A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo XIX
Quando recobrou-se
da surpresa em que tinha ficado, Horácio não achou
em si mais do que o desejo veemente e irresistível de possuir
o ídolo por tanto tempo sonhado.
"Serão
meus!" murmurou consigo. "Serão meus a todo preço.
Se for necessário um escândalo, não hesitarei.
Mas Amélia não deve ter-se esquecido de mim já
tão depressa; ela me tinha afeição. Vou pedir-lhe
perdão de meu engano. Sujeitar-me-ei a todas as condições.
Que sacrifícios são bastantes para pagar a felicidade
de beijar aqueles dois mimos da natureza!"
Instintivamente
Horácio seguiu na direção da casa do Sales,
com intenção de restabelecer as relações
interrompidas. Não sabia ele de que modo se houvesse em tal
empenho; fiava da inspiração do momento.
Já não
estava o negociante no escritório; nesse dia se retirara
mais cedo.
Malograda sua
esperança, o leão foi caminhando pela Rua Direita
sem direção, como quem não sabe o que fazer.
O instinto que no deserto guia o rei dos animais à sebe odorífera
onde retouçam as gazelas, o conduzia naturalmente para a
Rua do Ouvidor.
Tinha chegado
à esquina, quando passou defronte um moço, que seguiu
pela calçada Carceller. Horácio acompanhou-o com a
vista, querendo nele reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca
de um mês não vira.
Se com efeito
o moço era Leopoldo, tinha ele sofrido grande transformação.
Em vez do rapaz descuidado no seu trajo, brusco em suas maneiras,
sempre de cabelos arrepiados e barba revolta, aparecia um cavalheiro
de boa presença, com a sóbria elegância que
tão bem assenta nos homens sisudos. Essa espécie de
elegância é apenas um ligeiro perfume, e não
uma incrustação como a que usam os moços à
moda.
Com seu fino
trato e longa experiência, Horácio, reconhecendo o
amigo, adivinhou o segredo daquela súbita metamorfose. Ele
sabia que só há um condão capaz de produzir
tais encantos: é o olhar da mulher amada e amante.
Ame alguém
e não saiba se é retribuído. Toda sua existência
se projeta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro ser e
anseia por nele infundir-se. Vive-se fora de si mesmo, alheio a
seu próprio eu; como o peregrino perdido longe da pátria,
o homem exilado de sua pessoa erra no espaço, em demanda
de um abrigo.
Desde, porém,
que o homem tem certeza de ser amado, em vez de expandir-se, recolhe
e concentra para saturar-se de felicidade. Já não
se alheia e esquece de si; ao contrário, sente-se elevado
acima do que era; respeita em sua pessoa o homem amado.
Nessa ocasião
é natural a cada um observar-se constantemente e julgar de
si com extrema severidade. Surgem aspirações estranhas;
o fraco lembra-se de ser um herói; o filósofo inveja
a beleza do casquilho; o espírito positivo habituado a voar
terra a terra bate o coto das asas para remontar-se ao ideal da
poesia.
Não é
só no homem que se opera essa metamorfose: mas em toda a
natureza. Quando se arreiam os pássaros de sua mais bela
plumagem, quando gorjeiam as melodias mais brilhantes, se não
é na quadra dos amores?
Vendo Leopoldo
parado na calçada Carceller, Horácio dirigiu-se com
disfarce para aquela parte, com intenção de travar
conversa e esclarecer de todo em todo o mistério. Foi trabalho
perdido; o moço acabava de saltar em um tílburi, que
rodava já pela Praça de Pedro II.
Desapontado,
voltou Horácio sobre os passos.
"Amélia
o ama!... Ou pelo menos ele o acredita!"
Sorriu-se o
leão.
"Que fenômeno
curioso produz o despeito na mulher! É uma semelhança
da luz reflexa. Irritado pela decepção, humilhado
em sua vaidade, o amor da mulher desdenhada refrange como o raio
do sol repelido por corpo brilhante e vai impregnar-se em outro
homem. Ela cuida sentir por esse plastão uma paixão
ardente, que nada mais é do que o ímpeto de seu despeito.
Seria capaz de conceder a esse comparsa o que recusaria à
afeição mais terna e extremosa. O assomo do ciúme,
supõe ela ser veemência da afeição, e
confunde com os extremos de amor o delírio da vingança.
Amélia está passando por esta crise naturalmente.
Leopoldo foi o plastão; ela o ama com todo o furor do ódio
que me tem."
Outro sorriso
frisou o lábio do leão.
"Ela me
odeia! Ora!... O ódio o que é senão a efervescência
do amor? O afeto suave e terno é como o moscatel de Setúbal
ou o vinho de Constança. O amor fero e irado é como
o champanhe que ferve e espuma."
Chegando a casa,
Horácio escreveu a Amélia uma carta, que apenas continha
estas palavras:
"Deve estar
satisfeita, pois me tem de novo a seus pés e desta vez humilde
e suplicante. A melhor coroa do triunfo é o perdão."
Saindo o leão
a espairecer, dirigiu os passos para a casa do Sales; esperava encontrar
algum criado que se incumbisse de entregar a carta. Quem sabe? Talvez
nessa mesma ocasião se decidisse de sua sorte. A moça
lhe permitiria falar-lhe.
Era noite fechada;
o céu, carregado de nuvens, anunciava próxima borrasca.
A frente da casa do negociante estava às escuras; contudo,
quem observasse bem, perceberia a coar-se pelos interstícios
das janelas um tênue reflexo de luz interior. No portão
da chácara a meio cerrado, ninguém aparecia.
O leão
penetrou no jardim. Nesse momento um carro parou à porta
da casa: três pessoas saíram dele. Em um Horácio
viu, estremecendo, roupas de sacerdote. Só então refletiu
o moço no aspecto soturno do edifício. Inquieto, sobressaltado,
adiantou-se pelo jardim na esperança de encontrar pessoa
a quem interrogasse.
As janelas laterais
estavam esclarecidas; e pelo jogo das sombras no quadro iluminado,
conheceu o moço que reinava no interior alguma agitação.
Que fazer? Apresentar-se
na casa, depois do que passara, e antes de qualquer explicação,
não era razoável.
A dois passos
ficava uma frondosa mangueira, em cujos galhos tinham fabricado
uma espécie de belveder ou caramanchão. Conduzia ao
alto uma escadinha de caracol cingindo o tronco da árvore.
Por acaso avistou
o leão a mangueira, e, subindo sem hesitar, achou-se justamente
fronteiro às janelas iluminadas. Em princípio a claridade
súbita ofuscou-lhe a vista, e não pôde ele distinguir
o que se passava no interior.
Mas, afinal,
o deslumbramento dos olhos cedeu ao deslumbramento d'alma.
Ele via e duvidava.
Um altar erguido,
círios acesos, o sacerdote oficiando, Amélia e Leopoldo
de joelhos, ao lado Sales, D. Leonor, e dois amigos que serviam
de testemunhas: eis o quadro que se ofereceu aos olhos de Horácio.
Tinha visto na comédia da vida muitos lances dramáticos,
mas nenhum tão imprevisto e curioso.
A surpresa do
leão provinha de um engano seu. Ele acreditava que Amélia
o tinha amado, quando a moça não sentira por ele mais
do que o desvanecimento de ver cativo de seus encantos o rei da
moda, o feliz conquistador dos salões.
Quem Amélia
amou desde o princípio, foi Leopoldo. A vaidade, o galanteio
que se nutre de brilhantes futilidades a seduziam por momentos e
rendiam ao capricho de Horácio. Mas, passado esse enlevo,
sua alma sentia a atração irresistível que
a impelia para o seu pólo.
Disso que durante
dois meses passava na vida íntima da moça, ela própria
não se apercebia; foi depois da cena do baile, que ela entrou
em si e compreendeu as sublevações recônditas
de sua alma, e o drama que aí se agitava desde muito.
Leopoldo começara
a freqüentar a casa de Sales poucos dias depois da partida
de D. Clementina. As duas almas, por tanto tempo separadas, só
esperavam o momento de se unirem ou antes de se entranharem uma
na outra. Às tardes, no jardim, entre cortinas de flores,
elas celebravam esse místico himeneu do amor, único
eterno e indissolúvel, porque se faz no seio do Criador.
Pelo voto de
todos se apressou o dia do casamento, que os noivos exigiram se
fizesse inteiramente à capucha e sem prévia participação.
A razão desse empenho, só Amélia a sabia e
nunca a disse. Era um escrúpulo de seu pudor: depois do que
tinha acontecido, não queria que lhe dessem outra vez o título
de noiva.
Terminada a
cerimônia e feitas as felicitações do costume,
correram os minutos em agradável conversação.
Eram onze horas,
quando Leopoldo entrou no toucador em que sua noiva o esperava.
Sentada em uma conversadeira, Amélia sorriu para seu marido;
porém, através das largas dobras do roupão
de cambraia, percebia-se o tremor involuntário que agitava
seu lindo talhe.
- É meu
presente! disse ela com timidez.
E apresentou
ao noivo um objeto envolto em papel de seda, atado com fita azul.
Abrindo, achou
Leopoldo dois mimosos pantufos de cetim branco, os mesmos que Amélia
começara a bordar no dia seguinte ao baile.
O moço
enleado, não compreendia. Insensivelmente seu olhar desceu
à fímbria do roupão. Sobre a almofada de veludo
e entre os folhos da cambraia, apareciam as unhas rosadas de dois
pezinhos divinos.
Uma onda de
rubor derramou-se pelo semblante da moça, cujos lábios
balbuciaram uma palavra.
- Calce!
Leopoldo ajoelhou
aos pés da noiva.
O temporal,
desabando nesse momento, bateu com violência nos vidros da
janela, que fechou-se.
Horácio
desceu do seu observatório e, escalando a grade de ferro
do jardim, ganhou a casa, onde chegou todo alagado. Enquanto filosoficamente
esperava que seu criado lhe preparasse uma xícara de café,
abriu um livro, que acertou ser La
Fontaine.
Leu ao acaso:
era a fábula do leão amoroso.
"É
verdade!" murmurou, soltando uma fumaça de charuto.
O leão deixou que lhe cerceassem as garras; foi esmagado
pela pata da gazela.
N. B. - Escrevo tílburi, champanhe etc. porque entendo que
devemos imprimir certo cunho português nas palavras
estrangeiras adotadas pelo uso. Assim fizeram nossos antepassados,
escrevendo trumó, trenó, bufete e tantas outras palavras
de origem francesa.