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Papéis
Avulsos I
Machado de Assis
NA ARCA
Três capítulos inéditos do Genêsis
Capítulo A
1. - Então Noé disse a seus filhos Jafé, Sem e Cam:
- "Vamos sair da arca, segundo a vontade do Senhor, nós, e
nossas mulheres, e todos os animais. A arca tem de parar no
cabeço de uma montanha; desceremos a ela.
2. - "Porque o Senhor cumpriu a sua promessa, quando me
disse: Resolvi dar cabo de toda a carne; o mal domina a
terra, quero fazer perecer os homens. Faze uma arca de
madeira; entra nela tu, tua mulher e teus filhos.
3. - "E as mulheres de teus filhos, e um casal de todos
os animais.
4. - "Agora, pois, se cumpriu a promessa do Senhor. e
todos os homens pereceram, e fecharam-se as cataratas dó
céu; tornaremos a descer à terra, e a viver no seio da paz
e da concórdia."
5. - Isto disse Noé, e os filhos de Noé muito se
alegraram de ouvir as palavras de seu pai; e Noé os deixou
sós, retirando-se a uma das câmaras da arca.
6. - Então Jafé levantou a voz e disse: - "Aprazível
vida
vai ser a nossa. A figueira nos dará o fruto, a ovelha a lã,
a vaca o leite, o sol a claridade e a noite a tenda.
7. - "Porquanto seremos únicos na terra, e toda a terra
será nossa, e ninguém perturbará a paz de uma família,
poupada do castigo que feriu a todos os homens.
8. - "Para todo o sempre." Então Sem, ouvindo falar o
irmão, disse: - "Tenho uma idéia". Ao que Jafé
e Cam
responderam: - "Vejamos a tua idéia, Sem."
9. - E Sem falou a voz de seu coração, dizendo: "Meu
pai
tem a sua família; cada um de nós tem a sua família;
a
terra é de sobra; podíamos viver em tendas separadas. Cada
um de nós fará o que lhe parecer melhor: e plantará,
caçará,
ou lavrará a madeira, ou fiará o linho."
10. - E respondeu Jafé: - "Acho bem lembrada a idéia
de
Sem; podemos viver em tendas separadas. A arca vai descer
ao cabeço de uma montanha; meu pai e Cam descerão para o
lado do nascente; eu e Sem para o lado do poente. Sem
ocupará duzentos côvados de terra, eu outros duzentos."
11. - Mas dizendo Sem: - "Acho pouco duzentos côvados",
-
retorquiu Jafé: "Pois sejam quinhentos cada um. Entre a
minha terra e a tua haverá um rio, que as divida no meio,
para se não confundir a propriedade. Eu fico na margem
esquerda e tu na margem direita;
12. - "E a minha terra se chamará a terra de Jafé,
e a
tua se chamará a terra de Sem; e iremos às tendas um do
outro, e partiremos o pão da alegria e da concórdia."
13. - E tendo Sem aprovado a divisão, perguntou a Jafé:
"Mas o rio? a quem pertencerá a água do rio, a corrente?
14. - "Porque nós possuímos as margens, e não
estatuímos
nada a respeito da corrente." E respondeu Jafé, que podiam
pescar de um e outro lado; mas, divergindo o irmão, propôs
dividir o rio em duas partes, fincando um pau no meio.
Jafé, porém, disse que a corrente levaria o pau.
15. - E tendo Jafé respondido assim, acudiu o irmão:
"Pois que te não serve o pau, fico eu com o rio, e as duas
margens; e para que não haja conflito, podes levantar um
muro, dez ou doze côvados, para lá da tua margem antiga.
16. - "E se com isto perdes alguma coisa, nem é grande a
diferença, nem deixa de ser acertado, para que nunca jamais
se turbe a concórdia entre nós, segundo é a vontade
do
Senhor."
17. - Jafé porém replicou: - "Vai bugiar! Com que direito
me tiras a margem, que é minha, e me roubas um pedaço de
terra? Porventura és melhor do que eu,
18. - "Ou mais belo, ou mais querido de meu pai? Que
direito tens de violar assim tão escandalosamente a
propriedade alheia?
19. - "Pois agora te digo que o rio ficará do meu lado,
com ambas as margens, e que se te atreveres a entrar na
minha terra, matar-te-ei como Caim matou a seu irmão."
20. - Ouvindo isto, Cam atemorizou-se muito e começou a
aquietar os dois irmãos,
21. - Os quais tinham os olhos do tamanho de figos e cor
de brasa, e olhavam-se cheios de cólera e desprezo.
22. - A arca, porém, boiava sobre as águas do abismo.
Capítulo B
1. - Ora, Jafé, tendo curtido a cólera, começou a
espumar
pela boca, e Cam falou-lhe palavras de brandura,
2. - Dizendo: - "Vejamos um meio de conciliar tudo; vou
chamar tua mulher e a mulher de Sem."
3. - Um e outro, porém, recusaram dizendo que o caso era
de direito e não de persuasão.
4. - E Sem propôs a Jafé que compensasse os dez côvados
perdidos, medindo outros tantos nos fundos da terra dele.
Mas Jafé respondeu:
5. - "Por que não me mandas logo para os confins do mundo?
Já te não contentas com quinhentos côvados; queres
quinhentos e dez, e eu que fique com quatrocentos e noventa.
6. - "Tu não tens sentimentos morais? não sabes o que
é
justiça? não vês que me esbulhas descaradamente? e
não
percebes que eu saberei defender o que é meu, ainda com
risco de vida?
7. - "E que, se é preciso correr sangue, o sangue há
de
correr já e já,
8. - "Para te castigar a soberba e lavar a tua iniqüidade?"
9. - Então Sem avançou para Jafé; mas Cam interpôs-se,
pondo uma das mãos no peito de cada um;
10. - Enquanto o lobo e o cordeiro, que durante os dias do
dilúvio, tinham vivido na mais doce concórdia, ouvindo o
rumor das vozes, vieram espreitar a briga dos dois irmãos, e
começaram a vigiar-se um ao outro.
11. - E disse Cam: - "Ora, pois, tenho uma idéia
maravilhosa, que há de acomodar tudo;
12. - "A qual me é inspirada pelo amor, que tenho a meus
irmãos. Sacrificarei pois a terra que me couber ao lado de
meu pai, e ficarei com o rio e as duas margens, dando-me vós
uns vinte côvados cada um."
13. - E Sem e Jafé riram com desprezo e sarcasmo, dizendo:
- "Vai plantar tâmaras! Guarda a tua idéia para os dias
da
velhice." E puxaram as orelhas e o nariz de Cam; e Jafé,
metendo dois dedos na boca, imitou o silvo da serpente, em
ar de surriada.
14. - Ora, Cam, envergonhado e irritado, espalmou a mão
dizendo: - "Deixa estar!" e foi dali ter com o pai e as
mulheres dos dois irmãos.
15. - Jafé porém disse a Sem: - "Agora que estamos
sós
vamos decidir este grave caso, ou seja de língua ou de
punho. Ou tu me cedes as duas margens, ou eu te quebro uma
costela."
16. - Dizendo isto, Jafé ameaçou a Sem com os punhos
fechados, enquanto Sem, derreando o corpo, disse com voz
irada: "Não te cedo nada, gatuno!"
17. - Ao que Jafé retorquiu irado: "Gatuno és tu!"
18. - Isto dito, avançaram um para o outro e atracaram-se.
Jafé tinha o braço rijo e adestrado; Sem era forte na
resistência. Então Jafé, segurando o irmão
pela cinta,
apertou-o fortemente, bradando: "De quem é o rio?"
19. - E respondendo Sem: - "É meu!" Jafé fez um
gesto
para derrubá-lo; mas Sem, que era forte, sacudiu o corpo e
atirou o irmão para longe; Jafé, porém, espumando
de
cólera, tornou a apertar o irmão, e os dois lutaram braço
a
braço,
20. - Suando e bufando como touros.
21. - Na luta, caíram e rolaram, esmurrando-se um ao outro;
o sangue saía dos narizes, dos beiços, das faces; ora vencia
Jafé,
22. - Ora vencia Sem; porque a raiva animava-os igualmente,
e eles lutavam com as mãos, os pés, os dentes e as unhas;
e
a arca estremecia como se de novo se houvessem aberto as
cataratas do céu.
23. - Então as vozes e brados chegaram aos ouvidos de Noé,
ao mesmo tempo que seu filho Cam, que lhe apareceu clamando:
"Meu pai, meu pai, se de Caim se tomará vingança sete
vezes, e de Lamech setenta vezes sete, o que será de Jafé
e Sem?"
24. - E pedindo Noé que explicasse o dito, Cam referiu a
discórdia dos dois irmãos, e a ira que os animava, e disse:
- "Correi a aquietá-los." Noé disse: - "Vamos."
25. - A arca, porém, boiava sobre as águas do abismo.
Capítulo C
1. - Eis aqui chegou Noé ao lugar onde lutavam os dois
filhos,
2. - E achou-os ainda agarrados um ao outro, e Sem
debaixo do joelho de Jafé, que com o punho cerrado lhe batia
na cara, a qual estava roxa e sangrenta.
3. - Entretanto, Sem, alçando as mãos, conseguiu apertar
o
pescoço do irmão, e este começou a bradar: "Larga-me,
larga-me!"
4. - Ouvindo os brados, às mulheres de Jafé e Sem acudiram
também ao lugar da luta, e, vendo-os assim, entraram a
soluçar e a dizer: "O que será de nós? A maldição
caiu sobre
nós e nossos maridos."
5. - Noé, porém, lhes disse: "Calai-vos, mulheres de
meus
filhos, eu verei de que se trata, e ordenarei o que for
justo." E caminhando para os dois combatentes,
6. - Bradou: "Cessai a briga. Eu, Noé, vosso pai, o ordeno
e mando." E ouvindo os dois irmãos o pai, detiveram-se
subitamente, e ficaram longo tempo atalhados e mudos, não se
levantando nenhum deles.
7. - Noé continuou: "Erguei-vos, homens indignos da
salvação e merecedores do castigo que feriu os outros
homens."
8. - Jafé e Sem ergueram-se. Ambos tinham feridos o rosto,
o pescoço e as mãos, e as roupas salpicadas de sangue,
porque tinham lutado com unhas e dentes, instigados de ódio
mortal.
9. - O chão também estava alagado de sangue, e as sandálias
de um e outro, e os cabelos de um e outro,
10. - Como se o pecado os quisera marcar com o selo da
iniqüidade.
11. - As duas mulheres, porém, chegaram-se a eles,
chorando e acariciando-os, e via-se-lhes a dor do coração.
Jafé e Sem não atendiam a nada, e estavam com os olhos no
chão, medrosos de encarar seu pai.
12. - O qual disse: "Ora, pois, quero saber o motivo da
briga."
13. - Esta palavra acendeu o ódio no coração de ambos.
Jafé, porém, foi o primeiro que falou e disse:
14. - "Sem invadiu a minha terra, a terra que eu havia
escolhido para levantar a minha tenda, quando as águas
houverem desaparecido e a arca descer, segundo a promessa
do Senhor;
15. - "E eu, que não tolero o esbulho, disse a meu irmão:
"Não te contentas com quinhentos côvados e queres mais
dez?"
E ele me respondeu: "Quero mais dez e as duas margens do rio
que há de dividir a minha terra da tua terra."
16. - Noé, ouvindo o filho, tinha os olhos em Sem; e
acabando Jafé, perguntou ao irmão: "Que respondes?"
17. - E Sem disse: - "Jafé mente, porque eu só lhe
tomei
os dez côvados de terra, depois que ele recusou dividir o
rio em duas partes; e propondo-lhe ficar com as duas
margens, ainda consenti que ele medisse outros dez côvados
nos fundos das terras dele.
18. - "Para compensar o que perdia; mas a iniqüidade de
Caim falou nele, e ele me feriu a cabeça, a cara e as
mãos."
19. - E Jafé interrompeu-o dizendo: "Porventura não
me
feriste também? Não estou ensangüentado como tu? Olha
a
minha cara e o meu pescoço; olha as minhas faces, que
rasgaste com as tuas unhas de tigre."
20. - Indo Noé falar, notou que os dois filhos de novo
pareciam desafiar-se com os olhos. Então disse: "Ouvi!"
Mas os dois irmãos, cegos de raiva, outra vez se
engalfinharam, bradando: - "De quem é o rio?" - "O
rio é
meu."
21. - E só a muito custo puderam Noé, Cam e as mulheres
de Sem e Jafé, conter os dois combatentes, cujo sangue
entrou a jorrar em grande cópia.
22. - Noé, porém, alçando a voz, bradou: - "Maldito
seja
o que me não obedecer. Ele será maldito, não sete
vezes,
não setenta vezes sete, mas setecentas vezes setenta.
23. - "Ora, pois, vos digo que, antes de descer a arca,
não quero nenhum ajuste a respeito do lugar em que
levantareis as tendas."
24. - Depois ficou meditabundo.
25. - E alçando os olhos ao céu, porque a portinhola do
teto estava levantada, bradou com tristeza:
26. - "Eles ainda não possuem a terra e já estão
brigando
por causa dos limites. O que será quando vierem a Turquia
e a Rússia?"
27. - E nenhum dos filhos de Noé pôde entender esta
palavra de seu pai.
28. - A arca, porém, continuava a boiar sobre as águas do
abismo.
NOTAS [DO AUTOR A PAPÉIS AVULSOS] I
Nota A - "Advertência"
Deste modo, venha donde vier o reproche...
- "O Alienista".....p.s/nº, no início da obra.
Não ousava fazer-lhe nenhuma queixa ou reproche...
Cerca de dois anos para cá, recebi duas cartas anônimas,
escritas por pessoa inteligente e simpática, em que me foi
notado o uso do vocábulo "reproche". Não sabendo
como res-
ponda ao meu estimável correspondente, aproveito esta
ocasião.
Reproche não é galicismo. Nem repreche nem reprochar.
Morais cita, para o verbo, este trecho dos Ined.II, fl.259:
"hum non tinha que reprochar ao outro"; e aponta os lugares
de Fernando de Lucena, Nunes de Leão e D. Francisco Manuel
de Melo, em que se encontra o substantivo reproche. Os
espanhóis também o possuem.
Resta a questão de eufonia.Reproche não parece mal soante.
Tem contra si o desuso. Em todo caso, o vocábulo que lhe
está mais próximo no sentido, exprobração,
acho que é insu-
portável. Daí a minha insistência em preferir o outro,
devendo notar-se que não o vou buscar para dar ao estilo um
verniz de estranheza, mas quando a idéia o traz consigo.
Nota B - "A Chinela Turca"..................p.75
Este conto foi publicado,pela primeira vez, na Época nº 1,
de 14 de novembro de 1875. Trazia o pseudônimo de Manassés,
com que assinei outros artigos daquela folha efêmera. O
redator principal era um espírito eminente, que a política
veio tomar às letras, Joaquim Nabuco. Posso dizê-lo sem
indiscrição. Éramos poucos e amigos. O programa era
não ter
programa, como declarou o artigo inicial, ficando a cada
redator plena liberdade de opinião, pela qual responda
exclusivamente. O tom (feita a natural reserva da parte de
um colaborador) era elegante, literário, ático. A folha
durou quatro números.
Texto proveniente
do:
Ministério da Cultura
Fundação Biblioteca Nacional
Departamento Nacional do Livro
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