A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Captítulo VII
A esse tempo
Horácio, sentado em uma poltrona na casa de Bernardo, fumava
o seu conchita, com o olhar, ora na calçada, ora no espelho
fronteiro, à espreita do menor vulto de mulher.
O leão
pensava:
"Choveu;
as ruas ainda estão molhadas. Qual é a senhora que
tendo um pé mimoso e uma perna bonita, não aproveita
um destes dias para atravessar a Rua do Ouvidor? Se deixarem escapar
estes pretextos de mostrar semelhantes maravilhas, morrerão
elas desconhecidas, apenas vistas por um dono avaro, mas nunca admiradas,
porque a admiração é sentimento que precisa
da luz plena, da grande expansão. Se a Vênus de Praxíteles
existisse, mas só para mim, palavra de honra que sua beleza
não excitaria em minha alma o menor entusiasmo."
Nessa ocasião
Amélia passava diante da loja, e voltando-se recebeu a cortesia
do leão, a quem respondeu com um sorriso amável. Parando
na vidraça, achou ela pretexto para entrar, e comprou uma
galantaria. Durante esse tempo Horácio recebeu por diversas
vezes o olhar e o sorriso da moça.
Acompanhando
com a vista o passo airoso e sutil de Amélia, Horácio
exclamou, dirigindo-se ao caixeiro do Bernardo:
- Que passo
gracioso! É o andar da garça!
Estas palavras
foram ditas em voz bastante alta, para que a moça ouvisse;
um ligeiro estremecimento que se notou na suave ondulação
do talhe revelou que o leão lograra seu desejo. A moça
ouvira com efeito a fineza.
Recostado de
novo na poltrona o leão continuou a pensar:
"Realmente,
que elegância no andar! Eu seria capaz de apostar que esse
andar era do pezinho, do meu adorado pezinho, se já não
tivesse descoberto a dona do primor. Mas Laura não vem!...
O criado me disse que ao meio-dia, e é quase uma hora!
Terá mudado de resolução?... Não duvido;
com aquele zelo feroz que tem por sua jóia, talvez não
quisesse vir para não ser obrigada a mostrá-la. Um
avaro não fecha com mais cuidado a burra, do que ela esconde
seu tesouro. Que pecado! Subtrair ao mundo essa maravilha que Deus
fez para ser admirada! Ah! eu desejava ser uma nação;
assim como há demônios-legiões, por que não
pode haver homens-povos? Se o fosse, daria um trono a essa mulher,
somente para que ela instituísse o beija-pé. Como
eu seria cortesão! Como eu a beijaria por minhas cem bocas
de súdito!"
O mancebo sobressaltou-se;
vira uma sombra que assomava no espelho fronteiro. Era Laura. Que
devia fazer? Correr à porta para ser visto pela moça
ou deixar-se ficar na poltrona para melhor descobrir o pé
adorado?
A atitude do
leão revelava a hesitação de seu espírito;
com o corpo lançado à frente parecia fazer um esforço
para se conservar sentado. Laura, que de seu lado já o tinha
avistado no espelho, ficara em um estado de perturbação
indizível.
- Que tem, prima?
perguntou-lhe um senhor que a acompanhava.
- Nada! balbuciou
a moça.
A princípio
Laura fizera um movimento para recuar, mas arrependendo-se avançou
com afoiteza, e passou rapidamente pela frente da loja, sem volver
um olhar para dentro. Por mais que o leão se derreasse na
poltrona, não logrou ver coisa alguma; a senhora arrastava
a fímbria do vestido pela calçada coberta de lama,
com o mesmo descuido que teria se caminhasse sobre rico tapete.
"Está
zangada comigo; está furiosa! Desde a noite do teatro que
não me pode ver; e parece que se preparou para o assalto,
porque achei as avenidas da praça já tomadas e vigorosamente
defendidas. A mucama é uma Górgona, o porteiro um
Cérbero; apenas consegui abrandar o moleque, porque é
um idiota!... Nunca vi uma ferocidade igual; creio que a leoa da
floresta não defende seu cachorrinho com sanha igual à
desta leoa de sala. Parece incrível; mas eu conheço
de quanto é capaz a vaidade da mulher. Todo este furor não
é mais do que um assomo de faceirice; percebeu que estou
apaixonado pelo pezinho mimoso, e quer-me trazer atado como um cativo
ao seu carro de triunfo. Realmente uma moça bonita não
pode ter maior satisfação: ver-me a mim, Horácio
de Almeida, o primeiro conquistador do Rio de Janeiro, curvar-se
humilde, não a seu olhar, a seu sorriso, à beleza
de seu rosto, ou à graça de seu talhe, mas à
planta de seus pés divinos! Fazer-me tapete de seus passos!...
Que pode mais desejar a rainha dos salões fluminenses?"
O moço
mordeu a ponta do bigode negro e ficou alguns instantes muito pensativo.
"É
preciso mudar o plano de ataque! Comecei à maneira de César,
atacando com impetuosidade. Vou contemporizar conforme a escola
de Fábio: simulo uma retirada; o inimigo avança, eu
o envolvo; corto-lhe a retirada, e ele rende-se. Arraso o Humaitá
daquele vestido que defende o meu pezinho adorado como uma casamata.
A indiferença é a serpente tentadora da mulher."
Em conseqüência
destas reflexões, Horácio deixou-se ficar onde estava,
e não seguiu a moça. Quando supôs que ela já
ia distante, foi procurar algures, em um bilhar, o preservativo
contra a tentação de cortejá-la, ou antes o
seu pezinho.
"Ela há
de reparar no meu eclipse!" murmurou com certa confiança.
Entretanto,
Laura, descendo a Rua do Ouvidor, encontrara pouco adiante, na casa
do Masset, Amélia em companhia da mãe. As duas amigas
não podendo vir juntas, tinham ajustado seu encontro para
aquele ponto. O primo despediu-se, e as senhoras continuaram seu
itinerário pelas diferentes lojas e casas de modas.
Ao cabo de duas
ou três horas, tomaram o carro que estava parado próximo
à Rua dos Ourives e partiram na direção do
Catete. A poucos passos dali, Amélia perguntou ao lacaio
sentado na almofada:
- Trouxe?
- Sim, senhora;
está aí dentro.
- Bem!
O carro aproximava-se
do Largo da Lapa, quando Amélia disse:
- Podíamos
ir agora ao Passeio Público?
- Tão
tarde! replicou Laura.
- Deixa-te disso!
observou a mãe da moça.
- Por quê,
mamãe? Há tanto tempo que lá não vamos.
- Não
há nada de novo.
- Ora, eu queria
ver a garça. Ainda não a vi.
- Viste, sim!
- Mas não
reparei numa coisa!...
- Em quê?
- Uma coisa.
Depois direi.
Tanto insistiu
que a mãe cedeu a seu capricho, e deu ordem ao cocheiro que
chegasse até o portão do Passeio Público. As
senhoras desapareceram na curva de uma das alamedas do parque, em
direção ao lago. Amélia queria ver o andar
da garça, que Horácio tinha comparado ao seu.
Nessa ocasião
passava o tílburi do nosso leão, que vinha do lado
da Ajuda. Um atropelo, produzido por uma gôndola mal conduzida,
ia atirando o tílburi sobre o carro parado no portão
do Passeio Público. Este incidente chamou a atenção
do moço para o cocheiro, que derreado sobre a almofada não
se movera.
A memória
apresenta às vezes um fenômeno curioso; conserva por
muito tempo oculta e sopitada uma impressão de que não
temos a menor consciência. De repente, porém, uma circunstância
qualquer evoca essa reminiscência apagada; e ela ressurge
com vigor e fidelidade.
Foi o que sucedeu
a Horácio. Minutos antes, por maiores esforços que
fizesse para recordar-se da libré do lacaio, portador da
botina perdida, não o conseguiria decerto. Entretanto bastou-lhe
ver a roupa do cocheiro, para acudir-lhe imediatamente ao espírito
a imagem desvanecida. Era esse o carro, que vira quinze dias antes
na Rua da Quitanda; não havia dúvida.
O leão
mandou parar o tílburi e entrou no Passeio Público;
depois de percorrer inutilmente várias alamedas, afinal descobriu
entre as árvores, além do lago, as ondulações
dos vestidos de algumas senhoras acompanhadas por um lacaio, e tomou
apressadamente aquela direção.
O terreno estava
úmido da chuva da manhã; e por isso o pé dos
passeadores deixava o rasto impresso na branca e fina areia das
alamedas. Notando esta circunstância, Horácio procurou
o vestígio de alguma botina irmã da que achara, e
guardava como uma relíquia; ficou ébrio de contentamento
reconhecendo entre muitas pegadas o leve debuxo que deixara no chão
o mimoso pezinho.
Se não
fosse o anelo de alcançar as senhoras e reconhecer a dona
incógnita do tesouro, Horácio se houvera ajoelhado
a beijar o rasto da fada de seus amores; mas as senhoras caminhavam
rapidamente para o portão.
Por mais que
se apressasse o leão, chegando à saída, apenas
viu o carro que partia. Felizmente adiantando-se pôde reconhecer
Amélia, que lhe sorriu e inclinou-se para acompanhá-lo
com os olhos.
"É
ela! Que pateta sou eu! Devia ter adivinhado. Há pouco, vendo-a
passar pela Rua do Ouvidor, tive um pressentimento! Aquele andar
cheio de graça não podia enganar."
No dia seguinte
o leão fez-se apresentar ao pai de Amélia, abastado
consignatário de café, estabelecido na Rua Direita.
O encontro deu-se na Praça do Comércio. Horácio
aí foi a pretexto de comprar apólices; e um amigo,
corretor de fundos, prestou-lhe aquele serviço. O negociante
ofereceu a casa ao moço que aceitou a fineza com efusão
de contentamento.
O Sr. Sales
Pereira habitava nas Laranjeiras uma bela chácara. Amélia
era filha única, e seu dote, convertido em cem apólices,
só esperava o noivo. Quanto à mulher, tinha uma boa
pensão instituída no montepio geral. Seguro assim
o futuro, vivia o negociante com certa largueza, economizando pouco
ou nada de seus lucros anuais.
Quando Horácio
teve conhecimento destas particularidades domésticas, sorriu.
- Bem! O meu
pezinho tem um dote para seu calçado. Pode andar com luxo!
A primeira vez
que Horácio visitou a família de Sales Pereira, encontrou
Laura na sala; a moça fora passar a noite com a amiga, e
conversava jovialmente. Apenas viu o leão, demudou-se; e
instantes depois, inventou um pretexto para retirar-se, apesar das
instâncias de Amélia.
Horácio
pouca ou nenhuma atenção deu à mudança
que se tinha operado em Laura, em sua retirada repentina. Desde
que a moça não era a dona feliz do mais lindo pé
do mundo, tornava-se para ele uma criatura indiferente; tanto mais
quanto sua alma estava ali de rojo, beijando a fímbria de
seda, que lhe ocultava o tão ansiado tesouro.
Em Amélia,
várias impressões produziu a apresentação
do moço. No primeiro momento acreditou que o leão
viera atraído por ela; mais tarde, lembrando-se do teatro,
suspeitou que fosse apenas um meio de aproximar-se de Laura; finalmente
ocorreu-lhe que podia não passar de um encontro casual de
seu pai, e de uma delicadeza da parte de Horácio.
Suas dúvidas
porém se dissiparam poucos dias depois.
Uma noite a
moça, impelida por um movimento de faceirice, soltou estas
palavras, no meio de uma conversa com o leão:
- Laura está
uma ingrata! Há tanto tempo que não vem passar uma
noite comigo.
Ao mesmo tempo
fitava os olhos no moço para ver a expressão de sua
fisionomia.
- É uma
fineza de sua amiga, que eu agradeço de coração,
respondeu Horácio.
- Uma fineza?...
perguntou Amélia pressentindo laivos de ironia.
- Quando sua
amiga está aqui, a senhora sem dúvida não a
deixa!
- É muito
natural.
- Já
vê pois que eu tenho razão. Se ela viesse...
- Diga.
- Eu teria ciúmes, D. Amélia.
A moça
corou.
- Pois amanhã
Laura há de passar a noite comigo.
Estas palavras
foram ditas com o estouvamento da menina, que procura disfarçar
um prazer sob a máscara da contrariedade. Mas a máscara
é tão risonha, que não ilude.
- Quer-me tanto
mal assim? perguntou Horácio. Não admira; uma paixão
ardente e impetuosa, como eu sinto pela senhora, não devia
ter outra sorte. O verdadeiro amor foi e será sempre infeliz;
não há mulher que o compreenda.
Amélia
com as faces a arder não sabia que fizesse; sua mão
trêmula brincava com as flores de um vaso, que vacilou sobre
o consolo e caiu no chão. O fracasso da porcelana, despedaçando-se,
chamou a atenção das pessoas que estavam na sala;
assim rompeu-se o enleio de Amélia.
A moça
retirou-se confusa para o interior da casa. Momentos depois entrou
de novo na sala, já serena e prazenteira. Seus olhos procuraram
Horácio, para oferecer-lhe o meigo sorriso que trazia nos
lábios.
Esse sorriso
dizia em sua eloqüência muda o seguinte:
"Se nunca
a mulher soube compreender a verdadeira paixão, serei eu
a primeira."
Foi esta pelo
menos a tradução de Horácio, perfeito filólogo
do amor, e habituado a decifrar esses hieróglifos dos lábios
de mulher.