MINHA FORMAÇÃO
Joaquim Nabuco
Capítulo III
1871-1873. Na Reforma
Caí assim da Academia, tendo vencido o preconceito que torna
relutante para certos espíritos a forma monárquica,
isto é, o preconceito pela não-eletividade do chefe
do Estado. Eu via claramente nessa não-eletividade o segredo
da superioridade do mecanismo monárquico sobre o republicano,
condenado a interrupções periódicas que são
para certos países revoluções certas. Para
não sair da relojoaria, a república era, para mim,
um relógio de que fosse preciso renovar a mola no fim de
pouco tempo; a monarquia, um relógio por assim dizer perpétuo.
Não foi pequena aquisição esta que devi a Bagehot;
sem ela, sem ter da monarquia parlamentar uma concepção
que me fizesse aceitá-la como um aparelho mais sensível
à opinião, mais rápido e mais delicado em apanhar-lhe
as nuanças fugitivas, guardando ao mesmo tempo inalterável
a tradição de governo e a aspiração
permanente do destino nacional, eu teria sido arrastado irresistivelmente
para o movimento republicano que começava. Ainda assim, não
foi logo, de uma vez, que cheguei a dominar as minhas fascinações.
Em 1871 estava no poder o Ministério Rio Branco. Nesses três
anos de 71, 72, e 73 escrevi na Reforma, por vezes, artigos políticos.
Outras coisas, entretanto, me ocupavam então mais do que
a política. A vida, a sociedade, o mundo, as letras, a arte,
a filosofia mesmo, tinham para mim maior encanto do que ela. Desde
muito moço havia uma preocupação em meu espírito
que ao mesmo tempo me atraía para a política e em
certo sentido era uma espécie de amuleto contra ela: a escravidão.
Posso dizer que desde 1868 vi todo em nosso país através
desse prisma. Nas três defesas de júri que fiz na Academia
- o meu amigo Alberto de Carvalho há de rir -, alcancei três
galés perpétuas. Eram todos crimes de escravos, ou
antes imputados a escravos - devo ser coerente hoje com o que provavelmente
disse no júri. No meu 5º ano no Recife levei a preparar
um livro que ainda guardo, uma espécie de Perdigão
Malheiro inédito, sobre a escravidão entre nós.
Eu traduzia documentos do Anti-Slavery Reporter para meu pai que,
de 1868 a 1871, foi quem mais influiu para fazer amadurecer a idéia
da emancipação, formulada em 1866 em projeto de lei
por S. Vicente (Pimenta Bueno). A iniciativa, o desejo de que se
levasse a questão ao Parlamento, estou convencido, partiu
do imperador, que não descansou enquanto o não conseguiu,
a primeira vez de Zacarias, a Segunda de Rio Branco. Eu já
disse uma vez que possuo o autógrafo, por letra dele, da
carta em resposta aos abolicionistas franceses, carta que foi o
ponto de partida de tudo. Eu tomava o maior interesse na atitude
de meu pai nessa questão; desejava para ele a glória
de ser pelo menos o Sumner brasileiro. Recordo-me do prazer que
tive quando, em 1869, ele me referiu que se tinha posto de acordo
com Sales Torres-Homem para moverem a idéia do Senado, e
que Sales estava escrevendo sobre a escravidão um diálogo
na forma de Platão.
Eu disse há pouco que não me tinha sido fácil
desprender-me da minha atração para tudo que era democracia
ultra. O imperador estava em 1871 a empreender a sua primeira visita
à Europa. Um artigo que então escrevi na Reforma,
com o título Viagem do Imperador, dá bem idéia
de quanto era pequeno nesse tempo o meu ângulo de inclinação
monárquica. É ainda um escrito de mocidade, não
há nele senão mocidade, mas o traço individual
que tem cada escritor já está fixo, não mudará
mais; - não só não mudará mais, como,
vinte anos depois, quando eu pensar em voltar, no escrever, à
forma literária, é às medidas da minha frase
dos vinte e um anos que hei de tornar. Esse artigo é quase
republicano. As minhas novas idéias inglesas não estavam
ainda senhoras, da casa, não tinham força para eclipsar
as projeções, em parte fantásticas, que nesse
tempo, com a sua lanterna mágica, Laboulave acabava de fazer
do mundo americano. Por isso eu aconselhava ao imperador que, em
vez de ir à velha Europa, fosse à jovem América:
"Sobretudo ele compreenderia uma coisa. Ao ver os estados Unidos
à frente do progresso industrial e moral, compreenderia que
os reis podem bem ser uma hipótese, um luxo, uma superfetação.
Ao ver uma sociedade amplamente liberal e livre, governando-se sem
rei, ele compreenderia que, em certas épocas, os povos podem
dispensar qualquer tutela. Ao ver a família honrada e respeitada
- eu referia-me à pureza do lar e ao respeito dos americanos
pela mulher, - tornada uma religião; ao ver a religião
feita o laço moral das almas e a trituração
dos cultos chegando quase ao número dos indivíduos
sem produzir outro efeito senão o de uma maior tolerância
e maior fraternidade, ao ver a civilização crescendo"
- em terra virgem - "como uma árvore de enormes raízes
e de grande sombra; ao ver a vanguarda do progresso ocupada por
uma república" - não merecia eu um primeiro prêmio-Laboulaye?
-, "o imperador perderia o culto monárquico em que comungam
os reis. Ao ver, por outro lado, esse poder que passa de um soldado
para um lenhador, para um alfaiate, sempre o mesmo, íntegro
e perfeito, ele, guardando o amor da família, que cresceria,
porque já não era a dinastia, perderia o culto da
hereditariedade."
Essa era a minha linguagem aos vinte e um anos; nela encontra-se
um mínimo de monarquismo e um máximo de republicanismo,
o que produz esta preferência por uma monarquia sem hereditariedade,
sem cerimonial, sem veneração, toda ao nível
comum, como a magistratura popular da Casa Branca. É só
gradualmente que a influência do sistema monárquico
vai crescendo e prevalecendo sobre esse radicalismo espontâneo,
esse igualitarismo inflexível. Aos 21 anos de certo eu não
teria compreendido esta máxima política de meu pai
no Senado: "A utilidade relativa das leis prefere à
utilidade absoluta"; o relativo não existia para mim.
Nesses anos o Partido Liberal leva o Ministério Rio Branco
para onde quer. Seguramente a opinião liberal teve muito
mais poder sobre aquele Ministério do que sobre o Ministério
Sinimbu ou qualquer outro do seu próprio partido, - exceto
o Ministério Dantas, porque neste o presidente do Conselho
era impressionável à menor censura do liberalismo.
A verdade é que o Ministério Rio Branco foi um Ministério
reformista como desde o Gabinete Paraná não se tinha
visto outro e não se viu nenhum depois. O governo tinha o
prurido das reformas, não talvez por inclinação
própria, mas para desarmar a oposição liberal.
Em dois pontos somente ele mostrou-se conservador, à moda
antiga: na sua prevenção contra a eleição
direta, que provavelmente era também do imperador, e em relação
ao equilíbrio do Prata. Em sua política externa manteve
firme a tradição conservadora, ou melhor, a política
tradicional da Tríplice Aliança, e a maior probabilidade
é que a política liberal da Aliança, continuando,
depois da guerra, nos tratados de paz, teria criado uma situação
no Prata muito diversa da situação estável
e pacífica que resultou dessa mudança de atitude dos
conservadores. Em tudo mais foi um Ministério inovador como
o Partido Liberal não teria dado igual. O pano das reformas
era fornecido pelos liberais; era todo de padrão liberal;
mas o mestre conservador talhava nele com uma largueza de tesoura
que faria chorar no poder toda a alfaiataria contrária. Na
questão religiosa, principalmente, à atitude de Rio
Branco só se poderia chamar conservadora por ser Pombalina,
ultra-regalista. O Partido Liberal, em vez de exultar, dizia-se
roubado, pleiteava as suas patentes de invenção, suas
marcas de fábrica.
Nesse tempo, e durante alguns anos, o radicalismo me arrasta; eu
sou, por exemplo, dos que tomam parte mais ativa na campanha maçônica
de 1873 contra os bispos e contra a Igreja. Entro até nas
idéias de Feijó, de uma Igreja nacional, independente
da disciplina romana; faço conferências, escrevo artigos,
publico folhetos. Não quisera mesmo hoje retirar uma só
palavra do que disse então, advogando a liberdade religiosa
mais perfeita; entendo ainda, hoje mais do que nunca, depois da
esplêndida experiência do pontificado de Leão
XIII, que a Igreja tem tudo a ganhar com a liberdade e que o futuro
do mundo pode pertencer à aliança, já selada
no atual pontificado, da Igreja católica com a democracia.
Não é sob Leão XIII que o liberalismo há
de mais ser suspeito, e provavelmente este pontificado não
será um acidente feliz, mas sim um ponto de partida definitivo,
a data de uma nova era na história do catolicismo. Do que
preciso fazer renúncia, em favor das traças que o
consumiram, é de tudo o que nesses opúsculos escrevi
em espírito de antagonismo à religião, com
a mais soberba incompreensão de seu papel e da necessidade,
superior a qualquer outra, de argumentar a sua influência,
a sua ação formativa, reparadora, em todo o caso consoladora,
em nossa vida pública e em nossos costumes nacionais, no
fundo transmissível da sociedade. Naquele tempo, porém,
como teria eu acolhido uma manifestação como esta,
cada vez mais verdadeira, mais de que só hoje sinto a profundeza
e o alcance - do senador Nabuco, em 1860, no Senado: "Há
duas necessidades, a meu ver, muito importantes na situação
moral do nosso país: a primeira é a difusão
do princípio religioso no interesse da família e da
sociedade..."? Posso dizer, falando a nova gíria científica,
que eu não tinha então nada de estático, era
todo dinâmico.
Um ministério conservador que se encarrega de realizar as
reformas liberais, produz, forçosamente, no campo liberal,
uma grande confusão. Para quem começava, como eu,
a vida política automática na imprensa e no clube
do partido, a política do ministério pouco importava,
o alvo continuava o mesmo; não obstante, instintivamente,
pela voz do sangue, a discutir com o governo conservador que fazia
as reformas liberais, eu preferia discutir com a fração
que se separava do nosso partido para formar o Partido Republicano.
Já nesse tempo a questão da forma de governo começa
a dominar em mim todas as outras; eu só excetuaria a dos
escravos, mas a lei de 28 de setembro estava votada e a ela se tinha
seguido uma espécie de trégua dada à escravidão.
Travo, então, na Reforma, um combate com a República,
do ponto de vista monárquico. Se, em 1871, eu podia pretender,
como disse, o prêmio americano Laboulaye, em 1873, no meu
ano de fixação monárquica, eu entraria em concurso
para o prêmio inglês Bagehot, com esses artigos também
da Reforma. O seguinte trecho basta para mostrar, comparado ao da
Viagem do Imperador, a mudança que eu tinha sofrido em dois
anos:
"É preciso realmente ser iludido, ou pelas palavras
ou pelos símbolos, para chamar ao rei do sistema parlamentar
um tirano. Nem mesmo pode comparar-se um Lincoln com uma Vitória:
o presidente americano governa, administra, tem à sua disposição
milhares de empregos públicos, é o chefe de seu partido,
tem uma responsabilidade inteira no governo e uma iniciativa poderosa;
pode ser um Washington ou, se quiser, um Johnson. O soberano inglês
não tem poder nenhum; o Parlamento indica-lhe o ministro
que ele chama, não podendo chamar outro; esse ministro imposto
torna-se o chefe de Estado, apresenta as leis a que o soberano não
pode negar sanção, e dissolve a Câmara se ela
lhe retira a confiança; e enquanto o ministro governa, o
rei somente reina. Não terá esse tirano inglês
muito menos poder do que o primeiro magistrado americano?"
Dessas idéias eu não devia sair mais, como se verá;
não são como as de 1871, arrastamento, entusiasmo,
paixão; são dessas formas do espírito que deixam
mais a inteligência tomar outra forma; têm para ela
a transparência, a clareza da evidência, como se fossem,
e realmente são, primeiros teoremas de geometria política.
Capítulo IV
Atração do mundo
Nesses anos de mocidade a que me estou referindo, a política
era, de certo, para mim uma forte excitação; em qualquer
cena do mundo o lance político interessava-me, prendia-me,
agitava-me; por isso mesmo, eu não era, nunca fui, o que
se chama verdadeiramente um político, um espírito
capaz de viver na pequena política e de dar aí o que
tem de melhor. Em minha vida vivi muito da Política, com
P grande, isto é, da política que é história,
e ainda hoje vivo, é certo que muito menos. Mas para a política
propriamente dita, que é a local, a do país, a dos
partidos, tenho esta dupla incapacidade: não só um
mundo de coisas me parece superior a ela, como também minha
curiosidade, o meu interesse, vai sempre para o ponto onde a ação
do drama contemporâneo universal é mais complicada
ou mais intensa.
Sou antes um espectador do meu século do que do meu país:
a peça é para mim a civilização, e se
está representando em todos os teatros da humanidade, ligados
hoje pelo telégrafo. Uma afeição maior, um
interesse mais próximo, uma ligação mais íntima,
faz com que a cena, quando se passa no Brasil, tenha para mim importância
especial, mas isto não se confunde com a pura emoção
intelectual; é um prazer ou uma dor, por assim dizer doméstica,
que interessa o coração; não é um grande
espetáculo, que prende e domina a inteligência. A abolição
no Brasil me interessou mais do que todos os outros fatos de que
fui contemporâneo; a expulsão do imperador me abalou
mais profundamente do que todas as quedas de tronos ou catástrofes
nacionais que acompanhei de longe; por último, não
experimentei nenhuma sensação tão cheia, tão
prolongada, tão viva, durante meses ininterrompidos, como
a última revolta, quando se ouvia o canhão da guerra
civil no mar e o silêncio ainda pior do terror em terra. Em
tudo isto, porém, há muito pouca política;
nesses três quadros, por exemplo, a política suspende-se;
o que há é o drama humano universal de que falei,
transportado para nossa terra. Não se poderia dizer isto
da luta dos partidos, nem do que, exclusivamente, é considerado
política pelos profissionais. Esta é uma absorção
como a de qualquer hábito, circunscreve a curiosidade a um
campo visual restrito: é uma espécie de oclusão
das pálpebras. Esse gozo especial do político na luta
dos partidos não o conheci; procurei na política o
lado moral, imaginei-a uma espécie de cavalaria moderna,
a cavalaria andante dos princípios e das reformas; tive nela
emoções de tribuna, por vezes de popularidade, mas
não passei daí: do limiar; nunca o oficialismo me
tentou, nunca a sua deleitação me foi revelada; nunca
renunciei a imaginação, a curiosidade, o diletantismo,
para prestar sequer os primeiros votos de obediência; só
vi de muito longe o véu jacinto e púrpura do Sanctum
Sanctorum - (tão de longe, que me pareceu um velho reposteiro
verde e amarelo) -, por trás do qual o presidente do Conselho
contemplava sozinho face a face a majestade do Poder Moderador.
Isto quer dizer que a minha ambição foi toda em política
de ordem puramente intelectual, como a do orador, do poeta, do escritor,
do reformador. Não há, sem dúvida, ambição
mais alta do que a do estadista, e eu não pensaria em reduzir
os homens eminentes que merecem aquele nome em nossa política
ao papel de políticos de profissão; mas para ser um
homem de governo é indispensável fixar, limitar, encerrar
a imaginação nas coisas do país e ser capaz
de partilhar, se não das paixões, de certo dos preconceitos
dos partidos, ter com eles a mais perfeita comunhão de vida,
individuae vitae consuedudinem. Assim, quando eu tivesse, que não
tive, as qualidades precisas, estava impedido para a política
pela incompressibilidade do meu interesse humano. Politicamente,
receio ter nascido cosmopolita. Não me seria possível
reduzir as minhas faculdades ao serviço de uma religião
local, renunciar a qualidade que elas têm de voltar-se espontaneamente
para fora.
Assim, por exemplo, desses anos de minha vida, a que me refiro:
em 1870, o meu maior interesse não está na política
do Brasil, está em Sedan. No começo de 1871, não
está na formação do Gabinete Rio Branco, está
no incêndio de Paris. Em 1871, durante meses, está
na luta pela emancipação -, mas não será
também nesse ano o Brasil o ponto da terra para o qual está
voltado o dedo de Deus? Em 1872, o que me ocupa o espírito
é o centenário d'Os Lusíadas; estou então
imprimindo um livro sobre Camões, e a quem trabalha em um
livro, apesar do seu nenhum valor literário, como o mostrou
Teófilo Braga, não sobra muita atenção
ou interesse para dar ao que acontece em redor de si. 1873 é
o meu ano, como disse, de fixação monárquica,
mas também - o que mostra que a razão amadurece por
partes - o ano em que me atiro contra a Igreja com o furor iconoclasta
da mocidade, supondo estar dizendo coisas novas, nunca ouvidas por
ela em 19 séculos de luta, pensando que ela vai gemer sob
os golpes das terríveis hipérboles que lhe arrojo
em panfletos e artigos da Reforma: teocracia, invasão ultramontana,
conquista jesuíta!... Apesar disso, o ano de 1873 é
no meu registro o ano da primeira viagem à Europa, fato de
metamorfose pessoal, que é em minha vida a passagem da crisálida
para a borboleta.
Não posso mais - se feliz, se infelizmente, é uma
questão que me levaria muito longe deslindar -, não
posso mais sentir o que sentia aos 24 anos, quando pela primeira
vez me fiz de vapor, hoje eu preferiria fazer-me de vela, para a
Europa. Como já vi Leão XIII carregado na sedia gestatoria
e tive a fortuna de falar longamente a sós com um papa, creio
que não faria mais uma viagem para conhecer nenhum grande
personagem, exceto, talvez, o imperador da China. Já que
não vi um rei mouro em Granada, passo bem sem ter visto Abdul-Hamid
no Bósforo. Mesmo o imperador da China talvez eu me contentasse
em conhecê-lo pela imagem que me dariam dele, se eu o avistasse,
dois rising men da alta diplomacia européia, de quem sou
amigo, que tiveram ocasião de penetrar no recinto inviolável
e de estudar a infantil figura do Incognoscível sob as aflições
da guerra japonesa. O que me interessa nele, bem se pode imaginar,
não é o seu trono de almofadas de seda, o seu porta-voz,
os seus cachimbos, os seus perfumadores, os seus colares; é
a originalidade que o envolve, maravilhosa como o próprio
sobrenatural, é a psicologia acumulada de séculos.
Em 1873, porém, a minha ambição de conhecer
homens célebres de toda ordem era sem limites; eu tê-los-ia
ido procurar ao fim do mundo. Do mesmo modo, com os lugares. O que
eu queria, era ver todas as vistas do globo, tudo o que tem arrancado
um grito de admiração a um viajante inteligente. Nessa
qualidade de câmara fotográfica só lastimava
não ter o dom da ubiqüidade. Esta febre itinerante passou-me
também. Posso ler, sem perigo, qualquer geografia nova, o
Elisée Reclus inteiro; é só uma boa página
de Pausânias ou de Estrabão, com os seus nomes antigos,
que me perturba ainda. Os mais preciosos livros da minha estante
íntima são os meus Baedekers; diversos lugares aí
estão marcados com um sinal, e se eu pudesse, tomaria ainda,
para visitá-los, o bilhete (hoje não se diz mais o
bastão) do peregrino; mas são os lugares somente a
que está associada - há anos eu teria dito uma impressão
de minha vida - uma das grandes impressões da humanidade,
uma das suas revelações na arte, ou na religião.
O que em matéria de viagem, de paisagens me tentaria hoje
- quem sabe se não é uma pura restituição
de um atavismo longínquo? o meu avô materno, que se
transplantou em 1530 para Pernambuco e fundou o morgado do Cabo,
João Pais Barreto, era de Viana - seria, talvez, o Lima,
se eu tivesse certeza de ter diante dele a mesma impressão
dos soldados romanos que chamaram às suas margens Campos
Elísios e lhe deram o belo nome de Letes. A verdade é
que sinto cada dia mais forte o arrocho do berço: cada vez
sou mais servo da gleba brasileira, por essa lei singular do coração
que prende o homem à pátria com tanto mais força
quanto mais infeliz ela é e quanto maiores são os
riscos e incertezas que ele mesmo corre.
Nesse tempo, porém, na minha era antes de Cristo, em pleno
politeísmo da mocidade, o mundo inteiro me atraía
por igual; cada nova fascinação da arte, da natureza,
da literatura e, também, da política, era a mais forte;
eu quisera conhecer as celebridades de todos os partidos. Depois
do papa, a mais nobre figura da Europa era para mim o conde de Chambord,
que acabava de rejeitar a coroa de França para não
repudiar a bandeira branca; um Henrique V, bem pouco parecido com
Henrique IV, e, no entanto, eu contava como uma boa fortuna à
noite que passei no salão de monsieur Thiers (1).
A viagem à Europa em tais condições não
podia deixar de ser para mim, como foi, o eterno impulso dado ao
pêndulo imaginativo. Pelo sentimento, pela atitude, pelo emprego
da vida, acredito ter sido, em meu plano inferior, uma das mais
consistentes figuras de nossa política; acredito mesmo que
passarei nela como um homem de uma só idéia persona
unius dramatis, porquanto a minha fidelidade monárquica pode
ser considerada, como a de André Rebouças, ainda um
último compromisso, uma gratidão, um episódio
da libertação dos escravos. Quanto às afinidades
espontâneas, porém, às simpatias naturais, ao
movimento interior do espírito, dificilmente se encontrará
um pêndulo que descreva um raio de oscilação
mais largo do que a minha imaginação e a minha curiosidade.
O que é um homem político assim diletante, viajante,
a quem tudo atrai igualmente, que admira as grandes construções
sociais, qualquer que seja o sistema da arquitetura, convencido
de que em todos há o mesmo espírito, porque o espírito
criador é um só?
Nós, brasileiros, o mesmo pode-se dizer dos outros povos
americanos, pertencemos à América pelo sedimento novo,
flutuante, do nosso espírito, e à Europa, por suas
camadas estratificadas. Desde que temos a menor cultura, começa
o predomínio destas sobre aquele. A nossa imaginação
não pode deixar de ser européia, isto é, de
ser humana; ela não pára na Primeira Missa no Brasil,
para continuar daí recompondo as tradições
dos selvagens que guarneciam as nossas praias no momento da descoberta;
segue pelas civilizações todas da humanidade, como
a dos europeus, com quem temos o mesmo fundo comum de língua,
religião, arte, direito e poesia, os mesmos séculos
de civilização acumulada, e, portanto, desde que haja
um raio de cultura, a mesma imaginação histórica.
Estamos assim condenados à mais terrível das instabilidades,
e é isto o que explica o fato de tantos sul-americanos preferirem
viver na Europa... Não são os prazeres do rastaquerismo,
como se crismou em Paris a vida elegantes dos milionários
da Sul-América; a explicação é mais
delicada e mais profunda: é a atração de afinidades
esquecidas, mas não apagadas, que estão em todos nós,
da nossa comum origem européia. A instabilidade a que me
refiro, provém de que na América falta à paisagem,
à vida, ao horizonte, à arquitetura, a tudo o que
nos cerca, o fundo histórico, a perspectiva humana; que na
Europa nos falta a pátria, isto é, a forma em que
cada um de nós foi vazado a nascer. De um lado do mar sente-se
a ausência do mundo; do outro, a ausência do país.
O sentimento em nós é brasileiro, a imaginação
européia. As paisagens todas do Novo Mundo, a floresta amazônica
ou os pampas argentinos, não valem para mim um trecho da
Via Ápia, uma volta da estrada de Salermo a Amalfi, um pedaço
do Cais do Sena à sombra do velho Louvre. No meio dos luxos
dos teatros, da moda, da política, somos sempre squatters,
como se estivéssemos ainda derribando a mata virgem.
Eu sei bem, para não sair do Rio de Janeiro, que não
há nada mais encantador à vista do que, ao acaso,
a escolha seria impossível, os parques de S. Clemente, o
caminho que margeia o aqueduto de Paineiras na direção
da Tijuca, a ponta de S. João, com o Pão de Açúcar,
vista do Flamengo ao cair do sol. Mas tudo isto é ainda,
por assim dizer, um trecho do planeta de que a humanidade não
tomou posse; é como um Paraíso Terrestre antes das
primeiras lágrimas do homem, uma espécie de jardim
infantil. Não quero dizer que haja duas humanidades, a alta
e a baixa, e que nós sejamos desta última; talvez
a humanidade se renove um dia pelos seus galhos americanos; mas,
no século em que vivemos, o espírito humano, que é
um só e terrivelmente centralista, está do outro lado
do Atlântico; o Novo Mundo para tudo o que é imaginação
estética ou histórica é uma verdadeira solidão,
em que aquele espírito se sente tão longe das suas
reminiscências, das suas associações de idéias,
como se o passado todo da raça humana se lhe tivesse apagado
da lembrança e ele devesse balbuciar de novo, soletrar outra
vez, como criança, tudo o que aprendeu sobre o céu
da Ática...
_____________
1. A respeito dessa visita, eis a nota que encontro no meu jornal
de 1874: "10 de janeiro. Á noite fui com o Itajubá
(o nosso árbitro em Genebra) à casa de monsieur Thiers,
hotel Bragation, faubourg Saint-Honoré. Apresentado a monsieur
Thiers, a madame Thiers, a mlle Dosne. Apresentado a Jules Simon.
Itinerário que este me deu: ver Pierrefonds. Coucy, Reims,
Tarascon, Arles e a Grande Chartreuse. Conversei com monsieur Thiers
sobre o Brasil. Opinião dele sobre a desigualdade da raça
negra, de que provém o direito não de escravizá-la,
mas de forçá-la ao trabalho, como a Holanda faz com
os javaneses."
Em um soberbo livro espanhol, que faz honra à Sociedade de
Jesus, Pequeñeces, romance de um padre jesuíta, que
é um grande autor, L. Coloma, há um personagem que
diz a cada instante - Usted me entiende. Todos nós temos
algum conhecido que pontua as suas frases com esse fatigante entende?
que os nervos de marquês de Paraná não podiam
suportar. O entende? do indivíduo que quer forçar
o ouvinte a nada perder do que ele diz, é muito diverso da
fórmula habitual com que o imbecil marquês de Villamelon
exprimia o que lhe faltava força para pensar. Há também
pontos, idéias, modo de sentir que o escritor desejaria expressar
por um lado Usted me entiende, levantando apenas a ele vagamente,
sem nada precisar, de fato, sem nada dizer. Cada um de nós
é só o raio estético que há no interior
do seu pensamento, e, enquanto não se conhece a natureza
desse raio, não se tem idéia do que o homem realmente
é. Nesta confissão da minha formação
política, devo, para não deixar ver somente a máscara,
o personagem, dar uma espécie de fotografia dos símbolos
que se imprimiram e reproduziram mais profundamente no meu cérebro.
Assim se reconhecerá que a política não foi
senão uma refração daquele filete luminoso
que todos temos no espírito.
A instabilidade a que me estou referindo, está grandemente
modificada; a dualidade desapareceu em parte, não tão
perfeitamente como em meu amigo Taunay... Este, apesar de seu sangue
de cruzado, apesar de ter escrito o seu livro clássico em
francês, e apesar da sua brilhante propaganda contra o nativismo,
é o mais genuíno nativista que eu conheço,
porque não compreende sequer a vida em outra terra, em outra
natureza. Brasileiro de uma só peça é aquele
que não pode viver senão no Brasil. Na mocidade fui
um errático, como o próprio imperador acabou na velhice...
Quando, porém, entre a pátria, que é o sentimento,
e o mundo, que é o pensamento, vi que a imaginação
podia quebrar a estreita forma em que estavam a cozer ao sol tropical
os meus pequenos debuxos d'almas, Usted me entiendem, deixei ir
a Europa, a história, a arte, guardando do que é universal
só a religião e as letras.