O Primo da Califórnia
Joaquim Manuel de Macedo
CENA VIII
ADRIANO e PANTALEÃO
PANTALEÃO -
Meu jovem e prezado amigo, agora que estamos sós, eu me posso desabafar...
ADRIANO (À parte) - Oh!... pis também o taberneiro?... Que
diabo quer dizer isto?... estarei dormindo... ou... ou... querem ver que
grassa na cidade alguma peste de loucura!...
PANTALEÃO - Mas, antes de tudo, consinta Vossa Senhoria...
ADRIANO (Estupefato) - Vossa Senhoria!!! Eles acabam hoje por dar-me excelência!...
PANTALEÃO - Consinta Vossa Senhoria que eu lhe abrace, e que faça
correr por suas faces uma lágrima de dor, que Vossa Senhoria ajuntará
àquelas que, sem dúvida, já tem derramado hoje!...
ADRIANO - Eu, senhor?... eu ainda não derramei hoje uma única
lágrima!
PANTALEÃO (Chorando) - Isso depende dos temperamentos; cá
eu choro como um bezerro!...
ADRIANO (À parte) - Há de ser conseqüência da
profissão.
PANTALEÃO - Vossa Senhoria, sem dúvida, é duro para
chorar...
ADRIANO - Mas, sou eu algum bobo para andar chorando à toa?...
chorar por que, homem dos meus pecados?!
PANTALEÃO - Comigo é inútil o fingimento... eu sei
tudo!...
ADRIANO - Está mais adiantado do que eu, que ainda não sei
nada.
PANTALEÃO - Pois, vá que não saiba: mudemos de assunto,
e tanto mais que vou propor-lhe um negócio importante. Senhor Adriano,
estou decidido de pedra e cal a meter-me com unhas e dentes no monopólio
do toucinho e da carne fresca; mas para isso é, como lhe dizia
ontem, necessário dinheiro grosso.
ADRIANO (À parte) - Entendo agora: o maldito taberneiro untou-me
mel pelos beiços para acabar pondo-me fora deste buraco!...
PANTALEÃO - Sou, portanto, obrigado a vender as minhas propriedades;
ora, como Vossa Senhoria não o ignora, eu sou proprietário
de uma filha muito bem edificada, e pai de uma casa perfeitamente educada...
ora... quero dizer...
ADRIANO - Entendo... entendo... é isso mesmo, trocando a casa pela
filha.
PANTALEÃO - Na nova posição em que Vossa Senhoria
se acha...
ADRIANO - Que posição, senhor!... (À parte) eu creio
que esta caçoada já vai passando a desaforo... e se me chega
a mostarda ao nariz, eu caio de soco inglês nesta súcia toda.
PANTALEÃO - Basta de gracejar... falemos seriamente... Eu sou um
homem sério, e muito honrado.
ADRIANO (À parte) - Oh, pois não! E tanto o é, que
meteu-se com unhas e dentes no monopólio do toucinho.
PANTALEÃO - Na sua nova posição tem Vossa Senhoria
necessidade de uma casa e de uma mulher: Vossa Senhoria meu amigo do coração,
conhece minha filha, e esta casa; venho, pois, rogar-lhe que me compre
a propriedade, e que se case com a rapariga...
ADRIANO (Estupefato) - A casa... e a moça?... ora isto só
pelo diabo: é demais! É pouca vergonha! Senhor Pantaleão,
o senhor supõe que deve divertir-se à minha custa?!! (À
parte) estou quase atirando-me a ele!
PANTALEÃO - O que, senhor?... Pode Vossa Senhoria ficar certo,
de que lhe ofereço um brilhante partido. (Canta)
Minha casa é
um palácio;
Minha filha é um peixão;
Compre a casa, aceite a moça
E verá como ambas são;
E verá que eu dou-lhe provas
Da mais ardente afeição.
Não rejeite
este partido,
Por quem é não dê um não;
Se rejeita, cai a casa,
Fica a moça em convulsão,
E eu julgando que duvida
Da minha ardente afeição.
ADRIANO - E ontem,
Senhor Pantaleão?... e ontem?...
PANTALEÃO - Oh! Meu prezado amigo! Não falemos no dia de
ontem... eu tinha tomado uma carraspana... ontem foi ontem, e hoje é
hoje.
ADRIANO - Isso agora é a pura verdade: pode mesmo ir adiante, e
declarar-me muito solenemente, que amanhã será amanhã.
PANTALEÃO - Ontem, já o disse, que estava eu fora de mim;
mas despertando esta manhã, meu amigo, abri os olhos...
ADRIANO - É provável que o fizesse; eu lhe creio.
PANTALEÃO - E disse então com os meus botões: minha
filha e minha casa podem cair em mãos desconchavadas; o senhor
Adriano é um varão nobre e ilustrado, e portanto habitará
bem a casa, e dará boa vida à rapariga.
ADRIANO - Nada! Não posso mais; agora ou há de explicar-se,
ou eu atiro-me a ele como um danado (A Pantaleão) Senhor Pantaleão,
peço a palavra.
PANTALEÃO - Oh! Vossa Senhoria pode falar tanto quanto desejar:
quem seria tão atrevido, que ousasse cortar-lhe a palavra?...
ADRIANO - Pois vamos ver: escute-me:
PANTALEÃO - Sou todo ouvidos, para servir a Vossa Senhoria...
ADRIANO - Há uma boa hora que o senhor me fala de lágrimas,
de casa e de casamento; desde hoje de manhã eu sou uma espécie
de obelisco, envolvem-me em charadas... em logogrifo...
PANTALEÃO - Para que dissimular por mais tempo?... oh! Eu li, u
li o jornal!...
ADRIANO - Que jornal, homem de todos os diabos?...
PANTALEÃO (Tirando o jornal) - Tenho-o ainda no meu bolso tome...
tome... veja...
ADRIANO (Lendo) - O!... que é isto?... na Califórnia...
um primo... Paulo Cláudio Genipapo... cinco milhões... eu
Adriano seu herdeiro... que... que... que quer dizer isso?... (Interdito)
PANTALEÃO - Pois não o sabia?... Quanto sou feliz por ser
o primeiro! Abracemo-nos, meu bom amigo do coração! (Abraça
Adriano, que fica imóvel)
ADRIANO - Senhor Pantaleão... permita que eu me assente... (Pantaleão
corre a buscar uma cadeira) por cinco minutos: quando se recebe uma notícia
destas, a gente sempre se assenta por cinco minutos. (Enquanto Pantaleão
fala, Adriano conta pelos dedos, falando consigo mesmo)
PANTALEÃO - Vossa ilustre senhoria vai saborear todos os prazeres
da fortuna, todas as vantagens sociais, que ela facilita: se se quiser
dar ao comércio, meu amigo do peito, vossa Senhoria tem fundos
suficientes para meter-se sozinho no monopólio do toucinho, da
carne fresca, da farinha, do milho e do feijão... Oh! Que feliz
e felicíssimo mortal!
ADRIANO (Sem prestar atenção) - Cada milhão... quatrocentos
contos... são cinco milhões... cinco vezes quatro, vinte...
são vinte cem contos!... que são dois mil contos... dois
mil contos são cinco milhões... cinco milhões são
dois mil contos!... Isto faz andar a cabeça da gente à roda!...
dois mil contos!...
PANTALEÃO - E se preferir a política, Vossa Senhoria será
eleitor... juiz de paz... comandante da guarda nacional... deputado...
e até barão!... isto é muito agradável ao
amor próprio!
ADRIANO (Levantando-se) - Muito obrigado. (À parte) Am!... tudo
agora se desembrulha! As delicadezas, as amizades, as senhorias, os oferecimentos...
oh! Dinheiro!!! (A Pantaleão) Senhor Pantaleão, eu sou um
rapaz muito bem criado para que me atreva a declarar que o senhor e este
jornal faltam à verdade; mas...
PANTALEÃO - Eu não quero saber disso, vim aqui para perguntar
a Vossa Senhoria se quer comprar esta casa.
ADRIANO - Eu ia dizendo que...
PANTALEÃO - Perdoe-me Vossa Senhoria: minha casa lhe convém?
ADRIANO - Certamente que sim. (À parte) Quanto à filha,
nem pelo diabo! É uma maitaca que fala até pelas pontas
dos dedos.
PANTALEÃO (Tirando um papel do bolso) - oh! Eu o adivinhava: acabemos
portanto já com este negócio...
ADRIANO - Mas se eu não tenho real de meu, senhor.
PANTALEÃO - Oh! Não falemos em dinheiro... Vossa Senhoria
tem crédito na praça: acabo de redigir este contrato, pelo
qual Vossa Senhoria me compra esta casa, e se obriga a dar-me por ela
doze contos de réis, pagos no fim de seis meses, e com o direito
de desfazer o contrato no fim de um mês; e eu, pela minha parte,
no caso de arrendamento, me obrigo a pagar-lhe para reaver o imóvel,
dois contos de réis. Serve assim?... (Adriano lê o contrato)
Este mundéu não vale oito contos... e se ele aceita...
ADRIANO - Pois vá; assinarei este papel, que finalmente a nada
me obriga: mas veja que é a pesar meu. (Assinam ambos dois papéis,
cada um guarda o seu)
PANTALEÃO - Quanto a isto, estamos arranjados; a respeito da rapariga,
brevemente falaremos: o meu amigo não se arrependerá destes
dois negócios: uma mulher excelente... uma propriedade que não
o é menos... ainda jovem e formosa... Vossa Senhoria a fará
rebocar... a propriedade é deliciosa... cheia de talentos e de
graças: e que nariz, senhor!!! A rapariga então é
um portento! É toda feita de pedras de talha... ótimas madeiras...
e finalmente... sim, amigo do coração, adeus! Eu sou um
mortal imensamente afortunado! Oh! Sim!... Vossa Excelência aperta
a mão de um mortal imensamente afortunado... (À parte) Oh!
Ifigênia, tu serás milionária e eu entrarei no monopólio
com o dinheiro do genro!... (A Adriano) adeus, amigo do peito, adeus!
ADRIANO - Oh! Dinheiro! (Cantam)
PANTALEÃO (À
parte) - Eu também sou como os outros,
Não é por ser marralheiro;
Mas me derreto em ternuras
Ao pé de quem tem dinheiro.
ADRIANO (À
parte) - Este é como alguns que eu sei
Adulador, marralheiro;
Os favores, que me oferece,
São foscas ao meu dinheiro.
CENA IX
ADRIANO (Só)
- Agora sim, entremos em nós... conversemos um pouco com a consciência...
estou em um perfeito juízo... estou, não há dúvida!
Não me acho bêbado, nem doido! Tenho... ou tive um primo...
na Califórnia... Paulo Cláudio Genipapo... na minha árvore
genealógica, nos anais de minha família, eu encontro um
tio, que enquanto vivo foi patrão de uma sumaca... chamava-se ele
mestre Leonardo Genipapo... ora, quando se tem tido um tio, não
é nenhum impossível, que depois a gente venha a ter não
só um, como até cinqüenta primos... todos querem que
eu seja o único herdeiro de um primo, que deixou milhões...
a imprensa proclama isso por suas mil bocas... não é por
conseqüência admissível, que todos se enganem... (Depois
de um instante de silêncio) tolo, e muito tolo sou eu em não
dançar, em não saltar por esta sala: é verdade! Sou
rico! Tenho dinheiro! Sou milionário!... oh!... (Canta e dança)
Enfim, o senhor destino
Ser justo quis uma vez;
De suspirados milhões
Feliz herdeiro me fez.
Sou rico! Sou rico!
Já tenho outro rosto!
Sou rico! Sou rico!
Não caibo de gosto!
Vejam já quantos
amigos
Mal me deixam respirar!
"que cambada de marrecos
pega neles p'ra capar."
Sou rico! Sou rico!
Já tenho outro rosto!
Sou rico! Sou rico!
Não caibo de gosto!
CENA X
CELESTINA e ADRIANO
ADRIANO - Ah! és
tu, Celestina?... vem ajudar-me a gozar esta alegria desordenada! Eu sou
rico, Celestina, eu sou milionário!...
CELESTINA - Já o sei.
ADRIANO - Leste algum jornal?...
CELESTINA - Não; foi a senhora Beatriz.
ADRIANO - É o mesmo; ela é a verdadeira gazeta do quarteirão;
mas desta vez a senhora Beatriz falou a verdade, o que certamente é
um pouco extraordinário. Sim, eis aqui o jornal, o bem-aventurado
jornal!... Celestina, tu vais ser feliz.
CELESTINA - Eu feliz!... pois vê, como sou criança; tua inesperada
riqueza quase que me tem causado aflição.
ADRIANO - Oh! Não sejas tu a primeira que maldigas a minha fortuna:
tu vais deixar o teu pequeno quarto para morar num sobrado cheio de espelhos
de doze pés de altura!
CELESTINA - não sou ambiciosa: esta modesta câmara me viu
tão feliz com o teu amor, que jamais a poderei deixar sem saudades.
ADRIANO - Oh! Os espelhos de doze pés de altura nada será
ainda: terás móveis de mogno, ricas porcelanas, vasos de
Sèvres, fortes-pianos e pianos-fortes; vestidos de seda, chapéus
de plumas, xales de toquim, adereços de brilhantes, jóias
preciosas, ouro, coralinas, esmeraldas, o diabo, Celestina, terás
o diabo a quatro: e quando te virem passear comigo de carruagem, eles...
esses sujeitinhos todos que nos torciam ainda ontem o nariz, hão
de abaixar os olhos, e dizer: "Aquela moça deve estar bem
contente por ter um amante; que com extremo tal a adora!"
CELESTINA - Um amante!... mas ainda esta manhã, Adriano, tu dizias
um marido! Não é a riqueza, é a verdadeira felicidade
que eu aspiro, Adriano, estarás tu mudado?...
ADRIANO - Eu mudado?... oh!... não... não... mas... Celestina,
isso é puerilidade: um amante... um marido... veremos... mais tarde...
veremos é simplesmente uma mudança de palavra.
CELESTINA - mas essa palavra, senhor, é tudo para a mulher honesta;
reconheço já que a vossa nova posição vos
tornou outro: a pobre Celestina não é mais a mulher que
se vos faz necessária...
ADRIANO - Eu não disse isso... todavia, falas de um modo que...
CELESTINA - Tendes razão, senhor, eu compreendo, eu adivinho tudo!
(Canta)
Pobre me olhavas
Digna de amor;
Mas hoje rico,
Mudas, senhor.
Eu sou a mesma,
Não mudarei;
Qual vos amava
Vos amarei.
ADRIANO - Mas, Celestina,
que motivo...
CELESTINA - (Canta e chorando vai-se)
P'ra vós mudar,
No pobre quarto
Me ireis achar.
Constante e pura
Sempre serei,
Pobre de novo
Vos amarei.
ADRIANO - Que teima!
Quem te disse que eu te desprezo?...
CELESTINA (Canta e chorando vai-se)
Rico vos deixo,
Pura me ausento;
Mas levo n'alma
Cruel tormento
Vossa ventura
Façam os céus.
Adeus... eu parto;
Senhor, adeus!
CENA XI
ADRIANO e FELISBERTO
ADRIANO - Celestina!
Celestina! Eis aqui como são as mulheres! Deitam-nos sempre água
na fervura.
FELISBERTO - Ainda eu!
ADRIANO - Senhor Felisberto, eu lhe rogo que para outra vez se faça
anunciar; não se entra na casa de um homem da minha hierarquia,
como aí na espelunca de qualquer...
FELISBERTO - Perdão! Mil vezes perdão: porém, um
negócio da maior transcendência... (Enquanto Adriano procura
uma cadeira e senta-se, diz Felisberto à parte) Tenho presentemente
a certeza de que esta casa se acha no alinhamento da rua projetada, e
portanto ela me é necessária por todo preço.
ADRIANO (Sentado) - Então que temos?...
FELISBERTO - Senhor Adriano, Vossa Senhoria me faz um grande mal.
ADRIANO - Deveras?...
FELISBERTO - Sim: acabo de sair da casa do senhor Pantaleão, que
me assegurou ter vendido esta propriedade a Vossa Senhoria.
ADRIANO - É certo; e que mais?...
FELISBERTO - Mas é que Vossa Senhoria não sabe, que eu tenho
absoluta necessidade desta casa: eu a desejo ardentemente... certas recordações
de família...
ADRIANO - Sim... sim... tudo isso é muito possível; mas
também eu tenho aqui minhas recordações, e portanto
conservarei a propriedade.
FELISBERTO - Quê! Pois Vossa Senhoria não quereria ceder-ma!
ADRIANO - O que há de ser! Veio-me o desejo de representar o papel
de proprietário: despediram-me tantas vezes de casas onde morava,
que tenho vontade de pôr também os outros no meio da rua;
é mais agradável ter inquilinos do que sê-lo; e olhe,
não se pode aturar inquilinos! Põem um homem doido... não
pagam ao senhorio!
FELISBERTO - E se eu desse por esta casa quatorze contes de réis?...
ADRIANO - Quatorze contos?... o que são nesta vida quatorze contos
de réis?...
FELISBERTO - Oh! É dinheiro, que se custa a ganhar!...
ADRIANO - Ah! ah! ah!... a quem diz o senhor isso?...
FELISBERTO - Está bem, darei dezesseis contos à vista...
ADRIANO - Dezesseis contos!... (À parte) É verdade que todos
me falam de milhões, que eu possuo, mas confesso, que não
me desagradaria ter já e quanto antes alguns bilhetes do banco
no bolso... (A Felisberto) - Pois bem.... quero ser condescendente...
aceito.
FELISBERTO - Dentro em meia hora trago-lhe o dinheiro; é negócio
concluído.
ADRIANO - Eu lhe dou a minha palavra... também... olhe: por ora
é a única coisa que eu tenho para dar.
FELISBERTO - Ela me basta, honrado amigo.
FELISBERTO (Canta) - Que bom negócio,
Que vou fazer;
Oh que ventura!
Oh que prazer!
ADRIANO - Que chuva
de ouro
Está-me a chover!
Oh que ventura!
Oh que prazer!
FELISBERTO - Parto
depressa
Sem mais tardar,
E o seu dinheiro
Vou já buscar.
ADRIANO - Parta depressa
Sem mais tardar
E o meu dinheiro
Vá já buscar.