A PATA
DA GAZELA
José de Alencar
Capítulo X
Pela manhã
se dissiparam essas névoas que no espírito de Amélia
deixara a noite antecedente.
Era domingo.
A moça, envolta em seu roupão alvo, com os cabelos
soltos pelas espáduas, encostou o rosto à vidraça
da janela. Afastando a cortina de cassa branca, podia enxergar perfeitamente
a rua, sem que de fora vissem o seu gracioso desalinho.
Não tardou
que se ouvisse um tropel de cavalo. Era o leão que ia dar
seu passeio matutino. Vendo agitar-se a cortina e desenhar-se no
vidro a ponta de uns dedos cor-de-rosa, Horácio cortejou
enviando um sorriso à janela.
À noite
o moço dirigiu-se à casa do Sales; Amélia o
esperava. A sala estava cheia de visitas. Entrando, o olhar de Horácio
encontrou um olhar terno que o saudava de longe.
Mas o sorriso
se desfez com a perturbação que de repente sentiu
a moça. A vista do leão tinha descido até o
tapete e se fixara com uma insistência visível na fímbria
do vestido, ligeiramente arregaçada. Horácio julgou
que pudesse lobrigar a ponta do pezinho que idolatrava.
A moça
concertou as dobras da saia de modo a interceptar o olhar curioso;
e disfarçou conversando com uma amiga.
Desde princípio
notara Amélia aquele sestro de Horácio. Quando ela
o supunha mais embebido em seus encantos, mais rendido à
sua beleza, surpreendia o olhar do moço a rastejar pelo chão,
procurando insinuar-se por baixo da orla de seu vestido.
Muitas vezes
ela perdia os seus mais ternos sorrisos, porque o moço, em
vez de procurar-lhe no rosto a esperança de ser amado, esquecia-se
a catar sobre o tapete alguma idéia que não se animava
a revelar. Já tinha sucedido, durante que ela tocava, distrair-se
o leão, e com a atenção presa no pedal, nem
ouvir a peça de música.
Horácio
a amava sem dúvida; já lhe tinha dado provas de que
sentia por ela uma paixão veemente. Ele, o rei da moda, o
festejado conquistador, para quem todas as portas e todos os corações
abriam-se como a gruta encantada de Aladino, a uma só palavra;
ele ali estava cativo da vontade dela e atado ao seu carro triunfal.
Que prova mais eloqüente de profundo amor de que essa submissão
espontânea do altivo leão?
A força
nunca se revela tanto como na posse de si mesma, no vigor com que
se domina. Hércules, fiando aos pés de Onfale, é
o último canto, o epílogo sublime da epopéia
da força humana. Exterminando a fera, a natureza, e até
os deuses, Hércules foi grande; abatendo a si mesmo, foi
maior, porque venceu o vencedor.
Amélia
compreendia que homenagem eloqüente à sua beleza havia
naquela adoração do elegante cavalheiro; sentia-se
orgulhosa com esse amor, que tantas mulheres lhe invejaram; considerava-se
rainha, desde que via a seus pés subjugado e humilde o rei
da moda.
Mas lá
no íntimo alguma coisa lhe remordia quando notava a pertinácia
com que o olhar de Horácio procurava a fímbria de
seu vestido. Nesses momentos sentia n'alma um alvoroço; chegava
a suspeitar que Horácio não lhe tinha amor, e estava
escarnecendo dela com uma paixão fingida.
A verdade, porém,
é a que sabemos. Horácio tinha paixão louca
pelo pezinho de que só conhecia a botina e o rasto; fazendo
a corte a Amélia, ele prestava culto ao deus ignoto, que
adorava sob aquela forma encantadora. Pelo cuidado que tinha a moça
em não desconcertar os babados de seu vestido comprido demais,
conheceu ele o zelo com que a dona recatava o tesouro. Contudo não
desesperou; o cuidado da moça havia de adormecer um momento;
podia mesmo sobrevir um acidente inesperado que realizasse a sua
mais cara esperança.
Até aquela
noite todos os esforços se tinham frustrado; à sua
insistência a moça tinha oposto a pertinácia
do capricho feminino. Quanto mais atento ele estava para aproveitar
qualquer descuido, mais alerta ela ficava para não cometer
a mínima falta. Horácio, porém, resolveu dar
o golpe; e com essa intenção, fora à casa de
Sales, no domingo em que estamos.
Quando se ofereceu
ocasião, travou com Amélia, recostada à janela,
o seguinte diálogo.
- Como é
bonita! disse ele contemplando a moça com enlevo.
- Ainda não
tinha percebido? perguntou ela com irônica faceirice.
- Não,
D. Amélia, não; porque de cada vez a acho mais bonita;
todos os dias a senhora muda a meus olhos; torna-se outra, mais
linda, mais formosa, do que era aquela que eu conhecia anteriormente.
Como hoje, acredite, nunca a vi.
- Que tenho
eu demais?
- Não
sei; tem uma auréola de beleza! Seus olhos desferem raios
de luz tão pura; sua boca sorri como a flor em botão,
que abriu com a frescura da noite. Os anéis de seus cabelos
castanhos parecem impregnados de um fluido misterioso, que se derrama
em torno. Mas de toda a sua formosura há uma coisa sobretudo
que eu admiro, que eu adoro. Não é, nem seus olhos
brilhantes, nem seus lábios mimosos, nem seu talhe elegante,
nem suas tranças tão opulentas; não é
nada disto!
- O que é
então?
- Para que dizê-lo?
Para que revelar a minha paixão a quem dela escarnece? Se
eu o confessasse, cessariam o suplício que tenho sofrido,
as ânsias que estou curtindo? Não; haviam de aumentar
se isso fosse possível. A senhora teria prazer em torturar-me
ainda mais.
- Explique-se:
confesso que não o entendo. Que suplício tem o senhor
sofrido?
- A mulher é
caprichosa, muitas vezes faz padecer aquele que a ama sinceramente,
e só por espírito de contradição. Uma
coisa inocente, um favor pequenino... permite aos estranhos e indiferentes,
e entretanto recusa ao homem que morre de paixão por ela.
Não é uma crueldade? A senhora pergunta, D. Amélia,
que suplício tenho eu sofrido. Este, de ser consumido a fogo
lento por um desejo, que um gesto seu podia tornar em gozo infinito!
A moça,
com as faces incendidas em rubor, lutava no alvoroço e confusão,
que iam se apoderando de toda sua pessoa.
- Entende agora,
D. Amélia?
- Não!
murmurou trêmula.
- Pois não
percebeu ainda, que há uma coisa que eu sobretudo amo na
senhora? Tanto percebeu, que fez o propósito de escondê-la
a meus olhos, cansados de a procurarem a cada instante. Não
está contente ainda de ver-me arrastando assim a alma pelo
pó, no vão intento de entrever de longe o objeto de
minhas adorações?
O leão
fitou um olhar fascinador no semblante da moça.
- Para que negar,
D. Amélia? A senhora o sabe, e finge ignorar para mais torturar-me.
- Eu, não!
- A senhora
sabe por quem deliro de paixão, por quem darei a minha vida
sem hesitar. Se não soubesse, já eu teria visto e
admirado esse pezinho mimoso, que me mata com seu rigor.
Uma visita que
entrava na sala, deu a Amélia um pretexto para fugir, disfarçando
seu rubor e perturbação, no afã da recepção
das senhoras que chegavam.
Ao retirar-se,
Horácio achou ensejo de trocar uma palavra com a moça,
enquanto lhe apertava a mão:
- Não
seja cruel!
- Oh! cruel
não sou eu, replicou a moça com expressão de
ressentimento.
Mais tarde,
em sua alcova, enquanto desfazia o penteado, soltando os lindos
anéis do cabelo castanho, Amélia recordou-se das palavras
apaixonadas que ouvira de Leopoldo na véspera, e comparou-as
com as queixas de Horácio. A linguagem do primeiro tinha
a eloqüência da paixão: parecia vir do íntimo,
do mais profundo do coração. A linguagem do segundo
tinha a graça da sedução: era a vibração
passageira das cordas d'alma.
Mas a palavra
do leão vinha envolta em um sorriso gracioso, sombreado por
um bigode fino e elegante!
Durante uma
semana, Amélia não viu Horácio, por uma razão
muito simples. O moço, de arrufado, não apareceu durante
dois dias; quando se resolveu a aparecer, a moça despeitada
inventou um incômodo, e não desceu à sala de
visita, pelo dobro do tempo. Se Horácio sustentasse a luta,
podia haver sério rompimento.
O leão,
porém, estava domado; tinha achado a sua Diana. No quinto
dia foi humildemente render preito e homenagem à suserana
de seu coração. Amélia o recebeu como rainha
magnânima; e tratou-o nesse dia com amabilidade extrema. Pela
primeira vez, Horácio pôde beijar-lhe a ponta dos dedos.
Animado com
esse acolhimento, o leão arriscou de novo a grande questão.
Fitando o olhar no rosto da moça e abaixando-o à orla
do vestido, disse em tom suplicante:
- Me deixa ver?
- Não,
respondeu a moça com vivacidade, e demudando-se:
- Quando cessará
este capricho?
- Nunca.
Horácio
teve um assomo de impaciência.
- Bem. Não
me quer mostrar a mim, Horácio de Almeida; pois há
de mostrá-lo a uma pessoa.
- A quem? perguntou
a moça irritada.
- A seu marido.
Amélia
tornou-se pálida, e sentiu passar-lhe nos olhos uma vertigem;
mas recobrou-se logo à idéia de que as palavras de
Horácio não passavam de um galanteio.
- Se algum dia
me casar, replicou ela sorrindo, há de ser com a condição
de não mostrar.
- Havemos de
discutir essa condição.
- Vamos mudar
de conversa?
- Como quiser;
temos muito tempo para continuá-la.
Enquanto Amélia
o olhava surpresa, Horácio, voltando-se para o grupo das
senhoras, tomou parte na conversação geral.
- Já
sabem a novidade, minhas senhoras?
- Qual delas?
Há tantas.
- A novidade
nova, a ultimamente inventada, que eu acabo de receber em primeira
mão, de caminho para aqui.
- Algum casamento,
aposto.
- E eu sei de
quem.
- Não
adivinhou. Talvez que a novidade de amanhã seja algum casamento;
quem sabe? respondeu Horácio, relanceando um olhar para Amélia.
Mas a novidade de hoje, é apenas um baile, um baile, um baile
de estrondo.
- Aonde?
- No Cassino?
- No clube?
- Em casa de
Azevedo.
- É verdade!
Eu já tinha ouvido dizer!
- Quer a senhora
fazer de velha a minha novidade. O que se dizia era que o Azevedo
tinha tenção de dar um baile, mas disso à realização
vai uma grande distância. Eu desejo muita coisa que não
alcanço, e nem ao menos posso ver. Foi hoje e ao jantar que
se resolveu a grande questão, por ocasião de uma saúde.
Um amigo que vinha de lá, encontrando-me a dois passos daqui,
me deu a notícia do grande acontecimento. Portanto, minhas
senhoras, preparem-se!
- Quando é
o dia?
- No primeiro
do mês próximo. Ponham desde já em contribuição
as lojas e modistas; eu, o que posso é oferecer-me com muito
gosto para admirá-las a todas, e achar a cada uma de per
si mais elegante do que as outras juntas. Se Paris me tivesse ouvido,
não haveria guerra de Tróia.
- Nem Homero
por conseguinte, replicou um literato.
- Homeros sempre
os há. Quando não encontram os heróis já
feitos, inventam-nos, e com tal habilidade, que esses grandes homens
postiços parecem verdadeiros, como os dentes de osana e os
coques das moças. O mesmo sucede com os Anacreontes, cuja
raça é muito maior; quando não acham ninfas
para cantar, qualquer bruxa lhes serve de pretexto ou de cabide
para pendurarem a lira.
Amélia
ficara triste e preocupada; escutava a palavra volúvel do
moço com um sentimento indefinível de angústia;
parecia-lhe que era seu amor por ela, que Horácio rasgava
aos pedacinhos, como uma página querida, abandonando-os ao
sopro do vento, ao capricho daquela conversa.
Uma amiga, reparando
na tristeza da filha de Sales e no olhar que em certa ocasião
lhe deitara Horácio, disse ao ouvido da moça sentada
a seu lado:
- Amélia
ficou lograda!
- Como?
- Creio que
Horácio está justo com outra.
- Quem lhe disse?
- A tristeza
de Amélia, e o olhar que o sujeito lhe deitou, quando falava
de um casamento que se há de saber amanhã.
- É verdade.
Com quem será?
- Naturalmente
com alguma fazendeira de mil contos. Depois que saírem da
igreja, o marido leva-a para o colégio do Hitchings; e deixa-a
lá como pensionista, enquanto ele vai a Paris aperfeiçoar-se
na escola dos maridos.
Esta senhora
é uma sátira viva; sua conversa parece um fogo de
artifício; dir-se-ia que o seu gracioso traje é todo
composto de alfinetes, que ela vai deixando em sua passagem envoltos
em sorrisos açucarados, como confeitos de carnaval.
Oculto seu nome
porque é muito conhecida na boa sociedade do Rio de Janeiro,
e não quero comprometê-la com os noivos presentes e
futuros das fazendeiras ricas.
Depois de ter
durante alguns instantes ainda polvilhado a conversa com sua palavra
elegante e chistosa, Horácio tomou o chapéu e retirou-se.
Não eram
nove horas; esta circunstância mais entristeceu Amélia,
e mais excitou a atenção da moça
maliciosa.
À porta
da casa de Sales encontrou Horácio seu tílburi. Mandou
o cocheiro esperá-lo no Largo do Machado, e ele, tendo acendido
o charuto e vestido o sobretudo, seguiu a pé. Queria pensar.
Horácio
pertencia à escola daqueles que entendem que nunca é
tarde para arrepender-se o homem de um compromisso. Ele compreendia
o alea jacta est por esta forma prudente e razoável. César,
tendo lançado a ponte sobre o Rubicão, via de longe
em Roma a ditadura, e mais tarde a púrpura imperial, portanto
fez ele muito bem em passar, sobretudo desde que o rio já
não opunha obstáculo. Mas se em vez do poder, César
encontrasse no caminho a derrota, a ponte lançada lhe serviria
para voltar às Gálias, e ele teria o cuidado de queimá-la
depois que tornasse a passar.
Como César,
ele tinha lançado a ponte com aquela palavra dita a Amélia,
em um momento de despeito. Devia, porém, passar o Rubicão
do casamento?
Era sobre tão
importante questão que o leão queria refletir, fazendo
a pé o trajeto entre as Laranjeiras e o Largo do Machado.
"O casamento
é o suplício de Prometeu", pensava ele; "um
homem atado ao rochedo da família, com o coração
devorado pelo tédio; uma criatura dividida em duas metades,
que se contrariam a cada instante, porque estão ligadas.
Em vez do romance, do idílio, do drama, a prosa monótona
de uma história que se lê todos os dias. Esse prazer
incomparável de sentir-se todo dentro de si, de resumir-se
no seu único eu, de dispor livremente de sua pessoa e vida,
não o tem o marido a menos que seja um biltre. O casamento
dilata a superfície da alma; em vez de sofrer-se no seu coração
apenas, sofre-se na mulher, no filho, e em cada um dos fios dessa
grande teia humana que se chama família".
Horácio
recordou-se de alguns de seus amigos que haviam casado, e achou
nessas reminiscências a prova de sua opinião.
"O casamento
é tudo isso; mas que importa, desde que não há
outro meio de realizar o meu desejo e satisfazer esta paixão
ardente e impetuosa? Daria a vida inteira, e sem hesitar, pela felicidade
que eu sonho. Pois se eu a daria de uma vez, por que não
a emprestarei sob hipoteca?"
Tendo chegado
ao Largo do Machado, o moço entrou no tílburi, que
o conduziu a casa.
Aí, contemplando
a mimosa botina, guardada como uma relíquia, encheu-se cada
vez mais da resolução que havia tomado.