MINHA FORMAÇÃO
Joaquim Nabuco
Capítulo VII
Ernest Renan
Desde a Academia a literatura e a política alternaram uma
com a outra, ocupando a minha curiosidade e governando as minhas
ambições. Nos primeiros anos a política teve
o predomínio; com a viagem à Europa em 1873 passou
este para a literatura, e esse meu período literário,
começado então, dura até 1879, quando entro
para a Câmara.
Eu tinha sempre lido muito e de tudo na época em que me sentia
mais político do que homem de letras. Em filosofia tinha
assimilado um pouco de Spinosa, Plotino, Kant e Hegel; a nota mais
sonora e mais sustentada de cada um deles vibra a mesma em meu espírito
ainda hoje que sinto a grandeza da filosofia e coloco Santo Tomás
de Aquino entre Aristóteles e Platão. Em religião,
eu estava sob a influência de Strauss, Renan, Havet, e formava,
também eu, com os fragmentos de todos eles a minha lenda
pessoal de Jesus. Pelo espírito, posso dizer que habitei
longos anos, da Praia do Flamengo, as bordas solitárias e
silenciosas do lago de Genezareth. Em crítica literária,
achava-me todo imbuído de Sainte-Beuve, Taine, Scherer, ainda
que deste último, de quem falarei, não tanto como
depois que o conheci. Em poesia, tinha passado de Lamartine para
Victor Hugo, o de Hernani quase exclusivamente, e de V. Hugo para
Musset, como devia depois de passar de Musset para Shelley, de Shelley
para Goethe, escala em que parei, mas onde não espero morrer,
porque tenho diante de mim o Dante..., o que não quer dizer
que não tenha nos ouvidos a ressonância das grandes
rimas novas de um Banville, e não admire um cinzelado dos
fortes relevos de José-Maria Heredia. Em prosa, Chateaubriand
e Renan dividiam o império com Cícero, cujas cartas
são talvez o livro mundano que eu levaria comigo, se tivesse
que ficar encerrado em uma ilha deserta. A frase, a eloqüência,
o retrato e a encenação histórica de Macaulay
foi também uma influência permanente que se imprimiu
em meu espírito; hoje eu teria que acrescentar Mommsen, Curtius,
Ranke, Taine, Burkhardt. Quanto ao romance, que é a imaginação
abrangendo e modelando a vida, eu ficaria sob a impressão
de Jules Sandeau; vivia à sombra dos seus castelos antigos
reconstruídos pela moderna burguesia entre as duas sociedades,
a velha e a nova, que ele queria fundir pelo amor, é mais
que a poesia d'alma de Sandeau, que foi muito grande a que ainda
um dia a França há de voltar, era para mim indefinível
a impressão, aristocrática e feminina a um tempo,
dos últimos encantadores estudos de Cousin sobre a sociedade
do século XVII.
Tudo isto formava o fundo do meu espírito, o húmus
da minha inteligência, quando começou a fase literária,
aquela em que senti uma impulsão interior irresistível
para entrar na literatura. O período anterior de receptividade,
de plantio, de assimilações; a impressão, o
prazer maior era o de ler; agora, vinha a necessidade de produzir,
de criar, e dava-se um fato singular, resultado desses anos de leituras
francesas: eu lia muito pouco o português, ainda não
começara a ler o inglês e desaprendera o alemão
da Maria Stuart e de Wallenstein, com verdadeira mágoa do
meu velho mestre Goldschmidt. O resultado foi que me senti solicitado,
coagido pela espontaneidade própria do pensamento, a escrever
em francês.
Um brilhante freqüentador da Revista Brasileira, que possui
entre outras qualidades talvez a mais preciosa de todas, uma boa
quantidade do fluido simpático, admira-se dessa minha afinidade
francesa; com efeito, não revelo nenhum segredo, dizendo
que insensivelmente a minha frase é uma tradução
livre, e que nada seria mais fácil do que vertê-la
outra vez para o francês do qual ela procede. O que me admira
é que o mesmo não aconteça a todos os que têm
lido tanto em francês como eu, mais do que eu, e cuja vida
intelectual tem sido assim em sua parte principal, isto é,
em toda a sua função aquisitiva, francesa. E talvez
que eles têm uma força de assimilação
maior do que a minha - ou que eu tenho mais desenvolvida do que
eles a faculdade imitativa? Não sei; mas essa suscetibilidade
à influência francesa parece natural em espíritos
que recebem quase tudo em francês e que têm horror à
tradução; o purismo português, esse, sim, é
que, até tornar-se uma segunda natureza literária,
exige uma constante vigilância, a retificação
exata de todo o trabalho de aquisição intelectual.
A verdade, para dizer tudo, é esta: admirando a força,
o acabado, às vezes a grandeza desse estilo vernáculo
em que há uma peneira de furos imperceptíveis para
impedir qualquer imperfeição estranha, e em que a
nossa língua modernizando-se parece conservar a tonalidade
antiga, a minha fonografia cerebral adaptou-se contudo às
leituras estrangeiras. Falta-me para reproduzir a sonoridade da
grande prosa portuguesa o mesmo eco interior que repete e prolonga
dentro de mim, em gradações curiosamente mais íntimas
e profundas, à medida que se vão amortecendo, o sussurro
indefinível, por exemplo, de uma página de Renan.
Tem aí o dr. Graça Aranha a confissão da minha
deficiência em relação à nossa língua,
cuja fibra forte, resistente, primitivamente áspera, lastimo
não possuir. Limito-me, talvez por isso mesmo, a escrever,
como ele vê, com aqueles dos seus fios e dos seus matizes
que se ajustam ao meu tear francês.
O momento em que me apareceu essa febre do verso francês -
era em verso, ainda por cima, que eu me sentia forçado a
compor -, foi caprichosamente mal escolhido, porquanto coincidiu
com a minha primeira viagem à Europa. Não há
dúvida também que foi um resultado dela. Da impressão
d'arte, da impressão histórica, da impressão
literária do Velho Mundo, jorrava em mim a fonte desconhecida
das Musas, que em outros têm jorrado do amor e da mocidade.
Eu trazia versos de tudo o que vira, como outros viajantes trazem
pedras ou folhas de hera do Coliseu, do Fórum, de Posilipo,
de Sorrento, de Pompéia, do lago de Genebra, de Versalhes.
Esses versos, reuni-os em um volume - Amour et Dieu. Deus no título
era tudo o que restava de um longo poema da Eternidade que eu tinha
pensado em Ouchy, uma espécie de réplica teísta
ao De Rerum Natura. Quando comecei a escrever esses versos, eu ignorava
regras fundamentais da prosódia francesa, como a da alternação
das rimas; em pouco tempo tinha-me familiarizado com os segredos
dos hiatos e hemistíquios. Os meus versos de Amour et Dieu
pareceram-me - a ilusão do autor é um dos mais finos
estratagemas da Criação - não direi iguais,
mas semelhantes aos melhores da decadência em que a França
já tinha entrado. Esses versos valiam muito pouco. Não
que fossem todos eles maus, mas, porque o que teria realmente valor
neles, se fosse um novo caminho aberto por mim à imaginação,
era de fato uma estrada já muito percorrida por ela, uma
espécie de via sacra das procissões antigas, na qual
muito maiores espíritos tinham levantado por toda a parte
colunas votivas. Isso por um lado, e por outro, porque o que neles
podia soar agradavelmente era declamação poética,
e não poesia; pertenceria à retórica, ou à
eloqüência, e não à arte, que em tudo é
criação.
Desde que toquei na ilusão do autor, vou abrir um parêntesis
para uma reminiscência, que talvez previna os jovens poetas
contra uma das ciladas mais freqüentes no caminho da mocidade,
e até da velhice, a do elogio que de qualquer modo forçamos
ou mesmo somente desejamos.
Em 1872, quando Alexandre Dumas Filho escreveu a brochura L'Homme-Femme
terminando pelo famoso Tue-la!, publiquei no Rio de Janeiro uma
carta em francês a Ernesto Renan com o título Le Droit
au Meurtre. Um amigo entregou de minha parte um exemplar dessa brochura
ao grande escritor, a quem só me faltou tratar de divin maître.
Hoje descubro, mesmo literariamente falando, os lados fracos da
maneira renaniana; naquele tempo eu era o mais inteiramente sugestionado
dos nossos renanistas. O meu emissário foi Artur de Carvalho
Moreira, de quem já falei, e a carta que ele me escreveu
dando conta da sua missão, podia ter a assinatura de Chamfort.
L'Homme-Femme, segundo Renan, não era senão un méchant
paradoxe que não valia a pena refutar; une plaisanterie,
que não se devia tomar ao sério. Quando no ano seguinte
fui a Paris, uma das minhas primeiras visitas foi a Renan. Ele lembrava-se
do meu nome e não se demorou em responder ao pedido que lhe
fiz de alguns momentos para apresentar-lhes as minhas homenagens.
Ainda conservo esses curtos pequenos autógrafos: "C'est
moi qui serai enchanté de causer avec vous. Tous les jours
vers 10 heures, vous êtes sûr de me trouver. Votre très
affectueux et dévoué - E. Renan. Rue Vanneau, 29."
Três dias depois, eu subia os quatro andares do nº 29
da rua Vanneau e penetrava no mesmíssimo modesto "apartamento"
que Carvalho Moreira me havia fotografado em sua carta. Dentro de
minutos me aparecia Renan. Na minha vida tenho conversado com muito
homem de espírito e muito homem ilustre; ainda não
se repetiu, entretanto, para mim, a impressão dessa primeira
conversa de Renan. Foi uma impressão de encantamento; imagine-se
um espetáculo incomparável de que eu fosse espectador
único, eis aí a impressão. Eu me sentia na
pequena biblioteca, diante dos deslumbramentos daquele espírito
sem rival, prodigalizando-se diante de mim, literalmente como Luís
II da Baviera na escuridão do camarote real, no teatro vazio,
vendo representar os Niebelungen em uma cena iluminada para ele
só.
Dessa entrevista não saí só fascinado, saí
reconhecido. Renan deu-me cartas para os homens de letras que eu
desejava conhecer: para Taine, Scherer, Littré, Laboulaye,
Charles Edmond, que devia apresentar-me a George Sand, Barthélemy
Saint-Hilaire, por intermédio de quem eu conheceria monsieur
Thiers. As nossas relações tornaram-se desde o primeiro
dia afetuosas, e, naturalmente, quando imprimi o meu Amour et Dieu,
mandei-lhe um dos primeiros exemplares. Aqui está a carta
que ele me escreveu:
"Sèvres, 15 août 1874. Cher Monsieur, J'ai tardé
plus que je n'aurais dû à vous dire tout ce que je
pense de vos excellents vers. Je voulais les relire et, puis, j'espérais
quelque vendredi vous voir à Paris. Oui, vous êtes
vraiment poète. Vous avez l'harmonie, le sentiment profond,
la facilité pleine de grâce. Si vous voulez venir après
demain, lundi, vers trois ou quatre heures, rue Vanneau, vous serez
de me trouver; nous causerons. Je suis prêt à faire
tout ce que vous voudrez pour la Revue et les Débats. Malheureusement
ces recueils sont depuis longtemps brouilles avec la poésie.
Ce sont des vers comme les vôtres qui pourraient les réconcilier.
Croyez à mês sentiments les plus affectueux et les
plus dévoués. - E. Renan."
Não é
verdade que, para um jovem brasileiro que escrevia pela primeira
vez o francês, uma carta assim devia ser uma sensação
de fazer época na vida? Leiam agora esta traidora página
dos Souvenirs d'Enfance et de Jeunesse, que seguramente não
fui o único a inspirar. Vou cometer o crime de traduzir Renan:
"De 1851 acredito não ter praticado uma só mentira,
exceto, naturalmente, as mentiras oficiosas e de polidez, que todos
os casuístas permitem, e também os pequenos subterfúgios
literários exigidos, em vista de uma verdade superior, pelas
necessidades de uma frase bem equilibrada ou para evitar um mal
maior, como o de apunhalar um autor. Um poeta, por exemplo, nos
apresenta os seus versos. É preciso dizer que são
admiráveis, porque sem isso seria dizer que eles não
têm valor e fazer uma injúria mortal a um homem que
teve a intenção de nos fazer uma civilidade."
A meu respeito, se uma vaga lembrança dos meus versos lhe
ocorreu tanto tempo depois ao escrever essa graciosa ironia, o grande
escritor enganou-se em um ponto: ele não me teria apunhalado
dizendo que os meus versos não valiam nada, em vez de dizer-me
que eram admiráveis. George Sand escreveu-me também
a respeito do meu livro: "Il est d'une rare distinction et
les nobles pensées y parlent une noble langue", e curiosamente,
Madame Caro igualmente se referia a "l'oeuvre qui exprime dans
une noble style la plus noble sympathie pour notre malheureuse patrie."
Todos esses cumprimentos, toda essa nobreza, eu a recolhia e guardava
preciosamente como provas de generosa amabilidade e cortesia do
caráter francês. Quanto ao valor dos meus versos, porém,
a impressão que me ficou e apagou todas as outras, foi o
silêncio frio, impenetrável, entretanto polido, atencioso,
simpático, de Edmond Scherer. Contei esse episódio
para acautelar o talento que se estréia contra a perigosa
sedução da eutrapelia literária. Conheço
entre nós um mestre dessa arte do espírito, Machado
de Assis, mas este, espero, não fará confissões.
"Quem se não pode conformar à perda da própria
honra, diz S. Filipe Néri, nunca avançará na
vida espiritual." O escritor juvenil que não se resignar
ao sacrifício da rua "honra" literária,
não fará progressos em literatura.
Capítulo VIII
A crise poética
Agora, as razões pelas quais eu naufragaria sempre no verso.
Se o que estava nas páginas de Amour et Dieu fosse novo,
eu poderia, de certo, orgulhar-me do meu pensamento; ainda assim,
entretanto, não seria poeta. Não era novo, porém.
Tomem-se essas quadras:
La terre est
une triste et bien sombre demeure:
Pour que l'homme s'attache à ce terrible lieu,
Il faut que le poète avec lui souffre et pleure,
Et lui fasse espérer l'adoption de Dieu.
Car Dieu toujours
est loin, et notre humble prière
Ne le fait poit descendre à ce séjour du mal;
En vain nous l'appelons et crions: Notre Père!
Il n'est encore pour nous qu'un soupir, l'idéal.
Se ninguém
tivesse dito o mesmo antes, essa humanidade esperando a adoção
de Deus, que ainda, por enquanto, um suspiro do seu coração,
seria o gérmen de uma sedutora filosofia; aquele trecho,
porém, é a tradução, em verso fraco
e mal trabalhado, do que Renan mesmo tomara aos alemães e
tinha expressado de modo perfeito na mais elegante das prosas. O
que me enganava nos meus versos, parecendo-me sonoro e elevado,
não pertencia à poesia, pertenceria à eloqüência.
Aqui está uma ode à França; é a Alsácia-Lorena
que fala à Alemanha:
Tu penses arréter
le sang de notre vie,
En t'emparant des rails de nos chemins de fer;
Nous avons cinquante ans pour changer de patrie,
Pour nous enrôler, tous, contents, dans la landwehr?
Ah! la force
t'inspire autant de confiance
Que nous en puiserons dans le droit éternel?
Nous sommes les deux bras mutilés de la France,
Qu'elle tend toujours vers le ciel!
Mme Caro, no
agradecimento que me manda, escreve: "Os dois braços
mutilados levantados para os céus, acabarão, tenho
confiança, por vencer o destino." Os dois braços
mutilados podiam ser os dois joelhos dobrados em oração,
os dois pés acorrentados, ou o fígado do Prometeu
dos Vosges devorado pela águia negra da Prússia e
renascendo sempre. Tudo isto é do domínio da retórica
e do panfleto político: é um líbelo em hemistíquios
como a Nemésis de Barthélemy. Nada é mais contrário
à poesia do que a ênfase, o lugar-comum e o patético
da oratória. Onde começa o advogado ou o tribuno,
acaba o poeta.
O fato é que não possuo a forma do verso, na qual
a idéia se modela por si mesma e donde sai com o timbre próprio
da verdadeira rima, que nenhum artifício nem esforço
pode imitar. Isto, por um lado, quanto à pequena poesia,
à poesia solta, ao que se pode chamar a música da
poesia. Quanto à grande poesia, à poesia de imaginação
e criação, poema, romance, balada que fosse, para
essa eu seria incapaz, além da insuficiência do talento,
pela falta de coragem para habitar a região solitária
dos espíritos criadores, os quais vivem naturalmente entre
figuras tiradas de si mesmos, sem vida própria, autômatos
da sua inteligência e da sua vontade, como em um sonho acordado.
Nessa altura, onde tudo é fictício, tudo irreal, tudo
fantástico, a poesia tem para mim o terror do adytum da Pítia.
Mesmo quando as figuras sejam meigas, suaves, humanas, a criação
envolve sempre alguma coisa de misterioso e terrível; a completa
abstração, que ela supõe, da realidade exterior,
do mundo dos sentidos, me daria vertigem.
Há, além da poesia de sentimento e da poesia de criação,
outra poesia. O verso é a mais nobre forma do pensamento,
a mais pura cristalização da idéia, e, como
se tem dito, o que não se pode expressar em verso não
vale quase a pena ser conservado. Essa poesia, porém, que
engasta as belas idéias na mais durável e perfeita
das cravações, pertence quase à espécie
dos provérbios, em que se condensa e perpetua a sabedoria
humana. Em Homero ela confunde-se com a história; em Dante
com o catolicismo; em Goethe com a arte e com a ciência. Essa
é do domínio dos mais altos gênios.
A poesia ao meu alcance só podia ser a humilde nota individual;
mas, como eu disse, não encontrei em mim a tecla do verso,
cuja ressonância interior não se confunde com a de
nenhum timbre artificial. Quando mesmo, porém, eu tivesse
recebido o dom do verso, teria naufragado, porque não nasci
artista. Acredito ter recebido como escritor, tudo é relativo,
um pouco de sentimento, um pouco de pensamento, um pouco de poesia,
o que tudo junto pode dar, em quem não teve o verso, uma
certa medida de prosa rítmica; mas da arte não recebi
senão a aspiração por ela, a sensação
do órgão incompleto e não formado, o pesar
de que a natureza me esquecesse no seu coro, o vácuo da inspiração
que me falta... Ustedes me entienden. "O artista, disse Novalis,
deve querer e poder representar tudo." Dessa faculdade de representar
de criar a menor representação das coisas - quanto
mais uma realidade mais alta do que a realidade, como queria Goethe
-, fui inteiramente privado. Nem todos os que têm o dom do
verso são por natureza artistas, e nem todos os artistas
têm o dom do verso; a prosa os possui como a poesia; a mim,
porém, não coube em partilha nem o verso nem a arte.
É singular como entre nós se distribui o título
de artista. Muitas vezes tenho lido e ouvido falar de Rui Barbosa
como de um artista, pelo modo por que escreve a prosa. No mesmo
sentido poder-se-ia chamar a Krupp artista: a fundição
é de alguma forma uma arte, uma arte ciclópica, e
de Rui Barbosa não é exagerado dizer, pelos blocos
de idéias que levanta uns sobre outros e pelos raios que
funde, que é verdadeiramente um ciclope intelectual. Mas
o artista? Existirá nele a camada da arte? Se existe, e é
bem natural, ainda jaz desconhecida dele mesmo por baixo das superposições
da erudição e das leituras. Eu mesmo já insinuei
uma vez: ninguém sabe o diamante que ele nos revelaria, se
tivesse a coragem de cortar sem piedade a montanha de luz, cuja
grandeza tem ofuscado a República, e de reduzi-la a uma pequena
pedra. Aqui está outro, José do Patrocínio,
que não é também um artista, ainda que em sua
prosa se encontre o veio de ouro da poesia, filão, é
certo, fugitivo, e que se perde a cada instante na rocha política.
Dela poder-se-ia extrair verdadeira poesia; fazer com as palhetas
da sua frase pelo menos uma imagem, a da loura mãe dos cativos,
assim como com o sopro da sua eloqüência de combate se
faria um baixo-relevo para um arco de triunfo: o Chant du Depart
da abolição. Também ele não tem a faculdade
do verso, no qual naufragaria como naufragou no romance, porque
o seu reflexo intelectual tem a vibração e a rapidez
do relâmpago, e o verso é por natureza diamantino.
Por isso mesmo também sua prosa, em que por vezes há
o toque da poesia, e quase o calor do sentimento criador, ainda
não pertence à arte, como pertence a de Chateaubriand,
a de Renan, por exemplo, porque não é um estilo. Não
tem governo, tem apenas medida; reflete a ação confusa,
a agitação perpétua de uma época desequilibrada,
sem um instante de calma, de eternidade, em sua obra, no todo, genial.
Agora outro muito diverso. Haverá quem não sinta a
música inata de Constâncio Alves? Este é bem
da ordem dos pássaros, tem o canto; a prosa dele gorjeia,
sobe, trina; no entanto, se quisesse reduzir a uma obra d'arte a
ironia melodiosa que tem em si, que restaria dela?
Eu disse que me faltava o dom do verso. O timbre do verso reconhece-se
em qualquer quadra. Tome-se Olavo Bilac, por exemplo. Não
posso falar de Luís Murat, que tem maior voadura de imaginação,
porque tenho até hoje respeitado instintivamente o caos da
sua arte; sinto que há no seu talento os elementos da poesia,
menos a ordem, o principal de todos, mas que, felizmente para ele,
se adquire, ao passo que os outros são de herança.
Suas formas confusas e intricadas parecem-me de muda, e eu o aguardo
na época em que a mocidade tiver gastado a sua violência
e ele entrar no bosque das Musas levando o silêncio e a tranqüilidade
na alma. "Ele ensinou-me, disse Goethe falando de Oeser, que
a beleza é simplicidade e repouso, do que se segue que nenhum
jovem pode tornar-se um mestre." De Murat esperarei para falar
que primeiro ele encontre o seu Oeser. Tome-se Bilac, porém.
Basta ler a Profissão de Fé em Panóplias, para
ver que o verso nasceu com ele, que não é um esforço,
um trabalho, mas a expressão livre, franca, natural do pensamento:
Invejo o ourives
quando escrevo;
Imito o amor
Com que ele em ouro o alto relevo
Faz de uma flor.
Não me
cabe inquirir se o artifice se cingiu sempre em sua obra às
regras do ofício, que tão perfeitamente esculpiu;
o buril da rima, porém, está em sua mão e ninguém
se pode enganar sobre a espécie de metal que ele é
digno de lavrar.
O fato que eu queria assinalar, é somente que contraí
em França neste ano de 1873-74 a aspiração
de autor, a qual se desenvolveu a contato de grandes espíritos
da época, que me acolheram como eu podia desejar, especialmente
Renan, Scherer, George Sand.
Renan me dera o conselho, que transmito à nova geração
de literatos, de entregar-me a estudos históricos. Não
há em regra nada mais ingrato, mais fútil, do que
a produção que o indivíduo tira toda de si,
e é o que acontece quando o talento não tem uma profissão
literária séria. Há estudos, como as humanidades,
que são apenas a habilitação do espírito
para a carreira das letras: quem os tem pode dizer que possui a
ferramenta do seu ofício; além da ferramenta, há,
porém, que escolher o material. O material em que trabalham
os nossos homens de letras, são os costumes, a sociedade,
quando são romancistas, ou dramaturgos; as leituras, quando
são críticos, a própria vida ou impressões,
quando são poetas.
O material preferido é, como se vê, todo ele pouco
consistente, efêmero, em parte grosseiro, em parte imprestável
ou insuficiente, e assim a produção é quase
toda fácil, improvisada, sem trabalho anterior, sem investigação,
sem esforço, sem tempo, sem nenhum elemento que revele continuidade,
ambição. Faltando a disciplina e a emulação
de uma especialidade, que acontece? A inteligência contrai
o hábito da dissipação, da indolência,
do parasitismo; o talento relava-se, perde todo o peso específico.
Temos por isso uma literatura desocupada; o nosso campo literário
é composto de flâneurs. A verdade é que vai
aumentando consideravelmente em nosso tempo o que Matthew Arnold
traduziu por inacessibilidade às idéias, e que esse
novo Filistinismo reduzirá a arte dos nossos banquetes literários
a um só gênero de iguarias, o gênero nature.
O público, o protetor moderno das letras, cuja generosidade
tem sido tão decantada, não passa de um Mecenas de
meia-cultura, mesmo em França e na Inglaterra. Aconselhar
a jovens brasileiros que se dediquem a estudos históricos
desinteressados, é aconselhar-lhes a miséria; mas
as leis da inteligência são inflexíveis e a
produção do espírito que não se alimenta
senão de sua própria imaginação, tem
que ser cada dia mais frívola e sem valor.
Não me aproveitei do conselho de Renan senão tarde
demais na vida, quando comecei a preparar a biografia de meu pai,
que é uma perspectiva da época toda de d. Pedro II.
O aviso, porém, aí fica para os que quiserem desenvolver
e aperfeiçoar o talento literário que possuem, em
vez de dispersá-lo e nada apurar dele. O conselho não
deixou, entretanto, de influir no meu espírito, se não
para me disciplinar a mim mesmo, ao menos para me fazer aquilatar
o valor do trabalho e da indagação e sentir a inutilidade,
a vacuidade do que é puramente pessoal e espontâneo,
desde que não seja característico.
Das minhas conversas com Scherer, o que me contagiou foi a sua admiração
pelo romance inglês, que parecia ser a literatura da casa.
- Adam Bede, Jane Eyre, etc. Em mim a conquista anglo-saxônia
começou por Thackeray, que li então, como já
disse, no retiro de Fontainebleau. A respeito de meus versos, o
grande crítico manteve esse silêncio desanimador dos
médicos que não sabem enganar, quando os doentes ingênuos
que se fizeram auscultar, querem surpreender e penetrar com perguntas
insidiosas a realidade do seu estado.
A febre poética que se tinha apossado de mim com esse primeiro
ensaio de Amour et Dieu, não devia ceder facilmente; eu queria
resgatar esse esboço, que me parecia inferior e imperfeito,
substituí-lo, e uma idéia, que estava em gérmen
em uma de suas poesias, desprendeu-se dele e tomou em meu espírito
as proporções extravagantes de um grande drama em
verso. Deste falarei mais tarde. Como se vê, bem pouco do
político militante restava depois dessa primeira viagem à
Europa; eu trocara em Paris e na Itália a ambição
política pela literária, crítica, isto é,
com uma espessa camada européia na imaginação,
camada impermeável à política local, a idéias,
preconceitos e paixões de partido, isoladora de tudo que
em política não pertencesse à estética,
portanto também do republicanismo - porque a minha estética
política tinha começado a tornar-se exclusivamente
monárquica.