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Papéis Avulsos I
Machado de Assis

 


CAPÍTULO VI

A REBELIÃO


Cerca de trinta pessoas ligaram-se ao barbeiro, redigiram
e levaram uma representação à Câmara.
A Câmara recusou aceitá-la, declarando que a Casa Verde
era uma instituição pública, e que a ciência não podia
ser emendada por votação administrativa, menos ainda por
movimentos de rua.
_ Voltai ao trabalho, concluiu o presidente, é o conselho
que vos damos.
A irritação dos agitadores foi enorme. O barbeiro declarou
que iam dali levantar a bandeira da rebelião e destruir a
Casa Verde; que Itaguaí não podia continuar a servir de
cadáver aos estudos e experiências de um déspota; que
muitas pessoas estimáveis e algumas distintas, outras
humildes mas dignas de apreço, jaziam nos cubículos da
Casa Verde; que o despotismo científico do alienista
complicava-se do espírito de ganância, visto que os loucos
ou supostos tais não eram tratados de graça: as famílias e
em falta delas a Câmara pagavam ao alienista...
_ É falso! interrompeu o presidente.
_ Falso?
_ Há cerca de duas semanas recebemos um ofício do ilustre
médico em que nos declara que, tratando de fazer
experiências de alto valor psicológico, desiste do
estipêndio votado pela Câmara, bem como nada receberá das
famílias dos enfermos.
A notícia deste ato tão nobre,tão puro, suspendeu um pouco
a alma dos rebeldes. Seguramente o alienista podia estar em
erro, mas nenhum interesse alheio à ciência o instigava; e
para demonstrar o erro, era preciso alguma coisa mais do
que arruaças e clamores. Isto disse o presidente, com
aplauso de toda a Câmara. O barbeiro, depois de alguns
instantes de concentração, declarou que estava investido
de um mandato público e não restituiria a paz a Itaguaí
antes de ver por terra a Casa Verde,- "essa Bastilha da ra-
zão humana",- expressão que ouvira a um poeta local e que
ele repetiu com muita ênfase. Disse, e, a um sinal, todos
saíram com ele.
Imagine-se a situação dos vereadores; urgia obstar ao
ajuntamento, à rebelião, à luta, ao sangue. Para acrescentar
ao mal um dos vereadores que apoiara o presidente ouvindo
agora a denominação dada pelo barbeiro à Casa Verde -
"Bastilha da razão humana",- achou-a tão elegante que mudou
de parecer. Disse que entendia de bom aviso decretar alguma
medida que reduzisse a Casa Verde; e porque o presidente,
indignado, manifestasse em termos enérgicos o seu pasmo,
o vereador fez esta reflexão:
_ Nada tenho que ver com a ciência; mas, se tantos homens
em quem supomos são reclusos por dementes, quem nos afirma
que o alienado não é o alienista?
Sebastião Freitas, o vereador dissidente, tinha o dom da
palavra e falou ainda por algum tempo, com prudência mas
com firmeza. Os colegas estavam atônitos; o presidente
pediu-lhe que, ao menos, desse o exemplo da ordem e do
respeito à lei, não aventasse as suas idéias na rua para
não dar corpo e alma à rebelião, que era por ora um
turbilhão de átomos dispersos. Esta figura corrigiu um
pouco o efeito da outra: Sebastião Freitas prometeu
suspender qualquer ação, reservando-se o direito de pedir
pelos meios legais a redução da Casa Verde. E repetia
consigo namorado:- "Bastilha da razão humana!"
Entretanto a arruaça crescia. Já não eram trinta mas
trezentas pessoas que acompanhavam o barbeiro, cuja alcunha
familiar deve ser mencionada, porque ela deu o nome à
revolta;chamavam-lhe o Canjica - e o movimento ficou célebre
com o nome de revolta dos Canjicas. A ação podia ser
restrita,- visto que muita gente, ou por medo,ou por hábitos
de educação, não descia à rua; mas o sentimento era unânime,
ou quase unânime, e os trezentos que caminhavam para a Casa
Verde,- dada a diferença de Paris a Itaguaí,- podiam ser
comparados aos que tomaram a Bastilha.
D.Evarista teve noticia da rebelião antes que ela chegas-
se;veio dar-lha uma de suas crias. Ela provava nessa ocasião
um vestido de seda,- um dos trinta e sete que trouxera do
Rio de Janeiro,- e não quis crer.
_ Há de ser alguma patuscada, dizia ela, mudando a posição
de um alfinete. Benedita, vê se a barra está boa.
_ Está, sinhá, respondia a mucama de cócoras no chão, está
boa. Sinhá vira um bocadinho. Assim. Está muito boa.
_ Não é patuscada, não, senhora; eles estão gritando:
- Morra o Dr.Bacamarte!!! o tirano! dizia o moleque
assustado.
_ Cala a boca, tolo! Benedita, olha aí do lado esquerdo;
não parece que a costura está um pouco enviesada? A risca
azul não segue até abaixo; está muito feio assim; é preciso
descoser para ficar igualzinho e...
_ Morra o Dr.Bacamarte!!! morra o tirano! uivaram fora
trezentas vozes. Era a rebelião que desembocava na Rua Nova.
D.Evarista ficou sem pinga de sangue. No primeiro instante
não deu um passo, não fez um gesto; o terror petrificou-a.
A mucama correu instintivamente para a porta do fundo.
Quanto ao moleque, a quem D. Evarista não dera crédito,
teve um instante de triunfo súbito, imperceptível,
entranhado, de satisfação moral, ao ver que a realidade
vinha jurar por ele.
_ Morra o alienista! bradavam as vozes mais perto.
D.Evarista, se não resistia facilmente às comoções de
prazer, sabia entestar com os momentos de perigo. Não
desmaiou; correu à sala interior onde o marido estudava.
Quando ela ali entrou, precipitada, o ilustre médico
escrutava um texto de Averróis; os olhos dele, empanados
pela cogitação, subiam do livro ao reto e baixavam do reto
ao livro, cegos para a realidade exterior, videntes para
os profundos trabalhos mentais. D.Evarista chamou pelo
marido duas vezes, sem que ele lhe desse atenção; à
terceira, ouviu e perguntou-lhe o que tinha, se estava
doente.
_ Você não ouve estes gritos? perguntou a digna esposa em
lágrimas.
O alienista atendeu então; os gritos aproximavam-se,
terríveis, ameaçadores; ele compreendeu tudo. Levantou-se
da cadeira de espaldar em que estava sentado, fechou o
livro, e, a passo firme e tranqüilo, foi depositá-lo na
estante. Como a introdução do volume desconsertasse um
pouco a linha dos dois tomos contíguos, Simão Bacamarte
cuidou de corrigir esse defeito mínimo, e, aliás,
interessante. Depois disse à mulher que se recolhesse, que
não fizesse nada.
_ Não, não,implorava a digna senhora, quero morrer ao lado
de você...
Simão Bacamarte teimou que não, que não era caso de morte;
e ainda que o fosse, intimava-lhe, em nome da vida, que
ficasse. A infeliz dama curvou a cabeça, obediente e
chorosa.
_ Abaixo a Casa Verde! bradavam os Canjicas.
O alienista caminhou para a varanda da frente e chegou
ali no momento em que a rebelião também chegava e parava,
defronte, com as suas trezentas cabeças rutilantes de
civismo e sombrias de desespero. - Morra! morra! bradaram
de todos os lados, apenas o vulto do alienista assomou na
varanda. Simão Bacamarte fez um sinal pedindo para falar;
os revoltosos cobriram-lhe a voz com brados de indignação.
Então o barbeiro, agitando o chapéu, a fim de impor
silêncio à turba, conseguiu aquietar os amigos, e declarou
ao alienista que podia falar, mas acrescentou que não
abusasse da paciência do povo como fizera até então.
_ Direi pouco,ou até não direi nada,se for preciso. Desejo
saber primeiro o que pedis.
_ Não pedimos nada,replicou fremente o barbeiro; ordenamos
que a Casa Verde seja demolida, ou pelo menos despojada dos
infelizes que lá estão.
_ Não entendo.
_ Entendeis bem, tirano; queremos dar liberdade às vítimas
do vosso ódio, capricho, ganância...
O alienista sorriu, mas o sorriso desse grande homem não
era coisa visível aos olhos da multidão; era uma contração
leve de dois ou três músculos, nada mais. Sorriu e
respondeu:
_ Meus senhores, a ciência é coisa séria, e merece ser
tratada com seriedade. Não dou razão dos meus atos de
alienista a ninguém, salvo aos mestres e a Deus. Se quereis
emendar a administração da Casa Verde, estou pronto a
ouvir-vos; mas, se exigis que me negue a mim mesmo, não
ganhareis nada. Poderia convidar alguns de vós em comissão
dos outros a vir ver comigo os loucos reclusos; mas não o
faço, porque seria dar-vos razão do meu sistema, o que não
farei a leigos nem a rebeldes.
Disse isto o alienista e a multidão ficou atônita; era
claro que não esperava tanta energia e menos ainda tamanha
serenidade. Mas o assombro cresceu de ponto quando o
alienista, cortejando a multidão com muita gravidade,
deu-lhe as costas e retirou-se lentamente para dentro. O
barbeiro tornou logo a si e, agitando o chapéu, convidou os
amigos à demolição da Casa Verde; poucas vozes e frouxas lhe
responderam. Foi nesse momento decisivo que o barbeiro
sentiu despontar em si a ambição do governo; pareceu-lhe
então que, demolindo a Casa Verde e derrocando a influência
do alienista, chegaria a apoderar-se da Câmara, dominar as
demais autoridades e constituir-se senhor de Itaguaí. Desde
alguns anos que ele forcejava por ver o seu nome incluído
nos pelouros para o sorteio dos vereadores, mas era recusado
por não ter uma posição compatível com tão grande cargo. A
ocasião era agora ou nunca. Demais, fora tão longe na
arruaça que a derrota seria a prisão ou talvez a forca ou
o degredo. Infelizmente a resposta do alienista diminuíra
o furor dos sequazes. O barbeiro, logo que o percebeu,
sentiu um impulso de indignação e quis bradar-lhes:
- Canalhas! covardes! - mas conteve-se e rompeu deste modo:
_ Meus amigos,lutemos até o fim!A salvação de Itaguaí está
nas vossas mãos dignas e heróicas. Destruamos o cárcere de
vossos filhos e pais, de vossas mães e irmãs, de vossos
parentes e amigos, e de vós mesmos. Ou morrereis a pão e
água, talvez a chicote, na masmorra daquele indigno.
A multidão agitou-se, murmurou, bradou, ameaçou,
congregou-se toda em derredor do barbeiro. Era a revolta
que tornava a si da ligeira síncope e ameaçava arrasar a
Casa Verde.
_ Vamos! bradou Porfírio, agitando o chapéu.
_ Vamos! repetiram todos.
Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões que, a
marche-marche, entrava na Rua Nova.

CAPÍTULO VII

O INESPERADO


Chegados os dragões em frente aos Canjicas houve um
instante de estupefação. Os Canjicas não queriam crer que
a força pública fosse mandada contra eles; mas o barbeiro
compreendeu tudo e esperou. Os dragões pararam, o capitão
intimou à multidão que se dispersasse; mas, conquanto uma
parte dela estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou
fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos
alevantados:
_ Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadáveres,
podeis tomá-los; mas só os cadáveres; não levareis a nossa
honra, o nosso crédito, os nossos direitos, e com eles a
salvação de Itaguaí.
Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e
nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez
fosse também um excesso de confiança na abstenção das armas
por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou
logo, mandando carregar sobre os Canjicas. O momento foi
indescritível. A multidão urrou furiosa; alguns, trepando
às janelas das casas ou correndo pela rua fora, conseguiram
escapar; mas a maioria ficou bufando de cólera, indignada,
animada pela exortação do barbeiro. A derrota dos Canjicas
estava iminente quando um terço dos dragões,- qualquer que
fosse o motivo, as crônicas não o declaram,- passou
subitamente para o lado da rebelião. Este inesperado reforço
deu alma aos Canjicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo
às fileiras da legalidade. Os soldados fiéis não tiveram
coragem de atacar os seus próprios camaradas, e um a um
foram passando para eles, de modo que, ao cabo de alguns
minutos, o aspecto das coisas era totalmente outro.
O capitão estava de um lado com alguma gente contra uma
massa compacta que o ameaçava de morre. Não teve remédio,
declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro.
A revolução triunfante não perdeu um só minuto; recolheu
os feridos às casas próximas e guiou para a Câmara Povo e
tropa fraternizavam, davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a
Itaguaí, ao "ilustre Porfírio". Este ia na frente,
empunhando tão destramente a espada, como se ela fosse
apenas uma navalha um pouco mais comprida. A vitória
cingia-lhe a fronte de um nimbo misterioso. A dignidade
de governo começava a eurijar-lhe os quadris.
Os vereadores, às janelas, vendo a multidão e a tropa,
cuidaram que a tropa capturara a multidão, e sem mais exame,
entraram e votaram uma petição ao vice-rei para que mandasse
dar um mês de soldo aos dragões, "cujo denodo salvou Itaguaí
do abismo a que o tinha lançado uma cáfila de rebeldes.
Esta frase foi proposta por Sebastião Freitas, o vereador
dissidente cuja defesa dos Canjicas tanto escandalizara os
colegas.
Mas bem depressa a ilusão se desfez. Os vivas ao barbeiro,
os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-lhes
noticia da triste realidade. O presidente não desanimou:
- qualquer que seja a nossa sorte, disse ele, lembremo-nos
que estamos ao serviço de Sua Majestade e do povo.
- Sebastião Freitas insinuou que melhor se poderia servir à
coroa e à vila saindo pelos fundos e indo conferenciar com o
juiz-de-fora, mas toda a Câmara rejeitou esse alvitre.
Daí a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus
tenentes, entrava na sala da vereança intimava à Câmara a
sua queda. A Câmara não resistiu, entregou-se e foi dali
para a cadeia. Então os amigos do barbeiro propuseram-lhe
que assumisse o governo da vila em nome de Sua Majestade.
Porfírio aceitou o encargo, embora não desconhecesse
(acrescentou) os espinhos que trazia; disse mais que não
podia dispensar o concurso dos amigos presentes; ao que
eles prontamente anuíram. O barbeiro veio à janela e
comunicou ao povo essas resoluções, que o povo ratificou,
aclamando o barbeiro.Este tomou a denominação de - "Protetor
da vila em nome de Sua Majestade, e do povo".
- Expediram-se logo várias ordens importantes, comunicações
oficiais do novo governo, uma exposição minuciosa ao
vice-rei, com muitos protestos de obediência às ordens de
Sua Majestade; finalmente uma proclamação ao povo, curta,
mas enérgica: "Itaguaienses!
Uma Câmara corrupta e violenta conspirava contra os
interesses de Sua Majestade e do povo. A opinião pública
tinha-a condenado; um punhado de cidadãos, fortemente
apoiados pelos bravos dragões de Sua Majestade, acaba de
a dissolver ignominiosamente, e por unânime consenso da
vila, foi-me confiado o mando supremo, até que Sua
Majestade se sirva ordenar o que parecer melhor ao seu
real serviço. Itaguaienses! não vos peço senão que me
rodeeis de confiança, que me auxilieis em restaurar a paz
e a fazenda publica, tão desbaratada pela Câmara que ora
findou às vossas mãos. Contai com o meu sacrifício, e
ficai certos de que a coroa será por nós.
O Protetor da vila em nome de Sua Majestade e do povo
Porfírio Caetano das Neves".
Toda a gente advertiu no absoluto silêncio desta proclama-
ção acerca da Casa Verde; e, segundo uns, não podia haver
mais vivo indício dos projetos tenebrosos do barbeiro.
O perigo era tanto maior quanto que, no meio mesmo desses
graves sucessos, o alienista metera na Casa Verde umas sete
ou oito pessoas, entre elas duas senhoras e sendo um dos
homens aparentado com o Protetor. Não era um repto, um ato
intencional; mas todos o interpretaram dessa maneira; e a
vila respirou com a esperança de que o alienista dentro de
vinte e quatro horas estaria a ferros e destruído o
terrível cárcere.
O dia acabou alegremente. Enquanto o arauto da matraca ia
recitando de esquina em esquina a proclamação, o povo
espalhava-se nas ruas e jurava morrer em defesa do ilustre
Porfírio. Poucos gritos contra a Casa Verde, prova de
confiança na ação do governo. O barbeiro faz expedir um ato
declarando feriado aquele dia, e entabulou negociações com
o vigário para a celebração de um Te Deum, tão conveniente
era aos olhos dele a conjunção do poder temporal com o
espiritual; mas o Padre Lopes recusou abertamente o seu
concurso.
_ Em todo caso, Vossa Reverendíssima não se alistará entre
os inimigos do governo? disse-lhe o barbeiro, dando à
fisionomia um aspecto tenebroso.
Ao que o Padre Lopes respondeu, sem responder:
_ Como alistar-me, se o novo governo não tem inimigos?
O barbeiro sorriu; era a pura verdade. Salvo o capitão,
os vereadores e os principais da vila, toda a gente o
aclamava. Os mesmos principais, se o não aclamavam, não
tinham saído contra ele. Nenhum dos almotacés deixou de vir
receber as suas ordens. No geral, as famílias abençoavam o
nome daquele que ia enfim libertar Itaguaí da Casa Verde e
do terrível Simão Bacamarte.

CAPÍTULO VIII

AS ANGÚSTIAS DO BOTICÁRIO


Vinte e quatro horas depois dos sucessos narrados no
capítulo anterior, o barbeiro saiu do palácio do
governo,- foi a denominação dada à casa da Câmara,- com
dois ajudantes-de-ordens, e dirigiu-se à residência de
Simão Bacamarte. Não ignorava ele que era mais decoroso
ao governo mandá-lo chamar; o receio, porém, de que o
alienista não obedecesse, obrigou-o a parecer tolerante
e moderado.
Não descrevo o terror do boticário ao ouvir dizer que o
barbeiro ia à casa do alienista. - "Vai prendê-lo", pensou
ele. E redobraram-lhe as angústias. Com efeito, a tortura
moral do boticário naqueles dias de revolução excede a toda
a descrição possível. Nunca um homem se achou em mais
apertado lance: - a privança do alienista chamava-o ao
lado deste, a vitória do barbeiro atraía-o ao barbeiro.
Já a simples noticia da sublevação tinha-lhe sacudido
fortemente a alma, porque ele sabia a unanimidade do ódio
ao alienista; mas a vitória final foi também o golpe final.
A esposa, senhora máscula, amiga particular de D. Evarista,
dizia que o lugar dele era ao lado de Simão Bacamarte; ao
passo que o coração lhe bradava que não, que a causa do
alienista estava perdida, e que ninguém, por ato próprio,
se amarra a um cadáver. "Fê-lo Catão, é verdade, sed victa
Catoni, pensava ele, relembrando algumas palestras habituais
do Padre Lopes; mas Catão não se atou a uma causa vencida,
ele era a própria causa vencida, a causa da república; o seu
ato, portanto, foi de egoísta, de um miserável egoísta;
minha situação é outra." Insistindo, porém, a mulher, não
achou Crispim Soares outra saída em tal crise senão adoecer;
declarou-se doente, e meteu-se na cama.

_ Lá vai o Porfírio à casa do Dr. Bacamarte, disse-lhe a
mulher no dia seguinte à cabeceira da cama; vai acompanhado
de gente.
"Vai prendê-lo", pensou o boticário.
Uma idéia traz outra; o boticário imaginou que, uma vez
preso o alienista, viriam também buscá-lo a ele na qualidade
de cúmplice. Esta idéia foi o melhor dos vesicatórios.
Crispim Soares ergueu-se, disse que estava bom, que ia sair;
e, apesar de todos os esforços e protestos da consorte,
vestiu-se e saiu. Os velhos cronistas são unânimes em dizer
que a certeza de que o marido ia colocar-se nobremente ao
lado do alienista consolou grandemente a esposa do
boticário; e notam com muita perspicácia o imenso poder
moral de uma ilusão; porquanto, o boticário caminhou
resolutamente ao palácio do governo e não à casa do
alienista. Ali chegando, mostrou-se admirado de não ver o
barbeiro, a quem ia apresentar os seus protestos de adesão,
não o tendo feito desde a véspera por enfermo. E tossia com
algum custo. Os altos funcionários que lhe ouviam esta
declaração, sabedores da intimidade do boticário com o
alienista, compreenderam toda a importância da adesão nova
e trataram a Crispim Soares com apurado carinho;
afirmaram-lhe que o barbeiro não tardava; Sua Senhoria
tinha ido à Casa Verde, a negócio importante, mas não
tardava. Deram-lhe cadeira, refrescos, elogios; disseram-lhe
que a causa do ilustre Porfírio era a de todos os patriotas;
ao que o boticário ia repetindo que sim, que nunca pensara
outra coisa, que isso mesmo mandaria declarar a Sua
Majestade.

CAPÍTULO IX

DOIS LINDOS CASOS


Não se demorou o alienista em receber o barbeiro;
declarou-lhe que não tinha meios de resistir, e portanto
estava prestes a obedecer. Só uma coisa pedia, é que o não
constrangesse a assistir pessoalmente à destruição da Casa
Verde.
_ Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro depois de
alguma pausa, engana-se em atribuir ao governo intenções
vandálicas. Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior
parte dos doidos ali metidos estão em seu perfeito juízo,
mas o governo reconhece que a questão é puramente científico
e não cogita em resolver com posturas as questões
científicas.. Demais, a Casa Verde é uma instituição
pública; tal a aceitamos das mãos da Câmara dissolvida. Há
entretanto,- por força que há de haver um alvitre intermédio
que restitua o sossego ao espírito público.
O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que
esperava outra coisa, o arrasamento do hospício, a prisão
dele, o desterro, tudo, menos...
_ O pasmo de Vossa Senhoria,atalhou gravemente o barbeiro,
vem de não atender à grave responsabilidade do governo. O
povo, tomado de uma cega piedade que lhe dá em tal caso
legitima indignação, pode exigir do governo certa ordem
de atos; mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe,
não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a
nossa situação. A generosa revolução que ontem derrubou
uma Câmara vilipendiada e corrupta, pediu em altos brados
o arrasamento da Casa Verde; mas pode entrar no animo do
governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode
eliminar, está ao menos apto para discriminá-la,
reconhcê-la? Também não; é matéria de ciência. Logo, em
assunto tão melindroso, o governo não pode, não quer
dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede é
que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo.
Unamo-nos, e o povo saberá obedecer. Um dos alvitres
aceitáveis, se Vossa Senhoria não indicar outro, seria fazer
retirar da Casa Verde aqueles enfermos que estiverem quase
curados e bem assim os maníacos de pouca monta, etc. Desse
modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerância e
benignidade.
_ Quantos mortos e feridos houve ontem no conflito? per-
guntou Simão Bacamarte depois de uns três minutos.
O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo
que onze mortos e vinte e cinco feridos.
_ Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou
três vezes o alienista.
E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom
mas que ele ia catar algum outro,e dentro de poucos dias lhe
daria resposta. E fez-lhe várias perguntas acerca dos
sucessos da véspera, ataque, defesa, adesão dos dragões,
resistência da Câmara etc., ao que o barbeiro ia respondendo
com grande abundância, insistindo principalmente no
descrédito em que a Câmara caíra. O barbeiro confessou que o
novo governo não tinha ainda por si a confiança dos
principais da vila, mas o alienista podia fazer muito nesse
ponto. O governo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse
contar não já com a simpatia senão com a benevolência do
mais alto espírito de Itaguaí e seguramente do reino. Mas
nada disso alterava a nobre e austera fisionomia daquele
grande homem que ouvia calado, sem desvanecimento nem
modéstia, mas impassível como um deus de pedra.
_ Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista
depois de acompanhar o barbeiro até a porta. Eis aí dois
lindos casos de doença cerebral. Os sintomas de duplicidade
e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto à
toleima dos que o aclamaram, não é preciso outra prova além
dos onze mortos e vinte e cinco feridos.- Dois lindos casos!
_ Viva o ilustre Porfírio! bradaram umas trinta pessoas
que aguardavam o barbeiro à porta.
O alienista espiou pela janela e ainda ouviu este resto de
uma pequena fala do barbeiro às trinta pessoas que o
aclamavam:
_ ...porque eu velo,podeis estar certos disso,eu velo pela
execução das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se
fará pela melhor maneira. Só vos recomendo ordem. E ordem,
meus amigos, é a base do governo...
_ Viva o ilustre Porfírio bradaram as trinta vozes,
agitando os chapéus.
_ Dois lindos casos! murmurou o alienista.
O ALIENISTA
Capítulo I à Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI à Capítulo IX
Capítulo X à Capítulo XII
Capítulo XIII

A TEORIA DO MEDALHÃO

A CHINELA TURCA

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