a moça
havia sentido um mal-estar íntimo. Vinha com a alma cheia
das primeiras delícias de um amor nascente; com as doces
emoções da declaração de Horácio.
A presença de Leopoldo foi um travo.
Mas também
para que viera? Por que não ficara em sua casa esperando
Horácio?
Vão lá
sondar o coração feminino. Agora que se sabia amada,
a moça queria gozar de seu triunfo, e ver humilde e abatido
a seus pés o rei da moda, o soberbo leão. O meio era
fazer-se ardentemente desejada, tornar-se difícil e esquiva,
embora lhe custasse o sacrifício dos momentos agradáveis
que podia passar junto de Horácio.
A presença
de Leopoldo em casa de D. Clementina a incomodara, e entretanto
seu olhar parecia agora sentir a ausência do mancebo.
A princípio
havia ali uma pessoa demais; agora faltava alguma coisa. Se não
era um homem, era uma curiosidade, uma emoção.
- Amélia!
A moça
voltou-se para ouvir D. Clementina que a chamava.
- Quero apresentar-lhe
um moço, que a acha muito bonita.
Dizendo estas
palavras, a dona da casa corria os olhos pela sala à busca
de alguém.
- Não
o vejo agora.
- Quem é?
- O Castro...
Conhece?...
- Não,
senhora.
- Querem ver
que já se retirou?
Amélia
pôde reter o monossílabo que ia cair-lhe do lábio,
confirmando a suposição da dona da casa. Tinha adivinhado
que se tratava do seu desconhecido.
- Então
ele me acha bonita?
- O Castro?...
Muito. Creio que ficou apaixonado! Se visse os olhos que lhe deitava
quando a senhora chegou!
- Então
foi de paixão que ele fugiu?
- Quem sabe?
A paixão é como o vinho que em uns dá para
rir e em outros para chorar. Há namorados que perseguem,
e outros que fogem!
Amélia
julgou prudente desviar a conversa daquele assunto escabroso, no
qual D. Clementina se comprazia, porque lhe recordava sua mocidade
já desvanecida.