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A PATA DA GAZELA
José de Alencar


Capítulo XV

Seriam quatro horas da tarde.

Amélia, já vestida para o jantar, esperava o noivo trabalhando em um bordado de tapeçaria. A seu lado, em uma linda banca de costura forrada de pau-cetim, havia, além dos utensílios necessários, uma profusão de seda frouxa de várias cores.

No cetim branco, estendido pelo elegante bastidor de mogno, via-se o risco de um par de sandálias, que pareciam destinadas a alguma fada, tão pequena, mimosa e delicada era a forma do pé.

Um dos esboços estava ainda intato; no outro, porém, via-se já um florão de rosas bordadas a seda frouxa, e no centro a letra L, feita com torçal de ouro. Era naturalmente a inicial do nome, em cuja tenção a moça trabalhava.

Amélia estava nesse dia talvez menos formosa, porém em compensação mais sedutora. Certa expressão lânguida, ou de cansaço, ou de melancolia, embotava a flor de sua habitual lindeza, desmaiando o matiz dos lábios e das faces, velando o brilho dos olhos pardos. Seu trajo branco ainda mais ameigava a sua fisionomia.

Não há para arrebatar os sentidos como essa languidez da mulher amada. Parece que ela verga com a exuberância do amor, como a planta muito viçosa, quando concentra a seiva que não brota em flor. O homem querido se regozija, pensando que suas palavras e suas carícias podem, como os orvalhos celestes, reanimar e expandir o coração da mulher amada.

Talvez em Amélia não fosse esse desmaio senão o efeito da fadiga do baile e das cismas da noite maldormida.

Enquanto bordava, o ouvido da moça, atento, esperava algum rumor que lhe anunciasse a chegada do noivo. Um carro parou à porta; e momentos depois soaram na sala de visitas os passos de alguém.

Era Horácio.

Vendo a moça na saleta próxima, o leão dirigiu-se a ela, com a familiaridade a que lhe dava direito seu título de noivo.
Trocados os cumprimentos usuais, sentou-se junto ao bastidor.

- O que está bordando?

Amélia fez um gesto para cobrir o bordado:

- Deixe ver! insistiu o moço.

- Não vale a pena!

- Ah!

Esta exclamação desfez-se nos lábios do mancebo em um sorriso de júbilo.

- É um presente de anos para uma amiga! disse Amélia.

- Não são para a senhora?

- Não, respondeu a moça admirada.

- Está zombando comigo!

- Veja!

A unha de nácar da moça mostrou o L bordado a ouro.

- Pois há quem tenha este pezinho mimoso, a não ser minha noiva? disse Horácio rindo-se.

- Eu? exclamou Amélia enrubescendo. Pobre de mim!

- Lembra-se do que me prometeu ontem à noite?

Uma nuvem de tristeza cobriu o lindo semblante da moça; com a fronte pendida e os olhos baixos, parecia contraída por uma dor íntima.

- Amélia!

- Ontem... não tive ânimo de contrariá-lo. Fiz mal; desculpe-me.

- Então sua promessa? disse o moço com ironia.

Amélia voltou o rosto como para esconder uma lágrima.

- Acredite. O que me pede... não posso... não tenho forças para fazer. Se o senhor soubesse!... E, entretanto, deve saber por quê... Eu lhe suplico, não falemos disso agora; depois eu lhe direi. Prometo-lhe.

- Não se dê a este trabalho. Já sei quanto basta: zombou de mim.

Horácio levantou-se visivelmente despeitado e volveu os passos pela sala. Amélia continuou a bordar talvez para disfarçar o seu vexame.

Decorridos alguns instantes, Horácio, lançando um olhar para a moça, ocupada com seu bordado, viu alguma coisa que o sobressaltou. A fímbria do vestido, suspensa na travessa do bastidor, devia descobrir o pé da moça para quem estivesse sentado à sua esquerda.

O leão aproximou-se na esperança de surpreender o avaro tesouro que se roubava a seus olhos.

- Não sabia que bordava tão bem!

- Ora! Não tenho paciência para estes trabalhos. Se não fosse uma dívida...

- Como? Não é mais presente de anos?

- Uma e outra coisa.

- Ou talvez nem uma, nem outra, disse Horácio adoçando o tom de ironia.

- Que necessidade tinha eu de enganá-lo? disse Amélia com um doce ressentimento. Uma amiga minha...

- Cujo nome não consta.

- É segredo! atalhou a moça com faceirice.

- Ah! É segredo?

- Inviolável. Ela não quer por coisa alguma que saibam, nem mesmo suspeitem...

- Que é sua amiga?

- Ora!... Que tem um pé deste tamanho, disse a moça mostrando o bordado.

- Deveras? acudiu Horácio.

- Ela pensa que é um aleijão e sente uma tristeza...

- Na verdade, possuir um tesouro, um primor! Admira como sua amiga já não morreu de desgosto.

- Mas, falando sério: não é natural que uma moça tenha o pé de uma menina de sete anos.

- Não sei se é natural; mas sublime, asseguro-lhe que é. Há certas graças na mulher que devem ficar sempre meninas; as huris, as fadas, as deusas, são assim.

- Com efeito! Se eu fosse ciumenta!

- De sua amiga?... De uma amiga tão íntima?... Era quase ter ciúmes de si mesma! disse Horácio gracejando.

- O que o senhor quer, sei eu. É ver se adivinha.

Horácio tinha sustentado esta conversa com interesse extremo, menos pelas palavras da moça do que pelos movimentos da fímbria do vestido. A saia, arregaçando gradualmente com a inflexão do talhe gentil da moça reclinada sobre o bastidor, prometia brevemente descobrir o tesouro, tão estremecido pelo mancebo.

Amélia, ocupada com seu trabalho e distraída com a conversa, se esquecera daquele constante cuidado que ela tinha em compor a orla do vestido. Durante a conversa apenas uma vez tirara os olhos do bordado, para lançar uma vista furtiva ao leão.

- Mas então essa amiga misteriosa... A senhora ia contar uma história, se não me engano.

- História, não senhor. Queria explicar-lhe por que este bordado é o pagamento de uma dívida.

- Justamente.

- Pois essa minha amiga incomodava-se muito quando tinha de comprar botinas; custava achar um par que lhe servisse. As de senhora eram muito grandes; as de menina eram muito baixas. Afinal encontrou um sapateiro, que trabalha tão bem como os melhores de Paris.

- É exato.

- Como exato? O senhor sabe?

- A senhora não fala do Campás? disse Horácio um tanto perturbado.

- Não, senhor.

- Pensei.

- Haverá dois meses, indo eu à cidade, minha amiga, que tinha feito uma encomenda de botinas, pediu-me para ver se estava pronta. Quando o criado a trouxe para o carro onde o esperava, caiu um pé de botina já usado, que fora para modelo. Minha amiga ficou muito aflita; e eu fiz tenção de dar-lhe no dia de seus anos umas chinelas bordadas por mim. Bem vê que não o enganei.

Proferindo as últimas palavras, Amélia, sempre ocupada com seu bordado, debruçou-se completamente sobre o bastidor para desembaraçar o fio de seda frouxo. Este movimento produziu o que Horácio esperava. A saia, retraída pela travessa do bastidor, descobriu até o artelho o pé da moça.

O moço estremeceu com a forte emoção; e fechou os olhos, atordoado.

O que vira era uma coisa indefinível, estupenda. Era o aleijão, a monstruosidade de que lhe falara Leopoldo. Aquela massa informe; aquela enormidade cheia de cavernas e protuberâncias, ele a tinha ali em face, diante dos olhos, escarnecendo do seu amor, como um desses caturras hediondos das lendas da Idade Média.

- Diga-me uma coisa: ontem, depois que saímos, o senhor conversou com aquele moço que dançou comigo? O Leopoldo, não é?

Não recebendo resposta, Amélia ergueu a cabeça para interrogar o noivo com o olhar. O aspecto demudado de Horácio, o sorriso pungente que amarrotava seu bigode artístico, a vista ansiada que ele tinha fixa no monstro lhe revelaram subitamente o que sucedera.

Um grito de aflição escapou-se do peito da moça, que afastou violentamente de si o bastidor, causa do acidente, e colheu os largos volantes da saia, ocultando o que ela por tanto tempo defendera contra a curiosidade sôfrega do moço. Por alguns instantes os noivos permaneceram mudos e confusos, sentindo-se repelidos um pelo outro, e, contudo, não ousando afastar-se. É um suplício cruel esse que inflige a presença de um ente que faz corar de vergonha.

Afinal, Horácio levantou-se e deu alguns passos a esmo. Amélia aproveitou-se desse movimento para fugir da sala. Ficando só, o leão dardejou para o interior um olhar terrível; e, tomando o chapéu, desceu rapidamente as escadas.

Agora ele compreendia tudo; e as palavras que Leopoldo lhe dissera na véspera, ao sair do baile, lhe repercutiam ao ouvido, como uma gargalhada satânica: "A ilusão é a única realidade deste mundo."

"Como pude eu tanto tempo iludir-me com o excessivo recato de Amélia? Como não desconfiei do pudor selvagem que velava semelhante a um dragão sobre o terrível segredo?

Não há moça, seja ela o anjo da pudicícia, que não mostre ao menos a pontinha do pé, quando o tem mimoso e gentil. Eu devia saber disso, mas estava cego. Todos cochilamos, sem ser Homeros; eu que me prezo de conhecer a mulher, portei-me como um calouro.

Consumir dois meses a correr após uma sombra, e, quando esperava que a sombra tomasse corpo, ela se desvanece... Qual! Antes se desvanecesse; mas, ao contrário, toma um vulto medonho, enorme, esquálido. Faz-me quase lembrar o verso de Camões."

Horácio soltou uma gargalhada:

"Realmente eu não sei qual de nós dois ficou mais corrido. Se ela de mostrar a toesa; se eu de a ver.

"Sonhar uma pérola, e encontrar um seixo; imaginar um mimo, e achar uma brutalidade; desejar um botão de rosa, e colher uma túbara!

Se os rapazes souberem disto, estou desonrado. Como posso eu mais apresentar-me na Rua do Ouvidor, quando a coisa divulgar-se? Todo o asno terá direito de atirar-me o coice, como ao leão moribundo da fábula."

Horácio começou a refletir se fizera bem saindo tão precipitadamente da casa de Sales. Moderou o passo e olhou o relógio.

Eram perto de cinco horas. Se voltasse, chegaria tarde; demais, como explicar a retirada e a volta?

"Em todo caso", pensou o leão, "a fortuna não me desamparou de todo. Assim como a ilusão durou até hoje, podia prolongar-se mais algumas semanas, e... Tremo de horror, quando me lembro que eu podia ser atado àquele moirão, àquele poste! Ser condenado a arrastar uma trave por toda a vida? Que suplício!

Se eu pudesse imaginar que o Onipotente, criador de tantas maravilhas, se ocupa com a minha ridícula individualidade e se interessa pelos pecados que eu tenho cometido, me ajoelhava aqui mesmo na rua e lhe renderia graças pela minha salvação.

Quem se livrasse de ser esmagado por uma rocha, não escaparia de tão grande perigo como eu. Casar-se um homem com aquele pé, seria predestinar-se para o homicídio".

Passava um carro, que parou de repente.

- Ainda por aqui, Almeida? disse o Sales deitando a cabeça fora do carro.

- É verdade... saí, mas...

- Entre, que hão de estar à nossa espera. São cinco horas; demorei-me hoje além do costume; por causa mesmo do senhor, maganão! Certos arranjos.

Horácio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou com um calo. Ele, o leão, sempre elegante, correto e irrepreensível no trajo como nas maneiras, tinha perdido completamente a serenidade de espírito.

As senhoras estavam reunidas na saleta. Amélia ficou surpreendida, vendo Horácio de volta com seu pai; e reprimiu o contentamento que sentia. Mas este durou pouco. Ela conheceu logo que o leão obedecera mais às conveniências do que ao afeto que lhe tinha.

Contudo, essa volta significava alguma coisa. Ela, Amélia, não causava horror a seu noivo.

O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de Horácio, que havia recuperado seu sangue-frio. Uma circunstância, porém, não escapou a Amélia, que passou despercebida às outras pessoas; o leão, apesar de sentado à sua esquerda, não achou um momento para trocar com ela uma palavra. Ao contrário, manteve sempre a conversação geral, para impedir o diálogo íntimo, que ele receava.

Terminando o jantar, Horácio achou um pretexto para retirar-se logo.

- O que se passou, D. Amélia, é mais do que um segredo para mim; eu nada sei, esqueci, disse ele despedindo-se.

Tocando apenas na mão que a moça lhe estendera, saiu.

Amélia deu um passo para chamá-lo, mas, apoiando-se ao recosto do sofá, permaneceu imóvel, escutando os passos do noivo até que se perderam ao longe.

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