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O Primo da Califórnia
Joaquim Manuel de Macedo

 


CENA XII

ADRIANO, só

Eu disse uma chuva... qual chuva! É uma inundação! É um dilúvio de prosperidade! Entremos na investigação das necessidades do nosso toilette, e primeiro que tudo ponhamos nossas antigas misérias no meio da rua! (Abre a gaveta e vê o relógio) oh! O que quer dizer isto!... o meu relógio?... o relógio, que eu havia empenhado no Monte de Socorro?... aqui anda obra do gênio do bem ou do pé-de-carneiro; mas... oh! Que raio de luz!... sim, é o gênio do bem... Celestina! Não há dúvida... foi ela... com o fruto do seu trabalho... sim, foi ela! E eu fiz chorar aqueles belos olhos! Ah! eu sou um rico orgulhoso e mau! Graças, porém a Deus, que tudo se pode ainda reparar. Senhora Beatriz! Senhora Beatriz! morta ou viva, e ainda que rebente no caminho, a senhora Beatriz irá buscar-me Celestina... senhora Beatriz! Ela me há de trazer a minha bela celestina! (Aparece Beatriz e Celestina, Adriano cai aos seus pés.)


CENA XIII

CELESTINA, ADRIANO e BEATRIZ. - CELESTINA recua, ficando ADRIANO de joelhos aos pés de BEATRIZ


ADRIANO (De joelhos e com os olhos baixos) - E eu cairei aos seus pés pedindo-lhe o meu perdão, e lhe direi: Tu que és bela como um anjo, pura como um raio de sol, meiga como a pombinha do vale, perdoa-me!... esqueci por um instante que tu eras cheia de graças, e se sentimentos nobres, e que só querias, antes de tudo, um nome, o nome daquele a quem amas... oh! Bem... eu te ofereço o meu nome e a minha mão! (Toma a mão de Beatriz e beija-a) Ah! tu me perdoas!... (Levanta a cabeça) Ora... e esta! Com que estava eu falando!... (Vê Celestina) Ah! tu estás aí!
CELESTINA - E te compreendi bastante, Adriano.
BEATRIZ - E eu também, senhor Adriano, e se não fosse tão escrupulosa já teria abraçado a Vossa Senhoria excelentíssima! (À parte) Nunca ouvi tantas ternuras do meu defunto Pancrácio.
ADRIANO (Mostrando o relógio) - Minha Celestina, eu adivinhei tudo!
BEATRIZ - Consegui retê-la no meu quarto: suas lágrimas puseram-me o coração em cinco pedaços, e como sei por experiência própria que os namorados brigam e fazem as pazes trinta vezes por dia...
ADRIANO - Mas agora, Celestina, tu me desprezas?
CELESTINA - Não, não, meu amigo, tudo está esquecido.
ADRIANO - Eu te desposo, minha Celestina, e a felicidade entrará em nossa casa com o ato do nosso casamento.
CELESTINA - E ficará para sempre morando conosco.
BEATRIZ (Limpando os olhos) - E eu ainda a chorar... vejam só! E isto me fazia esquecer, que hoje o excelentíssimo senhor meu amo tem sido procurado por toda a cidade em peso: tenho lá dentro um balaio cheio de cartas e bilhetes de visita: eu vou buscar. (Entra e volta logo)
ADRIANO - Que nova miséria será esta?...
CELESTINA - Não é miséria, Adriano; são os milagres do dinheiro, que é o senhor onipotente de quase todos.
BEATRIZ (Trazendo um balaio cheio de cartas e bilhetes) - Eis aqui as provas de que Vossa Senhoria excelentíssima tem a seu favor a opinião pública.
ADRIANO - Vejamos: misericórdia! Um balaio de cartas e de bilhetes de visitas!... Oh! Dinheiro! Oh! Miséria da humanidade!... ora, comecemos pelas cartas: (Tira uma e lê) oh! A primeira é do tal editor, que rejeitou minhas músicas: (Lê) miserável! Vê, Celestina, agora, agora ele me envia uma escritura, pela qual se obriga a imprimir pelo preço que pedi as mesmas composições que ontem rejeitava, sob pena de uma indenização de um conto de réis pago por aquele que se arrepender!...
CELESTINA - Que ventura! Tuas composições vão, portanto, aparecer! Tu vais ser conhecido... todos te vão aplaudir, e te fazer justiça.
ADRIANO (Depois de ler outra carta) Esta também não é má! Sou admitido na orquestra o teatro de S. Pedro de Alcântara pelo competente diretor com todas as condições por mim propostas: eis aqui o contrato assinado! Havia de ser bonito se eu aparecesse agora tocando tímpanos ou ferrinhos!...
CELESTINA - E essa carta?... será ainda algum novo obséquio?...
ADRIANO (Depois de ler) - Oh! Lá se é! Nada menos do que a empresa do Provisório que me compra a propriedade da minha ópera por dois contos de réis, e que se obriga a pô-la em cena dentro de um ano!...
CELESTINA - Oh! Isto sim é que é uma grande felicidade! Todos apostaram sobre quem mais faria para te colocar a salvo da pobreza!
ADRIANO - Sim! Agora que já de nada disso preciso, curvam-se todos ante o meu dinheiro: oh! Sim! Abrem-me os braços, quando já estou acima de seus favores: este mundo, Celestina, tem uma alma de bilhetes de banco, e um coração de monjolo!
CELESTINA - Paciência... é preciso sofrê0lo, porque é o mundo que temos... e pela minha parte por ora não desejo mudar-me para outro.
ADRIANO (Vendo e atirando fora os bilhetes de visita) - E esta nuvem de bilhetes de visita! Oh! Que povaréu, que multidão veio visitar os meus cinco milhões!... vejamos sempre; (Tira um) comendador fulano dos anzóis carapuça... Não conheço, fora com ele; (Outro) O Deputado... Misericórdia! Deputado é uma coisa que custa muito cara à nação; (Outro) o brigadeiro... Fora, que pode brigar comigo; (Outro) o doutor... Pior está essa! Doutores longe de minha porta; (Outro) Mr. De tal, cabeleireiro, tem pomada de urso e água dos amantes... Ao fresco; (Outro) pílulas vegetais... E esta! Pois já tão depressa não me querem dar pílulas a engolir?... (Outro) trastes, mármores e porcelanas... entendo! (Outro) frei Laverno faz os seus cumprimentos... Ah! é um frade!... chegou a minha fama aos conventos... rua; (Outro) o barão de qualquer coisa... Irra! Não posso mais!... (Atira com todos os bilhetes fora) Eis ali rolando pelo chão não sei quantos diplomas da vergonha humana!... desprezavam o artista e vêm beijar os pés do milionário!... Miseráveis! Vândalos!... isto ou é para desesperar, ou para rir!
CELESTINA - Pois então é melhor rir... riamo-nos!
ADRIANO - Vá feito... riamo-nos!... (Canta)

Vejam já quantos amigos
Mal me deixam respirar!
"Que cambada d marrecos
"Pega neles p'ra capar!"

Sou rico! Sou rico!
Já tenho outro rosto!
Sou rico! Sou rico!
Não caibo de gosto!


CENA XIV

EDUARDO, ERNESTO, ADRIANO, CELESTINA, BEATRIZ e os amigos.

ERNESTO - Oh! Muito bem, Adriano; como vamos de fortuna?...
ADRIANO - Vinde, meus amigos, vinde tomar parte da minha alegria: eu estou nadando em um mar de ouro!
EDUARDO - Nós sabemos tudo.
ERNESTO (Tristemente) - Teu primo é morto, não é assim?...
ADRIANO (Como querendo chorar) - Ah!... é verdade!...
BEATRIZ (O mesmo) - Ah! é verdade! Era muito bom moço!
EDUARDO - Então estás muito aflito?...
ADRIANO - Sim tenho chorado... este é já o terceiro lenço; os outros ficaram ensopadinhos de lágrimas; e contudo eu conhecia muito pouco a meu primo... apenas nos tínhamos visto, quando mamávamos: porém, a morte é sempre uma separação dolorosa.
ERNESTO - Escuta, Adriano; tu és sensível?...
ADRIANO - Ao menos tenho essa pretensão, e as minhas lágrimas sinceras...
ERNESTO - E eras muito amigo de teu primo?...
ADRIANO - Oh! O mais que é possível...
ERNESTO - Abraça-me, pois, meu amigo, enxuga o pranto; ele não está morto.
ADRIANO (Estupefato) - Não... não... não... não está morto?!!
BEATRIZ - Não está morto?... isso era o diabo agora!
CELESTINA - Como o sabe, senhor?...
ERNESTO - Não está morto, porque nunca esteve vivo.
ADRIANO - Isto não é brincadeira; creio que é negócio muito sério!
ERNESTO - Ontem, aquecido pelo champanhe, tu te gabaste de ter na Califórnia um primo senhor de milhões...
ADRIANO - Eu... eu disse isso?... é possível; porquanto não me lembro de coisa alguma!
ERNESTO - E querendo zombar de nós, apenas nos lembraste a idéia de uma caçoada.
ADRIANO - Uma caçoada!... como?... este artigo do jornal?...
ERNESTO - Não passa de uma invenção nossa!
ADRIANO - Pobre outra vez!... (Caindo numa caixa) Eu... morro agora por força!
CELESTINA - Meu Deus! Adriano não está bom!
BEATRIZ - E eu a gastar políticas com um musicozinho tão ordinário! com uma bisca, com um farroupilha desta qualidade!... Vou já participar ao senhor Pantaleão. (Vai-se)
ERNESTO - Que é isto, Adriano?... sê homem: se tivéssemos previsto, que sentirias tanto um simples gracejo de amigos...
ADRIANO - Ah! meus amigos, eis aqui uma comédia muito capaz de acabar em tragédia... Eu estava tão feliz!...
CELESTINA - Eis-nos de novo em nossa boa mediocridade.
ADRIANO - Não! Não posso suportar semelhante desgosto! Isto é um salto mortal! É muito melhor atirar-me de uma janela abaixo! (Corre e esbarra-se com Felisberto)


CENA XV

FELISBERTO e os ditos


FELISBERTO - Oh! Que me rebenta o nariz!
ADRIANO (Submisso) - Eu lhe fiz mal... ofendi-o?...
FELISBERTO - Não foi nada... trago o dinheiro a Vossa Senhoria.
ADRIANO - A minha senhoria... a minha senhoria acaba de receber a sua demissão.
FELISBERTO - Não o compreendo, meu prezado amigo.
ADRIANO - Digo, que agora aparecem suas dúvidas a respeito do negócio.
FELISBERTO - Que, senhor Adriano! Vossa Senhoria quereria faltar a palavra!... (À parte) Diabo! E eu que já tratei a cessão da casa com vinte por cento de lucro!
ADRIANO - Não é isso, mas devo dizer...
FELISBERTO - Nada quero ouvir: tenho a sua palavra, e um homem honrado, senhor, não tem senão uma palavra: eis aqui o contrato de venda para assinar.
ADRIANO - Todavia...
FELISBERTO - Ah! senhor Adriano! É possível que tenha em tão pouco a sua palavra?...
ADRIANO - Senhor Felisberto!...
FELISBERTO - Esta hesitação me dá o direito de dizer o que disse.
ADRIANO - E o senhor não se arrependerá deste contrato?...
FELISBERTO - De modo nenhum.
ADRIANO - E aconteça o que acontecer não se queixará de mim?...
FELISBERTO - Eu queixar-me?... e de quê?... assine, tenha Vossa Senhoria a bondade de assinar.
ADRIANO (À parte) - Com efeito... posso bem fazer este negócio... a casa é minha, e eu ganho nesta venda quatro contos de réis; (Assinando) vamos, pois que o senhor o exige, eu assino.
FELISBERTO - Para lhe provar que o negócio me convém, ajuntei ao dinheiro, que lhe entrego, um recibo de conta que me devia, e portanto estamos quites.
ADRIANO (Recebe e conta o dinheiro) - Como?... minha conta também?... ah! Celestina, eis aqui um remorso de adversidade!
FELISBERTO - O que quer dizer com isso?...


CENA XVI

Os ditos, PANTALEÃO e BEATRIZ

PANTALEÃO - Isso é um horror! É uma ladroeira!... uma infâmia!...
TODOS - Que aconteceu?...
PANTALEÃO - O senhor músico, meu locatário, é vítima de uma mistificação! Ele é tão rico, como aqui, a velha Beatriz!
FELISBERTO - Que diabo é isto?... quem me dará um fio para sair deste labirinto!
PANTALEÃO - O fio é que eu continuo a despedir desta casa e de mestre da minha filha ao tal senhor Adriano Genipapo!
ADRIANO - Senhor Pantaleão! O senhor tem um coração abjeto... o senhor é indigno do nome de homem que usurpa!
PANTALEÃO - Parece-me que o senhor me quer insultar!
ADRIANO - Sair desta casa! Sairemos dela ambos, miserável taberneiro! Porquanto acabo de vendê-la ao senhor Felisberto...
PANTALEÃO - Eu vou levá-lo já ao chefe de polícia!
ADRIANO - Oh! Pois não! Irei mesmo com prazer; tenho que referir ao chefe de polícia uma certa história de monopólio de toucinho e carne fresca... Ah! já se cala?... acabemos com isto: senhor Pantaleão, eu lhe pago a casa que lhe comprei, e o mais que lhe devo e por minha vez, senhor, ouvi todos, ouvi: senhor Pantaleão, rejeito a mão de sua filha que ainda há pouco me ofereceu!
PANTALEÃO - Ah! ah! ah! e pensava, que eu ainda tinha as mesmas disposições?...
ADRIANO - Celestina, esta gente não tem vergonha, não?... (Outro tom) - Eu não sei se me devo rir deles!... miseráveis! Vós que me desprezais, lembrai-vos, que abaixastes a cabeça diante de mim! Estúpidos! (Outro tom) Estúpidos?... estúpido sou eu... eles pensam e praticam, como quase todos, isto é a moda... é a época... é o mundo... atualmente o que melhor se sabe do padre-nosso, é o venha a nós!
CELESTINA - Senhores, vós o vedes, vosso gracejo teve boas conseqüências...
ERNESTO - Tanto melhor para ele nô-lo perdoar.
ADRIANO - De todo o coração, que até vô-lo agradeço.
FELISBERTO - Mas então o único, que aqui fica com cara de pau, sou eu?... juro, que ainda não compreendi nada desta moxinifada.
CELESTINA - Pois é muito simples... o primo da Califórnia...
FELISBERTO - Não está morto?...
ADRIANO - Nem nascido, mestre Felisberto!
FELISBERTO (À parte) - Ai que cabeçada!... e a conte que ele me devia!
ADRIANO - Mas graças a esta invenção, graças à só presunção, de que me achava rico, fui cercado de respeitos, de obséquios, e de amigos; ofereceram-me casa, mulher e dinheiro!...
CELESTINA - Obrigaram-se a imprimir suas músicas, contrataram-no para uma orquestra, e compraram-lhe uma ópera!
ADRIANO - Puseram-me a salvo das privações da pobreza...
BEATRIZ - Ora, o que tem isso?... lembremo-nos do adágio antigo: a água corre para o mar.

ADRIANO - O dinheiro é um feitiço
Que a todo mundo enlouquece;
Aos ricos todos festejam,
O pobre nada merece.

CELESTINA - As senhoras melhor sabem
Do dinheiro o valimento;
Moça rica que tem dote,
Nunca perde casamento.

PANTALEÃO -O rico nunca tem frio,
Traz sempre a barriga cheia;
E até por coisas que eu sei
Jamais visita a cadeia.

FELISBERTO -Homem pobre é sempre feio
Bicho mau e desprezado;
Quem tem dinheiro é bonito,
É sábio, sempre engraçado.

CORO GERAL-Dinheiro! Venha dinheiro!
Dinheiro é tudo na terra;
Dá prazeres, glória, amores,
Faz a paz e move a guerra.


FIM DO SEGUNDO E ÚLTIMO ATO

O primo da Califórnia, de Joaquim Manuel de Macedo

Fonte:
MACEDO, Joaquim Manuel de. "O primo da Califórnia". Teatro completo I. Rio de Janeiro : Serviço Nacional de Teatro, 1979. p. 97-148.

Texto proveniente de:
A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>
A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo
Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:
Ezequias Eliud - Santa Luzia /MG

Este material pode ser redistribuído livremente, desde que não seja alterado, e que as informações acima sejam mantidas. Para maiores informações, escreva para <bibvirt@futuro.usp.br>.


Cena I à Cena IV
Cena V à Cena X
Cena XI à Cena XIV


Cena I à Cena VII
Cena VIII à Cena XI
Cena XII à Cena XVI