A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo VI
Seriam duas
horas da tarde.
Durante a manhã
tinha caído sobre a cidade uma forte neblina, que molhara
as calçadas.
Leopoldo dirigia-se
a casa pela Rua dos Ourives. Naturalmente vinha pensando na desconhecida
que não vira desde a noite do teatro. Sua paixão era
intensa e ardente; mas vivia de si mesma, nutria-se da própria
seiva. Esperava com plena confiança na pureza de seu amor.
À pequena
distância do canto da Rua do Ouvidor viu ele de repente a
moça que passava na companhia de outras pessoas. Amélia
voltara o rosto. Seu olhar cruzou rapidamente com o olhar do mancebo.
Ela estremeceu com o costumado calafrio, e acelerou o passo.
Vendo-a sumir-se,
encoberta pela esquina, o mancebo também se apressou para
acompanhá-la; mas chegou tarde. A moça e as pessoas,
que iam em sua companhia, acabavam de entrar em um carro: na elegante
vitória que já conhecemos. Leopoldo apenas vira um
pé, que, na precipitação de subir, levantara
demais a saia.
Sem consciência
do que fazia, precipitou-se para a portinhola do carro. O lacaio
que a fechava nesse momento,
embargou-lhe o passo. Quando o carro partiu na direção
de São Francisco de Paula, Amélia inclinou-se e lançou
de esguelha um olhar vivo para a esquina.
Leopoldo ficara
na calçada imóvel e extático de surpresa.
O pé
que seus olhos descobriram, era uma enormidade, um monstro, um aleijão.
Ao tamanho descomunal para uma senhora, juntava a disformidade.
Pesado, chato, sem arqueação e perfil, parecia mais
uma base, uma prancha, um tronco, do que um pé humano e sobretudo
o pé de uma moça.
Os traços
especiais da beleza de Amélia não tinham deixado na
memória de Leopoldo a mínima impressão, da
primeira vez que a vira, apesar de contemplá-la demoradamente.
Entretanto o defeito não lhe escapou, embora passasse de
relance diante de seus olhos.
Parece uma singularidade;
mas não é. Ninguém conta as pétalas
da flor que admira; ninguém repara na forma especial de cada
uma das partes de que se compõe um todo gracioso; porém
a menor mácula se destaca imediatamente.
É por
isso que certos homens, não podendo distinguir-se entre a
gente sisuda e honesta, fazem-se nódoas da sociedade; tornam-se
vícios e torpezas. Assim adquirem a celebridade, que não
obteriam com sua virtude ambígua e seu mesquinho talento.
O Castro, que
não admirara o matiz da rosa, notou a mácula e desgostou-se
dela. Ele sentia-se com forças para amar o feio e o desgracioso,
mas não o disforme, o horrível. Essa aberração
da figura humana, embora em um ponto só, lhe parecia o sintoma,
senão o efeito de uma monstruosidade moral.
Triste, acabrunhado
por pensamentos acerbos, o moço continuou seu caminho pela
Rua dos Ourives em direção a casa. Mal havia andado
alguns passos, arrependeu-se; não queria levar à sua
habitação esse primeiro transbordamento de um dissabor
tão profundo; era melhor deixá-lo escoar-se antes
de recolher à solidão habitual. Se tivesse alguma
coisa a fazer! Qualquer ocupação bem aborrecida e
maçante, que lhe servisse de antídoto ao desgosto
íntimo!
Excogitou. Havia
ali perto, na Rua Sete de Setembro, uma pequena loja de sapateiro,
ou antes uma tenda, porque além do balcão via-se apenas
uma tosca vidraça, contendo a obra de três oficiais
que aí trabalhavam.
A loja pertencia
a um mestre fluminense, que trabalhara por algum tempo na casa do
Guilherme e do Campás, e se iniciara portanto em todos os
segredos da arte. Ninguém a exercia com mais habilidade,
esmero e entusiasmo do que ele; sua obra, quando queria, não
tinha que invejar ao produto das melhores fábricas de Paris,
se não o excedia na elegância e delicadeza.
A razão
cardeal de toda a superioridade humana é sem dúvida
a vontade. O poder nasce do querer. Sempre que o homem aplique a
veemência e perseverante energia de sua alma a um fim, ele
vencerá os obstáculos, e se não atingir o alvo,
fará pelo menos coisas admiráveis. Mas para que o
homem se entregue assim a uma idéia e se cative a um pensamento,
é necessário ser atraído irresistivelmente,
ser impelido pelo entusiasmo.
É o entusiasmo
que faz o poeta e o artista, o sábio e o guerreiro; é
o entusiasmo que faz o homem-idéia diferente do homem-máquina.
A fábula de Prometeu não exprime senão a alegoria
desse fogo celeste d'alma, que anima as estátuas de Galatéia,
embora depois dilacere o coração como a águia
do rochedo. Uma faísca dessa eletricidade moral opera maravilhas
iguais à centelha do raio. O que é o telégrafo
a par com a eloqüência?
O Matos tinha
o entusiasmo de sua arte; descobria nela segredos e encantos desconhecidos
aos mercenários. Para ele o calçado era uma escultura;
copiava em seda e couro, assim como o cinzel copia em gesso e mármore.
Os outros artistas da forma reproduzem todo o vulto humano ou pelo
menos o busto; ele só tinha um assunto, o pé. Mas
que importância não tomava a seus olhos esta parte
do corpo! Era preciso ouvi-lo, em algum momento de arroubo, para
fazer idéia de sua admiração por esse membro
da criatura racional.
Depois de trabalhar
muitos anos em casas francesas, o mestre fluminense resolveu estabelecer-se
por sua conta. Alugou uma pequena loja de duas portas, onde trabalhava
com dois oficiais. A necessidade de ganhar o pão o obrigava
a tornar-se mercenário, fazendo obra de carregação
para vender barato. Mas no meio dessa tarefa ingrata tinha ele suas
delícias de artista. Meia dúzia de fregueses, conhecedores
da habilidade do sapateiro, preferiam seu calçado ao melhor
de Paris, e o pagavam generosamente. Essas raras encomendas, o Matos
as executava com enlevo; revia-se em sua obra, verdadeiro primor.
Leopoldo não
era um freguês da última classe; ele não conhecia
a voluptuosidade de um calçado macio, antes luva do que sapato;
seu pé não era um enfant gâté, um benjamim
acostumado a essas delícias; desde a infância o habituara
a uma vida rude e austera entre a sola rija e o bezerro. Além
de que seus haveres não chegavam para tais prodigalidades.
O moço
pertencia à classe dos fregueses da obra de carregação,
e preferia a loja do Matos pela modicidade do preço, e boa
qualidade do cabedal, como do trabalho.
Que misteriosa
associação de idéias trouxera à lembrança
de Leopoldo, naquele momento, a tenda do sapateiro? E por que motivo
se dirigiu ele para ali onde estivera na véspera, e não
para qualquer outro lugar, em que poderia melhor espancar seu dissabor?
O motivo, nem
ele mesmo o sabia naquele instante.
- Bom-dia! As
botinas estão prontas? disse entrando.
O Matos, que
atendia a alguns fregueses perto da vidraça, olhou-o surpreso:
- Não
disse ontem a V. S.ª que só para o fim da semana?
- É verdade!
- Tinha entre
mãos esta encomenda. Mas já acabei; agora posso ajudar
os companheiros.
O Matos indicara
alguns pares de calçado que estavam no mostrador sobre folhas
de papel e prontos a serem embrulhados.
Leopoldo, chegando-se
para o balcão, principiou a examinar a obra acabada, com
a distraída curiosidade de quem deseja esperdiçar
alguns momentos, para escapar a um aborrecimento ou para apressar
um prazer. Era trabalho fino do mestre, e contudo não excitaria
grande atenção da parte do moço, se não
fosse um par de botinas de senhora já usadas e meio encobertas
pelo papel com outra obra. A medida era enorme no comprimento e
na altura; por isso, como pelo feitio, devia excitar-lhe reparo.
Na véspera
quando viera à loja, casualmente observara a obra que o Matos
estava acabando. Vendo há pouco na Rua do Ouvidor o pé
monstruoso da moça, tivera uma confusa e tênue reminiscência
das botinas da loja. Fora esse o fio misterioso que o conduzira
insensivelmente àquela casa. Agora compreendia a encadeação:
a botina monstro pertencia sem dúvida ao pé aleijão.
Leopoldo depois
que entrevira sob a orla do vestido o pé da moça,
ainda alimentava uma dúvida, que pretendia cevar com todas
as sutilezas e argúcias de seu espírito. Talvez ele
visse mal; talvez a sombra, o estribo do carro, qualquer outro objeto
o tivesse iludido. O aleijão só existia em sua imaginação;
fora um desvario dos sentidos. Com efeito, como supor que uma senhora
pudesse andar graciosamente com semelhante pata de elefante?
Mas as botinas
aí estavam sobre o balcão que não lhe deixavam
a menor dúvida. O pé disforme existia; era aquele
o seu molde, o seu corpo de delito, e por ele se podia ver quanto
devia ser horrível a realidade. Agora Leopoldo podia apreciar
os traços parciais que lhe tinham escapado pela manhã;
esse pé era cheio de bossas como um tubérculo; não
arremedava nem de longe o contorno dessa parte do corpo humano:
era uma posta de carne, um cepo!
Junto dessa
deformidade morta, inventada para cobrir a deformidade viva, havia
outra obra que chamara a atenção do mancebo por sua
singularidade. À primeira vista era um volume semelhante
ao das botinas monstruosas embora de linhas regulares: parecia uma
ligeira almofada preta sobre a qual se elevasse uma botina de senhora,
muito elegante apesar de comprida. O tubo cinzento ficava oculto
sob frocos de cetim escarlate. Do rosto ao bico descia um galho
de rosas, cujas hastes cingiam graciosamente, como uma grinalda,
toda a volta do pé até o calcanhar.
Uma das botinas
ainda tinha dentro a forma; enquanto a outra já estava sem
ela. Naturalmente o Matos procedia àquela operação
quando foi distraído pelos fregueses e compradores; deixara-a
pois em meio, deitando em cima da obra, para encobri-la, uma folha
de papel.
A forma não
podia passar despercebida ao observador. Vendo pouco antes a botina
disforme, Leopoldo a tinha considerado o modelo exato do pé
monstruoso, que ele avistara. Enganara-se: a botina era já
o disfarce, a máscara do aleijão. Sua cópia
ali estava em horrível nudez, no grosseiro toco de pau, cheio
de buracos e protuberâncias.
Mas se essa
observação acabou de esmagar o coração
do mancebo, levou insensivelmente seu espírito a apreciar
pela primeira vez a superioridade do Matos em sua arte. Ali estava
a imagem do aleijão, e o calçado que outros sapateiros
lhe fariam para cobrir a monstruosidade, sem a dissimular. Entretanto,
o mestre fluminense conseguira, por um esforço feliz, desvanecer
a deformidade sob a aparência de uma botina elegante.
A almofada sobre
que parecia descansar a botina, era um solado alto, porém
oco, onde as carnes moles do pé monstruoso, comprimidas pela
botina superior, podiam abrigar-se.
Os frocos de
cetim e as grinaldas de rosas enchiam as covas e desvaneciam as
protuberâncias ósseas, com muita delicadeza, sem avolumar
o tamanho do coturno. Na sola negra se debuxava, em proporção
à botina superior, a alva palmilha com seus contornos harmoniosos;
de modo que, olhando-se andar a pessoa, não se perceberia
facilmente o tamanho do calçado.
Acabara o Matos
de aviar os fregueses, e, chegando-se para o balcão, incomodou-se
com ver o moço a observar a obra; ia talvez interrompê-lo
rispidamente, quando percebeu em seu rosto uma expressão
viva de ardente admiração. O artista ficou lisonjeado
com esse elogio tão eloqüente em sua mudez; e à
contrariedade sucedeu a satisfação do amor-próprio.
Foi Leopoldo,
que, percebendo junto de si o sapateiro parado, afastou-se do balcão,
receando ter sido indiscreto. Ia sair, quando entrou na loja um
lacaio de libré azul com vivos de escarlate e branco. O mancebo
o reconheceu pelas feições; era o mesmo que o impedira
de chegar à portinhola do carro, na Rua do Ouvidor.
- Ah! exclamou
o Matos, avistando o criado. Está quase pronto.
- Não
posso esperar! replicou o lacaio com a insolência do rafeiro
de casa rica.
- É só
embrulhar.
Leopoldo disfarçava;
fingindo olhar o calçado exposto na vidraça, viu de
esguelha o sapateiro tirar a forma da outra botina, bater o ponto
e dar o último polimento à sua obra; feito o que arranjou
o embrulho.
- Está
bem amarrado? perguntou o lacaio. Olhe que da outra vez já
se perdeu uma botina por sua causa, e eu é que levei a culpa.
- Não
tenha susto; desta vez está bem seguro, respondeu o Matos.
Foi-se o lacaio;
e Leopoldo com o semblante carregado de tristeza, despediu-se, arrependido
de ter ido à loja. Que saudades tinha da sua dúvida!
- A dúvida,
pensava ele, é ainda um raio de esperança!