A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo XVII
Como dissera
a Amélia, na sua última visita, Horácio não
tinha perdido a esperança de encontrar o que ele chamava
a realidade de seu amor: o pezinho gentil e mimoso do qual ele possuía
a botina.
Iludira-se nas
suas investigações; era preciso recomeçar.
Tal era o pensamento
que preocupava o leão, recostado naquela mesma poltrona,
onde o vimos no primeiro dia. Seu olhar embebido nos frocos da fumaça
do puro havana, rasteava nas espirais diáfanas a imagem confusa
de seus pensamentos.
Tinham decorrido
três dias depois do seu rompimento com Amélia. Logo
na seguinte manhã, o leão, para não dar tempo
ao arrependimento da moça, escreveu uma carta a Sales, manifestando
seu receio de que a antipatia de gênios tornasse infeliz uma
união que todos ardentemente desejavam.
O negociante
mostrou a carta à filha, que lhe disse com um sorriso forçado:
- Ele tem razão!
A carta de Horácio
teve resposta no mesmo dia. O Sales, encontrando-o na Rua do Ouvidor,
recusou-lhe o cumprimento.
O leão,
satisfeito com esse pronto desenlace que evitava longas explicações,
achou-se a poucos passos de distância em frente de Leopoldo.
- Oh! tu me
trazes felicidade! exclamou o leão, apertando-lhe a mão.
Sempre que nos encontramos, ou está para acontecer, ou já
tem acontecido alguma coisa de bom para mim.
- Não
sabes quanto estimo!... Assim eu sou uma espécie de astro
propício, sob cuja influência nasceste.
- Queres ver?
Havia muito tempo que não te via, quando nos encontramos
no baile do Azevedo. Pois nessa noite decidiu-se meu destino.
- Ah! e sob
o meu influxo benéfico?
- Está
visto. Lembras-te que eu te disse que estava disposto a todos os
sacrifícios até o do casamento para possuir aquele
pezinho!...
- Lembro-me.
- O único
obstáculo era uma espécie de promessa ou arranjo de
família. Felizmente a menina, a tal Amélia, compreendeu
que perdia seu tempo, e arrufou-se na noite do baile por uma ninharia.
Eu aproveitei o pretexto; escrevi ao pai retirando minha palavra,
e agora mesmo ele me acaba de responder. Estou livre como o ar,
e contente como um rapaz que sai do colégio.
- Neste caso
dou-te meus parabéns.
- E tu como
vais com o sorriso?
- Sem novidade.
- Dize-me uma
coisa, no dia em que a viste pela primeira vez, ela estava só
ou com outra moça? Faço-te esta pergunta
porque foi na Rua da Quitanda e quase pelo mesmo tempo que eu achei
a botina.
- Eram duas,
respondeu Leopoldo sorrindo.
- Em uma vitória?
- Sim.
- A outra era
mais baixa?
- Não
afirmo.
- Adeus.
O leão
separou-se do amigo e, repassando as particularidades de sua conversa
com Amélia perto do bastidor e no dia do jantar, começou
a combiná-las com as informações de Leopoldo
e com as circunstâncias do encontro no Passeio Público,
onde vira o sinal impresso na areia pelo mimoso pezinho.
Agora, fumando
seu charuto depois do jantar, o leão resumia todas as suas
reflexões e chegava a este resultado:
"Decididamente
o pezinho é de uma moça que ia com Amélia,
no dia em que se perdeu a botina e no dia em que eu a vi de longe
no Passeio Público. Essa moça, cuja inicial é
um L, não é outra senão Laura. Aquele pudor
feroz era um indício infalível. Amélia procurava
imitá-lo por motivo bem diverso; mas não o conseguiu."
O moço
chegou-se à banquinha onde estava o cofre de pau-rosa e contemplou
a botina.
À noite,
o leão foi a uma partida. Sua estrela o favorecia. Laura
lá estava. Dirigiu-lhe algumas banalidades graciosas, que
ela a princípio recebeu com manifesta esquivança,
mas depois com timidez.
Horácio
compreendia a razão do procedimento da moça. Para
tranqüilizá-la, teve o cuidado de nunca abaixar a vista
à fímbria do vestido e mostrar-se enlevado pelo colo
gracioso da gentil senhora. A lição que recebera anteriormente,
o tornou de uma prudência consumada.
No fim da noite
o leão conseguira restabelecer a confiança no espírito
de Laura, desvanecendo-lhe a suspeita deixada pela cena do teatro.
Era o essencial; com os meios de sedução de que dispunha,
e a inclinação que a moça revelava por ele,
contava certa a conquista. A questão era de tempo.
Antes de quinze
dias freqüentava a casa da moça e estava na intimidade
da família.
Laura perdera
o marido aos dezessete anos, pouco tempo depois de casada. Era rica;
não lhe faltavam pretendentes atraídos pelo dote e
pela beleza; mas ela não parecia disposta a tentar segunda
vez a felicidade conjugal, embora não tivesse passado da
lua-de-mel. É natural que o desejo lhe chegasse com o primeiro
fio de neve; quando fossem rareando os apaixonados que a cercavam.
Uma manhã,
Horácio passando a pé, como costumava, pela casa da
moça, viu-a, por entre as grades, sentada no jardim e ocupada
em fazer um ramo de flores. Entrou e foi ter com ela, à sombra
de uma latada de madressilvas.
Laura deu-lhe
lugar perto de si; e começaram a conversar sobre flores,
modas e mil futilidades.
Eram dez horas
do dia. O sol brilhava em céu límpido; uma aragem
fresca sussurrava entre as folhas; os coleiros trinavam nas ramas
das laranjeiras. Esse concerto de perfumes e harmonias convidava
o coração a abrir-se e cantar o seu hino de amor.
Laura reclinou
a fronte e emudeceu, com os olhos embebidos no seio de uma rosa,
que tinha no regaço. Horácio tomou-lhe a mão,
que ela cedeu com tênue resistência.
- Sabe desde
quando eu a amo, Laura? Desde o dia em que a vi pela primeira vez
passar em um carro. Foi, se não me engano, na Rua da Quitanda;
ia com a filha do Sales. Lembra-se?
A moça
fez um gesto afirmativo.
- Depois encontrei-a
no teatro. A princípio seus olhos me deixaram conceber alguma
esperança; mas o desengano foi cruel. Nem imagina como sofri!
Cuidei que não houvesse mulher capaz de obrigar-me a voltar
às ingenuidades dos dezoito anos. Um dia, ainda me lembro,
via-a de longe entrar no Passeio Público; apressei-me para
ter o prazer de cortejá-la, receber um olhar. Debalde corri
todas as ruas; quando voltei à porta, fiquei desesperado.
A senhora tinha saído, sempre com a filha do Sales. Recorda-se?
- Recordo-me,
respondeu a moça. Mas era por mim que fazia tudo isso?
- Duvida, Laura?
- Nega que esteve
apaixonado por Amélia? Até diziam que já a
tinha pedido.
- Que ingratidão!
Não sabe então por que me fiz apresentar em casa do
Sales? Para vê-la; era preciso procurar um meio; a senhora
já não se lembra da dureza com que me tratava.
- E por isso
consolava-se com Amélia?
- Se amasse,
Laura, havia de saber o que é o ciúme, e as loucuras
que ele nos obriga a fazer! Mas a senhora não ama!
- Quem lhe disse?
- Essa frieza.
- E o que eu
sofri?... balbuciou a moça pondo os olhos lânguidos
no semblante do mancebo.
- Perdão,
Laura, exclamou Horácio ajoelhando. Eu era um louco, indigno
de teu amor; e não mereço tanta felicidade. Mas deixa-me
implorar o meu perdão; deixa-me beijar teus pés, que...
- Ah!...
Horácio
proferiu aquelas palavras apaixonadas, de joelhos diante da moça
que sorria inclinada para ele; de repente abaixou-se para beijar-lhe
os pés, esse objeto de sua adoração. Foi então
que ela, soltando um grito de espanto, o repeliu para longe de si
com horror.
Contudo, o moço,
que preparara toda aquela cena para chegar à realização
do desejo por tanto tempo afagado, conseguira ver... mas não
o que esperava: um pezinho mimoso e gentil; e sim dois pés
ingleses de sofrível tamanho, que lhe pareciam descansar
sobre uma almofada preta.
O semblante
de Laura se tinha demudado de uma maneira espantosa; em suas faces
intumescidas respirava uma expressão feroz de ódio
e vingança.
Horácio
compreendeu que naquele momento qualquer explicação
era impossível. O que tinha de melhor a fazer era eclipsar-se.
No fim de contas, esse desenlace lhe convinha, pois cortava todas
as dificuldades da retirada.
Cortejou e saiu.
A alguns passos
da casa, o leão não pôde conter uma gargalhada,
que lhe estava a sufocar, e desabafou-a. Realmente havia de que
rir; duas vezes mistificado em sua paixão, ele, o rei da
moda, o conquistador sempre feliz.
Insensivelmente
começou a refletir sobre o ocorrido. Por mais que se desse
tratos à imaginação, não podia decifrar
o enigma. A botina que achara fora perdida por uma das duas moças;
mas não pertencia a nenhuma. Seria encomenda de outra amiga
e talvez para alguma menina de dez anos?
De repente surgiu
no espírito de Horácio uma idéia tão
original, como a situação em que se achava.
"Eu vi
os dois pés de Laura; mas de Amélia, só vi
um; é verdade que esse valia por três. Mas... Não
resta dúvida. A natureza tem destes caprichos. A maravilha
a par do monstro, o mimo em face da deformidade! É o princípio
do contraste, que rege o mundo. Eu vi o direito, o aleijão.
O esquerdo ficou oculto como a pérola e o diamante."
Compenetrado
dessa idéia, de que o pezinho adorado pertencia a Amélia,
a quem a natureza em compensação aleijara o outro,
Horácio admitiu a possibilidade de que sua paixão
pela moça revivesse, embora menos ardente, ou mais positiva.
Ter aquele pezinho
em suas mãos, senti-lo estremecer e palpitar de emoção,
cobri-lo de beijos, acariciar a rósea cútis diáfana
tecida de veias azuis, brincar-lhe com as unhas crespas, como conchinhas
de nácar, cingir ao seio esse gnomo gentil, titilante de
amor e volúpia!
Não podia
haver para o leão maior delícia neste mundo. Ele daria
por ela todo o quinhão de prazer que porventura lhe estava
reservado para o resto da existência.
Foi engolfado
nestes devaneios que Horácio apeou-se à Rua Direita
de um tílburi, que tomara no Largo do Machado.
Seguindo para
a Rua do Ouvidor, a passo lento e descuidado, o leão aspirava
o ar da cidade, como o ocioso que não sabe em que há
de consumir o dia e fareja uma aventura qualquer.
De repente avistou
coisa que o pôs alerta. Um carro que subia a Rua do Ouvidor
passou por ele; era o cupê do Sales. O rosto encantador de
Amélia apareceu-lhe a princípio de relance na penumbra
que azulava o acolchoado de damasco e depois em plena luz moldurado
pelo quadro do postigo.
Acompanhando
com o olhar a carruagem, Horácio a viu rodar por algum tempo
vagarosamente por causa do embaraço no trânsito e parar
próximo à esquina da Rua dos Ourives. O lacaio, com
a mão na aldraba, esperava naturalmente ordem para abrir.
Horácio
apressou o passo. Por duas vezes avistara a fronte de Amélia
coroada com um chapeuzinho de palha da Itália, assomando
no postigo, a fim de percorrer a rua com o olhar. A idéia
de que a moça lhe desejava falar passou pela mente do leão,
que a repeliu, sem, contudo, considerá-la impossível.
Em todo caso
ele acreditou que mais ou menos tinha parte naquela parada do carro
e não se enganava.
- Para que mandaste
parar? perguntou D. Leonor.
- Quero comprar
luvas no Masset, respondeu a filha.
- Ficou atrás.
- Podemos ir
a pé.
Quando o leão
chegou a dez braças do carro, a portinhola abriu-se, e Amélia,
em companhia de sua mãe, saltou na calçada. A moça
tinha um roupão cor de café, de extrema simplicidade,
porém muito elegante; as luvas eram da mesma cor de cinza
das fitas do chapéu de palha.
As duas senhoras
dirigiram-se para a casa do Masset. Horácio procurou cortejá-las
na passagem, mas elas não lhe deram ocasião. Contudo,
o leão reparou que a moça disfarçadamente voltou
o rosto para olhá-lo.
Enquanto as
senhoras compravam luvas, Horácio as esperava em frente da
casa do Valais, a alguns passos do carro. Pouco tardaram. Amélia
vinha só na frente. Felizmente o trânsito pela calçada
diminuiu naquele instante, de modo que o conquistador pôde
ver a gosto a moça aproximar-se dele. Levados por impulso
irresistível, os olhares do mancebo abaixaram-se para os
volantes do vestido e rastejaram no chão que a moça
pisava.
Amélia
percebeu a insistência do olhar, e um ligeiro sorriso fugiu-lhe
dos lábios. Imaginando que na calçada havia lama,
colheu com ambas as mãos a frente da saia, e com tanto estouvamento
que descobriu os pés até o colo da perna.
Horácio
ficou fulminado.
Vira pousados
na calçada dois pezinhos mimosos que palpitavam dentro de
botinas de merinó cor de cinza. Pareciam um par de rolinhas,
arrulhando na praia e beijando-se com o biquinho rosado. Durante
o rápido instante, que seus olhos puderam admirar esses primores
de graça e gentileza, não escaparam a Horácio
as ondulações voluptuosas e os contornos suaves dos
dois silfos. Nunca ele observara no talhe elegante da mais formosa
mulher requebros tão aveludados, como tinha aquele dorso
arqueado e aquela palmilha sutil.
Tamanho foi
o pasmo de Horácio, que só deu por si quando a moça,
passando por ele, entrou na carruagem. Voltou-se então precipitadamente,
sem consciência do que ia fazer; mas a parelha já tinha
partido a trote largo.
Momentos depois
o leão descia a Rua do Ouvidor completamente absorto. Seu
lábio distraído ia debulhando, sem o sentir, alguns
trechos dos lindos versos do conselheiro José Bonifácio:
"Padres,
não me negueis, se estais em calma.
"Um coração
no pé, na perna um'alma!"