A Nova Califórnia
Lima Barreto
UM MÚSICO
EXTRAORDINÁRIO
Quando andávamos
juntos no colégio, Ezequiel era um franzino menino de quatorze
ou quinze anos, triste, retraído, a quem os folguedos colegiais
não atraíam. Não era visto nunca jogando "barra,
carniça, quadrado, peteca", ou qualquer outro jogo dentre
aqueles velhos brinquedos de internato que hoje não se usam
mais. O seu grande prazer era a leitura e, dos livros, os que mais
gostava eram os de Jules Verne. Quando todos nós líamos
José de Alencar, Macedo, Aluísio e, sobretudo, o infame
Alfredo Gallis, ele lia a Ilha Misteriosa, o Heitor Servadac, as
Cinco Semanas em um Balão e, com mais afinco, as Vinte Mil
Léguas Submarinas.
Dir-se-ia que
a sua alma ansiava por estar só com ela mesma, mergulhada,
como o Capitão Nemo do romance vernesco, no seio do mais
misterioso dos elementos da nossa misteriosa Terra.
Nenhum colega
o entendia, mas todos o estimavam, porque era bom, tímido
e generoso. E porque ninguém o entendesse nem as suas leituras,
ele vivia consigo mesmo; e, quando não estudava as lições
de que dava boas contas, lia seu autor predileto.
Quem poderia
pôr na cabeça daquelas crianças fúteis
pela idade e cheias de anseios de carne para a puberdade exigente
o sonho que o célebre autor francês instila nos cérebros
dos meninos que se apaixonam por ele, e o bálsamo que os
seus livros dão aos delicados que prematuramente adivinham
a injustiça e a brutalidade da vida?
O que faz o
encanto da meninice não é que essa idade seja melhor
ou pior que as outras. O que a faz encantadora e boa é que,
durante esse período da existência, nossa capacidade
de sonho é maior e mais força temos em identificar
os nossos sonhos com a nossa vida. Penso, hoje, que o meu colega
Ezequiel tinha sempre no bolso um canivete, no pressuposto de, se
viesse a cair em uma ilha deserta, possuir à mão aquele
instrumento indispensável para o imediato arranjo de sua
vida; e aquele meu outro colega Sanches andava sempre com uma nota
de dez tostões, para, no caso de arranjar a "sua"
namorada, ter logo em seu alcance o dinheiro com que lhe comprasse
um ramilhete.
Era, porém,
falar ao Ezequiel em Heitor Servadac, e logo ele se punha entusiasmado
e contava toda a novela do mestre de Nantes. Quando acabava, tentava
então outra; mas os colegas fugiam um a um, deixavam-no só
com o seu Jules Verne, para irem fumar um cigarro às escondidas.
Então,
ele procurava o mais afastado dos bancos do recreio, e deixava-se
ficar lá, só, imaginando, talvez, futuras viagens
que havia de fazer, para repassar as aventuras de Roberto Grant,
de Hatteras, de Passepartout, de Keraban, de Miguel Strogoff, de
Cesar Cascavel, de Philéas Fogg e mesmo daquele curioso doutor
Lindenbrock, que entra pela cratera extinta de Sueffels, na desolada
Islândia, e vem à superfície da Terra, num ascensor
de lavas, que o Estrômboli vomita nas terras risonhas que
o Mediterraneo afaga...
Saímos
do internato quase ao mesmo tempo e, durante algum, ainda nos vimos;
mas, bem depressa, perdemo-nos de vista.
Passaram-se
anos e eu já o havia de todo esquecido, quando, no ano passado,
vim a encontrá-lo em circunstâncias bem singulares.
Foi em um domingo.
Tomei um bonde da Jardim, aí, na avenida, para visitar um
amigo e, com ele, jantar em família. Ia ler-me um poema;
ele era engenheiro hidráulico.
Como todo o
sujeito que é rico ou se supõe ou quer passar como
tal, o meu amigo morava para as bandas de Botafogo.
Ia satisfeito,
pois de há muito não me perdia por aquelas bandas
da cidade e me aborrecia com a monotonia dos meus dias, vendo as
mesmas paisagens e olhando sempre as mesmas fisionomias. Fugiria,
assim, por algumas horas, à fadiga visual de contemplar as
montanhas desnudadas que marginam à Central, da estação
inicial até Cascadura. Morava eu nos subúrbios. Fui
visitar, portanto, o meu amigo, naquele Botafogo catita, Meca das
ambições dos nortistas, dos sulistas e dos... cariocas.
Sentei-me nos
primeiros bancos; e já havia passado o Lírico e entrávamos
na Rua Treze de Maio quando, no banco atrás do meu, se levantou
uma altercação com o condutor, uma dessas vulgares
altercações comuns nos nossos bondes.
- Ora, veja
lá com quem fala! dizia um.
- Faça
o favor de pagar a sua passagem, retorquia o recebedor.
- Tome cuidado,
acudiu o outro. Olhe que não trata com nenhum cafajeste!
Veja lá!
- Pague a passagem,
senão o carro não segue.
E como eu me
virasse por esse tempo a ver melhor tão patusco caso, dei
com a fisionomia do disputador que me pareceu vagamente minha conhecida.
Não tive de fazer esforços de memória. Como
uma ducha, ele me interpelou desta forma:
- Vejas tu só,
Mascarenhas, como são as cousas! Eu, um artista, uma celebridade,
cujos serviços a este país são inestimáveis,
vejo-me agora maltratado por esse brutamonte que exige de mim, desaforadamente,
a paga de uma quantia ínfima, como se eu fosse da laia dos
que pagam.
Àquela
voz, de súbito, pois ainda não sabia bem quem me falava,
reconheci o homem: era o Ezequiel Beiriz. Paguei-lhe a passagem,
pois, não sendo celebridade, nem artista, podia perfeitamente
e sem desdouro pagar quantias ínfimas; o veículo seguiu
pacatamente o seu caminho, levando o meu espanto e a minha admiração
pela transformação que se havia dado no temperamento
do meu antigo colega de colégio. Pois era aquele parlapatão,
o tímido Ezequiel?
Pois aquele
presunçoso que não era da laia dos que pagam era o
cismático Ezequiel do colégio, sempre a sonhar viagens
maravilhosas, à Jules Verne? Que teria havido nele? Ele me
pareceu inteiramente são, no momento e para sempre.
Travamos conversa
e mesmo a procurei, para decifrar tão interessante enigma.
- Que diabo,
Beiriz! Onde tens andado? Creio que há bem quinze anos que
não nos vemos-não é? Onde andaste?
- Ora! Por esse
mundo de Cristo. A última vez que nos encontramos... Quando
foi mesmo?
- Quando eu
ia embarcar para o interior do Estado do Rio, visitar a família.
- E verdade!
Tens boa memória... Despedimo-nos no Largo do Paço...
Ias para Muruí-não é isso?
- Exatamente.
- Eu, logo em
seguida, parti para o Recife a estudar direito.
- Estiveste
lá este tempo todo?
- Não.
Voltei para aqui, logo de dous anos passados lá.
- Por quê?
- Aborrecia-me
aquela "chorumela" de direito... Aquela vida solta de
estudantes de província não me agradava... São
vaidosos... A sociedade lhes dá muita importância,
daí...
- Mas, que tinhas
com isso? Fazias vida à parte...
- Qual! Não
era bem isso o que eu sentia... Estava era aborrecidíssimo
com a natureza daqueles estudos... Queria outros.. .
- E tentaste?
- Tentar! Eu
não tento; eu os faço... Voltei para o Rio a fim de
estudar pintura.
- Como não
tentas, naturalmente...
- Não
acabei. Enfadou-me logo tudo aquilo da Escola de Belas-Artes.
- Por quê?
- Ora! Deram-me
uns bonecos de gesso para copiar...
Já viste
que tolice? Copiar bonecos e pedaços de bonecos... Eu queria
a cousa viva, a vida palpitante...
- E preciso
ir às fontes, começar pelo começo, disse eu
sentenciosamente.
- Qual! Isto
é para toda gente... Eu vou de um salto; se erro, sou como
o tigre diante do caçador-estou morto!
- De forma que...
- Foi o que
me aconteceu com a pintura. Por causa dos tais bonecos, errei o
salto e a abandonei. Fiz-me repórter, jornalista, dramaturgo,
o diabo! Mas, em nenhuma dessas profissões dei-me bem...
Todas elas me desgostavam... Nunca estava contente com o que fazia...
Pensei, de mim para mim, que nenhuma delas era a da minha vocação
e a do meu amor; e, como sou honesto intelectualmente, não
tive nenhuma dor de coração em largá-las e
ficar à-toa, vivendo ao deus-dará.
- Isto durante
muito tempo?
- Algum. Conto-te
o resto. Já me dispunha a experimentar o funcionalismo, quando,
certo dia, descendo as escadas de uma secretaria, onde fui levar
um pistolão, encontrei um parente afastado que as subia.
Deu-me ele a notícia da morte do meu tio rico que me pagava
colégio e, durante alguns anos, me dera pensão; mas,
ultimamente, a tinha suspendido, devido, dizia ele, a eu não
esquentar lugar, isto é, andar de escola em escola, de profissão
em profissão.
- Era solteiro
esse seu tio?
- Era, e, como
já não tivesse mais pai (ele era irmão de meu
pai), ficava sendo o seu único herdeiro, pois morreu sem
testamento. Devido a isso e mais ulteriores ajustes com a Justiça,
fiquei possuidor de cerca de duas centenas e meia de contos.
- Um nababo!
Hein?
- De algum modo.
Mas escuta. filho! Possuidor dessa fortuna, larguei-me para a Europa
a viajar. Antes-é preciso que saibas-fundei aqui uma revista
literária e artística -Vilhara-em que apresentei as
minhas idéias budistas sobre a arte, apesar do que nela publiquei
as cousas mais escatotógicas possíveis, poemetos ao
suicídio, poemas em prosa à Venus Genitrix, junto
com sonetos, cantos, glosas de cousas de livros de missa de meninas
do colégio de Sion.
-Tudo isto de
tua pena?
- Não.
A minha teoria era uma e a da revista outra, mas publicava as cousas
mais antagônicas a ela, porque eram dos amigos.
- Durou muito
a tua revista?
- Seis números
e custaram-me muito, pois até tricromias publiquei e hás
de adivinhar que foram de quadros contrários ao meu ideal
búdico. Imagina tu que até estampei uma reprodução
dos "Horácios", do idiota do David!
- Foi para encher,
certamente?
- Qual! A minha
orientação nunca dominou a publicação...
Bem! Vamos adiante. Embarquei quase como fugido deste país
em que a estética transcendente da renúncia, do aniquilamento
do desejo era tão singularmente traduzida em versos fesceninos
e escatológicos e em quadros apologéticos da força
da guerra. Fui-me embora!
- Para onde?
- Pretendia
ficar em Lisboa, mas, em caminho, sobreveio uma tempestade;. e deu-me
vontade, durante ela, de ir ao piano. Esperava que saísse
o "bitu"; mas, qual não foi o meu espanto, quando
de sob os meus dedos surgiu e ecoou todo o tremendo fenômeno
meteorológico, toda a sua música terrível...
Ah! Como me senti satisfeito! Tinha encontrado a minha vocação...
Eu era músico! Poderia transportar, registrar no papel e
reproduzi-los artisticamente, com os instrumentos adequados, todos
os sons, até ali intraduzíveis pela arte, da Natureza.
O bramido das grandes cachoeiras, o marulho soluçante das
vagas, o ganido dos grandes ventos, o roncar divino do trovão,
estalido do raio - todos esses ruídos, todos esses sons não
seriam perdidos para a Arte; e, através do meu cérebro,
seriam postos em música, idealizados transcendentalmente,
a fim de mais fortemente, mais intimamente prender o homem à
Natureza, sempre boa e sempre fecunda, vária e ondeante;
mas...
-Tu sabias música?
- Não.
Mas, continuei a viagem até Hamburgo, em cujo conservatória
me matriculei. Não me dei bem nele, passei para o de Dresde,
onde também não me dei bem. Procurei o de Munique,
que não me agradou. Freqüentei o de Paris, o de Milão...
- De modo que
deves estar muito profundo em música?
Calou-se meu
amigo um pouco e logo respondeu:
- Não.
Nada sei, porque não encontrei um conservatório que
prestasse. Logo que o encontre, fica certo que serei um músico
extraordinário. Adeus, vou saltar. Adeus! Estimei ver-te.
Saltou e tomou
por uma rua transversal que não me pareceu ser a da sua residência.