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O Primo da Califórnia
Joaquim Manuel de Macedo

 


ATO II

O teatro representa a saleta baixa, irregular e pobre de uma mansarda; os traste e mobília da sala do primeiro ato estão em desordem.

CENA I

ADRIANO e BEATRIZ

ADRIANO - Eis-me aqui em uma mansarda! Por cima de um terceiro andar! Se vou neste subir continuado, em pouco tempo mandam-me morar nas montanhas da lua! Não pode haver dúvida nenhuma, eu me acho em uma alta posição! Brigam tanto por esse mundo por causa das altas posições... e eu me vejo sossegadamente de posse da que me concedeu o meu amigo do monopólio do toucinho!... Vamos, senhora Beatriz, acabemos com isto.
BEATRIZ - É necessário não ter muita pressa; já estou bastante moída, e fique sabendo, que se me não tivesse pago o mês adiantado, não era capaz de me obrigar a subir até este buraco.
ADRIANO - Pois a viagem não é das mais longas... do terceiro andar a este meu novo palácio não há senão uma escada.
BEATRIZ - Mas quando se tem já subido dez vezes!...
ADRIANO - Sempre lhe acho de mau humor, senhora Beatriz!
BEATRIZ - E queria que estivesse muito derretida?... é boa!... uma senhora, que era no outro tempo chamada a formosa Beatriz, e que depois foi casada com um cabo-de-esquadra, ver-se enfim reduzida a representar o papel de criada de um músico!
ADRIANO (À parte) - A maldita velha é mil vezes pior que uma maitaca! E eu forçado a sofrer seus maus modos, e suas insolências! Oh! Sorte de uma figa!...
BEATRIZ - Toda vossa mobília se reduz a isto, ou tendes mais alguma coisa lá embaixo?...
ADRIANO - Senhora Beatriz, no que diz respeito à mobília, dixit! Mas lá embaixo ainda está o que eu tenho de mais precioso, o meu violão e as minhas músicas.
BEATRIZ - As músicas?... assim mesmo talvez que algum fogueteiro as quisesse comprar para fazer bombas, e desse por elas duas ou três patacas; e se além disso o senhor vendesse estes trastes a algum belchior, poderia ser que...
ADRIANO - Silêncio! A senhora parece haver prometido aos santos de sua maior devoção o não abrir a boca hoje, que não seja para dizer parvoíces; fique pois grunhindo sozinha, que irei eu mesmo buscar aqueles inapreciáveis objetos. (Vai-se)


CENA II

BEATRIZ (Sentando-se) - Havia de ter que ver, se eu me fatigasse por um músico tão ordinário: nada... vou ler o jornal, que o barbeiro da esquina me emprestou; já há de estar desesperado por ele: em quanto aos arranjos desta mansarda, o senhor musicozinho pode muito bem esperar. Vejamos. (Tira o jornal, põe os óculos e lê) "Guerra do Oriente... os Russos e os Turcos... " Ah! quem me dera ver esta súcia de Turcos toda ela enforcada!... eu cá sou Russa... Russa até os cabelos!... não posso levar a paciência , que hajam homens, cada um dos quais se case com cinqüenta mulheres!... todas as senhoras devem ser Russas. (Lê) "Fala-se em mudança de ministério..." Que me importa?... para mim suba quem subir é sempre a mesma coisa! Quem vê um, viu todos. (Lê) "ontem estiveram expostos durante todo dia no campo da Aclamação um burro, dois cachorros, e três gatos mortos..." Ora que asneira! Pois o campo da Aclamação não é mesmo o lugar do despejo público?... (Lê) "Uma carta da Califórnia , datada de 25 de outubro próximo passado, anuncia com certeza a morte de um Brasileiro de nome Paulo Cláudio Genipapo..." Genipapo?... é o mesmo nome do tal musicozinho das dúzias. (Continua a ler baixo e espantada) Oh! Meu Deus!... será possível!... era seu primo!... e ele fica seu único herdeiro!... só se eu me engano... (Ergue-se e esfrega os óculos) Vejamos... vejamos... (Lê) Não... está aqui!... impresso!... em letra redonda!... o senhor Adriano milionário!... e eu chamá-lo musicozinho... não, língua danada! É um musicozão, maior que Rossini, que Donizetti, e que toda essa gente da casa da ópera! É maior que... que... é maior que tudo enfim: o senhor Adriano milionário, vai ter uma casa... criados... é bem capaz de me tomar para sua criada grave... Que inconseqüência havê-lo tratado sem o devido respeito... então eu... eu que sempre tive ao senhor Adriano a maior amizade... mesmo uma amizade que faria desconfiar, se eu já não fosse maior de cinqüenta... vamos pois... zelo... cuidado... trabalhemos com boa vontade... (Arruma os trastes com ardor)

Eu não sou velha enfezada,
Menos beata fingida;
Sou uma boa criada,
Que gosta da vida.

E o amorzinho que eu tenho
É bom como um serafim,
É uma jóia, um tesouro,
Um cupido de alfenim.


CENA III

BEATRIZ e ADRIANO, trazendo o violão e as músicas.

ADRIANO - Finalmente, eis aqui tudo.
BEATRIZ (Correndo a ele) - Oh! Senhor Adriano, meu amorzinho do coração da minha alma! Para que tomou o trabalho de ir buscar tanta coisa lá embaixo?... era eu quem devia ir... eu tinha obrigação disso...
ADRIANO (Espantado) - O que é isto, senhora Beatriz?... a senhora está deveras falando comigo?...
BEATRIZ - Certamente: por ventura não sou criada de Vossa Senhoria?
ADRIANO - Senhora?!!! Senhora Beatriz, diga, está em seu perfeito juízo?...
BEATRIZ - Nunca me senti melhor.
ADRIANO - Nada... a senhora não está no seu estado normal.
BEATRIZ - Sim, senhor... estou mesmo no natural da minha natureza!
ADRIANO - Todavia... esta esquisita urbanidade... os obséquios que agora me está fazendo... esta mudança do preto para o cor-de-rosa operada em um instante... tudo, tudo é um fenômeno em nossas relações quotidianas.
BEATRIZ - Talvez que, às vezes, eu me tinha achado de mau humor... é necessário perdoar os pesares internos que me atormentam: quando se tem recebido uma certa educação, e se chegou a ser...
ADRIANO - Ah! sim... sim...
BEATRIZ - É duro ver-se depois a gente reduzida a uma triste posição: tirando disto, eu não sou má, e, olhe, tive sempre por Vossa Senhoria a mais decidida predileção...
ADRIANO - Senhoria outra vez!... enfim, seja como for, antes como está, do que como estava.


CENA IV

BEATRIZ , ADRIANO e CELESTINA, trazendo manuscritos de música e chapas de cobre.

CELESTINA - Bom dia, Adriano; trago-te as minhas chapas de música, para que admires os meus progressos.
BEATRIZ - Oh! Que calamidade! Mãos tão delicadas carregando semelhante peso! Dê-me isso, senhora, dê-me... ande... sente-se... eis aqui uma caixa... descanse...
CELESTINA (Admirada) - Obrigada... agradecida... senhora Beatriz; (A Adriano) Adriano, como se explica isto?...
ADRIANO (A Celestina) - Celestina, isto como se explica?...
CELESTINA - Senhora Beatriz, olhe bem para mim: a senhora está bem certa de quem eu sou?
BEATRIZ - Oh! Se estou! A senhora é a moça mais bela, mais modesta e mais perfeita das vinte províncias do Império do Brasil, e isto é o que eu tenho sempre dito e sustentado.
ADRIANO - Senhora Beatriz, pois que enfim a senhora acaba de fazer ponto, concluindo a oração com um sentido perfeito; aproveito o ensejo para pedir-lhe que vá lá para baixo procurar por mim, e ver se me descobre escondido em algum canto.
BEATRIZ - Pois não, meu senhor, eu deixo Vossa Senhora em liberdade; (À parte) vou em um pulo dar a notícia ao senhor Pantaleão.
CELESTINA (À parte, pondo uma caixa de relógio na gaveta) - Ele não me está olhando... aproveitemos o momento.
BEATRIZ - Se Vossa Senhoria tiver necessidade de mim, basta um simples aceno; estou e estarei sempre pronta a servi-lo com gosto; (A Celestina) sua serva... (A Adriano) senhor... (A Celestina) senhora... (A Adriano) senhor... (Vai-se fazendo mil cumprimentos, e sem jamais dar as costas)


CENA V

ADRIANO e CELESTINA

CELESTINA - Eu não posso compreender isto...
ADRIANO - Consola-te comigo, minha amiga; é um prodígio, é um fenômeno estupendo para quem está no último apuro do infortúnio, como eu: sim... porque tudo o estás vendo, é impossível que eu desça mais abaixo, por quanto estou morando quase em cima do telhado.
CELESTINA - Fizeste algum presente à senhora Beatriz?
ADRIANO - Qual! Apesar do meu gênio um pouco extravagante, numa me veio ao pensamento semelhante asneira; mas, enfim, deixemos a minha grotesca criada; dize: como achas o meu novo domicílio?...
CELESTINA - Excelente.
ADRIANO - Muito pequeno, não é isso?...
CELESTINA - Não vejo razão para que te estejas lastimando (Canta)

No rico palácio
De outro fulgente
Nem sempre o vivente
Encontra o prazer.

As vezes num rancho
De palha formado
Se vê, como o fado
Dá grato viver.

Ah, sim, que se goza
O néctar mais puro,
Se no rancho escuro
Dois podem caber.

ADRIANO - É assim, certamente que é assim; mas sempre com a condição de caberem dois no tal ranchinho; e este é o meu rancho... e se algumas economias me fossem possíveis, eu daria aqui mesmo um lugar a ti, como minha legítima mulher.
CELESTINA - Isso é verdade, Adriano?... bem verdade?... Ah! tu não compreendes como esse pensamento é doce para o meu coração!
ADRIANO - Não tenho te dito já, Celestina, que logo que as circunstâncias o permitam...
FELISBERTO (Dentro) - Mais acima?... obrigado.
ADRIANO - Ainda este maçante alfaiate!...
CELESTINA - Eu me retiro...
ADRIANO - Não, pelo contrário, demora-te: talvez que a tua vista lhe diminua a ferocidade; ah! que demônios seriam os que inventaram os credores!!!
CELESTINA - Sem dúvida, Adriano, foram os devedores.


CENA VI

FELISBERTO, ADRIANO e CELESTINA

FELISBERTO - Dá licença?...
ADRIANO - Oh! Pois não! (À parte) Entra, diabo.
FELISBERTO - Eu estou desesperado por me ver obrigado a parecer importuno!
ADRIANO (À parte) - Mais desesperado do que eu não está, certamente ele.
FELISBERTO - Passando por acaso por diante desta casa...
ADRIANO (À parte) - Os credores passam sempre casualmente por defronte da porta dos devedores.
FELISBERTO - Meu caro amigo, ontem eu fui por demais apressado... não estava em mim... um negócio importante me preocupava tanto, que o deixei de repente e sem lhe tomar medida, ao acordar hoje, lembrei-me do meu bom amigo, como sempre me acontece, porque realmente e lhe tributo verdadeira estima; lembrei-me, pois, e disse comigo mesmo: o meu caro Adriano precisa de minha tesoura e... eis-me aqui... (Desdobrando a medida)
ADRIANO (À parte) - Ora esta agora ainda é melhor!... eu estou no mundo da lua!... (A Felisberto) Então o senhor diz...
FELISBERTO - Vestido preto, completo, não é assim?...
ADRIANO - Senhor Felisberto... então eu... e o senhor... sim... o senhor e eu... como ontem... era ontem... e hoje... (À parte) Eu não sei mesmo o que lhe hei de dizer... isto é uma charada indecifrável.
FELISBERTO - Mas o que pretende fazer-me entender?...
ADRIANO - Eu?... pois se exatamente sou eu, que não entendo nada, homem!
FELISBERTO (À parte) Ainda não sabe... tanto melhor; isto me fará honra... (A Adriano) Nada há mais inteligível; quero tomar-lhe medida.
ADRIANO - Contudo, ontem o senho negou-se a isso, e creio mesmo, que chegou a ameaçar-me.
FELISBERTO - Eu?... eu?... como?... o senhor me confunde com outro: eu ameaçar ao meu maior amigo?... a aquele, em cuja defesa eu me deixaria fazer em postas, morreria até, exclamando no momento de morrer - oh! Glória! Morro por um amigo! - amicus est alter ego!!!
ADRIANO (À parte) - Começo a me persuadir que estou com o juízo virado! Quem sabe se ainda me dura a mona de ontem?... porque é impossível, eu juro, que tudo isto que acontece esteja realmente acontecendo.
CELESTINA (À parte) - Aqui há mistério, seja ele qual for.
FELISBERTO - Nós dizíamos, pois - vestido preto...
ADRIANO - Nada: a roupa preta é muito cara, e estraga-se muito depressa; antes quero azul.
FELISBERTO - Por conseqüência, preta e azul; a azul em verdade tem seu lugar; atualmente, porém, o senhor Adriano há de precisar de preta.
ADRIANO (À parte) - Ah! entendo: este mequetrefe tem na loja alguma porção de pano preto velho, e como se vê em termos de mandá-lo atirar à praia, prefere fazer-me roupa com ele. (Felisberto toma a medida e canta).

FELISBERTO -Deixe que eu tome a medida...

ADRIANO - Sim, senhor...

FELISBERTO -Fique direito.
Nunca vi moço mais lindo,
Mais garboso, e mais bem-feito.

ADRIANO - Ora, até já sou bonito!

FELISBERTO -Sempre o foi

ADRIANO - Inda mais essa!
Ou estou doido ou este amigo,
Quer pregar-me alguma peça.

AMBOS

FELISBERTO -Fazer esta roupa
Que gosto me dá!
Que linda casaca
Não lhe sairá!

ADRIANO - A tal roupa nova
Cuidado me dá;
Que cara casaca
Não me sairá!

ADRIANO - Mas já de antemão lhe vou declarando que duvido muito, que lhe possa pagar, ouviu?... não sei se lhe poderei pagar, entendeu?...
FELISBERTO - Oh! E quem foi que lhe falou aqui em dinheiro, meu amigo?...
ADRIANO - Nada! Não posso mais viver com tal mistério! Senhor Felisberto, explique-se: ontem, eu não lhe merecia um ceitil de crédito e hoje...
FELISBERTO - Oh! Sim! Ontem, hoje, amanhã o senhor tem sido, é, e será sempre o meu amigo do coração: eis a única explicação, que pode dar uma alma sensível como a minha.
ADRIANO (A Celestina) - Celestina, vai pedir que me preparem um quarto no hospício dos alienados da Praia Vermelha.
FELISBERTO - Enfim, o meu caro amigo Adriano me dará a honra de tomar um lugar no meu caleche, e iremos juntos à minha casa escolher o mais finos panos.
ADRIANO - A melhor! Quer que eu lhe faça a honra de tomar um lugar no seu caleche!... então que me dizem a esta?...
FELISBERTO - Nada de cerimônias... verá como ele é elegante... talvez que lhe dê na cabeça comprar-mo... olhe... pode se quiser, ficar com ele, e com os cavalos, que são magníficos, por três contos de réis, é quase de graça...
ADRIANO - E esta?... pois o homem não quer me vender o caleche?!!!
FELISBERTO - Não percamos tempo... o seu chapéu. (Dá-lhe o chapéu) a sua bengala... pois não tem bengala?... é indispensável eu lhe cedo a minha... tenho outras em casa... esta custou-me sessenta mil réis; olhe, é de unicórnio, e tem rico castão de ouro; eu lhe cedo pelo custo...
ADRIANO - Então eu hei de dar sessenta mil réis por isto? Estou quase gritando ah! quem d'El-Rei!... esta gente quer pôr-me doido...
FELISBERTO - Oh! Sessenta mil réis... que vale isso?... o senhor não pode fazer caso de semelhante bagatela. (Canta)

Querido amigo, enfim,
É tempo de pôr casa,
Fazer não pode vasa
Vivendo sempre assim
Meu caro, eu já lhe acudo,
Porquanto tenho tudo
Que possa desejar;
Oh! Venha me comprar
Mobília nova e linda
De França há pouco vinda,
Cadeiras de lavores
Quatorze aparadores,
Divãs, sofás e mesas
De formas e belezas
Em tudo variadas:
As mesas regulares
Redondas, ou quadradas,
E até triangulares;
Por uma ninharia
Lhe cedo a livraria,
Que bem cara comprei!
Também lhe venderei
O meu melhor carrinho,
E até o fardamento
Pra um lindo joqueizinho,
E tudo a bom contento;
Sim, sim, venha comprar.
Que em tudo que lhe vendo,
Amigo, o que pretendo
É só gosto lhe dar.

ADRIANO - Ora, louvada seja a Providência! Pois que, enfim, conheço que quem está doido não sou eu, é ele!
FELISBERTO - Vamos, vamos depressa, amigo do coração.
ADRIANO - Adeus, Celestina, eu me deixo levar para ver isto em que dá.


CENA VII

Os mesmos, e PANTALEÃO que aparece apressado

PANTALEÃO (A Adriano) - Um instante!...
ADRIANO - O taberneiro monopolizador do toucinho! Agora sim, estou apertado... (Querendo sair) Desculpe, senhor Pantaleão...
PANTALEÃO - Não o posso deixar assim... tenho um negócio mais importante, do que o próprio monopólio da carne fresca.
FELISBERTO - Conclua os seus negócios, meu amigo; não lhe quero ser incômodo; vou esperá-lo em minha casa....
ADRIANO (Querendo sair) - Nada... já agora eu também vou
PANTALEÃO (Retendo-o) - De modo nenhum... os momentos são preciosos...
ADRIANO (À parte) - Como me safarei eu das unhas deste gavião!...

FELISBERTO (À parte) - A sós conferenciando,
Ambos vão aqui ficar;
Que tratada será esta?...
Que irá disto resultar?...

ADRIANO - A sós conferenciando,
Nós vamos aqui ficar;
Que maldito taberneiro,
Que maçada me vai dar!

PANTALEÃO - A sós conferenciando,
Nós vamos aqui ficar;
Não me escapa o milionário,
Eu o hei de conquistar

CELESTINA - A sós conferenciando,
Eles vão aqui ficar;
Anda nisto algum mistério,
Que eu não posso desnublar.


Cena I à Cena IV
Cena V à Cena X
Cena XI à Cena XIV


Cena I à Cena VII
Cena VIII à Cena XI
Cena XII à Cena XVI