A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo XVIII
Laura e Amélia
eram primas e amigas de infância; havia entre elas apenas
a diferença de dezoito meses.
Desde a idade
de três ou quatro anos, isto é, desde que deixou as
faixas, Laura usou sempre de roupas compridas. Isso causava reparo
a todos que viam a menina trajada como uma senhora. Muitos achavam
extravagante e ridículo o capricho e censuravam a mãe.
Esta ouvia as
censuras de suas amigas, assim como os motejos estranhos, e calava-se;
mas não alterava o vestuário da menina. A ternura
e piedade materna lhe davam a paciência necessária
para arrostar com as zombarias do mundo.
Laura tinha
um aleijão; nascera com os pés disformes. Para mais
agravar o desgosto dos pais, essa monstruosidade vinha ligada a
uma beleza angélica. A senhora avaliou do infortúnio
de sua filha e preparou-se para todos os sacrifícios. Consultas
foram dirigidas aos melhores médicos da Europa; chegou a
empreender uma viagem para tentar os recursos da ciência;
foram todos ineficazes.
Desenganada
afinal, dedicou-se a esconder a desgraça de sua filha, a
fim de que ela não fosse obrigada a envergonhar-se na sociedade.
Durante muito tempo Laura não teve outra criada, além
de sua mãe. À custa de esforços constantes,
de uma vigilância incessante de cada dia e cada hora, conseguiu
a senhora manter esse segredo de família, do qual dependia
a felicidade da filha.
Atingindo a
idade de oito anos, a menina com o instinto da mulher, compreendera
seu infortúnio; e desde então descansou a mãe
daquele cuidado incessante. Ficando moça casou-se, e seu
marido, que a amava estremecidamente, morreu ignorando o segredo.
Com bastante
mágoa sua, Amélia surpreendeu o segredo da prima e
amiga.
A filha de Sales
tinha dois pezinhos de fada, breves, arqueados, com uns dedos que
pareciam botões de rosa. O desgosto e vexame que isso causava
à moça, ninguém o imagina. Ela supunha-se aleijada;
apesar de seus dezoito anos, seus pés eram de menina.
Assim, o mesmo
cuidado com que Laura escondia a sua monstruosidade, punha ela em
ocultar essa graça e prenda da natureza. Naquele tempo não
se tinha introduzido ainda a moda dos vestidos curtos; bem ao contrário,
o tom era arrastar desdenhosamente pelo chão a longa fímbria
do vestido.
Um dia que Laura
passou em sua casa, Amélia teve curiosidade de comparar seu
pezinho com o da prima, para saber se a diferença era excessiva.
Enquanto a outra endireitava o penteado no toucador, realizou ela
seu intento.
Avalie-se da
vergonha e aflição de Laura; o desespero de Amélia
foi maior ainda. Não perdoava a si mesma o ter causado tão
grande pesar à prima, a quem ela queria muito bem. Para mitigar
essa dor profunda, Laura esqueceu a sua.
Desde então
as duas amigas se consolavam mutuamente. Laura admirava o pezinho
de Amélia; esta, ou sinceramente, ou para atenuar a mágoa
da prima, chegava a invejar o seu infortúnio.
Aborrecida de
não encontrar nas lojas calçado que lhe servisse,
Amélia tinha descoberto por acaso o sapateiro da Rua Sete
de Setembro. Conhecendo a habilidade do Matos, pensou que ele pudesse
disfarçar o defeito da prima. Não se enganou; o artista
realizara a obra-prima de paciência, que Leopoldo tivera ocasião
de apreciar por um acaso.
Amélia
fez a Laura o sacrifício de expor-se para não comprometer
o segredo da amiga. O sapateiro não a conhecia, nunca a tinha
visto, recebia as encomendas por intermédio de um criado
que pagava à vista. Fácil foi, portanto, iludi-lo.
Na ocasião
em que as duas primas esperavam de carro na Rua da Quitanda, o lacaio
vinha da casa do sapateiro, o qual, vexado com a pressa, esquecera
as recomendações de fechar bem o embrulho.
As pretensões
de Horácio vieram pouco depois arrefecer a amizade das duas
primas: já não se viam tão amiúde; mas,
não obstante, Amélia continuou a prestar a Laura o
mesmo serviço, e essa, coagida pela necessidade, foi obrigada
a aceitá-lo.
Iam as coisas
por esse teor, quando teve lugar o baile do Azevedo.
Depois da primeira
quadrilha, Amélia foi ao toucador. Era este em uma sala que
dava para o jardim. Aproximando-se de uma janela entreaberta, obscurecida
pela sombra do cortinado da cama, viu a moça os dois amigos
no momento em que eles vieram sentar-se no banco, justamente colocado
por baixo da janela.
A casa era abarracada.
Amélia, encostada no portal da janela, descobria os dois
cavalheiros por entre a folhagem, e ouvia distintamente suas palavras.
Aí, imóvel,
mas agitada por comoções diversas, escutou ela a história
do pé e a história do sorriso. Já os dois amigos
se tinham afastado, e a moça permanecia no mesmo lugar como
extática.
A narração
de Horácio e as observações que fizera Leopoldo
a esse respeito revelaram à moça uma coisa que já
anteriormente se havia apresentado, embora indistinta, vaga e confusa
a seu espírito.
O que Horácio
amava nela, não era mais do que uma forma, um capricho, um
sonho de sua imaginação enferma. Ela compreendeu essa
aberração dos sentidos em um homem gasto para o amor
e saciado de prazeres. A mulher era para o leão uma coisa
comum e vulgar, incapaz de produzir-lhe emoções fortes.
Tinha-as admirado de todos os tipos e de todos os caracteres. Seu
coração exausto precisava de alguma coisa nova, original
e extravagante.
Amélia
compreendeu isto, não por uma análise, que seu espírito
casto não poderia fazer, mas por uma intuição
d'alma.
Quando de novo
encontrou Horácio no baile, suas maneiras não podiam
que se não ressentissem do estado de seu coração.
Tratou o leão secamente; mas logo tornou-se amável;
ocorreu-lhe uma idéia; quis pôr à prova o amor
do noivo, antes de confiar-lhe seu destino.
Foi na sua alcova,
durante a insônia, que ela recordou-se da história
de Leopoldo e comparou seu amor ao de Horácio. Repassando
na mente as palavras comovidas do primeiro, pensando naquele afeto
tão desprendido das misérias humanas, tão d'alma,
Amélia sentia-se como purificada dos desejos do sedutor.
Esse amor puro
e imaterial era um batismo para seu coração virgem.
A moça
conheceu que o engano de Leopoldo provinha de uma ilusão
da vista, no momento de entrar no carro com Laura; ilusão
confirmada pela presença do lacaio na loja do sapateiro.
Chegou a estimar esse incidente que pôs em relevo a alma nobre
e generosa do mancebo.
Acudiu-lhe à
lembrança sua primeira conversa em casa de D. Clementina.
As palavras que então lhe pareceram ininteligíveis,
tinham agora um sentido. Compreendia toda a sublimidade do coração
que dizia com uma profunda convicção:
"Sinto-me
capaz de amar o horrível, sinto-me capaz de nutrir uma dessas
paixões mártires, de amar o anjo ainda mesmo encarnado
no aleijão."
"Esse me
ama realmente, a mim, e não à sua fantasia!"
murmurou a moça com tristeza.
No dia seguinte,
depois de uma noite de insônia, preparou-se para receber Horácio
e submetê-lo à prova. O Matos conservava um par das
antigas botinas de Laura, o qual lhe fora para modelo. Mandou Amélia
buscá-lo; e encheu-o de algodão para acomodar nessa
enormidade o seu mimoso pezinho.
O bordado do
bastidor foi expressamente inventado. Procurando uma letra para
indicar a pessoa a quem destinava o pretendido presente, insensivelmente
traçou um L. Era a inicial de Laura, que lhe acudira à
mente; ou era a lembrança de Leopoldo, que lhe esvoaçava
ainda na imaginação? Foi uma e outra coisa. Serviu-se
do pretexto da amiga para evocar o nome do homem, que tão
profundamente a amava.
Depois da cena
que teve lugar na tarde do jantar, Amélia arrependeu-se.
Receava ter-se excedido; bastava-lhe matar a ilusão do mancebo,
não devia ter excitado o horror. Mas o afeto de Leopoldo
a tornara exigente; ela queria ser amada por Horácio da mesma
forma, com aquela sublime abnegação.
Durante alguns
dias, alimentou a esperança de conservar a afeição
do noivo e regozijava-se com a idéia da surpresa que lhe
guardava.
A ausência
do leão a foi desenganando de dia em dia. Travou-se então
uma luta em seu espírito. Devia esquecer o homem que não
amava nela senão uma fantasia?
O tom de Horácio
na última noite a irritou. Seu amor-próprio indignou-se
com o menoscabo do moço, e súbita revelação
de sua alma lhe advertiu que esse casamento causaria sua desgraça.
No dia seguinte
ao do rompimento, Amélia foi, como havia dito na véspera,
à casa de D. Clementina. Era a primeira vez que tornava a
ver Leopoldo depois do baile.
Estiveram juntos
alguns momentos. Como de costume Leopoldo falou, e a moça
embebeu-se daquelas palavras apaixonadas como de um eflúvio
suave.
Em um momento
de pausa, disse Amélia:
- O senhor passou
por nossa casa na terça-feira?
- É verdade.
Por que pergunta?
- Eu estava
no jardim. Vi-o quando passava; cuidei que ia entrar.
- Não
me animava.
- Por quê?...
Mamãe já lhe ofereceu nossa casa.
- Tenho receio
de ser importuno.
- Pouco saímos
agora; à exceção das noites que passamos aqui,
estamos sempre sós; mamãe lendo, e eu tocando ou fazendo
algum trabalho de lã.
- E ninguém
mais? perguntou Leopoldo, fitando na moça um olhar interrogador.
- Ninguém!
respondeu Amélia em tom grave.
Leopoldo ficou
suspenso, buscando compreender o pensamento da moça. Era
mágoa do bem perdido, ou temor do mal frustrado, que assim
lhe anuviara a fisionomia?
Mas o sorriso
prazenteiro iluminou o semblante da moça:
- Sabe? Naquela
noite do baile, me contaram uma história muito interessante,
disse ela.
- Não
se pode saber?
- O senhor pode.
Foi a história de um sorriso, disse Amélia sublinhando
a palavra com um gesto faceiro.
- Quem lhe contou?
Foi ele?
- Foi o senhor.
- Eu?
- O senhor mesmo.
Já não se lembra?
- Quer gracejar?
- O senhor estava
no jardim, conversando com seu amigo, e eu na janela do toucador.
Leopoldo adivinhou.
- Então
ouviu tudo?
- Tudo!...
- E... perdoou-me?
- Não;
não tinha de quê, mas...
E seus belos
olhos límpidos repousaram no semblante do moço.
- Mas compreendi!
Nesse momento
D. Leonor chamou Amélia.