A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo XIV
O Almeida acendeu
outro charuto.
- Meu romance,
disse Castro, começou como o teu na Rua da Quitanda. Passando
ali uma manhã, vi uma moça, que produziu em mim profunda
impressão. Parei para contemplá-la; mas o que eu admirava
nela, não era seu talhe elegante e seu rosto gracioso: era
unicamente a emanação de sua alma pura, o seu casto
e ingênuo sorriso.
Quando o carro
partiu, arrebatando-a a meus olhos, conservei sua imagem gravada
em minha alma. Não penses, porém, que eu revia a sua
figura, os seus traços. Não; era uma forma imaterial,
uma visão vaga e indistinta. Não me lembrava como
eram suas feições; qual era a cor de seus olhos ou
de seus cabelos; mas parecia-me que eu via sua alma refletida na
minha.
Senti que amava
essa moça e afaguei este sentimento, que enchia meu ser de
alegrias inefáveis. Bastava-me ver de tempos a tempos a minha
desconhecida e trocar com ela um olhar, ou beber-lhe de longe nos
lábios o sorriso, que era emanação de seu ser.
Estava-me reservada
uma dura provança. Um dia, vendo a minha desconhecida entrar
no carro, descobri que ela tinha um defeito... um aleijão,
é preciso dizer a palavra. A fímbria do vestido roçagando
mostrou-me um pé deforme."
- Ah! exclamou
Horácio, não podendo reprimir um sorriso.
- O acaso tornou-se
nesse dia de uma previdência cruel. O que eu tinha visto de
relance era um vulto confuso, um volume exagerado talvez pela imaginação.
Podia acariciar essa ilusão, e desvanecer a impressão
desagradável que sofrera; mas o desengano não se demorou.
Passando nessa mesma hora pela loja onde compro calçado,
vi sobre o mostrador uma botina, verdadeiro contraste da que tu
achaste, Horácio!
- É curioso!
- Não
havia que duvidar; era o molde do pé deforme que eu acabava
de ver, mas o molde fiel!... Todos os traços fisionômicos
do aleijão ali estavam bem debuxados, sobretudo na forma
que servira para o calçado, e que ali se achava ao lado dele.
Poupa-me a descrição do que vi. Era repulsivo; isto
basta.
Imagina o que
devia sofrer! Não era o feio, não; era o horrível,
o estupendo, que de repente caíra como um peso enorme sobre
meu coração, para espremer dele, com o último
soro, um amor profundo e veemente.
A luta foi terrível,
mas breve. O amor triunfou, porque era o afeto d'alma e não
o culto plástico da beleza. Hoje, se alguma vez me lembro
do que vi, entristeço-me pelo desgosto que ela há
de ter de sua deformidade; mas sinto que por isso mesmo a amo e
a devo amar ainda mais.
Compara agora
o teu com o meu amor, e dize em consciência se tenho ou não
razão. Para aniquilar o teu, não era preciso um aleijão;
bastava substituir por uma forma comum esse primor que tu sonhaste,
esse pezinho de silfo ou de deusa, que talvez não passe de
uma ilusão.
- Ilusão!...
Se eu tive a mesma prova que tu! Mas demos a questão por
finda. Nem tu conseguirás me convencer, nem eu quero reviver
lembranças que te pesam. Desculpa-me ter falado nisto. Como
podia eu imaginar uma tal coincidência!
- É verdade!
Os dois amigos
deram algumas voltas no jardim, falando de coisas indiferentes,
e, entrando nas salas, separaram-se.
Horácio
procurou Amélia durante algum tempo; afinal, passando pela
porta do toucador, viu a mão da moça que entreabria
a cortina de veludo verde.
- Está
triste, disse-lhe o mancebo conduzindo-a ao salão.
- Estou fatigada,
respondeu a moça com frio desdém.
Horácio
conhecia profundamente a fisiologia da mulher que ama; tantas vezes
tinha lido e relido o livro misterioso do coração
feminino, que não podia escapar-lhe a menor alteração
do texto. O tom de Amélia o surpreendeu; alguma coisa havia.
O que era? O que podia ser?
Poucos momentos
antes ele a deixara amável e terna; uma hora depois vinha
encontrá-la desdenhosa e fria.
"Ciúmes,
naturalmente!" pensou o leão com certo desvanecimento.
"Contaram-lhe alguma ou ela imaginou!"
O moço
resolveu sondar o coração da noiva:
- A senhora
tem mais alguma coisa além da fadiga, confesse.
- Ilude-se!
- Talvez! Concordo,
para não contrariá-la ainda mais.
Deram alguns
passos silenciosos.
- Vá
amanhã jantar conosco, sim? disse Amélia, voltando-se
para o cavalheiro com um sorriso inefável.
A transição
não podia ser mais brusca: uma aurora no seio da noite, tal
era aquele sorriso orvalhado de meiguices e graças encantadoras.
Outro, que não
fosse Horácio teria respondido sem a menor hesitação
o sim, que suplicavam lábios tão mimosos. Mas esse
astuto César dos salões, perito na tática da
guerra à mulher, não era homem que perdesse tão
bom ensejo de alcançar o triunfo completo. O adversário
lhe dera a vantagem da posição: cumpria aproveitá-la.
- Amanhã?
A moça
fez com a cabeça um gentil aceno.
- Não
irei.
- Obrigada.
- Não
devo ir.
- Por quê?
- Se eu fosse,
pediria ainda uma vez aquilo que lhe tenho pedido tantas, e que
a senhora me tem recusado tão cruelmente.
- Ah!
- Bem vê!...
Iria contrariá-la, aborrecê-la...
- Cuida?...
Esta palavra
tinha uma reticência, e essa reticência era um sorriso
que entreabria o céu de uma alma cândida.
- Então
amanhã?... disse Horácio.
- Vai?
- E se eu pedir?
- Experimente!
Amélia
sentou-se, e Horácio, ébrio de ventura, desceu outra
vez ao jardim para desafogar as exuberâncias de sua alma.
Nunca a primeira entrevista da mulher que mais amara produzira nele
tão profunda emoção.
Para achar alguma
coisa comparável com o que então sentia, fora necessário
remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras pulsações
de um coração virgem.
Sua paixão
por Amélia tinha realmente uma virgindade. O conquistador
havia amado na mulher todas as graças e encantos, mas nunca
até então havia adorado um pé. Devia, pois,
experimentar realmente as sensações inebriantes de
um primeiro amor.
Na sala dançava-se
a sexta quadrilha.
- Acho-a pensativa,
disse Leopoldo, reparando que o lindo rosto de seu par, ordinariamente
animado por uma gentileza vivaz, estava agora amortecido pela reflexão.
Amélia
fitou nele seus grandes olhos ingênuos.
- E não
tenho razão?...
Leopoldo calou-se.
Tinha compreendido o pensamento de Amélia. Na véspera
de decidir de seu destino, de ligar eternamente sua existência,
a mulher deve ter desses instantes de recolhimento íntimo.
A dúvida agita-se no seio da fé mais profunda, o receio
no âmago da esperança mais risonha. As flores do coração,
como as da natureza, têm um verme, que as babuja.
Que podia Leopoldo
dizer a essa alma perplexa? Aumentar-lhe a dúvida, dar força
às vacilações, não seria digno; parecia-lhe
uma sedução. Confortá-la em sua fé,
animar-lhe a esperança, apontar-lhe para um futuro cheio
de venturas, fora nobre e generoso; mas faltava-lhe abnegação
para tanto.
Terminada a
contradança, Amélia pelo braço do par deu uma
volta pela sala. A um aceno de seu leque, Horácio, que estava
conversando em um grupo, chegou-se.
- Chame papai.
São horas!
Enquanto o leão
procurava o Sales para preveni-lo do desejo de sua filha, Amélia
dirigiu-se ao toucador.
Leopoldo ficara
surpreso de ver a moça falar a Horácio, e com um tom
bem expressivo de intimidade.
- Não
pensava que se conhecessem... tanto! disse ele com a voz comovida.
- Pois é
com ele...
O rubor que
tingiu as faces da donzela rematou a frase com a sublime eloqüência
do pudor.
- Não
sabia? perguntou a moça para disfarçar.
- Não!
- Como o Sr.
diz este não!
Com efeito,
a voz de Leopoldo tivera uma vibração profunda, quando
pronunciara aquele simples monossílabo.
- Desejava que
não fosse ele? perguntou a moça com certa ansiedade.
- Por quê?
Aproximava-se
Horácio dando o braço a D. Leonor e seguido pelo negociante.
Amélia separou-se de seu cavalheiro e, levantando a cortina
de veludo do toucador, voltou-se:
- Há
de me dizer! insistiu.
- É preciso?
perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu lentamente do rosto da moça
à fímbria do vestido.
Amélia
empalideceu; a cortina, escapando de sua mão trêmula,
ocultou-a.
- Conhecias
Amélia? perguntou Horácio, enquanto esperava que as
senhoras saíssem do toucador.
- Estás
admirado, sem dúvida! retorquiu Leopoldo secamente.
O leão
fitou no companheiro um olhar interrogador; mas ocorreu-lhe de repente
uma idéia, que lhe trouxe aos lábios um sorriso de
ironia. Lembrara-se do aleijão.
A mulher amada
por Leopoldo não podia ser Amélia. Mas quem sabe se
o idealista capaz de adorar uma monstruosidade, o espírito
severo que desdenhava a beleza material, não sofria a sedução
irresistível do mimoso pezinho?
- Admirado de
quê? De te ver convertido à idolatria da beleza material?...
Amélia,
que saía do toucador, embuçada em sua capa de caxemira
escarlate, tomou o braço do noivo e desceu as escadas.
Quando partia
o carro de Sales, Leopoldo, que também se retirava, encontrou
Horácio na porta.
- A ilusão
é a única realidade desta vida! disse ele sorrindo.
- O quê?
- Adeus!