A Nova Califórnia
Lima Barreto
UM E OUTRO
A Deodoro Leucht
Não havia
motivo para que ela procurasse aquela ligação, não
havia razão para que a mantivesse. O Freitas a enfarava um
pouco, é verdade. Os seus hábitos quase conjugais;
o modo de tratá-la como sua mulher; os rodeios de que se
servia para aludir à vida das outras raparigas; as precauções
que tomava para enganá-la; a sua linguagem sempre escoimada
de termos de calão ou duvidoso; enfim, aquele ar burguês
da vida que levava, aquela regularidade, aquele equilíbrio
davam-lhe a impressão de estar cumprindo pena.
Isto era bem
verdade, mas não a absolvia perante ela mesma de estar enganando
o homem que lhe dava tudo, que educava sua filha, que a mantinha
como senhora, com o chaufleur do automóvel em que passeava
duas vezes ou mais por semana. Por que não procurara outro
mais decente? A sua razão desejava bem isso; mas o seu instinto
a tinha levado.
A bem dizer,
ela não gostava de homem, mas de homens; as exigências
de sua imaginação, mais do que as de sua carne, eram
para a poliandria. A vida a fizera assim e não havia de ser
agora, ao roçar os cinqüenta, que havia de corrigir-se.
Ao lembrar-se de sua idade, olhou-se um pouco no espelho e viu que
uma ruga teimosa começava a surgir no canto de um dos olhos.
Era preciso a massagem... Examinou-se melhor. Estava de corpinho.
O colo era ainda opulento, unido; o pescoço repousava bem
sobre ele, e ambos, colo e pescoço, se ajustavam sem saliências
nem depressões.
Teve satisfação
de sua carne; teve orgulho mesmo. Há quanto tempo ela resistia
aos estragos do tempo e ao desejo dos homens? Não estava
moça, mas se sentia ainda apetitosa. Quantos a provaram?
Ela não podia sequer avaliar o número aproximado.
Passavam por sua lembrança numerosas fisionomias. Muitas
ela não fixara bem na memória e surgiam-lhe na recordação
como cousas vagas, sombras, pareciam espíritos. Lembrava-se
às vezes de um gesto, às vezes de uma frase deste
ou daquele sem se lembrar dos seus traços; recordava-se às
vezes da roupa sem se recordar da pessoa. Era curioso que de certos
que a conheceram uma única noite e se foram para sempre,
ela se lembrasse bem; e de outros que se demoraram, tivesse uma
imagem apagada.
Os vestígios
da sua primitiva educação religiosa e os moldes da
honestidade comum subiram à sua consciência. Seria
pecado aquela sua vida? Iria para o inferno? Viu um instante o seu
inferno de estampa popular: as labaredas muito rubras, as almas
mergulhadas nelas e os diabos, com uns garfos enormes, a obrigar
os penitentes a sofrerem o suplício.
Haveria isso
mesmo ou a morte seria...? A sombra da morte ofuscou-lhe o pensamento.
Já não era tanto o inferno que lhe vinha aos olhos;
era a morte só, o aniquilamento do seu corpo, da sua pessoa,
o horror horrível da sepultura fria.
Isto lhe pareceu
uma injustiça. Que as vagabundas comuns morressem, vá!
Que as criadas morressem, vá! Ela, porém, ela que
tivera tantos amantes ricos; ela que causara rixas, suicídios
e assassinatos, morrer era uma iniqüidade sem nome! Não
era uma mulher comum, ela, a Lola, a Lola desejada por tantos homens;
a Lola, amante do Freitas, que gastava mais de um conto de réis
por mês nas cousas triviais da casa, não podia nem
devia morrer. Houve então nela um assomo íntimo de
revolta contra o destino implacável.
Agarrou a blusa,
ia vesti-la, mas reparou que faltava um botão. Lembrou-se
de pregá-lo, mas imediatamente lhe veio a invencível
repugnância que sempre tivera pelo trabalho manual. Quis chamar
a criada: mas seria demorar. Lançou mão de alfinetes.
Acabou de vestir-se,
pôs o chapéu, e olhou um pouco os móveis. Eram
caros, eram bons. Restava-lhe esse consolo: morreria, mas morreria
no luxo, tendo nascido em uma cabana. Como eram diferentes os dous
momentos! Ao nascer, até aos vinte e tantos anos, mal tinha
onde descansar após as labutas domésticas. Quando
casada, o marido vinha suado dos trabalhos do campo e, mal lavados,
deitavam-se. Como era diferente agora... Qual! Não seria
capaz de suportá-lo mais... Como é que pode?
Seguiu-se a
emigração... Como foi que veio até ali, até
aquela cumiada de que se orgulhava? Não apanhava bem o encadeamento.
Apanhava alguns termos da série; como porém se ligaram,
como se ajustaram para fazê-la subir de criada a amante opulenta
do Freitas, não compreendia bem. Houve oscilações,
houve desvios. Uma vez mesmo quase se viu embrulhada numa questão
de furto; mas, após tantos anos, a ascensão parecia-lhe
gloriosa e retilínea. Deu os últimos toques no chapéu,
concertou o cabelo na nuca, abriu o quarto e foi à sala de
jantar.
- Maria, onde
está a Mercedes? perguntou.
Mercedes era
a sua filha, filha de sua união legal, que orçava
pelos vinte e poucos anos. Nascera no Brasil, dous anos após
a sua chegada, um antes de abandonar o marido. A criada correu logo
a atender a patroa:
- Está
no quintal conversando com a Aída, patroa.
Maria era a
sua copeira e Aída a lavadeira; no trem de sua casa, havia
três criadas e ela, a antiga criada, gostava de lembrar-se
do número das que tinha agora, para avaliar o progresso que
fizera na vida.
Não insistiu
mais em perguntar pela filha e recomendou:
- Vou sair.
Fecha bem a porta da rua... Toma cuidado com os ladrões.
Abotoou as luvas,
concertou a fisionomia e pisou a calçada com um imponente
ar de grande dama sob o seu caro chapéu de plumas brancas.
A rua dava-lhe
mais força de fisionomia, mais consciência dela. Como
se sentia estar no seu reino, na região em que era rainha
e imperatriz. O olhar cobiçoso dos homens e o de inveja das
mulheres acabavam o sentimento de sua personalidade, exaltavam-no
até. Dirigiu-se para a Rua do Catete com o seu passo miúdo
e sólido. Era manhã e, embora andássemos pelo
meado do ano, o sol era forte como se já verão fosse.
No caminho trocou cumprimentos com as raparigas pobres de uma casa
de cômodos da vizinhança.
- Bom dia, "madama".
- Bom dia.
E debaixo dos
olhares maravilhados das pobres raparigas, ela continuou o seu caminho,
arrepanhando a saia, satisfeita que nem uma duquesa atravessando
os seus domínios.
O rendez-vous
era para a uma hora; tinha tempo, portanto, de dar umas voltas à
cidade. Precisava mesmo que o Freitas lhe desse uma quantidade maior.
Já lhe falara a respeito pela manhã quando ele saiu,
e tinha que buscá-la ao escritório dele.
Tencionava comprar
um mimo e oferecê-lo ao chauffeur do "Seu" Pope,
o seu último amor, o ente sobre-humano que ela via coado
através da beleza daquele "carro" negro, arrogante,
insolente cortando a multidão das ruas, orgulhoso como um
deus.
Na imaginação,
ambos, chauffeur e "carro", não os podia separar
um do outro; e a imagem dos dous era uma única de suprema
beleza, tendo a seu dispor a força e a velocidade do vento.
Tomou o bonde.
Não reparou nos companheiros de viagem; em nenhum ela sentiu
uma alma; em nenhum ela sentiu um semelhante. Todo o seu pensamento
era para o chauffeur, e o "carro". O automóvel,
aquela magnífica máquina, que passava pelas ruas que
nem um triunfador, era bem a beleza do homem que o guiava; e, quando
ela o tinha nos braços, não era bem ele quem a abraçava,
era a beleza daquela máquina que punha nela ebriedade, sonho
e a alegria singular da velocidade. Não havia como aos sábados
em que ela, recostada às almofadas amplas, percorria as ruas
da cidade, concentrava os olhares e todos invejavam mais o carro
que ela, a força que se continha nele e o arrojo que o chauffeur
moderava. A vida de centenas de miseráveis, de tristes e
mendicantes sujeitos que andavam a pé, estava ao dispor de
uma simples e imperceptível volta no guidão; e o motorista
que ela beijava, que ela acariciava, era como uma divindade que
dispusesse de humildes seres deste triste e desgraçado planeta.
Em tal instante,
ela se sentia vingada do desdém com que a cobriam, e orgulhosa
de sua vida.
Entre ambos,
"carro" e chauffeur, ela estabelecia um laço necessário,
não só entre as imagens respectivas como entre os
objetos. O "carro" era como os membros do outro e os dous
completavam-se numa representação interna, maravilhosa
de elegância, de beleza, de vida, de insolência, de
orgulho e força.
O bonde continuava
a andar. Vinha jogando pelas ruas em fora, tilintando, parando aqui
e ali. Passavam carroças, passavam carros, passavam automóveis.
O dele não passaria certamente. Era de "garage"
e saía unicamente para certos e determinados fregueses que
só passeavam à tarde ou escolhiam-no para a volta
dos clubes, alta noite. O bonde chegou à Praça da
Glória. Aquele trecho da cidade tem um ar de fotografia,
como que houve nele uma preocupação de vista, de efeito
de perspectiva; e agradava-lhe. O bonde corria agora ao lado do
mar. A baía estava calma, os horizontes eram límpidos
e os barcos a vapor quebravam a harmonia da paisagem.
A marinha pede
sempre o barco a vela; ele como que nasceu do mar, é sua
criação; o barco a vapor é um grosseiro engenho
demasiado humano, sem relações com ela. A sua brutalidade
a violenta.
A Lola, porém,
não se demorou em olhar o mar, nem o horizonte; a natureza
lhe era completamente indiferente e não fez nenhuma reflexão
sobre o trecho que a via passar. Considerou dessa vez os vizinhos.
Todos lhe pareciam detestáveis. Tinham um ar de pouco dinheiro
e regularidade sexual abominável. Que gente!
O bonde passou
pela frente do Passeio Público e o seu pensamento fixou-se
um instante no chapéu que tencionava comprar. Ficar-lhe-ia
bem? Seria mais belo que o da Lúcia, amante do Adão
"Turco"? Saltava de uma probabilidade para outra, quando
lhe veio desviar da preocupação a passagem de um automóvel.
Pareceu ser ele, o chauffeur. Qual! Num táxi? Não
era possível. Afugentou o pensamento e o bonde continuou.
Enfrentou o Teatro Municipal. Olhou-lhe as colunas, os dourados;
achou-o bonito, bonito como uma mulher cheia de atavios. Na avenida,
ajustou o passo, concertou a fisionomia, arrepanhou a saia com a
mão esquerda e partiu ruas em fora com um ar de grande dama
sob o enorme chapéu de plumas brancas.
Nas ocasiões
em que precisava falar ao Freitas no escritório, ela tinha
por hábito ficar num restaurant próximo e mandar chamá-lo
por um caixeiro. Assim ele lhe recomendava e assim ela fazia, convencida
como estava de que as razões com que o Freitas lhe justificara
esse procedimento eram sólidas e procedentes. Não
ficava bem ao alto comércio de comissões e consignações
que as damas fossem procurar os representantes dele nos respectivos
escritórios; e, se bem que o Freitas fosse um simples caixa
da casa Antunes, Costa & Cia., uma visita como a dela poderia
tirar de tão poderosa firma a fama de solidez e abalar-lhe
o crédito na clientela.
A espanhola
ficou, portanto, próximo e, enquanto esperava o amante, pediu
uma limonada e olhou a rua. Naquela hora, a Rua Primeiro de Março
tinha o seu pesado transito habitual de grandes carroções,
pejados de mercadorias. O movimento quase se cingia a homens; e
se, de quando em quando, passava uma mulher, vinha num bando de
estrangeiros recentemente desembarcados.
Se passava um
destes, Lola tinha um imperceptível sorriso de mofa. Que
gente! Que magras! Onde é que foram descobrir aquela magreza
de mulher? Tinha como certo que, na Inglaterra, não havia
mulheres bonitas nem homens elegantes.
Num dado momento,
alguém passou que lhe fez crispar a fisionomia. Era a Rita.
Onde ia àquela hora? Não lhe foi dado ver bem o vestuário
dela, mas viu o chapéu, cuja pleureuse lhe pareceu mais cara
que a do seu. Como é que arranjara aquilo? Como é
que havia homens que dessem tal luxo a uma mulher daquelas? Uma
mulata...
O seu desgosto
sossegou com essa verificação e ficou possuída
de um contentamento de vitória. A sociedade regular dera-lhe
a arma infalível...
Freitas chegou
afinal e, como convinha à sua posição e à
majestade do alto comércio, veio em colete e sem chapéu.
Os dous se encontraram muito casualmente, sem nenhum movimento,
palavra, gesto ou olhar de ternura.
- Não
trouxeste Mercedes? perguntou ele.
- Não...
Fazia muito sol...
O amante sentou-se
e ela o examinou um momento. Não era bonitos muito menos
simpático. Desde muito verificara isso; agora, porém,
descobrira o máximo defeito da sua fisionomia. Estava no
olhar, um olhar sempre o mesmo, fixo, esbugalhado, sem mutações
e variações de luz. Ele pediu cerveja, ela perguntou:
- Arranjaste?
Tratava-se de
dinheiro e o seu orgulho de homem do comércio, que sempre
se julga rico ou às portas da riqueza, ficou um pouco ferido
com a pergunta da amante.
- Não
havia dificuldade... Era só vir ao escritório... Mais
que fosse...
Lola suspeitava
que não lhe fosse tão fácil assim, mas nada
disse. Explorava habilmente aquela sua ostentação
de dinheiro, farejava "qualquer coisa" e já tomara
as suas precauções.
Veio a cerveja
e ambos, na mesa do restaurant, fizeram um numeroso esforço
para conversar. O amante fazia-lhe perguntas: Vais à modista?
Sais hoje à tarde? -ela respondia: sim, não. Passou
de novo a Rita. Lola aproveitou o momento e disse:
- Lá
vai aquela "negra".
- Quem?
- A Rita.
- A Ritinha!...
Está agora com o "Louro", croupier do Emporium.
E em seguida
acrescentou:
- Está
muito bem.
- Pudera! Há
homens muito porcos.
- Pois olha:
acho-a bem bonita.
- Não
precisavas dizer-me. És como os outros... Ainda há
quem se sacrifique por vocês.
Era seu hábito
sempre procurar na conversa caminho para mostrar-se arrufada e dar
a entender ao amante que ela se sacrificava vivendo com ele. Freitas
não acreditava muito nesse sacrifício, mas não
queria romper com ela, porque a sua ligação causava
nas rodas de confeitarias, de pensões chics e jogo muito
sucesso. Muito célebre e conhecida, com quase vinte anos
de "vida ativa", o seu college com a Lola, que, se não
fora bela, fora sempre tentadora e provocante, punha a sua pessoa
em foco e garantia-lhe um certo prestígio sobre as outras
mulheres.
Vendo-a arrufada,
o amante fingiu-se arrependido do que dissera, e vieram a despedir-se
com palavras ternas.
Ela saiu contente
com o dinheiro na carteira. Havia dito ao Freitas que o destinava
a uma filha que estava na Espanha; mas a verdade era que mais de
metade seria empregada na compra de um presente para o seu motorista
amado. Subiu a Rua do Ouvidor, parando pelas montras das casas de
jóias. Que havia de ser? Um anel? Já lhe havia dado.
Uma corrente? Também já lhe dera uma. Parou numa vitrine
e viu uma cigarreira. Simpatizou com o objeto. Parecia caro e era
ofuscante: ouro e pedrarias-uma cousa de mau gosto evidente. Achou-a
maravilhosa, entrou e comprou-a sem discutir.
Encaminhou-se
para o bonde cheia de satisfação. Aqueles presentes
como que o prendiam mais a ela; como que o ligavam eternamente à
sua carne e o faziam entrar no seu sangue.
A sua paixão
pelo chauffeur durava havia seis meses e encontravam-se pelas bandas
da Candelária, em uma casa discreta e limpa, bem freqüentada,
cheia de precauções para que os freqüentadores
não se vissem.
- Faltava pouco
para o encontro e ela aborrecia-se esperando o bonde conveniente.
Havia mais impaciência nela que atraso no horário.
O veículo chegou em boa hora e Lola tomou-o cheia de ardor
e de desejo. Havia uma semana que ela não se encontrava com
o motorista. A última vez em que se avistaram, nada de mais
íntimo lhe pudera dizer. Freitas, ao contrário do
costume, passeava com ela; e só lhe fora dado vê-lo
soberbo, todo de branco, casquette, sentado à almofada, com
o busto ereto, a guiar maravilhosamente o carro lustroso. impávido,
brilhante, cuja niquelagem areada faiscava como prata nova.
Marcara-lhe
aquele rendez-vous com muita saudade e vontade de vê-lo e
agradecer-lhe a imaterial satisfação que a máquina
lhe dava. Dentro daquele bonde vulgar, num instante, ela teve novamente
diante dos olhos o automóvel orgulhoso, sentiu a sua trepidação,
indício de sua força, e o viu deslizar, silencioso,
severo, resoluto e insolente, pelas ruas em fora, dominado pela
mão destra do chauffeur que ela amava.
Logo ao chegar,
perguntou à dona da casa se o José estava. Soube que
chegara mais cedo e já fora para o quarto. Não se
demorou muito conversando com a patroa e correu ao aposento.
De fato, José
estava lá. Fosse calor, fosse vontade de ganhar tempo, o
certo é que já havia tirado de cima de si o principal
vestuário. Assim que a viu entrar, sem se erguer da cama,
disse:
- Pensei que
não viesses.
- O bonde custou
muito a chegar, meu amor.
Descansou a
bolsa, tirou o chapéu com ambas as mãos e foi direita
à cama. Sentou-se na borda, cravou o olhar no rosto grosseiro
e vulgar do motorista; e, após um instante de contemplação,
debruçou-se e beijou-o, com volúpia, demoradamente.
O chauffeur
não retribuiu a carícia; ele a julgava desnecessária
naquele instante. Nele, o amor não tinha prefácios,
nem epílogos; o assunto ataca-se logo. Ela não o concebia
assim: resíduos da profissão e o sincero desejo daquele
homem faziam-na carinhosa.
Sem beijá-lo,
sentada à borda da cama, esteve um momento a olhar enternecida
a má e forte catadura do chauffeur José começava
a impacientar-se com aquelas filigranas. Não compreendia
tais rodeios que lhe pareciam ridículos
- Despe-te!
Aquela impaciência
agradava-lhe e ela quis saboreá-la mais. Levantou-se sem
pressa, começou a desabotoar-se devagar, parou e disse com
meiguice:
- Trago-te uma
coisa.
- Que é?
fez ele logo.
- Adivinha!
- Dize lá
de uma vez.
Lola procurou
a bolsa, abriu-a devagar e de lá retirou a cigarreira. Foi
até ao leito e entregou-a ao chauffeur Os olhos do homem
incendiaram-se de cupidez; e os da mulher, ao vê-lo satisfeito,
ficaram úmidos de contentamento.
Continuou a
despir-se e, enquanto isso, ele não deixava de apalpar, de
abrir e fechar a cigarreira que recebera. Descalçava os sapatos
quando o José lhe perguntou com a sua voz dura e imperiosa:
-Tens passeado
muito no "Pope" ?
- Deves saber
que não. Não o tenho mandado buscar, e tu sabes que
só saio no "teu".
- Não
estou mais nele.
- Como?
- Saí
da casa... Ando agora num táxi.
Quando o chauffeur
lhe disse isso, Lola quase desmaiou; a sensação que
teve foi de receber uma pancada na cabeça.
Pois então,
aquele deus, aquele dominador, aquele supremo indivíduo descera
a guiar um táxi sujo, chocalhante, mal pintado, desses que
parecem feitos de folha-de-flandres! Então ele? Então...
E aquela abundante beleza do automóvel de luxo que tão
alta ela via nele, em um instante, em um segundo, de todo se esvaiu.
Havia internamente. entre as duas imagens, um nexo que lhe parecia
indissolúvel, e o brusco rompimento perturbou-lhe completamente
a representação mental e emocional daquele homem.
Não era
o mesmo, não era o semideus, ele que estava ali presente;
era outro, ou antes, era ele degradado, mutilado, horrendamente
mutilado. Guiando um táxi... Meu Deus!
O seu desejo
era ir-se, mas, ao lhe vir esse pensamento, o José perguntou:
- Vens ou não
vens?
Quis pretextar
qualquer cousa para sair; teve medo, porém, do seu orgulho
masculino, do despeito de seu desejo ofendido .
Deitou-se a
seu lado com muita repugnância, e pela última vez.
Todos os Santos
(Rio de Janeiro), março de 1913.