O Primo da Califórnia
Joaquim Manuel de Macedo
CENA XI
CELESTINA e
logo ADRIANO
ADRIANO - Esta
velha mente! Mente por força! Mas não... deve ser
verdade... as desgraças hão de continuar a cair sobre
mim... todos devem abandonar-me... aborrecer-me: eu sou o mais vil
dos homens, isto é... sou pobre!
CELESTINA - Meu Deus! Que tens?... ah! Eu o adivinho; o editor rejeitou
tuas músicas...
ADRIANO - Sim, Celestina, ele faltou à sua palavra: é
muito mal feito faltar à palavra que se dá, não
é assim?...
CELESTINA - Sim, sim; é muito mal feito.
ADRIANO - Não é verdade, que quando se tem feito uma
promessa, essa promessa se deve cumprir?...
CELESTINA - Sim, sempre; mas a que fim semelhantes perguntas?...
ADRIANO - Ah! Celestina! É que tu te condenas por ti mesma;
tu me fizeste uma promessa sagrada... juraste que serias minha mulher
à face da igreja, e agora?... oh!... mas não... tens
razão... era necessário esperar... sabe Deus quanto
tempo!... e ganhará com que dar-te belos vestidos de seda...
que só teria para ti profusão de amor, e de ternos
cuidados?!!! Pensas bem... é melhor um homem rico, que te
encherá de brilhantes e de jóias preciosas; que te
levará ao teatro, aos espetáculos, aos passeios em
seu vistoso carro!... tens razão, Celestina; aceita o homem
rico, esquece o pobre músico; somente uma coisa te peço:
quando correres pelas ruas em tua carruagem, se encontrares o mísero
artista, recomenda ao teu cocheiro, que o não salpique de
lama... isso será um obséquio feito a quem morrerá
pronunciando o teu nome.
CELESTINA (Chorando) - Adriano! Que acabas de proferir?... ah! Despedaçaste-me
o coração.
ADRIANO (Cantando)
Não chores; podem no rosto
Traços de pranto ficar,
E esses sinais de amargura
Teu novo amor desgostar.
Tem valor, porque
bem cedo
Para ti vindo a riqueza,
Esquecerá, sem remorso,
Quem te adora na pobreza.
CELESTINA -
Ah!... Adriano... és muito cruel!
ADRIANO - Como?... ainda em cima sou eu que não tenho razão?...
ora não falta mais nada!... tuas ausências, essa luz
que em horas mortas vejo em teu quarto... esse maldito homeopata,
que te faz propostas sedutoras: tudo isso será um sonho de
minha imaginação?...
CELESTINA - Eu queria te ocultar a razão por que velo; mas
já que me acusas, falo e provarei tua injustiça: essa
luz que tens visto em horas mortas, esclarece minhas vigílias;
eu aprendo a gravar música... se não me acreditas,
posso mostrar-te os meus trabalhos...
ADRIANO - Celestina? É possível?...
CELESTINA - O meu bom Adriano... disse eu a mim mesma, merece ser
feliz, e é desgraçado! Bem... eu não lhe serei
pesada... ele tem talento; porém, não querem aceitar
suas produções... pois eu as gravarei... nós
as espalharemos pelo mundo... finalmente, far-lhe-ão justiça,
e eu terei feito alguma coisa para lhe chegar mais cedo a glória
e a fortuna, que por força deve ter um dia.
ADRIANO - Ah! Celestina! Tu tens tantas virtudes, como aquela jovem
mulher que outrora conduzia pela mão a Belisário cego!
Mas esse indigno homeopata...
CELESTINA - Ele quer casar comigo.
ADRIANO - Casar contigo?
CELESTINA (Dando uma carta) - Eis a minha resposta; eu lhe ia enviar;
podes lê-la; a carta ainda não tem obreia.
ADRIANO (Depois de ler) - Recusas, Celestina?... tu recusas um brilhante
futuro?...
CELESTINA - Sim; e queria também ocultar-te isso.
ADRIANO - Ah! Que eu não mereço um anjo, como tu és!
Quanto mais sobre mim pesa a pobreza, mais tu te prendes à
minha má fortuna: ah! Velha bruxa Beatriz de uma figa!
CELESTINA - Não falemos mais nisso.
ADRIANO - Ah! Que eu não mereço um anjo, como tu és!
Julgado mal de ti, me oprime tão fortemente o coração,
que me acho quase em termos de, por indisposto, transferir o bolo
inglês, que ofereci aos meus amigos.
CELESTINA - Bolo inglês?... e o dinheiro?...
ADRIANO - Eu ainda tenho... uns... dezessete mil réis.
CELESTINA - Sim?... e como os arranjaste?...
ADRIANO - Como os arranjei?... sim... é verdade... foi...
um caso muito engraçado; encontrei um amigo, que mos devia
e que mos pagou; o procedimento certo que é pouco usado;
mas... esta senhora Beatriz... (Indo à porta)
CELESTINA (Junto à mesa e vendo a clareza) - Uma clareza!...
o seu relógio no Monte de Socorro!... ah! Eu compreendo tudo
agora (Guarda a clareza)
ADRIANO - Sinto as pisadas da minha velha e insolente criada.
CELESTINA - Eu te deixo.
ADRIANO - Sem ressentimento, minha Celestina?...
CELESTINA - Oh! Sim! Amando-te mais ainda!
ADRIANO (Cantando)
Adeus, pois o meu ciúme
Ofendeu teu coração;
Mas do amor, que me consagras,
Alcancei fácil perdão.
O ciúme
é um pecado,
Que sempre de amor provém:
Sem ciúmes não se ama;
Só quem não ama os não tem
CENA XII
ADRIANO e BEATRIZ
que acompanha CELESTINA até a porta
BEATRIZ (pondo
no piano copos, pratos, etc.) - Creio, que esta sirigaitazinha olhou-me
assim com um ar de desprezo... isto já me vai passando os
limites da familiaridade!
ADRIANO (Voltando) - Senhora Beatriz, a senhora é uma velha
Prosérpina!
BEATRIZ - Prosérpina! Prosérpina!... e o senhor é
um... é um... é um Prosérpino! (À parte)
Entendo isto perfeitamente... a menina untou-lhe mel pelos beiços,
e ele caiu como um patinho... como é crédulo, coitado!...
ADRIANO - Então tudo está pronto?... mas faltam duas
facas...
BEATRIZ - Foram essas as únicas que encontrei na gaveta da
mesa: e note que uma já está desconjuntada.
ADRIANO - Não importa: os meus amigos são ricos, e
estão acostumados ao luxo; é bom que vejam um dia
e bem de perto como se passa na pobreza: divertir-se-ão ainda
mais com isso.
BEATRIZ - Devo, porém, dizer, que o meu defunto Pancrácio
era bem pobre, mas quando queria dar o seu banquete, mandava-me
pedir louça emprestada à mulher do sargento Luizinho...
ADRIANO - Silêncio! Sinto que sobrem os meus amigos: limite-se
às suas funções; e que se não perceba,
que eu discuto com os meus criados.
BEATRIZ (À parte) - Criados! Vejam como é insolente
este farroupilha.
CENA XIII
ERNESTO, EDUARDO,
ADRIANO, BEATRIZ e dois amigos
Adriano os recebe na porte
Os Amigos -
Eis-nos prontos para a súcia,
Pra comer, beber, folgar;
Queremos rir e brincar;
Eis-nos prontos, bem o vês;
Venha o vinho de Champanhe,
Venha o nosso bolo inglês.
ADRIANO - Bem
vinda seja esta súcia,
Disposta a rir e folgar;
Eu também quero brincar,
E brincarei como três:
Eis aqui o bom champanhe,
Eis o nosso bolo inglês.
ERNESTO - Bem
vês, que somos exatos!
ADRIANO - Eu vos agradeço... vamos, tratemos de sentar-nos.
Senhora Beatriz, por ora dispensamos os seus serviços; retire-se...
BEATRIZ (À parte) - Há trinta anos passados esta súcia
de brejeiros me convidaria a tomar parte na patuscada. (Vai-se)
CENA XIV
Os Mesmos, menos
BEATRIZ
ADRIANO - Sirvamo-nos
de bolo inglês!...
ERNESTO - Proponho que se dê carta de naturalização
a este bolo; parece estar tão gostoso, que vale a pena fazer-se
dele uma conquista nacional.
ADRIANO - Os vossos copos, senhores...
EDUARDO - Eu cá tenho um copo de meio quartilho.
ERNESTO - E eu um de lavores dourados!...
ADRIANO - Perdoai-me, senhores, o meu aparelho se acha m pouco desprovido...
EDUARDO - Isto dobrará ainda o nosso prazer...
ADRIANO - Misturemos o champanhe como o Reno e o madeira; viva quem
mais beber! (Bebe)
ERNESTO - Excelente bolo!... mandarei o meu groom aprender com Adriano
a fazer bolo inglês.
EDUARDO - Ah! Tu tens um groom?
ERNESTO - Desta altura... (Fazendo sinal de pequeno tamanho) inglês
de puro sangue...
ADRIANO (À parte) - E eu?... só tenho por groom a
velha Beatriz!... nada... vou embebedar-me. (Bebe)
ERNESTO (A Eduardo) - A propósito: sabes, que comprei um
cabriolé?... oh! Coisa encantadora.
ADRIANO (À parte) - E eu?!!! Eu cá tenho os ônibus
ou as gôndolas em lugar do cabriolé... oh! Sorte endemoninhada!...
EDUARDO - Eu pretendo ter um carro magnífico, logo que herdar
de meu tio, o conselheiro, trinta contos de réis de renda
anual!... nada menos que isso.
ADRIANO - Então tu tens um tio com trinta contos de réis
de renda?... (Bebe)
ERNESTO - Eu conto que minhas tias me deixarão muito mais
do que isso... Florindo e Júlio têm igualmente belas
heranças em perspectiva... oh! Que belo uso faremos de tanto
dinheiro!...
ADRIANO (À parte) - Todos eles têm parentes milionários...
e eu?... eu tenho as algibeiras em trapos, e nunca me acontece cair-me
o dinheiro por elas abaixo! Nem passado, nem parente, nem futuro,
sou um pinga na extensão da palavra! Ora isto faz ferver
o sangue! (Bebe)
ERNESTO - E quem será tão desgraçado que não
tenha tios, ou tias ricas?...
ADRIANO - Apoiado! Qual será, qual esse desgraçado?
ERNESTO - Então, tu também os tens?...
ADRIANO - Ora seguramente! (À parte) É boa! Então
por que não posso ter também os meus parentes?
EDUARDO - Onde mora teu tio?...
ADRIANO - Eim?... (Bebe)
EDUARDO - Teu tio onde existe?
ADRIANO - Meu tio?... não é precisamente um tio...
é um primo... oh! Um parente de desempenho! (À parte)
Que mentira tão miserável!
TODOS - Um primo!...
ADRIANO - Sim... um primo, que habita na Califórnia... Paulo...
Cláudio... Genipapo... tal qual... e eu que sou o seu único
herdeiro. (À parte) todos eles têm tios ou tais, não
é muito que eu arranje um primo para mim. (Bebe, e já
meio tonto aos outros) Vocês bebem muito sofrivelmente!
ERNESTO (Aos outros) - Eis aqui um parente, cuja existência
me parece contestável: (A Adriano) então teu primo
é muito rico?... o senhor Paulo... Cláudio... Genipapo?...
ADRIANO - Oh! Imensamente rico! Foi há quatro anos para a
Califórnia, e hoje possui nada menos que dois mil contos...
cinco milhões. (À parte) Eu arranjo esta fortuna toda
com a maior facilidade... é uma riqueza, que não me
custa nada.
ERNESTO - E tu, sem dúvida, entreténs com ele a mais
viva correspondência... Mostra-nos algumas de suas cartas.
ADRIANO - Nada... ele não me escreve há muito tempo;
simples delicadeza de sua parte... não quer arruinar-me com
os portes do correio.
ERNESTO (Aos amigos) - Vejam que desculpa! (A Adriano) Pode ser
que teu primo já tenha morrido.
ADRIANO - Qual! Se ele tivesse morrido já me tinha mandado
participar...
ERNESTO - Pois então bebamos à sua saúde!...
ADRIANO (Bebendo) - Sim... bebamos! Isto não pode fazer mal
nenhum a meu primo.
ADRIANO - Sofrido
tenho até hoje
As privações da pobreza;
Mas em breve irei gozar
Todo o luxo da riqueza.
TODOS - Oh!
Vem depressa,
Feliz herança!
Tu nos prometes
Grande folgança.
TODOS - Viva!
Viva!
ERNESTO - Oh! Que soberbo futuro!...
ADRIANO (Enfraquecendo) - Sim... o futuro... é meu, não
tem dúvida; eu sou muito amido do futuro... oh! Que belo
primo!
EDUARDO - A saúde das nossas namoradas!... viva!
TODOS - Hip! Hip! Hip! Urrha!
ADRIANO - Viva... meu primo... oh! Sim... meu rico primo...
ADRIANO - Morre
já, querido primo,
E deixai-me o teu dinheiro;
Sobe p'ra o céu direitinho,
Mas que eu seja o teu herdeiro
TODOS - Oh!
Vem depressa
Feliz herança!
Tu nos prometes
Grande folgança.
EDUARDO (Mostrando
Adriano) - Oh! Ei-lo adormecido!
ERNESTO - Efeitos do champanhe! Pobre rapaz, não está
habituado.
ADRIANO (Balbuciando) - Excelente... oh!... o que eu tenho... é...
o que eu não tenho... ah! ah! como eles engoliram a história
do primo da... Califórnia... ah!... ah!...
ERNESTO - O que é que ele está dizendo?
EDUARDO - Oh! Eis aqui como é a grande herança do
nosso pobre Adriano!...
ADRIANO - Ah!... como é... doce... do... doce (Adormece)
ERNESTO - Meus amigos, uma idéia!
TODOS - Qual?...
ERNESTO - Vós sabeis que eu tenho amigos na redação
de todos os jornais; pois bem, graças à imprensa,
vou dar em um mesmo dia vida e morte a esse primo fantástico
imaginado por Adriano; eu quero realizá-lo a fim de o poder
matar.
TODOS - Excelente idéia!...
ERNESTO - Amanhã Adriano contará com esta herança
imaginária; essa riqueza lhe durará talvez um dia:
nós nos divertiremos com a sua surpresa e com a sua alegria;
ele pretendeu divertir-se à nossa custa; pois bem, seremos
nós que nos divertiremos à custa dele!
TODOS - Apoiado! Apoiado!
ERNESTO - Ele está profundamente adormecido: venha uma pena
e papel... ides admirar a beleza do meu estilo. (Escreve) "Uma
carta da Califórnia, datada de 25 de outubro próximo
passado, anuncia com certeza a morte de um brasileiro... "
O nome e sobrenome do fabuloso primo?...
EDUARDO - Paulo Cláudio Genipapo.
ERNESTO (Escrevendo) - "De nome Paulo Cláudio Genipapo,
estabelecido na Califórnia há quatro anos: morreu
sem deixar filhos, ficando único herdeiro de sua fortuna,
que sobe a cinco milhões, um primo - Adriano Genipapo - jovem
músico estabelecido no Rio de Janeiro".
TODOS - Muito bem! Muito bem!
ERNESTO - Amanhã esta notícia aparecerá publicada
nos três jornais diários da Corte.
TODOS - Bravo!
ERNESTO - Ah! meu pobre Adriano!
EDUARDO - Ei-lo que abre a boca!
ERNESTO - ele sonha talvez com a sua pobreza; amanhã sonhará
ainda, mas sonhará em completa vigília, então
terá um verdadeiro sonho de ouro!
EDUARDO - Mais um copo de vinho!
ERNESTO - Sim, à saúde de Adriano, e da sua riqueza!
(Enchem os copos)
ERNESTO - Em
pobreza adormecido
Há de rico amanhecer;
Mas no fim de poucas horas
Pobre outra vez há de ser.
TODOS - Que
viva o herdeiro
Dos cinco milhões,
Milhões que não valem
Nem cinco tostões!
TODOS - Hip!
Hip! Hip! - Urrha!...
FIM DO ATO PRIMEIRO